Reis de Portugal e sua Descendência | Volume 1 - 1º capítulo

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Sabe quem são os reis da 2.ª Dinastia?

  • D. João I
  • D. Duarte
  • D. Afonso V
  • D. João II
  • D. Manuel I
  • D. João III
  • D. Sebastião
  • D. Henrique | Cardeal-Rei

 

D. SEBASTIÃO

(1554–1578)

 

Com a colaboração de: Hernâni Cidade, Pedro Batalha Reis, Afonso Zúquete

 

Desejado foi o cognome de D. Sebastião, décimo-sexto rei de Portugal, único do seu nome, nascido em Lisboa a 20-1-1554 e morto na batalha de Alcácer Quibir a 4-8‑1578. O cognome que recebeu da História tem plena justificação: o seu nascimento foi ardentemente desejado pela nação inteira.

O pai, o príncipe D. João — último dos nove filhos de D. João III — morrera no dia 2-1-1554, e deixara a princesa D. Joana, filha de Carlos V — que era mais velha quase dois anos que o marido — no último período da gravidez, já assistida da parteira. Decidiram, por isso, os sogros não lhe dar conhecimento da morte do marido e impedir que alguém lhe transmitisse a notícia. Quando a visitavam, nunca vestiam trajos de luto e o mesmo faziam as damas e criadas que a serviam. No dia 19, à tarde, começou D. Joana a sentir os primeiros rebates do parto. Por volta da meia-noite, apontaram as dores. Do paço mandaram então aviso a todos os mosteiros para que se fizessem preces; e ao toque do sino grande da Sé, como ordenara o arcebispo, ali se foram juntando o clero da cidade e muitas comunidades religiosas, que depois das duas horas, saíram em procissão para a igreja de S. Domingos, levando sob o pálio, um braço de S. Sebastião, relíquia que Carlos V oferecera ao cunhado. Entre as oito e as nove horas da manhã nasceu o príncipe; e quando das janelas do Palácio da Ribeira anunciaram à multidão — que enchia completamente a vasta praça fronteira — que D. Joana dera à luz um filho varão, foram tão grandes as expressões de júbilo, como tinham sido grandes o desassossego e o cuidado com que havia dezoito dias vivia o povo da capital. Todavia, e até sem que se assuma uma adesão formal aos perigos genéticos da consanguinidade, poucas situações de gestação se poderiam apresentar com tão alto grau de desfavor.

D. Sebastião era filho de primos duplamente coirmãos: o pai, filho de D. João III e da rainha D. Catarina, era neto paterno de D. Manuel e da rainha D. Maria e materno de Filipe, o Belo e de Joana, a Louca; a mãe tinha os mesmos avôs, respetivamente pelo lado da mãe e pelo lado do pai. D. Sebastião tinha apenas quatro bisavôs em vez dos oito de qualquer indivíduo sem consanguinidades ancestrais.

Viu-se na biografia de D. João III como as consanguinidades se multiplicavam na abolência régia: D. João III, filho de primos terceiros, D. Manuel filho de primos coirmãos, etc. O caso não era mais brilhante do lado espanhol e castelhano e nas suas ligações com o lado português, não se devendo esquecer que os próprios reis católicos eram primos terceiros.

E não se deve esquecer, também, que na ascendência régia — tanto a direta como a colateral — havia uma patologia carregada: mortalidade perinatal, infantil e juvenil elevada, a tuberculose em todas as suas formas, vários casos de loucura, outros de misticismo extremo.

São factos que pesam na apreciação que se possa fazer da personalidade do rei, pois que se a consanguinidade não é perniciosa por si mesma, favorece o aparecimento de taras e tendências ocultas e latentes, principalmente quando — como neste caso — ela se repetia e se múltiplicava nas gerações.

Não se entendeu assim na época, em que os casamentos régios apenas se norteavam pelos interesses dos Estados, mas as consequências foram fatais para as dinastias.

No entanto, o júbilo dos portugueses foi imenso: na realidade só o nascimento de um príncipe podia afastar de Portugal o perigo de ser o reino herdado pelo infante D. Carlos, filho da infanta D. Maria, filha dos soberanos portugueses, e do príncipe Filipe de Espanha. Em 28 de janeiro, na capela do paço realizou-se o batizado do novo príncipe a quem impuseram o nome de Sebastião, em memória do dia em que nascera. Só depois dessa cerimónia é que comunicaram a D. Joana a notícia da morte do marido.

Segundo as capitulações matrimoniais, as princesas D. Maria e D. Joana, no caso de ficarem viúvas, podiam regressar ao seu país, sem qualquer impedimento. O príncipe D. Filipe, que já tinha o seu segundo casamento tratado com a rainha de Inglaterra Maria Tudor, prima coirmã de Carlos V, por ser também neta dos reis católicos, pediu a D. João III se não opusesse à partida da irmã. A 15-5-1554, saiu D. Joana de Lisboa para não mais voltar a Portugal, deixando o filho entregue aos cuidados dos sogros. Em Alcântara esperava-a o irmão. Caminharam algum tempo juntos, separando-se depois, ele em direção à Corunha, onde embarcou, e ela para Valhadolide, onde ficou como governadora da Espanha, conforme os poderes que lhe dera o imperador.

Na noite de 11-6‑1557, fulminado por um ataque apoplético, faleceu D. João III. Dois dias depois, por ordem de D. Catarina, foram convocados para o paço o cardeal-infante D. Henrique;    D. Duarte, filho do infante D. Duarte; D. António, filho bastardo do infante D. Luís; os duques de Bragança e de Aveiro; o conde de Vimioso e o barão de Alvito vedores da Fazenda; o arcebispo de Lisboa, D. Fernando de Vasconcelos e Meneses; o regedor da Casa da Suplicação, D. João da Silva; e o secretário de Estado Pedro de Alcáçova Carneiro, o qual apresentou uns apontamentos, escritos por ele e redigidos pelo chanceler-mor, Dr. Gaspar de Carvalho, apontamentos que deviam ser tomados como uma verdadeira verba testamentária, pois representavam a última vontade de D. João III de confiar à rainha a tutoria de D. Sebastião e a regência do reino. Todos os presentes concordaram em que o governo fosse entregue a D. Catarina. Na câmara municipal de Lisboa, houve quem recordasse que D. Catarina era castelhana, tia e sogra de Filipe II, que já fora proclamado rei de Espanha, pela abdicação do pai. Mas, afinal, foi aprovado o seu nome para regente do reino e tutora do neto.

Apesar da voluntária abdicação de todos os seus Estados no filho e no irmão, o encerramento de Carlos V no mosteiro de Yuste, na Estremadura espanhola, não representava o seu completo alheamento da política do mundo; e enviou a Lisboa, em missão especial junto de sua irmã, a rainha D. Catarina, o padre Francisco de Borja, antigo duque de Gandia, que depois da morte da esposa, trocara todas as grandezas pela roupeta de jesuíta. A missão consistia em ficar a que, no caso de D. Sebastião falecer sem filhos, herdaria a coroa portuguesa o príncipe D. Carlos, publicando-se nesse sentido uma declaração oficial. D. Catarina respondeu afirmativamente, mas a declaração não foi publicada, pois poria em perigo a sua própria regência.

Alguns meses antes do ataque apoplético que o vitimou, começara D. João III a padecer de melancolia. Resolveu a rainha apartá-lo dos negócios pesados, cujo despacho tomara a seu cargo, de acordo com o Conselho de Estado. O governo do reino não constituía portanto novidade para D. Catarina, que realmente se mostrou capaz de arrostar as fadigas de tão complexa administração. Um dos primeiros atos da regente foi impetrar do Papa Paulo IV a criação de dois bispados na Índia: o de Cochim e o de Malaca, passando a metropolitana a Sé de Goa. Tendo ficado vaga a igreja primacial de Braga, por morte de D. Fr. Baltasar Limpo, quis a rainha prover o arcebispado no seu confessor, Mestre Fr. Luís de Granada; mas o notável escritor ascético não aceitou, indicando para essa dignidade o prior do convento de   S. Domingos de Benfica, Fr. Bartolomeu dos Mártires.

Foi muito feliz D. Catarina na escolha de D. Constantino de Bragança, irmão do duque D. Teodósio, para vice-rei da Índia; durante o seu governo conquistou-se a cidade de Damão.

O cardeal-infante D. Henrique, que foi o primeiro arcebispo de Évora, depois da elevação dessa diocese a metrópole, criara ali, em 1553, um colégio de jesuítas, sob a invocação do Espírito Santo, que ganhou rapidamente tamanha fama, que eram às centenas os estudantes que frequentavam as suas aulas de Humanidades. Quis D. Henrique elevar o colégio à categoria de universidade, e com aquiescência da rainha, em 1558, impetrou do Papa Paulo IV o autorizasse a erigir, na capital do Alentejo, uma Universidade, sob a direção da Companhia de Jesus; e no dia 1-11‑1559, foi esse instituto inaugurado com grande solenidade. O primeiro reitor da universidade foi o padre Leão Henriques, confessor do cardeal-infante. A rainha D. Catarina era então desvelada protetora da companhia. A ela se deve o alvará de 13-8‑1561, dando-lhe o monopólio do ensino preparatório, indispensável para a admissão nas faculdades maiores.

Logo que D. Sebastião nasceu, escolheram os avôs, para sua aia, D. Joana de Meneses, viúva do alcaide-mor de Santarém, D. Bernardo Coutinho. Para aio foi também logo escolhido D. Aleixo de Meneses, irmão de D. Joana, que se tinha distinguido em numerosas campanhas na África e na Índia, e acompanhara a princesa D. Maria, desposada com seu primo, D. Filipe, na qualidade de mordomo-mor. Tendo a princesa falecido quatro dias depois do nascimento do infante D. Carlos, voltou D. Aleixo para Lisboa, sendo nomeado mordomo-mor da rainha D. Catarina. Mas só entrou no exercício do seu cargo, quando D. Sebastião atingiu cinco anos. Além do aio, nomeou a rainha como sumilheres de cortina — nome que desagradou muito, por ser o adotado na corte de Castela, organizada desde Carlos V ao uso de Borgonha — a D. Pedro de Meneses, D. Fernando Álvares de Noronha, D. Duarte de Almeida e Febo Moniz, fidalgos de bons costumes, que deviam servir o rei, às semanas, debaixo das ordens de D. Aleixo de Meneses.

Na escolha do mestre de D. Sebastião, não houve acordo entre os dois partidos, o da rainha e o do cardeal D. Henrique, em que na realidade se dividia a corte. A regente aconselhava dois: Fr. Luís de Granada, da Ordem de S. Domingos, ou Fr. Luís de Montoya, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho; na opinião de D. Henrique, o mestre devia ser um jesuíta português. D. Catarina só cedeu, a conselho do padre Miguel de Torres, provincial da Companhia de Jesus, que era então seu confessor; e sobretudo à intervenção da sua camareira-mor, D. Joana de Eça, tia afim do padre Luís Gonçalves da Câmara, exatamente a pessoa proposta por D. Henrique para esse importante cargo. Estava o padre Luís Gonçalves em Roma, como assistente de Portugal e reitor do Colégio Germânico. Com autorização do geral, padre Diogo Laynez, em princípios de julho de 1559, partiu para Lisboa, onde chegou em novembro seguinte. Mas só meses depois, ao entrar nos seis anos, começou D. Sebastião a receber as lições do mestre, que tinha, na realidade, uma sólida cultura humanista. Como adjunto, escolheu o padre Luís Gonçalves da Câmara, para o ensino da leitura e escrita, o padre Amador Rebelo; e para o lugar de professor dos jovens fidalgos, que tinham moradia no paço, foi escolhido o padre Gaspar Maurício, que também às vezes dava lição a el-rei, quando o mestre estava enfermo. Ambos pertenciam também à companhia. Para confessor do neto, nomeou, porém, a rainha Fr. Luís de Montoya.

Tão interessada, como seu marido no estabelecimento da Inquisição em Portugal, quis a rainha que o Tribunal do Santo Ofício se estendesse aos nossos domínios do Oriente; e, em princípios de 1560, impetrou do Papa Pio IV a criação de um tribunal na cidade de Goa. Acedeu o Pontífice ao pedido; e o cardeal D. Henrique, como inquisidor-geral, nomeou os dois primeiros inquisidores de Goa.

Também neste ano de 1560 se deu no Brasil um facto que merece registo especial; a expulsão da baía do Rio de Janeiro, de uma colónia de calvinistas franceses que ali se tinha estabelecido em 1555. Foi o próprio governador, Mem de Sá, que comandou essa expedição; mas só em 1567, a expulsão dos franceses se tornou definitiva, pois muitos se haviam refugiado nas florestas vizinhas.

Em fins de 1560 chamou a rainha o cardeal D. Henrique, para lhe anunciar que resolvera ceder-lhe o governo do reino. Observou-lhe o cunhado que o não devia fazer e só aceitaria a regência, se os Três Estados concordassem. D. Catarina não reuniu as cortes; mas enviou aos prelados, a muitos nobres e às principais cidades e vilas do reino uma carta-circular, datada de 24 de dezembro, comunicando-lhes a sua resolução e pedindo-lhes breve resposta; e quase todos pediram à rainha que desistisse da renúncia e continuasse regente.

Em fins de novembro de 1560 expedira Pio IV as bulas convocando os prelados e soberanos católicos para continuação, na cidade de Trento, do concílio geral, cujos trabalhos estavam suspensos desde abril de 1552. Como embaixador do rei de Portugal junto do concílio, foi nomeado D. Fernando Martins Mascarenhas, comendador de Mértola. Em sua companhia, como teólogos, foram o Dr. Belchior Cornejo, antigo lente de Cânones na Universidade de Coimbra, o Dr. Diogo de Paiva de Andrade e Fr. Francisco Foreiro, da Ordem de S. Domingos. Entre os prelados escolheu a rainha três: o arcebispo de Braga, D. Fr. Bartolomeu dos Mártires, o bispo de Coimbra, D. Fr. João Soares e o bispo de Leiria, D. Fr. Gaspar do Casal. Em 4-7‑1563 — já D. Catarina resignara — efetuou-se a última sessão, promulgando o Papa no dia 26 de janeiro seguinte a bula de confirmação dos decretos do concílio. Em Portugal foram eles admitidos e mandados observar sem restrição alguma, único país católico que não apresentou dúvidas.

Na África pertenciam ainda a Portugal, como atalaias em frente do inimigo secular, Ceuta e Tânger, no norte, e Mazagão, no sul. Foi esta praça que em 1562 veio cercar um poderoso exército comandado por Mulei Moâmede, filho primogénito do xerife, mancebo de vinte anos incompletos a quem o pai queria dar as honras da vitória. Em fins de fevereiro apareceram os primeiros mouros; e em 4 de março estava fechado o cerco por terra, com mais de cento e cinquenta mil homens, com vinte e quatro peças de artilharia. O governador interino de Mazagão, Rui de Sousa de Carvalho, enviou uma caravela ao reino avisando a regente. No caminho espalhou a notícia por o Algarve; e de toda esta província, num admirável impulso de patriotismo, acudiram a Mazagão reforços voluntários, ainda antes dos primeiros socorros oficiais. Diversos fidalgos armaram caravelas à sua custa, e foram lançar-se na fortaleza. A 24 de março, quando a luta já ia acesa, chegou a primeira armada, expedida pela regente. Vinha como general o capitão-mor de Mazagão, Álvaro de Carvalho, irmão do governador interino da praça. Em Lisboa não era menor o entusiasmo. Nobres, mercadores, artífices, partiam ou se quotizavam para pagar soldados. Rapazes de catorze e quinze anos, de grandes casas fidalgas, ou filhos de ricos comerciantes, tantos queriam embarcar para Mazagão, que a rainha se viu forçada a proibi-lo. As levas constantes de gente e a remessa de munições correspondiam à grandeza do perigo que ameaçava a fortaleza. Sessenta e cinco dias durou o cerco. Dois foram os assaltos gerais, a 24 e a 30 de abril. No segundo até as mulheres, idosas e moças, intervieram no combate, arremessando pedras contra os assaltantes. Em 7-5‑1562 retiraram os mouros com perdas superiores a vinte cinco mil homens. O concílio, então reunido, festejou a nossa insigne vitória com a maior solenidade.

Logo que o assédio terminou, resolveu D. Catarina apresentar a sua renúncia; e a 11-7‑1562 publicou as cartas-circulares, convocando os Três Estados para o dia 12 de dezembro seguinte, na cidade de Lisboa. A abertura solene das cortes realizou-se numa sala do Paço da Ribeira. À cerimónia assistiu D. Sebastião, sentado numa cadeira de espaldar coroada por um dossel. Falaram o Dr. António Pinheiro, representante do Estado eclesiástico, e o Dr. Estêvão Preto, procurador da cidade de Lisboa, em nome da nobreza e do povo. Depois, entrou na sala o vedor da casa da rainha, Simão Guedes, que entregou ao Dr. António Pinheiro um papel assinado por D. Catarina, renunciando à regência. Apesar de aguardada por muitos, a sua leitura causou profunda impressão na assembleia. Formou-se logo um numeroso grupo, defendendo a conservação da regente; outro grupo, não menos numeroso, capitaneado por Lourenço Pires de Távora, muito afeto ao cardeal D. Henrique, insistia pela sua aceitação. Nove dias duraram as discussões; e a 23-12‑1562, as cortes convieram na regência do cardeal-infante, mas com a cláusula expressa e juramento de entregar o governo do reino a D. Sebastião, logo que ele completasse catorze anos de idade, juramento que D. Henrique prestou na mesma sessão. A tutoria do rei continuaria, porém, confiada à velha rainha.

Um dos primeiros atos de D. Henrique foi instituir, com carácter permanente, o Conselho de Estado, ao qual D. Sebastião deu depois regimento, por alvará de 8-9‑1569. Não obstante o seu propósito de comprimir as despesas, teve D. Henrique em 1664 de concorrer, a pedido de Filipe II, para a reconquista da fortaleza do Pinhão de Beles, mandada construir por Fernando, o Católico, na costa africana fronteira a Málaga. A esquadra portuguesa compunha-se de um poderoso galeão, oito caravelas e alguns bergantins e fustas, mais de trezentos cavaleiros e mil e quinhentos soldados. Como general ia Francisco Barreto, ex-governador da Índia. A esquadra espanhola, comandada por D. Garcia de Toledo, marquês de Vilafranca e duque de Fernandina, constava de oitenta e cinco galés, além de sessenta barcos de pequena tonelagem, com cerca de treze mil soldados espanhóis, italianos, flamengos e alemães. Partiram as duas esquadras de Málaga em fins de agosto. A fortaleza resistiu apenas dois dias. O contínuo bombardeamento dos sitiantes, tanto do mar, como de terra, onde tinham levantado duas baterias, levou a guarnição a abandoná-la e a fugir para o interior. A Francisco Barreto enviou Filipe II o seu retrato, numa medalha, pendente de grossa cadeia de ouro, acompanhada de uma carta autógrafa, agradecendo-lhe efusivamente os seus serviços.

Nos primeiros dias de 1564 chegou a Lisboa a notícia de que o xerife Mulei Abdalá preparava uma expedição contra a cidade de Tânger. Era portanto urgente cuidar da sua defesa, aumentando e melhorando as fortificações e confiando o seu governo a quem tivesse autoridade e experiência para o exercer, em ocasião que podia ser muito grave; e o cardeal nomeou capitão-mor Lourenço Pires de Távora, que a 15 de abril partiu com uma armada, que conduzia mil soldados de cavalo e muitos fidalgos, ansiosos de ilustrar o seu nome em algum brilhante feito de armas. Dois anos durou a sua capitania, com vários combates em que os nossos ficaram sempre vitoriosos; e o xerife mandou dissolver o exército que devia pôr cerco a Tânger, não esquecido do tremendo desastre que sofrera em Mazagão.

As desavenças que, há alguns anos, se vinham acentuando entre o cardeal-infante e D. António, prior do Crato, filho bastardo do infante D. Luís, explodiram violentamente em 1565. Para satisfazer a vontade do pai e do tio, tomou D. António ordens de diácono, mas tendo sido nomeado prior do Crato, por morte do infante D. Luís, recusou-se a receber a ordem de presbítero, alegando ter abraçado o estado eclesiástico por imposição alheia e não devoção. Desde então, nunca mais o tio o olhou com simpatia. Tendo renunciado à herança do pai a benefício da coroa, a troco de prometidas compensações que nunca lhe deram, os rendimentos do priorado não bastavam para as suas despesas, forçando-o a contrair dívidas. Prometera-lhe D. Henrique cinco contos de réis por uma só vez e um conto e quinhentos mil réis de pensão anual, além de uma ajuda de custo extraordinária de dez mil cruzados para embolsar os credores; mas o cardeal punha tais condições antes de tornar efetivas as suas promessas que D. António se ausentou para Espanha a solicitar o patrocínio de Filipe II.

Procurou o rei de Espanha congraçar essas desavenças; e mandou a Lisboa o português Cristóvão de Moura, que havendo acompanhado a princesa D. Joana, de quem era pajem, conseguira boa posição na corte espanhola, pela amizade que D. Joana lhe mostrou sempre, nomeando-o seu estribeiro-mor. Chegou Cristóvão de Moura a Lisboa em abril de 1560. Após dois meses de negociações, conseguiu que o cardeal não só concedesse ao prior do Crato uma renda vitalícia e um importante subsídio para pagamento das suas dívidas, mas se comprometesse a não lhe impor a aceitação das ordens de missa, até que Deus o inspirasse.

Foi já depois de haver D. Sebastião assumido o poder, que o prior do Crato conseguiu do Papa Gregório XIII a almejada dispensa para trocar o hábito clerical pelo da Ordem de S. João de Jerusalém, então já denominada de Malta, para poder usar capa e espada.

Durante a regência de D. Henrique, foram as ilhas adjacentes invadidas e saqueadas por corsários franceses. Como Portugal não estava em guerra com a França, resolveu o cardeal-infante pedir ao rei Cristianíssimo o castigo dos culpados; mas, em vista da situação política da França, os roubos não foram restituídos, nem os seus autores castigados.

Durante o mesmo período, também houve discórdias com a Inglaterra, por causa do comércio na Costa da Mina. As negociações protelaram-se, terminando nós por conceder que os navios ingleses, pudessem ir à Guiné e à Mina, sob a condição de não levarem armamento.

Em 20-1‑1568, no dia em que D. Sebastião completava catorze anos, entregou-lhe o cardeal-infante o poder. A cerimónia efetuou-se no Paço dos Estaus, onde então residiam D. Sebastião e a avó. Concluída a solenidade, foi o rei a S. Domingos e no dia seguinte à Sé, para agradecer a Deus o haver chegado àquela idade.

No estudo das Humanidades com o padre Luís Gonçalves da Câmara, como nos das Matemáticas, com o Dr. Pedro Nunes,       D. Sebastião obteve uma instrução variada, apesar de concluída ao entrar na maioridade política. Era incontestável inteligente; mas os seus escritores revelam uma estranha confusão de ideias, uma imaginação exaltada, uma excessiva vaidade das suas qualidades pessoais.

O abandono de várias praças africanas fora um ato prudente de D. João III, pois a sua conservação seria cada vez mais dispendiosa para a Fazenda Pública. Mas a opinião geral condenara esse abandono; e essa opinião tinham o aio e os mestres de D. Sebastião. O padre Gonçalves da Câmara era um crente. Procurou portanto instruir D. Sebastião na doutrina católica, afervorá-lo no cumprimento dos preceitos da Igreja. Ouvia missa diariamente e duas aos sábados, em louvor de Nossa Senhora; ele próprio muitas vezes servia de acólito ao celebrante. Comungava, no seu oratório, todas as semanas, e em público, nas festas maiores. A inegável sedução que o padre Luís Gonçalves da Câmara exerceu sobre D. Sebastião não resultara apenas da sua erudição humanística; essa influência ganhou-a ele, principalmente, como confessor; e fácil era de prever o ascendente, a influência que ele exercia num ânimo tão ardente, como o do seu jovem discípulo e confessado. O ascendente que ele exercia no rei, não foi, porém, sempre o mesmo. Muito grande quando D. Sebastião tomou conta da governação do reino e nos quatro ou cinco anos mais próximos, veio depois decaindo, à medida que aumentava a autofilia do monarca, cuja vontade caprichosa não cedia os mais judiciosos conselhos.

Afora variados jogos e exercícios de equitação, a caça de volataria e de monte, raros foram os passatempos de D. Sebastião. Catorze anos sãos dizem os cronistas sebásticos; pois a verdade é que D. Sebastião padecia de uma doença crónica que o acompanhou até à morte. No inverno de 1565 começou D. Sebastião a sentir-se doente. O mal, segundo o embaixador D. Alonso Távora, consistia em expelir D. Sebastião por sus organos cierta substância ó purgacion, que aumentava ou diminuía, conforme ele se excedia ou restringia nos exercícios que praticava. Esta doença, com exacerbações ou remissões, nunca desapareceu completamente; e ela nos explica a relutância de Felipe II a conceder-lhe a mão de sua filha, a infanta Isabel Clara Eugénia.

Ao assumir o poder, D. Sebastião toma-o na plenitude daqueles direitos que as teorias, então dominantes, davam à autoridade real. Os próprios ministros, a quem deixa governar discricionariamente, hão de submeter-se aos seus caprichos. A mais simples observação enfada-o, qualquer objeção impacienta-o; e só lhe agradam os cortesãos, que encarecem até as suas extravagâncias. As suas intenções são boas. Em todas as suas variadas deslocações, de Lisboa para Sintra ou para Almeirim, o acompanhavam a rainha D. Catarina, o cardeal D. Henrique e a infanta D. Maria. A avó e o tio, mas sobretudo a primeira, assistiam frequentemente ao despacho. Esta intervenção da rainha contrariava-o muito, ofendendo o seu orgulho de soberano. D. Sebastião nomeou então novos ministros. Para o cargo de escrivão da puridade, vago desde o reinado do avô, nomeou Martim Gonçalves da Câmara, doutor em Teologia, e presidente da Mesa da Consciência. Antigo reitor da Universidade de Coimbra, ninguém lhe negava competência; mas deveu a sua nomeação a ser irmão do confessor. Para o cargo de secretário de Estado, que há muitos anos era desempenhado por Pedro de Alcáçova Carneiro, muito da intimidade de D. Catarina, foi nomeado Miguel de Moura, protegido do cardeal D. Henrique; e D. Sebastião afastou-se por completo da avó, impedindo-a de intervir nos negócios de Estado.

Nos fins de maio de 1569 começaram a sentir-se em Lisboa os primeiros rebates de peste. A violência da epidemia aumentou logo. Nos meses de julho, agosto e setembro, a mortalidade foi tamanha, que os cadáveres ficavam insepultos, apesar de serem enterrados às dezenas na mesma cova. A 22 de junho partiu D. Sebastião para Sintra; em julho, para mais se afastar da capital, seguiu para Óbidos; mas antes de partir, entregou a administração de Lisboa a três governadores privativos, um para tudo que dissesse respeito à saúde pública, outro para negócios da justiça e o terceiro para guarda e defesa da cidade. De Óbidos passou o rei a Alcobaça, hospedando-se no mosteiro, onde teve o doentio capricho de mandar abrir as sepulturas dos reis, seus antecessores. De Alcobaça saiu para o convento da Batalha e de lá para Leiria. Aqui, publicou o regimento do Conselho de Estado; e atendendo a várias queixas contra a centralização dos tribunais em Lisboa, nomeou D. Sebastião duas alçadas, uma para as comarcas ao norte do Tejo e outra para as comarcas ao sul do Tejo. Em setembro seguiu para Tomar e em princípios de outubro chegou a Montemor-o-Novo, onde recebeu a boa notícia de estar a peste quase debelada em Lisboa. Em 5 de novembro entrou em Évora, demorando-se até à Páscoa. Em abril de 1570 partiu para Salvaterra. É desta época a sua lei contra o luxo. Em fins de maio embarcou o rei para Lisboa, descendo, já de noite, no mosteiro de Belém, apesar dos festejos que a câmara de Lisboa lhe preparara; e uma semana depois saiu para Sintra, sem entrar na cidade, o que muito desgostou a população.

É deste verão a organização das Companhias das Ordenanças. Às suas primeiras manobras, em outubro, assistiu o rei, e tamanha exaltação lhe causaram as aclamações dos milicianos e as salvas de arcabuzaria que o cardeal D. Henrique e os câmaras resolveram levá-lo para longe. Aconselharam-no a visitar Coimbra. Ao passar pela Batalha, mandou abrir o túmulo de D. João II, cujo cadáver estava ainda incorrupto. Em outubro chegou D. Sebastião a Coimbra, onde se demorou dezasseis dias, de visita à universidade. O facto de não voltar o rei a Lisboa, só para se não encontrar com a avó, desgostou muito a velha senhora, há muito habituada a intervir no governo do reino. Recorreu D. Catarina à autoridade de Filipe II e da princesa D. Joana; e o tio e a mãe escreveram ao jovem monarca, estranhando o desfavor que lhe merecia quem o educara com tanto carinho. D. Sebastião não modificou, porém, a sua atitude; e a velha rainha anunciou então a sua retirada para Espanha. Esta deliberação de D. Catarina causou profunda impressão; e mais aumentou a oposição contra os Câmaras.

Em janeiro de 1571 o embaixador espanhol, D. João de Borja, entregou ao rei uma carta autógrafa de Filipe II, expondo os motivos porque pedira a sua tia e sogra que regressasse ao seu país natal. D. Sebastião reconheceu que era indispensável mudar de procedimento; e veio de Almeirim a Lisboa, tendo uma longa entrevista com a rainha. Queixou-se vivamente D. Catarina do confessor e do irmão, que o traziam afastado de Lisboa; mas não lhe assegurou que continuaria a permanecer em Portugal. Estas notícias produziram verdadeira inquietação; e o senado de Lisboa resolveu também representar ao rei os inconvenientes da retirada da avó para Espanha. D. Sebastião amiudou então as suas visitas a Xabregas, ao palácio onde residia a avó, jantando até às vezes com a rainha. As atenções do neto, após meses de indiferença, causaram na rainha a esperança de que o jovem monarca aceitasse os seus conselhos, casando com a princesa de França e libertando-se do padre Luís Gonçalves da Câmara e do escrivão da puridade. Nas dissensões entre a família real interveio o Papa Pio V, enviando dois breves, em 1-5-1571; o primeiro, dirigido a D. Catarina, exortava a rainha a renunciar ao seu intento; e no segundo, lembrava o Pontífice a D. Sebastião as fatais consequências da retirada da avó e pedia-lhe que ultimasse as negociações para o seu casamento com Margarida de Valois.

D. Pio V, empenhado em formar uma poderosa liga contra os turcos, resolvera enviar aos monarcas católicos dois legados, incumbidos dessa importante missão. Para a Europa Ocidental estava designado o cardeal Alexandrino, Miguel Bonelli, sobrinho do próprio Papa, encarregado também de vencer a resistência de D. Sebastião ao seu enlace com a irmã de Carlos IX de França. Conhecedora destes factos, teve D. Catarina a engenhosa ideia de aproveitar a vinda do legado pontifício, para conseguir a expulsão dos Câmaras. Era, portanto, necessário que o cardeal Alexandrino fosse acompanhado por quem tivesse autoridade para se impor e dominar os seus manejos. Esforçou-se então a rainha junto de Filipe II por conseguir que o legado fosse acompanhado pelo geral da companhia, padre Francisco de Borja.

Chegou o legado a Lisboa em 3-12‑1571. Na primeira audiência apresentou o cardeal a D. Sebastião um breve de S. Pio V pedindo a entrada de Portugal na liga e o seu casamento com a princesa de França. No mesmo dia visitou o mesmo legado a rainha, que lhe entregou um memorial, expondo os motivos que a impeliam a ausentar-se do reino. A resposta do monarca foi, na aparência, inteiramente favorável às propostas do Papa: não só mandaria uma grande armada, mas estava disposto a casar com Margarida de Valois, se Carlos IX também entrasse na liga. O cardeal Alexandrino aconselhou D. Catarina a manter-se no reino até ao casamento do neto: e do mesmo parecer foi o geral da companhia. Prometeram-lhe que mal chegassem a Roma e dessem conhecimento a S. Pio V dos resultados da viagem, o padre Francisco de Borja chamaria àquela cidade o confessor, sob qualquer pretexto que não magoasse D. Sebastião; e depois proibir-lhe-ia o regresso a Portugal. Sendo ele o principal sustentáculo de Martim Gonçalves da Câmara, fácil seria depois substituir este. O Pontífice faleceu, porém, antes da volta do geral a Roma; e este também poucos dias sobreviveu à sua chegada àquela cidade. Assim ruíram por terra todas as esperanças de D. Catarina.

Logo que o cardeal Alexandrino saiu de Lisboa, expediu D. Sebastião ordens urgentes para aprestar a armada que devia entrar na liga. Assim se reuniram no Tejo trinta navios. Mas na noite de 13 de setembro uma violenta tempestade açoutou Lisboa e todos os portos do sul. Durante o dia seguinte o ímpeto do vento aumentou ainda. Quebradas as amarras, atirados uns contra os outros, nem um só dos trinta navios escapou à fúria da tormenta. Muitas outras embarcações carregadas de géneros coloniais, se perderam também completamente.

O matrimónio de D. Sebastião foi o maior cuidado dos seus vassalos, pela falta de herdeiros diretos. Nos últimos meses de 1559 o embaixador de Portugal em França, João Pereira Dantas em nome do cardeal-infante, procurou negociar o futuro consórcio de D. Sebastião com a princesa Margarida de Valois, mais velha do que ele quase ano e meio. Portanto, antes das cortes terem aconselhado o matrimónio de D. Sebastião em França, já o cardeal D. Henrique sondara o governo francês. Quando Filipe II soube das diligências do embaixador português, tratou de as inutilizar. O casamento de D. Sebastião em França podia-lhe cercear a influência que exercia entre nós; e entrou em negociações com os reis da Boémia para o enlace da mais nova das suas filhas, a arquiduquesa Isabel de Áustria, com o jovem rei de Portugal. Maximiliano esquivou-se a dar uma resposta categórica: havia muito tempo para cuidar do assunto.

Em julho de 1563 faleceu o imperador da Alemanha, Fernando I, sucedendo-lhe seu filho Maximiliano II. Não aceitava nem rejeitava o casamento da sua filha com D. Sebastião; mas o seu casamento em França, no ponto de vista dos interesses do Império, era muito superior ao de Portugal. O enlace de D. Sebastião com uma princesa de França era bem visto em Portugal; a própria D. Catarina se não opunha a ele, por causa da relutância de Maximiliano II em casar a filha neste reino. Filipe II interveio então, expondo os males que adviriam a este país e à cristandade, se D. Sebastião não recebesse por mulher a arquiduquesa Isabel de Áustria.

Pela mesma ocasião chegou a Lisboa uma carta do nosso embaixador em Roma, D. Fernando de Meneses, informando que o novo Papa, Pio V, o mandara chamar para lhe dizer que o moço rei não devia casar em França. O assalto dos corsários franceses, comandados por Montluc, à ilha da Madeira, esfriara os defensores do casamento de D. Sebastião com Margarida de Valois. O aumento dos protestantes em França e sobretudo a falta de castigo dos corsários da Madeira, levaram o cardeal-infante a inclinar-se para a arquiduquesa Isabel; mas só em princípios de dezembro de 1567, tomou essa resolução. Era evidentemente de esperar que por todo o ano seguinte, em que D. Sebastião devia assumir o poder, seriam assinadas as capitulações matrimoniais entre os dois primos coirmãos.

Em 1568 deram-se factos que provocaram uma mudança completa do cenário: a prisão em 18 de janeiro e depois a morte em 24 de julho do príncipe D. Carlos; o falecimento da rainha de Espanha, Isabel de Valois, ocorrido em 3 de outubro. O rei católico, que tinha de assegurar a sucessão do reino, resolveu casar com a sobrinha, Ana de Áustria. Para dar satisfação a Carlos IX, que tanto queria unir-se à Casa de Áustria, ficava a arquiduquesa Isabel; e a princesa Margarida desposaria o rei de Portugal. Assim ficou assente em 27-2‑1569, entre os governos da Espanha e da Alemanha; e no dia seguinte comunicaram-no à rainha D. Catarina, que de nada suspeitava. Por conveniências pessoais e políticas, Filipe II desfazia o casamento em que tão vivamente se empenhara até então. É bem incisiva a carta que D. Catarina lhe escreveu. O casamento do neto com Margarida de Valois, apesar de admitido pelo Conselho de Estado, fora abandonado, não só por ele o considerar contrário aos interesses portugueses, como por haver demoradamente insistido no seu consórcio com Isabel de Áustria. E agora era exatamente em França que ele resolvera casar o sobrinho, sem consultar ninguém, D. Sebastião não fora tratado como soberano de um país independente.

Deu-se depois o rompimento de D. Sebastião com a avó. Longe da sua influência, no jovem monarca foi-se fortalecendo o ressentimento contra o proceder do tio, tanto mais que esse estado de espírito concordava com o seu íntimo desejo de não casar; e não mandou a procuração necessária para assinar as capitulações matrimoniais; nem a mandaria, enquanto a França lhe não desse a satisfação devida.

Interveio então o Papa, que procurava organizar uma liga contra os turcos, cujos progressos eram assustadores; e mandou a Portugal o cardeal Alexandrino, como já ficou relatado. Mas quando o legado pontifício chegou a Blois, onde então se encontrava a corte francesa, pelas delongas da resolução do rei de Portugal, já estava assente o matrimónio de Margarida de Valois com o príncipe Henrique de Bourbon, filho da rainha de Navarra.

A rainha D. Catarina não podia convencer-se de que a aversão do neto pelas mulheres, essa repugnância mórbida, que o levava até a afastar delas os olhos — todos os embaixadores espanhóis se referem às manifestações misóginas do rei — resultassem da sua incapacidade para o matrimónio, conforme lhe diziam pessoas íntimas; e resolveu insistir com ele, mostrando-lhe a necessidade de pensar em noiva que lhe conviesse. Na lista das princesas casadoiras estava, em primeiro lugar, a princesa Maximiliana, filha do duque da Baviera. Apressou-se o duque a responder a Filipe II que da melhor vontade concederia a mão de sua filha ao jovem rei de Portugal; e assim o comunicou o rei católico ao seu embaixador, D. João de Borja, em agosto de 1573. Mais de dois meses decorreram sem que o soberano português voltasse a referir-se ao seu casamento na Baviera. Nos fins de outubro, em carta a D. João de Borja, pedia Filipe II uma resposta, para a transmitir ao duque. Respondeu D. Sebastião que resolvera enviar a Madrid o seu estribeiro-mor, D. Francisco de Portugal, com instruções sobre o assunto. Mas só partiu em maio de 1574, com uma série de objeções e dúvidas, destinadas a preparar a retirada do amo. Em vez do casamento com a princesa Maximiliana, melhor seria esperar quatro ou cinco anos e casar com sua prima, a infanta Isabel Clara Eugénia. Por este casamento se interessava vivamente a rainha D. Catarina; mas Filipe II respondeu que, por muito desejar que o sobrinho tivesse sucessão, aconselhava com toda a instância o seu casamento na Baviera; mas sem nenhum resultado. Nas negociações relativas ao consórcio do rei de Portugal com a filha primogénita de Filipe II, manifesta-se a relutância do rei católico aos pedidos de D. Catarina e, posteriormente, aos do próprio sobrinho; mas essa resistência não pode imputar-se ao íntimo desejo de manter D. Sebastião solteiro. Incontestavelmente, lhe procurou noivas. O jovem rei é que as rejeitava com variados pretextos. Se pediu a mão de sua filha a Filipe II fê-lo apenas por ser essa a maneira mais eficaz de contar com o seu auxílio para a jornada de África.

Em outubro de 1572 partiu D. Sebastião para Évora, onde se demorou até ao fim do ano. Em 2-1‑1573 saiu o rei para várias terras do Alentejo e do Algarve. Esteve em Beja, onde correu touros; em Ourique, de visita ao campo que a tradição consagra como o local do combate de D. Afonso Henriques com cinco chefes mouros; em Lagos, cujos moradores celebraram o dia do seu aniversário natalício com uma festa tauromáquica, que D. Sebastião agradeceu elevando a vila à categoria de cidade; e depois por Castro Marim, Mértola, Serpa até Vila Viçosa, para caçar na tapada dos duques de Bragança. Em meados de fevereiro recolheu a Évora. Aqui se demorou um mês, indo na semana da Páscoa a Lisboa; mas, em fins de abril, estava de novo na capital do Alentejo, gastando o tempo em touradas e torneios. Nos últimos dias de julho voltou ao Algarve; e pousava em Lagos, cuja enseada o seduzia, quando recebeu a notícia da morte da mãe, com trinta e oito anos apenas. Decorridos os cinco dias de nojo, partiu D. Sebastião para Lisboa.

As visitas ao Algarve, pela proximidade da costa marroquina, tinham exacerbado, no jovem rei, a sua antiga aspiração de ir combater pessoalmente os mouros. Pediu D. Sebastião ao Papa S. Pio V autorização para reformar os estatutos das três Ordens Militares de Cristo, Sant’Iago, Avis. Acedeu o Pontífice; e em 6-2‑1572 promulgou D. Sebastião os novos estatutos, com modificações claramente denunciadoras das belicosas intenções que o haviam movido.

Em todas as ações do rei se revela agora o propósito de ativar a guerra contra o xerife. Começou D. Sebastião a preparar ocultamente a sua ida a África. Incumbiu o governo do Algarve — cargo que até então não existia — a D. Diogo de Sousa, com ordem de aparelhar meios de transporte para a expedição; e nomeou governador de Tânger seu primo D. António, que pouco antes conseguira do Papa Gregório XIII a almejada dispensa das ordens de diácono, trocando o hábito clerical pelo da Ordem de S. João de Jerusalém, a que ele pertencia como prior do Crato.

Depois da partida de D. António, mais se aferrou o monarca à ideia de guerrear pessoalmente o xerife. O confessor sabia-o, mas não conseguiu dissuadi-lo. A sua influência já não era a mesma, desde que a vontade obstinada do confessado começara a manifestar-se morbidamente. A 15 de agosto, estando D. Sebastião em Sintra, mandou que três galés devidamente equipadas o fossem aguardar a Cascais; e no dia 17 aqui embarcou com o seu séquito. Dirigiu-se a Lagos em cuja baía estava fundeada a esquadra do Estreito, e dali, a 20, escreveu à avó, ao cardeal-infante e ao secretário de Estado, Miguel de Moura, participando-lhes que resolvera passar à costa africana e incumbindo a regência ao tio. Enviou também algumas centenas de cartas — que já trazia escritas de Sintra — às diferentes cidades e vilas do reino, mandando-as concorrer com toda a gente e cavalos disponíveis para a campanha que projetava.

Esta desordenada e estranha forma de convocar gente bisonha, sem a mínima preparação militar, para uma empresa tão árdua, é a prova incontestável da ausência total de qualquer plano. Muitos fidalgos partiram logo para a África. Isto trazia em sobressalto a população de Lisboa; e o desassossego aumentou quando correu a notícia de que D. Sebastião mandara seguir para Tânger os músicos da capela real e o pessoal da corte, indispensável para as grandes cerimónias públicas. Em Ceuta não pôde D. Sebastião combater, porque os mouros nunca apareceram. Partiu então para Tânger. O seu primeiro ato foi depor o primo do governo da cidade, por não ter corrido a combate, sempre que ao longe assomavam forças inimigas. Os dias iam passando. A conquista de Larache seria possível; as forças, porém, eram poucas para guarnecer e fortificar a praça. A de Arzila, quase impossível, porque no inverno, que vinha próximo, a barra tornava-se muito perigosa. As murmurações generalizaram-se. Vários prelados o aconselharam a voltar ao reino; mas estas exortações não lhe abalaram o ânimo. A avó mandou-lhe então dizer que, se não voltasse em breve, iria ela mesma a Tânger, para o levar consigo, ou para acabar a vida, onde o rei a trazia constantemente em risco. Esta ameaça da velha rainha impressionou-o, pelo escândalo que a sua chegada produziria no reino e no estrangeiro. Foram, porém, a iminência do inverno e o reconhecimento de que as forças inimigas eram muito superiores às suas, que o obrigaram a desistir, temporariamente, dos seus projetos de conquista.

No dia 25 de outubro embarcou no galeão S. Sebastião; mas, pelo temporal que se levantou, só em 2 de novembro desembarcou em Sagres. Em vez de seguir logo por terra para sossegar a avó e o tio, que tinham vivido horas de angústia, esteve nove ou dez dias no mosteiro do cabo de S. Vicente, embarcando depois numa galé da esquadra do Algarve, que o levou a Lisboa.

Em 1574 começou o rei a mostrar que nem os conselhos, nem a companhia do cardeal-infante lhe eram necessários. Em 15-3‑1575 morreu o padre Luís Gonçalves da Câmara; D. Sebastião sentiu essa morte profundamente. Uma conspiração se urdiu então na corte, para derrubar o irmão do padre Câmara, o omnipotente valido. O chefe era D. Álvaro de Castro, vedor da Fazenda e membro do Conselho de Estado. Ligou-se a Cristóvão de Távora, filho de Lourenço Pires de Távora, mancebo que aliava a uma louca temeridade, tanto do agrado do rei, o respeito servil de cortesão. Dois outros fidalgos, Luís da Silva e Manuel Quaresma Barreto, que tinham sabido ganhar o favor do rei, se uniram também a D. Álvaro de Castro. Este chamou ainda ao conluio o velho servidor da coroa, Pedro de Alcáçova Carneiro, pela sua longa experiência dos negócios públicos. A causa próxima da queda do omnipotente ministro foi um ato de despotismo. D. Maria de Noronha, viúva de seu irmão Nuno Gonçalves da Câmara, desposara, em segundas núpcias, um homem de condição inferior à sua. Considerando este casamento como uma desonra, resolveu castigar a pobre senhora, mandando-a encerrar numa das prisões da Torre de Belém; e quis também expô-la à vergonha de atravessar as ruas da cidade, entre esbirros, sobre uma mula, com as mãos manietadas. Ao passar em frente da igreja de Santo António, D. Maria de Noronha atirou-se ao chão, na intenção de fugir para o templo; mas caiu tão descomposta, que foi alvo da chacota da garotada. A família de D. Maria de Noronha queixou-se ao rei; a rainha, que muitas vezes fora agravada pelo valido, protestou também contra a inqualificável injúria feita a uma dama nobre. Logo que o escrivão da puridade se apresentou a despacho, D. Sebastião voltou-lhe as costas. O ascendente do irmão do seu antigo confessor e mestre tinha findado; e mandou-lhe depois perguntar, por um dos seus pajens, com que autoridade ordenara ele a prisão da sua ex-cunhada. Martim Gonçalves da Câmara não respondeu e saiu do paço para nunca mais lá voltar. Deu-se este facto nos últimos dias de maio ou nos primeiros dias de junho; e D. Sebastião nomeou vedores da Fazenda a Manuel Quaresma Barreto, D. Francisco de Portugal e Pedro de Alcáçova Carneiro, que em breve saiu para Madrid numa importante missão diplomática.

Em 28-11‑1576 faleceu em Évora D. Duarte, filho do infante     D. Duarte e 5.° duque de Guimarães, aos trinta e cinco anos de idade, na força da vida. Era ele o herdeiro presuntivo da coroa; e talvez por isto mesmo, não era tratado pelo rei com a consideração que as suas qualidades pediam. A sua morte abria a porta às ambições de Filipe II.

A ideia de voltar a África tornara-se para o monarca uma verdadeira obsessão; todos os seus atos tendiam a esse fim. As lutas que sobrevieram então entre os mouros mais lhe exacerbaram o forte desejo de partir.

O grande movimento religioso e político, que começara por volta de 1510, alastrando como uma onda enorme, estabelecera solidamente em todo Marrocos a primeira dinastia dos xerifes, a dinastia dos Sádidas; mas as rivalidades, as ambições dos príncipes, ensanguentaram logo a Berberia. Quando Mulei Abdalá subiu ao trono, em 1557, os seus três irmãos, com receio de uma traição, refugiaram-se em Argel. O mais velho foi, anos depois, assassinado por uns sicários. O mais novo, Mulei Amede voltou para Marrocos; e talvez pela sua pouca idade, conseguiu escapar. O outro, Mulei Abde Almélique (o Mulei Maluco dos nossos cronistas), entrou ao serviço do sultão da Turquia. Os ócios dos combates aproveitou-os ele para se instruir. Em janeiro de 1574 morreu Abdalá, sucedendo-lhe seu filho Mulei Moâmede (o Mulei Mahamed dos cronistas), nascido de uma escrava negra, a quem o pai, transgredindo a ordem de sucessão, instituída pelo fundador da dinastia, designara como seu herdeiro. A ascendência materna do novo xerife tornava-o mal aceito. Abde Almélique, a quem pertencia legitimamente o trono, pediu ao sultão Amurate III lhe desse auxílio contra o sobrinho; e o sultão turco deu instruções ao vice-rei de Argel para ajudar Abde Almélique com todas as suas forças. Em princípios de 1575 o pretendente passou a fronteira marroquina, à frente de alguns milhares de janízaros e cavaleiros argelinos. Mulei Moâmede saiu-lhe ao encontro; mas foi completamente derrotado. Em março entrou Abde Almélique em Fez, retirando-se o sobrinho para a cidade de Marrocos, na intenção de continuar a luta.

Tal era a situação política da Berberia quando D. Sebastião nomeou novos ministros. A Pedro de Alcáçova Carneiro, confiou o rei a missão de apresentar a Filipe II estes pedidos seus: uma entrevista dos dois monarcas e o auxílio do tio para a conquista de Larache; e outro da rainha D. Catarina; o casamento do neto com a infanta Isabel Clara Eugénia. Em fins de junho de 1576 partiu Alcáçova para Madrid. D. Sebastião considerava perigosíssima a vitória de Abde Almélique, pois dava por assente que ele entregaria ao sultão os portos da Berberia, mais próximos da Península, donde os turcos nos viriam causar os maiores danos. Uma conferência entre os dois monarcas seria o melhor meio de tratar deste assunto.

Como D. Sebastião prometera uma romaria a Nossa Senhora de Guadalupe — célebre santuário na província da Estremadura espanhola — ali poderiam encontrar-se o tio e o sobrinho, sem necessidade de quaisquer cerimónias oficiais. Anuiu Filipe II a este desejo de D. Sebastião; mas não foi tão categórico quanto ao auxílio militar pedido. Quando o rei de Portugal chegou a Guadalupe, já ali o aguardava Filipe II; e durante os dez dias que estiveram juntos, não podiam ser mais delicadas as atenções que dedicou ao sobrinho.

Dois pedidos lhe fez o soberano português: a mão de sua filha primogénita e um corpo de exército para a expedição a África. Ao primeiro, respondeu favoravelmente o rei católico; mas o anúncio do casamento só se faria, quando a infanta atingisse os anos necessários para que ele pudesse celebrar-se. Quanto ao pedido de auxílio, prometeu-lhe, caso os turcos não ameaçassem os seus domínios na Itália, concorrer para a expedição com cinquenta galés e cinco mil homens. As condições, que D. Sebastião aceitou alegremente porque tudo que dizia respeito à guerra de África lhe parecia simples e fácil, dir-se-iam concertadas para o não cumprimento da promessa: a expedição efetuar-se-ia até agosto seguinte, isto é, dentro do curto prazo de oito meses.

O dinheiro indispensável para a organização da empresa não podia ir buscar-se às receitas ordinárias; havia que lançar mão de expedientes. O mais simples era solicitar do Pontífice a concessão de uma bula da cruzada. O rei pediu ainda ao Papa que os prazos eclesiásticos vitalícios pudessem ser reduzidos a fateusins perpétuos, pagando os enfiteutas uma certa quantia ao Estado regulada pelo valor do prazo. Alguns dos meios empregados eram violentos outros odiosos; mas a nobreza e o povo tudo pagaram, sem reclamações.

Mandou D. Sebastião inventariar todos os bens de raiz, lançando o tributo de um por cento sobre a avaliação do fisco. Levantou-se o dinheiro depositado no Cofre dos Órfãos, Defuntos e Ausentes, com a promessa de ser restituído, à volta da expedição. Venderam-se novos padrões de juro. Aos arrematantes das rendas da coroa foram oferecidas valiosas reduções, se pagassem adiantadamente. Fez-se uma transação sobre a prata existente na Casa da Moeda, que rendeu cento e trinta mil cruzados. Aos prelados e titulares, assim como aos negociantes mais abastados, pediu D. Sebastião um tributo voluntário; idêntico pedido receberam as cidades mais importantes. Coletou os mercadores de grosso trato; e por alvará de 6-12‑1576 e apostila de 10-7‑1577, decretou o estanco do sal. A maior soma que o soberano obteve foi-lhe oferecida pelos cristãos-novos, um subsídio de duzentos mil cruzados, se D. Sebastião conseguisse a promulgação de um breve, suspendendo, durante dez anos, a pena de confisco dos bens, quando presos pelo Santo Ofício; e D. Sebastião implorou de Gregório XIII o prometido breve, que foi publicado em Lisboa no dia 31-12‑1577.

Na organização das forças expedicionárias não mostrou D. Sebastião tanta atividade. O seu verdadeiro fim não era reaver as antigas praças portuguesas; era voltar a África, para combater pessoalmente os mouros. Se a expedição fosse comandada por outro, mais valia não ir.

Em 1577 deu-se um facto que merece registo especial. O alcaide Cid Abde Alquerime, senhor de Alcácer-Quibir, Larache e Arzila, escreveu a D. Duarte de Meneses, governador de Tânger, prometendo-lhe entregar Arzila, se lá aparecesse com a sua gente, num dia marcado, pois preferia ceder a praça aos portugueses, que vê-la conquistada por Abde Almélique. Assim sucedeu.

No começo de dezembro de 1577 o xerife destronado, Mulei Moâmede, não se julgando seguro em nenhum lugar do seu antigo império, chegou a uma aldeia próxima da fortaleza de Pinhão de Beles, pedindo a proteção das armas espanholas. Acompanhava-o seu filho, Mulei Xeque, alguns alcaides e seiscentos homens de armas e criados, cerca de mil pessoas; e daí, por um fidalgo português, seu cativo, D. António da Cunha, mandou pedir a D. Sebastião o quisesse auxiliar na guerra contra o tio, metendo-o na posse da Berberia.

Nem Mulei Moâmede, nem seu pai, tinham prestado a Portugal qualquer serviço que fizesse jus à nossa gratidão. O memorável cerco de Mazagão fora posto por ele; mas a D. Sebastião causou o pedido um vivo prazer, por lhe servir de argumento a favor da sua expedição. Cumprindo instruções, o marquês de Vila Real, capitão de Ceuta, enviou duas caravelas ao Pinhão de Beles para trazer Mulei Moâmede; o filho e a gente de guerra vieram a pé.

De Ceuta significou o xerife a D. Sebastião que, para o restabelecer no trono, bastariam quatro mil soldados sob a direção de um general habituado à guerra de África. Mas ao monarca português só interessava a expedição se fosse comandada por ele. Como já o participara a Filipe II e ao Papa, tinha agora D. Sebastião empenho em anunciar publicamente o seu propósito de passar à África; mas precisava de o comunicar primeiro à rainha D. Catarina ao cardeal-infante. Escreveu-lhe este uma sentida carta, acentuando os perigos a que se expunha, principalmente não tendo filhos, e a miséria em que essa expedição lançaria o reino. A carta não produziu efeito algum. Os validos de D. Sebastião, como privados de um monarca absoluto, não tinham sobre ele influência alguma; eles é que tinham, para não perder o valimento, de se dobrar a todos os seus caprichos, de enaltecer todas as suas imprudências.

Na junta que em 24 de fevereiro se realizou no Paço de Santos, a que assistiram os condes de Portalegre, de Odemira, do Redondo, de Tentúgal e da Vidigueira, o arcebispo de Lisboa, os bispos do Algarve, de Coimbra e Elvas, o regedor da Justiça, os vedores da Fazenda e os membros do Conselho de Estado, fez-lhe D. Sebastião uma longa prática, defendendo a sua ida à África, com o fim de restituir o trono ao xerife; e no intuito de prevenir qualquer discussão, terminou proclamando que os havia convocado, não para os ouvir, senão para que o ouvissem.

Afora um bando de moços, que o lisonjeavam, todos eram contrários à expedição, mas ninguém se atrevia a contradizê-lo. Filipe II fez várias tentativas para dissuadir o sobrinho do comando da expedição; mas tudo foi inútil. O exército sebástico compunha-se de um contingente fornecido pelo príncipe de Orange, composto de alemães, holandeses e valões, no total de dois mil e oitocentos homens, comandados por Martim de Borgonha, senhor de Tamberg; de um contingente espanhol, mil e seiscentos soldados, sob a chefia de D. Alonso de Aguilar, como coronel, e D. Luís Hernández de Córdova e D. Luís de Godoy, como sargentos-mores. Uma circunstância fortuita proporcionou a D. Sebastião seiscentos soldados italianos, que Gregório XIII enviava à Irlanda, sob o comando de Tomás Stukeley. As tropas portuguesas eram constituídas pelo esquadrão dos aventureiros, mil e quatrocentos homens que combatiam a pé, armados de piques; oito mil homens, comandados por quatro coronéis, Diogo Lopes de Sequeira, D. Miguel de Noronha, Vasco da Silveira e Francisco de Távora para comandar os quatro terços, recrutados nas diferentes províncias do reino. Cavaleiros eram seiscentos, comandados pelo rei, trezentos comandados pelo duque de Aveiro, D. Jorge, e quatrocentos cavaleiros de Tânger, no total de mil e trezentos homens. Havia ainda um pequeno troço de mouros, sob a chefia do xerife deposto. Entre os aventureiros havia antigos combatentes da África e da Índia; os oito mil soldados dos terços eram todos bisonhos, sem a mínima preparação militar.

Em 5 de junho ordenou o rei a D. Diogo de Sousa que nessa noite fosse dormir a bordo do navio almirante, o galeão S. Mateus. E na realidade, a 8, por toda a cidade foi lançado o pregão que se aviassem, pois o monarca embarcaria a 14, em seguida à bênção do estandarte real, na Sé. Neste dia, por volta das sete horas, saiu D. Sebastião do palácio da Ribeira. À frente do cortejo ia o alferes-mor, D. Luís de Meneses, com a bandeira enrolada. Após o rei, seguiam algumas centenas de fidalgos, em três filas. Depois da missa, celebrada pelo arcebispo, foi benzido o estandarte, que D. Sebastião recebeu de joelhos, entregando-o de novo ao alferes-mor. Parou o cortejo no Cais da Rainha, embarcando o monarca na galé real. A não ser para ouvir duas vezes missa, na igreja de Santos-o-Velho, nunca mais o rei voltou a terra, durante uns dez dias que a armada se demorou ainda no Tejo. A 16 embarcou o terço da Estremadura. Nos dias imediatos entraram a bordo dos navios que lhes estavam destinados o terço de Lisboa, o esquadrão dos aventureiros e os fidalgos com a sua criadagem. O duque de Bragança adoeceu tão gravemente, que se fez substituir pelo filho primogénito, D. Teodósio, duque de Barcelos, uma criança de dez anos, confiada à guarda de seu tio, D. Jaime.

Foi, porém, a persistência do mau tempo, com ventos contrários, que forçou D. Sebastião a uma inesperada demora; mas o seu empenho de partir era tamanho, que até ao dia da partida dormiu sempre vestido. Em 22 e 23 mandou o rei deitar bando, ordenando que todos tomassem os seus lugares, pois a armada largaria em 24; e no dia de S. João, entre salvas de artilharia e o estridor das trombetas bastardas, a galé real, descendo o rio, foi lançar âncoras em Oeiras, onde embarcaram os italianos e os tudescos. Na tarde de 25 partia D. Sebastião com rumo a África.

A armada, ao sair de Lisboa, não ascenderia talvez a quinhentas velas. No Tejo ficaram ainda os navios do prior do Crato, do duque de Aveiro e a frota do duque de Bragança, à espera do jovem duque de Barcelos, mandado chamar a Vila Viçosa. O galeão S. Martinho, artilhado com setenta peças, aguardava em Cascais esses navios, para os comboiar até Cádis. A 27 de junho fundeou D. Sebastião em Lagos, onde já o aguardavam alguns navios com soldados alentejanos, embarcados em Setúbal. Mas seguiu logo para Cádis, onde lançou ferro a 28. O duque de Medina Sidónia ofereceu-lhe uma festa, uma corrida de touros e um jogo de canas al uso de Xerez. Nestes dias, chegaram os últimos navios com os soldados do Algarve. Faltava ainda a carriagem; mas o tempo urgia; e ao amanhecer de 7, partiu a armada.

A demora em Cádis deu ensejo a que os fidalgos e aventureiros saltassem em terra. À cidade tinham acudido muitas damas galantes de Sevilha, atraídas pelas notícias das festas e fama da riqueza dos forasteiros; e como a disciplina era frouxa, bastantes se introduziram na armada. Chegou D. Sebastião a Tânger, cerca da meia-noite. Mandou-o Mulei Moâmede cumprimentar pelo filho; e logo de manhã o visitou ele próprio, com os poucos alcaides que lhe tinham ficado fiéis, entre os quais Cide Abde Alquerime, antigo senhor de Arzila. Veio depois D. Sebastião para a cidade, hospedando-se nas casas do governador. À tarde, pagou a visita ao xerife o recebeu a cavalo à porta da sua tenda. Dois dias depois mandou D. Sebastião prevenir D. Diogo de Sousa da sua próxima partida para Arzila. O rei seguiu na sua galé; na capitânia ia o xerife; e por terra foram Mulei Xeque, com todos os seus, assim como a gente disponível de Tânger, talvez seiscentos homens, cavaleiros e arcabuzeiros.

No dia seguinte, mal deu fundo em Arzila, desembarcou D. Sebastião para ver o campo e a vila, que não conhecia. Os navios de alto bordo, lutando com ventos contrários, só apareceram a 14. Ainda não chegara a Arzila a carriagem, encomendada no Algarve. A conquista de Larache deveria ser feita por mar; mas essa conquista era apenas um disfarce de D. Sebastião, para evitar objeções. O seu íntimo desígnio fora sempre caminhar por terra, no empenho de se defrontar com o xerife vencedor.

O desembarque do exército começou em 14, terminando em 16. Como a praça não podia acomodar tanta gente, aquartelaram-se junto das muralhas, formando um vistoso arraial de quase duas mil tendas.

Decidira o rei marchar por terra até Alcácer Quibir; e daí, obliquando para noroeste, atingir a Larache. No caminho, encontrar-se-ia com Mulei Abde Almélique, objetivo oculto, mas primário da sua vinda a África. A sua resolução estava assente. Quis, porém, ouvir os soldados mais práticos na guerra de África; e a 20 ou 21 convidou para a sua tenda esse conselho de oficiais. O discurso de D. Sebastião, pode resumir-se no seguinte: ganhar Larache por terra seria tão vantajoso quanto inconveniente acometê-la por mar. Os alcaides, cuja adesão se aguardava, decerto se animariam tendo junto de si o seu rei, com o auxílio que desejavam. Havia também a vantagem de tomar Alcácer Quibir. Mal fortificada, a sua conquista seria fácil, aos primeiros tiros; e à sua queda seguir-se-ia a de Larache. Pelo contrário, a ida por mar mostraria que o seu empenho era apenas conquistar uma pequena praça da Berberia; e os mouros perderiam a vontade de aderir a Mulei Moâmede, vendo que o rei de Portugal atendia mais ao seu interesse do que à prometida restauração do xerife. Não pediu o rei ao conselho de oficiais o seu parecer quanto aos inconvenientes ou vantagens de seguir este ou aquele caminho: limitou-se a dizer-lhes que desejava ouvi-los sobre o melhor meio de vencer as dificuldades da jornada por terra.

Os monarcas absolutos tiveram sempre cortesãos prontos a lisonjear as suas paixões, a aplaudir todos os seus atos. Por isso a maioria dos presentes se apressou a concordar com o plano de D. Sebastião. Mas Vasco da Silveira, coronel do terço do Alentejo, curando menos de agradar ao rei do que a expor com lealdade a sua opinião, mostrou os perigos da marcha por terra. A fama do exército português era realmente grande, pelo número de velas que o conduzira. Se o vissem porém, caminhando pelo sertão, reduzido como era, com tão escasso número de cavaleiros, mal provido e ordenado, perderia a reputação e com ela o respeito que devia incutir aos seus inimigos. Com a ida por mar não se fatigaria o exército, nem algumas horas de viagem poderiam deprimi-lo com o enjoo. Para conquistar Larache bastaria desembarcar parte das forças, pois a praça estava quase abandonada, por serem insuficientes os seus meios de resistência. Também não era de supor que o xerife, habituado a tanta peleja e sempre vitorioso, se arreceasse de nos dar combate, pois se jogava a sua sorte. Também não era de esperar a adesão dos alcaides que o haviam auxiliado a conquistar o reino e continuavam a tê-lo no maior apreço, tanto pelo seu valor, como pela liberalidade das suas recompensas. Já o xerife deposto, avaro, ambicioso, várias vezes vencido, não gozava de simpatia, nem de afeições. Levar o exército por terra, era um perigo e uma imprudência.

Usou então da palavra Cristóvão de Távora, o valido predileto de D. Sebastião. As considerações do coronel Vasco da Silveira, no ponto de vista puramente militar, estavam certas. Mas aos reis chegam muitas vezes notícias secretas, que os obrigam a tomar resoluções que podem parecer infundadas e perigosas a quem as não conheça. Se sua alteza deliberou fazer a jornada por terra, é porque tem a certeza de não encontrar resistência no caminho. Ninguém ignorava a intimidade de D. Sebastião com o valido: Cristóvão de Távora devia, portanto, estar na posse dessas razões secretas; e a maioria dos oficiais aplaudiu o seu voto.

Como depois o provaram cruelmente os factos, o rei não tinha informação nenhuma de que a doença ou o receio de ser abandonado por muitos dos seus alcaides levassem Abde Almélique a desistir do combate.

A 23 ocorreu um facto que veio demonstrar que a gente de Abde Almélique não estava inativa. Na manhã desse dia foram dois azenegues do bispo de Coimbra segar erva, quase a uma légua de Arzila. Surgiram de repente vários homens de cavalo, que os aprisionaram. Com cento e cinquenta dos seus acudiu o xerife deposto, que tinha a sua tenda no lugar mais alto do acampamento. À tenda do rei levaram a notícia de que os inimigos passavam de dois mil. Podia o rei ordenar que avançasse um troço da sua cavalaria; mas o seu empenho era entrar pessoalmente em combate. Por isso, avançou em galope desfechado; mas os mouros, cujo fim era apenas inquietar o exército cristão, já se haviam retirado. Três léguas e meia galopou o rei, cada vez mais distanciado do grosso dos seus companheiros. Só três fidalgos o acompanharam sempre: Cristóvão de Távora, Luís da Silva e Fernando de Mascarenhas. Os cavalos estavam tão cansados, que foi necessário voltar a passo; se os inimigos tivessem preparado uma emboscada, ser-lhes ia fácil matar ou aprisionar D. Sebastião.

A temeridade do rei causou grandes apreensões no exército. Até os seus privados começavam a reconhecer os perigos a que o expunha tão excessiva confiança. Alguns fidalgos chegaram até a reunir-se para lhe suplicar que não marchasse por terra. Mas o supersticioso respeito pela vontade do rei venceu o próprio instinto da conservação.

A correspondência do embaixador espanhol com Filipe II amiúda-se agora. Só no dia 25 de julho lhe escreveu duas cartas, ambas muito interessantes pelas notícias que davam. Na primeira, tratava D. João da Silva da situação do exército. Haviam chegado os carros, ansiosamente esperados, por sinal muito maus. Faltavam vitualhas e dinheiro. A segunda carta dava uma informação preciosa. Na véspera chegara a Arzila um judeu de Tetuão, com a nova de que Abde Almélique estava em Salé, à frente de um exército de sessenta mil homens. Parece que vinha incumbido de propor a paz, oferecendo Tetuão, Larache e o cabo de Guer, antes do rompimento das hostilidades. Mas D. Sebastião não permitiu negociações.

Da existência do agente de Abde Almélique não é possível duvidar. Em carta de 26, endereçada a Filipe II, narra D. João da Silva a conversa que tivera com D. Sebastião. Mostrou-lhe o embaixador a conveniência de um bom acordo com o xerife, caso este pacificamente lhe desse o que ele pretendia ganhar pela força, sobretudo se as propostas do judeu eram verdadeiras. No me lo pudo negar; pero dice que desde Alcázar se entenderá mejor el camino que se debe llevar. O rei não podia confessar abertamente que viera à África só para se bater com Abde Almélique.

Mais uma vez mandava o xerife propor acordos ao rei de Portugal. Era do seu dever defender-se contra quem vinha desafiá-lo à sua própria casa; mas a guerra tem surpresas. O seu estado de saúde era também muito precário; e isso bastaria para justificar o natural desejo de gozar o reino, obtido à custa de tantos esforços. Abde Almélique, pelos espiões que tinha em Cádis, sabia a composição do exército sebástico. Ordenou a seu irmão Mulei Amede que reunisse os soldados de Fez, para poderem acudir a qualquer ponto onde se efetuasse o desembarque. Assim se formou um corpo de oito mil cavaleiros e três mil atiradores, que se aquartelaram em Alcácer Quibir. Para Larache mandou Moâmede Zarco, com oito mil cavaleiros andaluzes e outros tantos azuagos. No caso de preferirem os portugueses entrar por Mazagão, destacou para aquelas terras seu sobrinho, Mulei Daúde, com seis mil homens de pé e de cavalo; e na hipótese de escolherem Santa Cruz do Cabo de Guer, incumbiu a defesa dessa região ao alcaide granadino, Dogali, com mil arcabuzeiros andaluzes e três mil cavaleiros de Suz.

Saiu Abde Almélique de Marrocos, deixando como governador da cidade o alcaide Reduão, um renegado português, inteligente e corajoso, que trouxera de Argel, homem da sua plena confiança. Mandou então proclamar a guerra santa contra os cristãos; e, acompanhado por toda a gente de guerra que pôde levantar, marchou em direção à província de Temecena. Abde Almélique começou a sentir-se muito doente; mas apesar disso, continuou a jornada para Salé. Naquela cidade soube o xerife do desembarque de D. Sebastião em Arzila. Imediatamente, mandou recolher de Larache as forças de Moâmede Zarco e do cabo de Guer o alcaide Dogali. Quanto a Mulei Daúde, deixou-o ficar nas proximidades de Mazagão, por constar que iria para aquela praça o filho do seu rival. Depois passou a vau o rio Cebu; e a 24 de julho estava a duas léguas de Alcácer Quibir. Acompanhavam-no, então, catorze mil homens de cavalo e dois mil e quinhentos arcabuzeiros, na maior parte andaluzes e renegados. Esperava-o, naquele ponto, seu irmão Mulei Amede com todas as forças que reunira.

O acampamento estabeleceu-se a cinco ou seis quilómetros ao sul de Alcácer. O exército compreendia então vinte e dois mil cavaleiros e cinco mil e quinhentos atiradores. Tinha vinte e seis peças, servidas por bons artilheiros. Os víveres eram abundantes e os soldados estavam pagos em dia. Estas forças aumentaram ainda com a chegada de contingentes voluntários, vindos de diferentes tribos, ao apelo da guerra santa.

Em 26 de julho chegara a Arzila um renegado francês, que há anos vivia em Marrocos. Estivera ainda na véspera no acampamento de Abde Almélique e podia, portanto, informar que eram muito consideráveis as forças de que dispunha o xerife. Estas notícias, rapidamente espalhadas, causaram grande terror no exército, pois todos sabiam que o rei não mudaria de resolução, nem de caminho. D. Sebastião mandou chamar o embaixador espanhol para o convencer de que as informações eram falsas e o renegado francês um espião de Abde Almélique. Pediu-lhe D. João da Silva que, antes de sair de Arzila, ponderasse maduramente. Só o facto de haver o xerife abandonado a sua capital, provava que ele tinha absoluta confiança nos seus alcaides. Contestou-lhe D. Sebastião que no dia imediato partiria, pois as forças de que dispunha Abde Almélique não eram suficientes para lhe dar batalha, nem para lhe barrar o caminho. As suas palavras eram bem claras: fossem quais fossem os perigos, o rei não desistiria de avançar. A obsessão mórbida do rei desprezava todos os conselhos.

No dia 27 chegou a Arzila Fr. Roque do Espírito Santo, comissário da Ordem da Trindade, e Diogo da Palma, mercador rico, que o auxiliava no resgaste dos cativos cristãos. Fr. Roque era irmão do corregedor da corte, Diogo da Fonseca, em cuja tenda ambos se hospedaram. Acolheu-os o rei com alvoroço; mal tinham porém começado a dizer que o exército de Abde Almélique era formidável e rigorosa a sua disciplina, despediu-os com palavras duríssimas e mandou ordem ao corregedor que prendesse Diogo da Palma e o encarcerasse na alcáçova. Diogo da Fonseca expôs ao rei o péssimo efeito que esse ato produziria no exército; e D. Sebastião consentiu em ouvi-los segunda vez. Esta conferência durou horas, mas no fim o rei anunciou que dali a três dias se havia de ver com o Maluco.

A partida do exército foi definitivamente marcada para o dia 29. A boiada que acompanhara a carriagem estava muito debilitada pelas privações que sofrera na viagem do Algarve a Arzila. Precisava de longo descanso; mas D. Sebastião ardia na impaciência de se encontrar com Abde Almélique.

O exército saiu de Arzila às primeiras horas do dia 29 de julho.

À frente ia D. Duarte de Meneses, governador de Tânger, que D. Sebastião nomeara mestre-de-campo-general. A seguir, a artilharia. Depois a infantaria, formada em duas colunas, cada uma dividida em três esquadrões: vanguarda, corpo de batalha e retaguarda. Os terços, tanto os portugueses como os estranhos, deviam alternar-se diariamente nos diferentes lugares das colunas. Aos lados, a cavalaria: o rei, com o maior troço, à direita; à esquerda, o duque de Aveiro e Mulei Moâmede. No centro, quase todos a cavalo, os eclesiásticos e a gente de justiça. No couce, além da bagagem, transportada em centenas de carros, 3 000 gastadores, mais de 1 000 boieiros e carreteiros, centenas de pajens, criados e lacaios, grande cópia de escravos, muitas mulheres — dez a onze mil bocas, que contribuiriam largamente para o gasto dos mantimentos.

A primeira jornada terminou num sítio chamado Os Moinhos, a uma légua de Arzila, em linha reta. A boiada estava tão fraca, que à mais pequena subida tinha de ser ajudada a braço. No dia seguinte, chegou a expedição a Almenara. Em dois dias, vencera o exército apenas duas léguas; e faltavam quatro para alcançar Larache. Dos mantimentos já ia gasta quase metade: o exército estava, portanto, na iminência de morrer de fome.

Convocado o conselho de oficiais, todos foram de parecer que se regressasse a Arzila. Os infantes embarcariam na armada, que logo tomaria o rumo de Larache; a artilharia e os cavalos ficariam na praça. Ainda de noite, partiu Afonso Correia com 40 cavaleiros tangerinos, para avisar D. Diogo de Sousa. Entrou em Arzila às primeiras horas da manhã de 31; mas a armada partira na véspera.

Chegara nesse dia à vila o capitão espanhol Francisco de Aldana, por cuja vinda tanto instara D. Sebastião. Acompanhavam-no 500 soldados, sem armas; e em Arzila não as havia. Quando Aldana soube que o rei se internara, disse ao capitão da praça que a sua perdição era certa. Voltaria para Espanha. Viera, porém, com ele, um fidalgo, D. Pedro del Mármol, que se entusiasmara por esta jornada. Observou-lhe que, trazendo uma carta do duque de Alba para o rei de Portugal, não devia retirar-se sem a entregar; e como Afonso Correia se oferecesse para guia e escolta, partiu com a sua gente.

A notícia da saída da armada causou deceção no exército. Não a sentiu D. Sebastião, cujo íntimo desejo era continuar a marcha até encontrar o inimigo; e acolheu com alvoroço Francisco de Aldana pela sua prática de guerra. Os 500 soldados representariam um valioso auxílio, se na bagagem houvesse arcabuzes ou piques; desarmados, só vinham agravar a escassez dos mantimentos.

Em 1 de agosto saiu o exército de Almenara; nesse dia caminhou três léguas. Na manhã de 2 ficou resolvido tomar a direção de Larache. Até às proximidades do rio Mocazim, o caminho para essa praça ou para Alcácer Quibir era o mesmo. Pela tarde descobriram os batedores na margem esquerda do Mocazim, junto à ponte de Alcácer — assim chamavam os portugueses à ponte sobre o Mocazim, na estrada entre Arzila e aquela cidade — quatro a cinco mil cavaleiros mouros. Queriam alguns fidalgos que se alterasse a direção. A marcha continuou, porém, no mesmo sentido; e acamparam num sítio alto, denominado Sobreiral de Larache.

Murmuravam os mais exaltados por se não haver passado a ponte; e D. Sebastião, cujo propósito era esse, convocou o conselho. Opinavam uns que a única solução era caminhar sem detença, para Larache; os mantimentos eram poucos e na armada havia-os com abundância. Alegavam outros que, abandonando o combate, o exército português perderia a sua antiga reputação. Para oeste, a terra era montuosa. Atravessado o rio, a margem esquerda abria-se em planície, e então se resolveria. Replicaram os primeiros: se a margem direita era acidentada, não devia atravessar-se o Mocazim, simples afluente do Luco, mas o próprio Luco ou rio de Larache, em cuja margem esquerda estava situada a povoação. Abaixo da confluência do Mocazim havia um vau, por aí devia passar o exército.

Noite ainda, mandou D. Sebastião sondar o vau. Em maré vazante, até a artilharia podia atravessar o rio. Não gostou o rei da informação; exaltou os inconvenientes da passagem, se o exército ficasse dividido em duas partes, e uma delas fosse atacada pelos mouros, sem a outra lhe poder dar socorro. No dia seguinte passaria o Mocazim pela ponte de Alcácer.

No domingo, 3, muito cedo, puseram-se as forças em marcha. Não atravessaram a ponte, e foram descendo ao longo do rio até encontrarem um vau. Teria o exército andado meia légua, surgiram milhares de cavaleiros inimigos. As tropas suspenderam a marcha. Adiantaram-se alguns, na intenção de escaramuçar. Ao seu encontro correram vários companheiros de Mulei Moâmede: e entabulando conversação, deram larga notícia do poderoso exército de Abde Almélique. Retiraram os mouros, que vinham apenas explorar; e D. Sebastião incumbiu o duque de Aveiro com 300 homens de cavalo de reconhecer as forças adversas. Voltou D. Jorge de Lencastre com informações análogas.

Retomou o exército a marcha, detendo-se numa boa posição, entre as águas de dois rios: o Mocazim e o Rur, seu afluente. Ao longo do primeiro, uma alta ribanceira constituía a mais segura defesa natural. O Rur é uma ribeira de curso intermitente; facilmente vadeável, representava, no entanto, uma linha de defesa. Os lados abertos foram guarnecidos com as carretas e carros de bagagem.

Nessa noite o bispo de Coimbra e vários fidalgos principais pediram a D. Sebastião que se demorasse naquele sitio, pois a defesa seria fácil, e não se arriscaria o exército, em campo aberto, ao primeiro embate dum poder tão formidável. Também lhe mandou solicitar o xerife deposto que não saísse do acampamento no dia seguinte; as tropas restaurariam as forças e, entretanto, ocorreria a morte de Abde Almélique, cuja agonia estava próxima. Negou-se o rei a admitir estes pedidos. D. Duarte de Meneses rogou-lhe então licença para ir com os cavaleiros de Tânger dar uma encamisada aos mouros. O sobressalto e a desordem dos inimigos seriam enormes, pois se atemorizavam de noite facilmente. Recusou-lhe também a permissão.

O exército regular de Abde Almélique compreendia, pelo menos, 40 000 cavaleiros e oito a nove mil infantes armados de escopetas. Tinha também 26 peças, servidas por bons artilheiros. Constantemente informado das delongas da expedição, o xerife só no sábado, 2 de agosto, transferiu o seu acampamento para as proximidades de Alcácer Quibir, mas ainda ao sul do Luco. Ao saber, porém, que D. Sebastião, em vez de se dirigir a Larache, transpusera o Mocazim, todo o exército passou o Luco, estabelecendo arraiais numa vasta campina, perfeitamente adequada às manobras da sua cavalaria.

No campo cristão, a ansiedade era enorme. Ao romper de alva, D. Sebastião reuniu o conselho de oficiais, a que assistiram também Mulei Moâmede e os seus alcaides. Alguns fidalgos, dos que mais defendiam a empresa, pediram ao rei se mantivesse naquela posição até à noite. Depois retirariam para Larache. A artilharia ocultar-se-ia em escavações abertas para esse fim, e os carros da bagagem ficariam no lugar em que estavam, para iludir os mouros. Chegados à costa, a armada abastecê-los-ia, e ganhar-se-ia a fortaleza.

Increpou-os D. Sebastião, num violento acesso de cólera, por alvitrarem agora a retirada os mesmos que afirmavam a facilidade da vitória. Estavam convencidos, replicaram, de que os mouros, em vez de combater, se apressariam a seguir Mulei Moâmede, como ele sempre afirmava; mas agora reconheciam a inanidade dessa presunção, e que o xerife dispunha dum enorme poder. Mulei Moâmede interveio para propor o simples adiamento da batalha por um dia. Abde Almélique devia falecer em breve. A desordem seria imediata, e os alcaides abandonariam o campo, ou viriam para o seu lado. Retorquiu D. Sebastião que não queria triunfar de Abde Almélique morto. Voltou o deposto xerife a insistir: que o combate se diferisse para a tarde, a horas em que o calor já não prejudicasse a atividade e a energia dos soldados.

Concordou o rei com o alvitre. Chegando, porém, a notícia ao capitão Aldana, o velho soldado correu a D. Sebastião, gritando-lhe «que se perdia, se não desse logo a batalha». A intervenção deste homem estava de acordo com os seus secretos desejos. Ordenou imediatamente que as tropas marchassem contra o inimigo, e incumbiu Aldana de formar a infantaria. A cavalaria ficava a seu cargo.

A ordem de batalha do exército luso era a seguinte: a infantaria dividia-se em três corpos: vanguarda, centro e retaguarda. A vanguarda foi entregue aos soldados mais experientes ou destemidos. Ao meio, o terço dos aventureiros; à direita, o dos alemães; à esquerda, parte do dos italianos e o terço dos espanhóis. Todos estavam armados de piques. Por isso, cada grupo era guarnecido com mangas de arcabuzeiros: o terço dos aventureiros com atiradores de Tânger; o dos alemães com arcabuzeiros italianos; o dos italianos e espanhóis com atiradores desta nacionalidade.

O centro era formado pelos terços de Vasco da Silveira e de Diogo Lopes de Sequeira, o primeiro atrás dos alemães, o segundo atrás dos espanhóis e italianos. No espaço aberto entre eles e, portanto, atrás dos aventureiros, foram colocados os gastadores, a bagagem mais preciosa, a gente de serviço, os soldados castelhanos sem armamento, os religiosos que não entravam na batalha, e as mulheres.

A retaguarda era também constituída por dois terços; o de Francisco de Távora e o de D. Miguel de Noronha. Fechando o espaço existente entre ambos, para amparo das bagagens e da multidão dos não combatentes, ficavam mangas de arcabuzeiros. A carriagem formava duas longas filas, paralelas e exteriores à infantaria.

A cavalaria portuguesa cindiu-se em três grupos: à esquerda, do lado de fora da carriagem, ficou o rei, com 600 cavaleiros. À direita, o duque de Aveiro, com cerca de 300; e a seguir, mas separado por um intervalo, o mestre-de-campo-general, com os homens de cavalo de Tânger, em número de 400. Na extrema direita, para além do quadrado constituído pelo exército cristão, colocou-se o antigo xerife, com os seus partidários. A artilharia caminhava à frente, no enfiamento do terço dos espanhóis; cercava-a um pequeno troço de gastadores.

A formatura do exército xerifiano era em crescente ou meia-lua, com a infantaria no centro e a cavalaria nas alas. A ala direita, dirigida por Mulei Amede, irmão do xerife, compunha-se de 1 000 escopeteiros a cavalo, e 10 000 cavaleiros armados de lança e adarga. A ala esquerda, sob o comando de Moâmede Zarco, tinha 2 000 escopeteiros e 10 000 lanceiros.

A infantaria estava dividida em dois corpos; a vanguarda, formada pelos andaluzes e gazulas, em cuja valentia menos confiava Abde Almélique; a retaguarda, constituída pelos elches, ou renegados, e os azuagos, soldados absolutamente seguros, que não só animariam, mas impediriam os outros de fugir. A meio, vinha o xerife, sentado numa liteira, à frente da qual tremulavam antigas bandeiras dos seus antepassados. Ao fundo, cingindo a infantaria, talvez 16 000 cavalos, quase todos pertencentes a tribos árabes (os alarves das Crónicas), na maioria ainda armados de bestas. A artilharia fora colocada numa dobra do terreno, de maneira a enfiar de través o exército cristão, quando viesse caminhando.

Terminada a formatura, à frente das tropas, pronunciou D. Sebastião um discurso, exaltando a antiga coragem portuguesa, fiadora de grande vitória. Deram depois as trombetas o sinal de marcha; e o rei determinou a todos os coronéis, ao duque de Aveiro, ao mestre-de-campo-general e a Mulei Moâmede, que ninguém entrasse em combate sem ordem expressa sua.

Entre o acampamento cristão e o xerifiano havia uma pequena elevação. A seguir era a campina rasa, vulgarmente designada por campo de Alcácer, com mais de duas léguas em redondo, onde se travou a célebre batalha, conhecida na história universal com o nome de Alcácer Quibir. Esta povoação fica à distância de 15 quilómetros; por isso, com mais propriedade, os mouros lhe chamam batalha do rio Mocazim ou dos Três Reis.

Logo que as trombetas portuguesas anunciaram a marcha do exército, o xerife, a muito custo, montou a cavalo; e reunidos os alcaides principais, proferiu breves palavras, prometendo elevadas recompensas a quantos se distinguissem na batalha. Começaram logo as forças xerifianas a avançar lentamente. A artilharia devia disparar, assim que os cristãos se encontrassem ao alcance de tiro.

Seriam 8 horas, puseram-se em movimentos os dois exércitos. Volvida uma hora, o centro das tropas muçulmanas suspendeu a marcha. Avançaram os nossos confiadamente, quando se ouviram os primeiros tiros da artilharia xerifiana. Mataram apenas dois cavalos; mas o terror foi tamanho, nos terços do centro e da retaguarda, que muitos soldados se lançaram por terra. Segunda vez troou a artilharia inimiga, prostrando alguns aventureiros; mas D. Sebastião, como alheado de tudo que o cercava, não se decidia a ordenar a investida. Novos pelouros abriram clareiras na vanguarda; e o rei continuava hesitante. Em rápidos volteios, os escopeteiros mouros já varejavam com balas os terços da frente; e D. Sebastião permanecia irresoluto. Brados impacientes se ergueram de diversos lados. Os aventureiros eram talvez os mais revoltados contra a sua perigosa inação; e, como a ordem demorasse, arrojaram-se sobre a infantaria inimiga, que avançava. Os espanhóis, alemães e italianos acompanharam-nos na arremetida. O rei, então, desperta e, dando voz de «S. Jorge» aos que o rodeiam, atira-se arrebatadamente contra os cavaleiros de Mulei Amede.

«O terço dos aventureirosescreve o Prof. Queirós Veloso no livro D. Sebastião (1554-–1578) — composto de homens decididos, especialmente as primeiras filas, apoiado nos arcabuzeiros de Tânger, investe com vigor. Os andaluzes e gazulas resistem, despejando as escopetas contra os assaltantes. O ímpeto dos aventureiros, porém, não afrouxa; e como os terços estrangeiros, incitados pelo nosso exemplo — mais rápidos os espanhóis e italianos, mais lentos, mas seguros, os alemães — carregassem em toda a frente, a vanguarda moura oscila e recua; esboça-se, aqui e além, a retirada. Os aventureiros redobram de esforços. As cinco filas dianteiras avançam com tamanho ímpeto, que se destacam das restantes. Em desordem, os andaluzes voltam costas, numa fuga precipitada. Pungido da mais viva indignação por este ato de cobardia, Abde Almélique ergue-se vacilante da liteira e monta a cavalo para ir ao encontro dos fugitivos... Este violento gesto provoca-lhe uma síncope, caindo sobre o pescoço do cavalo. Tomam-no os seus íntimos nos braços e deitam-no na liteira. Minutos depois falecia, sem haver recuperado os sentidos; mas a guarda, corridas imediatamente as cortinas, a todos dizia que estava vivo...

«A cólera de Abde Almélique não resultaria unicamente da pusilanimidade dos andaluzes. Também devia concorrer, poderosamente, para esse desespero, a debandada de centenas de cavaleiros da ala direita, comandada por seu irmão, que não podendo resistir à violenta carga do esquadrão real, abandonaram o campo com tão desabalada pressa, que alguns só pararam em Alcácer Quibir... Esta retirada e a dos andaluzes estiveram, por momentos, a dar-nos a vitória...

«Os aventureiros mais audazes conseguem apoderar-se de dois estandartes de Abde Almélique. Veem-no descer do cavalo, convencidos de que um tiro de arcabuz tangerino o matara. Soltam-se logo gritos: «Vitória! Vitória! O Maluco é morto!». Mas os elches e os azuagos, que formavam a retaguarda, acodem rapidamente a preencher o lugar dos fugitivos; uma bala fere então, numa perna, o capitão Álvaro Pires de Távora. O sargento-mor, Pedro Lopes, manda-o conduzir para uma das liteiras, que havia na bagagem; e certamente, com receio de que a retirada se tornasse difícil, ordena que se detenham, dando a celebrada voz: «Ter! Ter!». O entusiasmo, que os impelia, esmorece. Hesitam; e quando decidem retroceder, encontram-se cercados. O avanço que levavam aos seus companheiros, fora ocupado pelos inimigos. Os intrépidos aventureiros da vanguarda ficavam assim abandonados: o que se passou depois não foi combate; foi a inglória luta de três ou quatro centenas de bravos, vendendo cara a sua vida».

O duque de Aveiro, D. Duarte de Meneses e Mulei Moâmede lançam-se também na peleja; mas como não há plano, nem direção superior, cada um arremete ao acaso. D. Jorge de Lencastre, com insuperável audácia, abre largas clareiras nos esquadrões de Moâmede Zarco. Os cavaleiros de Tânger avançam com tamanha energia sobre a artilharia xerifiana, que a teriam conquistado se fossem sustentados por infantaria. Mulei Moâmede investe também várias vezes. Estes feitos isolados nenhuma vantagem traziam ao resultado da batalha.

A nossa artilharia, que nem tempo tivera para se colocar em posição, é atacada por centenas de inimigos. Corre D. Sebastião a libertá-la, e, num combate renhidíssimo, consegue repelir os assaltantes, à custa de muitas vidas. Mas a bateria ficou perdida, porque os artilheiros, sem guarda que os defendesse, estavam mortos ou foragidos. Chega então ao rei a notícia dum furioso ataque à bagagem. Para lá corre à desfilada, à frente de duzentos cavaleiros — a estes se reduzira o esquadrão real e desbarata alguns milhares de mouros, entretidos na rapina. Foi, porém, impossível reconstituir os terços de Vasco Silveira e de D. Miguel de Noronha. Gente arrancada aos serviços agrícolas, sem a mínima instrução militar, escondera-se, cheia de terror, debaixo das carretas.

A vanguarda continuava a ser incessantemente alvejada pelos elches e pelos azuagos. As filas dos aventureiros, como as dos terços estranhos, vão rareando. A infantaria moura já se não expõe ao perigo dum combate corpo-a-corpo. Os escopeteiros a cavalo, como os nossos já não tinham mangas de atiradores a defendê-los, avançavam até à distância de tiro, despejavam as suas escopetas, e quando os piqueiros corriam sobre eles, viravam rapidamente, para voltar depois, com as armas novamente carregadas.

Diversos fidalgos pedem ao rei que se retire. Vencer era impossível, mas fácil ainda salvar-se pelo caminho de Arzila. D. Sebastião recusa. Atraídos pelo estandarte real, centenas de mouros de cavalo acometem-no de todos os lados. Fernando de Mascarenhas pergunta-lhe: «E agora, Senhor, que havemos de fazer com tanta multidão?» — «Fazer o que eu faço», responde o rei; e, como costumado ímpeto, rompe os inimigos, derrubando os mais próximos.

Na retaguarda, o terço de Diogo Lopes de Sequeira abandonara também os piques. Só o terço de Francisco de Távora combatia com uma coragem que honrava os soldados algarvios, em grande número alistados voluntariamente. A morte do seu heroico coronel deprimiu-lhes, porém, o ânimo e renderam-se.

Depois de quatro horas de luta, terminara a batalha. Apenas         D. Sebastião e um pequeno grupo de fidalgos seguiam combatendo. Nem a bandeira, nem o guião real, chamavam já a atenção dos mouros sobre o monarca; e talvez a esta circunstância devesse não ter sido ainda morto. Mas era um fim previsto. Cristóvão de Távora suplica-lhe que se renda. D. João de Portugal acrescenta: «Que pode haver aqui que fazer, senão morrermos todos?». Redarguiu D. Sebastião: «Morrer, sim, mas devagar». D. Nuno de Mascarenhas chegou a arvorar um lenço, na ponta da lança ou da espada. D. Sebastião, porém, não se rendeu; e travando-se combate, foram mortos o conde de Vimioso, Cristóvão de Távora e alguns fronteiros de Tânger. Os restantes ficaram prisioneiros. Mais adiante, foi o soberano português cercado por um grupo de alarves que o mataram, com profundos golpes na cabeça e algumas arcabuzadas no tronco.

Mulei Moâmede pretendeu salvar-se, atravessando o Mocazim. A maré começava, porém, a descer rapidamente. O cavalo meteu uma das mãos pela rédea e voltou-se, despedindo o cavaleiro, que morreu afogado.

Nunca, na Berberia, houvera batalha mais sangrenta: cinco a seis mil mouros e sete a oito mil cristãos mortos, com milhares de prisioneiros de várias nacionalidades e de todas as categorias e classes, entre eles muitos centenares de mulheres e de crianças. Portugal ficou arruinado. As despesas da expedição e depois o resgate dos prisioneiros levaram as últimas economias. A falta de braços para o amanho das terras era enorme. As consequências políticas da derrota foram, porém, ainda mais terríveis: a perda da independência. Tudo isto torna esta batalha uma das mais notáveis da História Universal.

O corpo de D. Sebastião foi encontrado no dia seguinte, completamente nu e coberto de profundos ferimentos. O calor do deserto provocara-lhe já um avançado grau de putrefação. Mulei Amede mandou que o reconhecessem vários nobres aprisionados, entre os quais D. Duarte de Meneses, António de Azevedo, D. António de Noronha, Belchior do Amaral, D. Constantino de Bragança, João Rodrigues de Sá, D. Jorge de Meneses, D. Nuno de Mascarenhas e outros.

Foi sepultado em Alcácer Quibir, em casa do alcaide Abraém Sufiane.

A Filipe II convinha que o cadáver do sobrinho viesse para Portugal, para contrariar a lenda sebastianista, que começava a formar-se e que excluía a realidade da morte de D. Sebastião.

Acedeu Mulei Amede ao pedido do rei católico a que se juntou outro do cardeal-rei D. Henrique, que ofereceu sessenta mil cruzados pelos despojos do seu antecessor. O xerife recusou o resgate, mandou que se procedesse à exumação (novembro de 1578), vindo o cadáver a ser entregue ao mercador genovês André Gaspar Corvo, agente de Filipe II, e ao religioso trinitário Frei Roque do Espírito Santo, que o levaram a Ceuta. Recebeu sepultura na capela-mor do mosteiro da Trindade daquela cidade.

Só em 1582 Filipe II o mandou trazer para Lisboa, sendo então sepultado no mosteiro dos Jerónimos.

Foi trasladado a ocultas para o túmulo definitivo que lhe fez construir D. Pedro II em 1682.

O povo, onde mais se difundiu a lenda do Encoberto, nunca acreditou que ali estivesse o corpo do rei. E é o que ressalta do célebre epitáfio que lhe puseram:

 

CONDITVR HOC TVMVLO SI VERA EST FAMA SEBASTVS

QUEM TVLIT IN LIBICIS MORS PROPERATA PLAGIS

NEC DICAS FALLI REGEM QVI VIVERE CREDIT

PROLEGE EXTINCTO MORS QVASI VITA FVIT

 

Afonso Lopes Vieira traduziu livremente a famosa legenda:

 

Se é vera a fama, aqui jaz Sebastião,

Vida nas plagas de África ceifada.

Não duvideis de que ele é vivo, não!

A Morte deu-lhe vida ilimitada.

(Em Demanda do Graal, 386)

 D. Sebastião foi o último dos nossos reis cantado por Camões, que dele foi contemporâneo. Não tem justificação a lenda de que o poeta tivesse lido Os Lusíadas diante dele. Bem ao contrário, de alguns versos se depreende que dele não era conhecido. E por exemplo:

 

Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,

De vós não conhecido nem sonhado?

 

Se o poeta tivesse lido o poema antes de publicado perante o rei (e depois de publicado já seria mais difícil de admitir o facto) teria certamente modificado a estrofe, pela substituição destes versos.

Refere-se-lhe, todavia, mais de uma vez, desde a dedicatória do início do poema, até aos conselhos que no fim dele lhe dirige. Não é preciso dizer que o faz em estilo grandiloquente, e com as hipérboles da convenção. O rei é para ele a bem nascida segurança / Da lusitana antiga liberdade, / E não menos certíssima esperança / De aumento da pequena cristandade. Ele é ainda o temor da maura lança, a unânime esperança de que seja um dia jugo e vitupério / Do torpe Ismaelita cavaleiro, / Do Turco oriental e do Gentio / Que ainda bebe o licor do santo rio. Mais adiante, sempre no mesmo tom de sonora exaltação, assim lhe fala:

 

E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,

Sublime rei, que não me atrevo a tanto,          

Tomai as rédeas vós do Reino vosso:

Dareis matéria a nunca ouvido canto.

Comecem a sentir o peso grosso         

(Que polo mundo todo faça espanto)

De exércitos e feitos singulares

De África as terras as do Oriente os mares.

 

Em vós os olhos tem o mouro frio;

Em quem vê seu exício afigurado;

Só com vos ver, o bárbaro Gentio

Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;

Tétis todo o cerúleo senhorio

Tem pera vós por dote aparelhado,

Que, afeiçoada ao gesto belo e tenro,

Deseja de comprovar-vos pera genro.

I, 15-16

 

Nestas estrofes e ainda nas duas últimas do poema em que o autor, depois de dar os conselhos da sua experiência ao rei, supõe a hipótese de empresa digna de ser cantada segundo a mente vaticina / Olhando a sua inclinação divina, acrescenta:

 

Ou fazendo que mais que a Medusa

A vista vossa tema o monte Atlante;

 

Ou rompendo nos campos de Ampelusa

Os muros de Marrocos e Trudante…,

 

têm visto alguns críticos em Camões um defensor da política africanista de D. Sebastião ou seja um dos que levaram o rei ao desastre de Alcácer Quibir...

É evidente que, ainda que o poeta apoiasse o desvio para Marrocos dos esforços realizados no Oriente, onde se estava desmoronando o império construído por Albuquerque e diminuindo a energia que o mantinha, não se lhe poderiam atribuir as responsabilidades no modo como foi organizada e executada a empresa de tal conquista. Depois, se a última estrofe apenas se refere à conquista marroquina, a verdade é que todas as outras são suscitadas pelo anseio da dilatação da Lei da vida eterna através do mundo africano como do mundo oriental. Fala o poeta das terras de África, tanto como dos mares do Oriente; do Mouro frio tanto como do Pagão oriental / Que ainda bebe o licor do santo rio.

Onde, todavia, Camões de modo mais impressionante nos fala de D. Sebastião é nas estrofes com que se lhe refere no canto IX. Segundo a ficção do poeta, quando Vénus pensa em compensar os navegantes fazendo-lhes surgir no meio do mar, no regresso à pátria, a Ilha dos Amores, onde eles encontram todas as compensações do esforço heroico da conquista e do descobrimento — prazeres dos sentidos, anelos de ambição, satisfações da curiosidade intelectual — resolve ir procurar seu filho — Cupido — para que a auxilie na realização da empresa. Cupido anda caçando pelos idálios montes, empenhado numa expedição contra o mundo revelde, Porque emende / Erros grandes que há dias (ou seja há tempos) nele estão. Entre os erros que aponta ocorre o de Actéon na caça tão austero / De cego na alegria bruta, insana, / Que por seguir um feio animal fero / Foge da gente e bela forma humana. Todos os críticos têm visto na invocação deste mito uma nítida alusão ao monarca português, também entusiasta da caça e desprezador da bela forma humana, pois se recusava a contrair matrimónio. A expressão — há dias — é que só impensadamente se tem aproveitado como prova da atualidade de objeto da censura, visto que de modo nenhum significa, como parece, há pouco tempo, mas há tempo indeterminado. Outras alusões parecem ser feitas a governadores e atos do governo desse momento histórico, e mais de um crítico julga ver uma alusão aos dois irmãos Câmaras naquela referência

 

àqueles que devem à pobreza

Amor divino e ao povo caridade

Amam somente mandos e riqueza,

Simulando justiça e integridade.

 

A alusão parece mais explícita nesta outra estrofe:

 

E vós outros que os nomes usurpais    

De mandados de Deus, como Tomé                            

 

Dizei : se sois mandados, como estais

Sem irdes a pregar a Santa Fé?

 

Mandados de Deus é o significado de Apóstolos e tal era a designação que se dava aos filhos de Santo Inácio.

Quatro versos adiante, o poeta resolve prudentemente mudar de assunto: Mas passo esta matéria perigosa... E tão perigosa, na verdade, que a edição de 1584, chamada dos Piscos, a eliminou do poema.

É preciso, todavia, atentar em que se a censura se refere aos irmãos Câmaras, como já no tempo de Camões, segundo Manuel Correia, foi julgado, não se estende à ordem a que um pertence como membro com todos os votos, outro como irmão secular. Porque dum jesuítaGonçalo da Silveiracelebra ele o martírio como missionário em Benomotapa, onde sofre morte e vitupério pola Fé Santa sua.

De qualquer modo, o que é certo é que de toda a evidência Camões atentou na realidade social, política e religiosa daquele tempo em que, no regresso à pátria, se sentava no trono de Portugal o rei que ele bem parece satirizar em Actéon. D. Sebastião aparece na Mensagem de Fernando Pessoa, como uma das «quinas» simbólicas. As outras são D. Duarte, D. Pedro, D. Fernando e D. João — os altos infantes — sem que se compreenda bem tão estranha associação:

 

Louco, sim, louco porque quis grandeza

Qual a sorte a não dá.

Não coube em mim minha certeza;     

Por isso onde a areal está                                           

Ficou um ser que houve, não o que há.                       

 

Minha loucura, outros que me a tomem

Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

 

Associação, afinal, de idealismos e de infelicidades... Mas D. Sebastião impressionou profundamente Fernando Pessoa e todo o estranho capítulo de «Os Símbolos» se impregna da lenda sebástica e do mito do Encoberto.

 

Sperai! caí no areal e na hora adversa

Que deus concede aos seus

Para o intervalo em que esteja a alma imersa            

Em sonhos que são Deus.                                            

Que importa o areal e a morte e a desventura

Se com Deus me guardei?

É O que me sonhei que eterno dura

É Esse que regressarei.

 

A notícia da morte de D. Sebastião e da perda do exército que o acompanhava foram golpes terríveis para o país. Desaparecera a mocidade do reino e com ela a esperança no futuro; as circunstâncias económicas eram desastrosas; o trono era ocupado por um velho valetudinário, sem esperanças de sucessão. Tudo concorria para adensar sobre o futuro da pátria as mais as mais pesadas nuvens, com os mais desfavoráveis presságios, que se confirmaram logo que morreu o cardeal D. Henrique e Filipe II entrou em Portugal.

Por outro lado, muita gente não acreditava na morte do rei nas plagas africanas e tinha fé no seu reaparecimento, que resolveria toda a complexa situação. Criou-se assim o mito do sebastianismo, e o ambiente favorável para o aparecimento de falsos monarcas, que em circunstâncias diversas encarnaram a personalidade do desaparecido D. Sebastião.

Foram quatro os mais conhecidos: dois, os primeiros, nasceram naturalmente da crença popular, foi o povo que os fez reis, sem que tivessem anteriormente o pensamento reservado da exploração de tal situação; os outros foram vítimas dos manejos ambiciosos. O primeiro foi o chamado rei de Penamacor, rapazote que vivia nas proximidades de Alcobaça. A sua influência não foi grande e os espanhóis limitaram-se a condená-lo a servir nas galés; incorporado na Invencível Armada conseguiu fugir para França. O segundo foi o rei da Ericeira, Mateus Álvares, que chegou a sublevar a gente da Ericeira e Mafra, e foi decapitado a 14-6‑1585. O terceiro foi o célebre Gabriel Espinosa, conhecido por Pasteleiro do Madrigal, que foi enforcado em 1595, com Fr. Miguel dos Santos. O último, o que deixou mais profundas impressões e também maiores dúvidas quanto à sua identidade, foi o aventureiro Marco Túlio Catizóni, igualmente enforcado em 23-9‑1603.


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