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Disparates do Mundo (1.º capítulo)

 
I PARTE: O HOMEM FOI PRIVADO DA SUA HABITAÇÃO

 

I. O ERRO DO ESTILO MEDICINAL

 

 

As obras contemporâneas de investigação sociológica têm um formato bem definido. Regra geral, começam por apresentar uma análise, acompanhada de estatísticas, tabelas da população, a diminuição da criminalidade nas comunidades de congregacionalistas, o aumento da histeria entre os polícias, e outros factos do mesmo calibre; e concluem com um capítulo que tem geralmente o título de «Remédios». Ora, é quase inteiramente devido a este método cuidadoso, sólido e científico que nunca é possível identificar os «Remédios». Porque este esquema de investigação de estilo medicinal é um disparate; é o primeiro grande disparate da sociologia. Chama-se a isto identificar a doença antes de propor a terapia; acontece porém que, em razão da própria definição e dignidade do homem, nas questões sociais, temos de propor a terapia antes de identificarmos a doença.

A falácia é uma das cinquenta que resultam da fúria moderna pelas metáforas biológicas ou corpóreas. Dá tanto jeito falar do Organismo Social como falar do Leão Britânico[1]; acontece que a Grã-Bretanha não é, nem um organismo, nem é um leão. A partir do momento em que começamos a conferir à nação a unidade e a simplicidade de um animal, começamos a sair dos carretos; não é pelo facto de os homens serem bípedes que cinquenta homens são uma centopeia. Foi isto que deu origem, por exemplo, ao hiante absurdo que consiste em se falar constantemente em «nações jovens» e «nações moribundas», como se uma nação tivesse um tempo de vida fixo e físico. Assim, há quem diga que a Espanha entrou num período de declínio senil – que é como quem diz que começaram a cair os dentes à Espanha; ou que o Canadá não tarda a produzir uma literatura – que é o mesmo que dizer que, um dia destes, o Canadá vai deixar crescer o bigode. As nações são constituídas por pessoas; e pode muito bem acontecer que a primeira geração de uma nação seja decrépita e a décima milésima extremamente vigorosa. É esta mesma falácia que cometem aqueles que vêem na ampliação dos territórios nacionais um simples aumento em sabedoria e estatura, e um acréscimo nos favores de Deus e dos homens. Com efeito, estas pessoas nem chegam a alcançar a subtileza da comparação com o corpo humano; pois não querem saber se o império estará a crescer em altura como um adolescente ou apenas a engordar como um velho. Contudo, o pior caso dos erros que resultam desta moda das comparações físicas é aquele de que estamos a falar: o hábito de descrever exaustivamente um problema social, propondo a seguir um medicamento social para o mesmo.

Ora bem, é um facto que, nos casos de quebra física, começamos por falar da doença. Mas temos uma excelente razão para o fazer; com efeito, embora possamos ter dúvidas sobre a forma como se deu a referida quebra física, não temos dúvida nenhuma sobre a forma da correspondente recuperação. Médico nenhum se lembra de propor um novo tipo de homem, com uma nova disposição dos olhos ou dos braços. É certo que, por razões imperiosas, o hospital poderá mandar um homem para casa com uma perna a menos; mas não lhe ocorre (num arroubo de criatividade) enviar o mesmo homem para casa com uma perna a mais. A medicina contenta-se com o corpo humano normal, e a única coisa que lhe interessa é restabelecê-lo.

Mas as ciências sociais estão longe de se contentar com a alma humana normal; elas têm à venda uma série de almas imaginárias. Assim, o idealista dirá: «Estou farto de ser puritano; a partir de agora, vou ser pagão»; ou então: «Do lado de lá deste negro período de individualismo, avisto o luminoso paraíso do colectivismo.» Ora, nos males do corpo não encontramos este género de discordâncias relativamente ao ideal; o paciente poderá não querer tomar quinino, mas quer de certeza recuperar a saúde. Ninguém se lembra de dizer: «Estou farto desta dor de cabeça; dêem-me uma dor de dentes»; ou então: «O único remédio para esta gripe russa é um sarampo alemão»; ou ainda: «Do lado de lá deste negro período de catarro, avisto o luminoso paraíso do reumatismo.» Pelo contrário, a grande dificuldade dos nossos problemas públicos reside no facto de algumas pessoas pretenderem recorrer a remédios que, para outras pessoas, são males ainda maiores; proporem como estados de saúde situações que outros designariam decididamente por estados de doença. O Sr. Belloc[2] observou certa vez que a ideia de propriedade lhe era tão cara como os dentes que tinha na boca; já para o Sr. Bernard Shaw, a propriedade não é um dente, mas uma dor de dentes. Lord Milner[3] tentou sinceramente introduzir a eficácia germânica neste país; muitos de nós, porém, preferíamos o sarampo alemão. O Dr. Saleeby[4] gostaria honestamente de contrair a eugenia; por mim, preferia contrair reumatismo.

E este é o facto mais notório e o facto dominante da moderna discussão das questões sociais: o facto de a controvérsia não dizer respeito apenas às dificuldades, mas também aos objectivos. Estamos todos de acordo acerca do mal; é relativamente à definição do bem que estamos dispostos a arrancar os olhos uns aos outros. Todos reconhecemos que uma aristocracia indolente é um mal; mas estamos longe de afirmar unanimemente que uma aristocracia activa seria um bem. Todos nos sentimos irritados com os sacerdotes ímpios; mas alguns de nós sentiríamos profunda aversão se deparássemos com um sacerdote verdadeiramente pio. Toda a gente se indigna com a circunstância de termos um exército fraco, incluindo as pessoas que se indignariam ainda mais se o nosso exército fosse forte. A questão da sociedade é exactamente o oposto da questão da saúde. Diversamente dos médicos, nós não estamos em desacordo acerca da natureza da doença, concordando embora acerca da natureza da saúde; pelo contrário, todos nós concordamos que a Inglaterra está doente, mas aquilo a que metade de nós chamaria um estado de saúde pujante do nosso país repugnaria à outra metade. Os insultos públicos são de tal maneira proeminentes e pestilentos, que arrastam as almas generosas numa unanimidade fictícia; esquecemos que, embora estejamos de acordo quanto aos insultos, discordamos profundamente em matéria de elogios. O Sr. Cadbury e eu não temos dificuldade em concordar sobre o que é um pub inaceitável; mas teríamos uma lamentável altercação se nos encontrássemos diante de um pub aceitável.

Defendo, pois, que o método sociológico habitual – começar por dissecar a pobreza abjecta ou por catalogar a prostituição – é perfeitamente inútil. Ninguém aprecia a pobreza abjecta; o problema surge quando começamos a discutir a pobreza independente e digna. Ninguém aprecia a prostituição; mas nem todos gostamos da pureza. A única maneira de discutirmos os males sociais é passarmos imediatamente ao ideal social. Todos conseguimos identificar a loucura nacional; mas o que é a sanidade nacional? Dei a este livro o título de Disparates do mundo, e não é difícil identificar o conteúdo do mesmo. Pois o grande despropósito do mundo consiste em não perguntarmos qual é o propósito.


 

II. PRECISA-SE: UM HOMEM QUE NÃO SEJA PRAGMÁTICO

 

 

Há uma piada filosófica muito conhecida que pretende tipificar a inutilidade das intermináveis discussões dos filósofos; refiro-me à piada que consiste em perguntar o que nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha. Não estou certo de que, adequadamente respondida, se trate de uma pergunta tão fútil como parece. Mas não me interessa agora entrar num daqueles profundos debates metafísicos e teológicos do género da discussão sobre o ovo e a galinha – que é um exemplo frívolo mas muito adequado dos mesmos. Os materialistas evolutivos são adequadamente representados na visão de que todas as coisas têm a sua origem num ovo, num gérmen oval impreciso e monstruoso, que se pôs a si próprio por acidente. A outra escola de pensamento, a escola sobrenatural à qual eu próprio adiro, poderá ser tipificada pela tese de que este mundo redondo que habitamos mais não é do que um ovo chocado por uma ave sagrada e não gerada, a pomba mística dos profetas. Mas é para funções bastante mais humildes que faço aqui apelo ao tremendo poder desta distinção. Esteja ou não no começo da nossa cadeia mental, é absolutamente necessário que a ave se encontre no termo da referida cadeia. A ave é aquilo para que se aponta – não com uma arma, mas com uma varinha que dá vida. O que é essencial a um raciocínio correcto é não considerar que o ovo e a ave são idênticas ocorrências cósmicas, que recorrem eternamente de forma alternada; que são um simples padrão fixo. Pois um é o meio e o outro o fim; e pertencem a mundos mentais distintos. Esquecendo por agora as complicações do pequeno-almoço, em sentido elementar, o ovo só existe para produzir a galinha; mas a galinha não existe apenas para produzir mais um ovo – também pode existir para se divertir, para louvar a Deus, ou até para dar ideias a um dramaturgo francês. Sendo uma vida consciente, a galinha tem, ou pode ter, valor em si mesma. Ora, a política moderna é prenhe num esquecimento ruidoso: o esquecimento de que o objectivo de todas as complexidades e de todos os compromissos é precisamente a produção desta vida feliz e consciente. Estamos constantemente a falar de homens úteis e de instituições funcionais; ou seja, a única coisa que nos interessa nas galinhas é o facto de serem capazes de pôr ovos. Em vez de tentarmos produzir uma ave ideal – a águia de Zeus, o Cisne de Avon[5], ou o que cada um preferir –, limitamo-nos a falar do processo e do embrião. Ora, o processo em si mesmo, divorciado do seu objectivo divino, torna-se duvidoso e até mórbido: o veneno pode entrar em qualquer embrião, e a nossa política está cheia de ovos podres.

O idealismo consiste apenas em considerar todas as coisas do ponto de vista da respectiva essência prática. O idealismo significa apenas que temos de olhar para um atiçador como um instrumento destinado a atiçar, antes de discutirmos a sua utilidade como arma para espancar as mulheres; que temos de perguntar se um ovo serve para a criação de aves antes de decidirmos que não serve para a gestão política. Mas sei perfeitamente que este interesse de base nas questões teóricas (que mais não é do que a busca do fim) expõe uma pessoa à acusação barata de perder tempo a tocar harpa enquanto Roma está a arder. Há uma escola – de que Lord Rosebery[6] é lídimo representante – que tem procurado substituir os ideais morais e sociais que foram até agora a motivação da acção política por uma coerência ou completude geral do sistema social, que foi apelidada de «eficácia». Não estou bem certo de qual é a doutrina secreta desta seita na matéria; mas, tanto quanto consigo compreendê-la, a «eficácia» significa que temos de saber tudo acerca de uma máquina, excepto aquilo para que ela serve. Surgiu no nosso tempo uma moda muito peculiar: a ideia de que, quando as coisas estão a correr muito mal, do que nós precisamos é de um homem pragmático. Ora, é bastante mais correcto afirmar que, quando as coisas estão a correr muito mal, do que nós precisamos é de um homem que não seja pragmático; precisamos, pelo menos, de um teórico. Um homem pragmático é um homem que só conhece a prática do dia-a-dia, o modo como as coisas habitualmente funcionam. Quando as coisas não funcionam, temos de recorrer ao pensador, ao homem que tem algum conhecimento da razão pela qual elas funcionam. É má ideia tocar harpa enquanto Roma está a arder; mas é uma excelente ideia estudar hidráulica enquanto Roma está a arder.

Nessa altura, é necessário abandonar o agnosticismo diário e procurar rerum cognoscere causas. Quando um aeroplano tem uma leve indisposição, é natural que um habilidoso consiga repará-lo; mas quando se trata de uma doença grave, é bastante mais provável que seja necessário ir buscar um velho mestre distraído e de cabelos no ar a uma universidade ou a um laboratório, e pedir-lhe que analise o defeito. E, quanto mais complicado for o problema, mais distraído será o teórico capaz de lidar com ele, e mais cabelos brancos terá; em alguns casos, é muito possível que seja necessário recorrer aos serviços do homem (provavelmente louco) que inventou a nave para saber o que ela tem. A «eficácia» é fútil pela mesma razão por que os homens fortes, a vontade de poder e o super-homem são fúteis: porque só lidam com as acções depois de elas terem sido feitas, porque não possuem uma filosofia dos incidentes antes de eles acontecerem; por essa razão, não têm hipótese de escolha. Um acto só pode ser bem ou mal sucedido depois de ter sido concluído; para ser iniciado, tem de ser bom ou mau em abstracto. Ninguém apoia um vencedor; porque, enquanto está ele a ser apoiado, não é vencedor. Ninguém luta do lado dos vencedores; luta-se para se ver quem serão os vencedores. Se uma operação teve lugar, tal operação foi eficaz. Se um homem foi assassinado, o assassínio foi eficaz. Um sol tropical é tão eficaz na promoção da moleza nas pessoas como um capataz do Lancashire na promoção da produtividade. Maeterlinck[7] é tão eficaz a encher um homem de estranhos tremores espirituais como os Srs. Crosse e Blackwell[8] a encherem-no de compota. Mas tudo depende daquilo de que a pessoa quer a encham. Sendo um céptico moderno, é bem provável que Lord Rosebery prefira os tremores espirituais; sendo cristão ortodoxo, eu prefiro a compota. Mas ambos são eficientes depois de terem produzido o seu efeito; e não são eficientes enquanto não o tiverem produzido. Um homem que se dedique muito a pensar no sucesso acabará por ser um sentimentalão indolente, porque estará sempre a olhar para o passado. Se apenas lhe interessa a vitória, chegará sempre atrasado ao campo de batalha. Ao homem de acção apenas interessa o idealismo.

No contexto das dificuldades pelas quais a Inglaterra passa hoje, esta definição do ideal é uma questão muito mais premente e muito mais prática do que quaisquer planos ou propostas imediatas. Porque o actual caos deve-se ao esquecimento geral daquilo que era o objectivo inicial dos homens. Um homem não exige aquilo que quer, mas aquilo que lhe parece que pode conseguir; as pessoas não tardam a esquecer-se do que ele inicialmente queria e, após uma carreira política vigorosa e bem sucedida, ele próprio se esquece do que queria. O resultado é um extravagante tumulto de soluções de compromisso, um pandemónio de pis-aller. Ora, este género de versatilidade não impede apenas a consistência heróica, impede também um verdadeiro acordo prático. Uma pessoa só consegue identificar a meia distância entre dois pontos se estes dois pontos estiverem imóveis; podemos chegar a um acordo entre dois litigantes que não conseguem alcançar o que desejam, mas só poderemos chegar a esse acordo se eles nos disserem o que desejam. O dono de um restaurante prefere certamente que os seus clientes lhe digam claramente o que querem comer – ainda que seja guisado de íbis ou bifes de elefante – do que se deixem ficar sentados à mesa com a cabeça apoiada nas mãos, entretidos a calcular a quantidade de comida que haverá dentro do restaurante. Quase todos tivemos já de sofrer a presença daquelas senhoras que, devido a um altruísmo perverso, dão mais trabalho que qualquer egoísta: que solicitam insistentemente a parte do frango de que ninguém gosta e atropelam toda a gente para se sentarem na cadeira mais incómoda. Quase todos participámos em festas e excursões onde fervilhava este género de modéstia. É por razões bastante mais básicas que as destas mulheres admiráveis que os nossos políticos – que são homens pragmáticos – mantêm as coisas no mesmo estado de confusão, devido ao mesmo tipo de dúvida sobre as suas reais necessidades. Nada contribui tanto para evitar um acordo como um emaranhado de pequenas rendições. Sentimo-nos desorientados com tantos políticos que se mostram favoráveis a um sistema educativo secularizado, mas que consideram inútil lutar por ele; que desejam impor a total proibição do consumo de bebidas alcoólicas, mas têm a certeza de que não devem exigi-la; que lamentam o ensino obrigatório, mas o mantêm com resignação; e que acham que a lei devia abrir a posse da terra aos camponeses, pelo que votam no contrário. É este oportunismo atordoado e confuso que impede que as coisas se façam. Se os nossos estadistas fossem visionários, talvez se conseguisse fazer alguma coisa na prática; se exigirmos alguma coisa em abstracto, talvez consigamos alguma coisa em concreto. Mas, tal como as coisas estão, não só se torna impossível conseguirmos o que queremos, como se torna impossível conseguirmos sequer uma parte disso, porque ninguém consegue assinalar o que queremos como que num mapa. Desapareceu por completo aquele estilo preciso, duro até, que presidia às negociações. Esquecemo-nos de que, para chegar a uma solução «de compromisso», temos, entre outras coisas, de tomar essa atitude rígida e sonora que consiste em nos «comprometermos». A moderação não é uma coisa vaga; é tão definida como a perfeição. O ponto intermédio é tão fixo como os extremos.

Se um pirata me obrigar a avançar por uma prancha que termina num mergulho em alto mar, é em vão que me propõe, como solução de compromisso, que eu percorra apenas uma distância razoável. Pois é precisamente acerca da extensão de tal distância razoável que o pirata e eu discordamos. Com efeito, a prancha termina num ponto preciso; ora, o que é razoável para mim é deter-me aquém desse ponto, enquanto o que é razoável para o pirata é que eu avance para além dele. Mas esse ponto é de uma extraordinária precisão geométrica; e é tão abstracto como um dogma teológico.


 

III. OS NOVOS HIPÓCRITAS

 

 

Mas esta nebulosa cobardia política recente tornou inútil a velha prática inglesa da solução de compromisso. As pessoas começaram a sentir-se aterrorizadas com todo o tipo de melhoramentos, pelo simples facto de serem completos. A circunstância de uma pessoa conseguir o que quer, ou de se levar alguma coisa a cabo, parece-lhes utópica e revolucionária. Antigamente, uma solução de compromisso significava que meio pão era preferível a pão nenhum; para o estadista moderno, uma solução de compromisso significa que, no fundo, meio pão é preferível ao pão todo.

Como exemplo para precisar a discussão, refiro o caso das nossas eternas leis educativas. A verdade é que conseguimos inventar um novo género de hipócrita. Os hipócritas de outros tempos, como Tartufo e Pecksniff[9], eram homens cujos objectivos eram na realidade mundanos e pragmáticos, embora eles quisessem fazê-los passar por religiosos; os novos hipócritas são homens cujos objectivos são na realidade religiosos, embora eles queiram fazê-los passar por mundanos e pragmáticos. Assim, o reverendo Brown, ministro metodista, declara firmemente que os credos não lhe interessam, e que só lhe importa a educação, quando a verdade é que tem a alma repleta de um radical metodismo. Por sua vez, o reverendo Smith da Igreja de Inglaterra explica graciosamente, e à maneira de Oxford, que a única coisa que lhe interessa é a prosperidade e a eficácia das escolas, quando a verdade é que alberga dentro dele uma violenta paixão pela paróquia. Em minha opinião, estes reverendos cavalheiros têm má opinião sobre si próprios; em minha opinião, são mais piedosos do que julgam. Ao contrário do que muitos pensam, eles não eliminam a teologia por ser um erro; limitam-se a ocultá-la como se fosse um pecado. Na realidade, o Dr. Clifford tem tanto interesse na criação de um ambiente teológico como Lord Halifax; a única diferença é que o ambiente que lhe interessa é outro. Se o Dr. Clifford solicitasse, muito simplesmente, a instauração do puritanismo e Lord Halifax a do catolicismo, talvez conseguissem alguma coisa. Julgo que todos temos imaginação suficiente para reconhecer a dignidade de outra religião, como o islão ou o culto de Apolo. Eu estou perfeitamente disposto a respeitar a fé dos outros; mas é pedir muito exigirem-me que lhes respeite as dúvidas, as hesitações, as ficções mundanas, as invenções e as discussões políticas. A maior parte dos não conformistas[10] com sensibilidade para a história de Inglaterra é capaz de ver no arcebispo da Cantuária, enquanto tal, uma figura poética e nacional; só ficam irritados – e com razão – quando ele faz de racional estadista britânico. A maioria dos anglicanos que apreciam a coragem e a simplicidade está disposta a admirar o Dr. Clifford enquanto ministro da igreja baptista; é quando ele diz que é um simples cidadão que ninguém consegue acreditar nele.

Mas a situação é ainda mais curiosa. Pois o argumento que era usado a favor da imprecisão doutrinal era o de que pelo menos nos impedia de ser fanáticos. A verdade porém é que nem isso. Pelo contrário, tal imprecisão cria e renova o fanatismo, e com uma força que lhe é bastante peculiar. E isto é, a um tempo, tão estranho e tão verdadeiro, que solicito ao leitor um pouco mais de atenção ao caso.

Há pessoas que não apreciam a palavra «dogma». Felizmente, essas pessoas são livres e têm alternativas. Há duas coisas, e duas coisas apenas, capazes de ocupar o espírito humano: o dogma e o preconceito. A Idade Média era um período racional, um período doutrinário; a nossa época é, na melhor das hipóteses, uma época poética, uma época de preconceitos. Uma doutrina é um ponto definido; um preconceito é uma orientação. Dizer que se podem comer vacas mas não se podem comer pessoas é uma afirmação doutrinal. Dizer que se deve comer o mínimo possível seja do que for é um preconceito; a que por vezes também se chama ideal. Ora, uma orientação é sempre muito mais excêntrica que um plano. Eu prefiro que me dêem um mapa, por muito arcaico que seja, da estrada para Brighton, do que me recomendem genericamente que volte à esquerda. As linhas rectas, se não forem paralelas, acabam por se encontrar; já as curvas podem recuar interminavelmente. Um par de namorados pode passear ao longo da fronteira entre a França e a Alemanha, um do lado e outro do outro, enquanto não lhes ordenarem vagamente que não se aproximem um do outro. E este exemplo é uma parábola que descreve com grande rigor a forma como as indicações vagas distanciam e separam os homens, como se os mergulhassem numa espessa neblina.

É verdade que um credo une os homens; mas uma diferença de credo também os une, desde que seja uma diferença clara. Os limites unem os homens. É bem provável que um muçulmano magnânimo e um cavaleiro cruzado se sentissem mais próximos um do outro, pelo facto de ambos aderirem a dogmas, do que quaisquer dois agnósticos apátridas que se sentam nos bancos da capela do Sr. Campbell. «Eu afirmo que Deus é Uno» e «Eu afirmo que Deus é Uno mas também é Trino» pode ser o começo de uma bela e conflituosa amizade. Mas o nosso tempo transforma estas convicções em tendências, recomendando ao defensor da Trindade que opte pela multiplicidade enquanto tal (dado que tem essa «inclinação»), e este acaba por inventar uma Trindade de trezentas e trinta e três pessoas. Entretanto, transforma o muçulmano num monista, o que constitui uma temível queda intelectual, e obriga essa pessoa, que era sã de mente, a admitir, não só que há um só Deus, mas que não há mais ninguém. E, depois de cada um deles ter passado um longo período a seguir o brilho do próprio nariz (como o Dong[11]), voltam à cena, o cristão como politeísta e o muçulmano como panegoísta, ambos loucos e muito mais incapazes de se compreenderem mutuamente do que quando se conheceram.

É precisamente isto que se passa no campo político. A nossa imprecisão política não aproxima os homens, divide-os. Quando o céu está limpo, um homem não tem dificuldade em caminhar à beira de um precipício; mas quando está nevoeiro nem sequer se abeira dele. Assim, um conservador poderá aproximar-se do socialismo se souber o que este é; mas, se lhe disserem que o socialismo é um espírito, uma atmosfera sublime, uma nobre e indefinível tendência, nesse caso, mantém-se à distância, e faz muito bem. A uma afirmação pode-se responder com um argumento; mas a uma tendência só se pode responder com uma saudável intolerância. Disseram-me que o método de luta corpo-a-corpo dos japoneses não consiste em atacar subitamente, mas em ceder subitamente. Esta é uma das muitas razões que me levam a não gostar da civilização japonesa; usar a rendição como arma é uma das piores componentes do espírito do Oriente. Não há certamente força alguma tão difícil de combater como a força que é fácil de conquistar: a força que cede e depois regressa. Tal é a força de um grande preconceito impessoal, a força que possui o mundo moderno em tantos domínios. E contra esta força não há arma possível, à excepção de uma rígida sanidade de aço, da decisão de não prestar atenção a modas e de não se deixar infectar por doenças.

Em suma, a fé humana racional tem de se armar de preconceitos num tempo de preconceitos, da mesma maneira que se armou de lógica num tempo de lógica. Mas a diferença entre estes dois métodos mentais é profunda e inequívoca. E o essencial desta diferença é o seguinte: os preconceitos são divergentes, enquanto os credos estão sempre em colisão. Os crentes chocam uns com os outros, enquanto os preconceituosos se afastam uns dos outros. Um credo é uma coisa colectiva, e até os pecados correspondentes são sociáveis. Um preconceito é uma coisa privada, e até a correspondente tolerância é misantrópica. É o que se passa com as divisões que nos separam: não se cruzam. O jornal dos conservadores e o jornal dos radicais não respondem um ao outro: ignoram-se um ao outro. A controvérsia genuína, uma controvérsia séria mantida na presença de um público comum, tornou-se hoje uma coisa muito rara. Porque o homem que a ela se dedica com sinceridade é acima de tudo um bom ouvinte. O verdadeiro entusiasta nunca interrompe: ouve os argumentos do inimigo com a mesma atenção com que um espião ouve as combinações do inimigo. Mas, se o leitor tentar manter uma discussão com um jornal que defenda ideias políticas contrárias às suas, verificará que não há meio termo entre a violência e a fuga; que a única resposta que recebe são insultos ou silêncios. O moderno director está proibido de ter aquele ouvido atento que acompanha a língua honesta. Pode ser surdo e silencioso – e a isso chama-se dignidade; ou ser surdo e ruidoso – e a isso chama-se jornalismo contundente. Em nenhum destes casos há controvérsia; porque o objectivo dos actuais combatentes partidários é disparar de fora do alcance do tiro.

O único remédio lógico para tudo isto é a afirmação de um ideal humano. Ao tratar deste assunto, vou esforçar-me por ser o menos transcendental e o mais consistente com a razão que puder; bastará dizer que, a não ser que disponhamos de uma doutrina sobre um homem divino, todos os abusos serão desculpáveis, dado que a evolução pode transformá-los em usos. O cientista plutocrata não terá dificuldade nenhuma em defender que a humanidade se adaptará a quaisquer condições que nesta altura consideramos perversas. Os tiranos antigos invocavam o passado; os novos tiranos invocarão o futuro. A evolução produziu o caracol e o mocho; a evolução também será capaz de produzir um operário que precisa de tão pouco espaço como um caracol e de tão pouca luz como um mocho. O empregador já não se incomodará em mandar o negro trabalhar para baixo da terra, porque o negro não tardará em se transformar num animal subterrâneo, como por exemplo uma toupeira. Já não se incomodará em mandar o mergulhador conter a respiração no fundo do mar, porque o mergulhador não tardará em se transformar num animal das profundezas marinhas. Os homens não precisam de se incomodar a alterar as condições do meio, porque as condições do meio não tardarão em alterar os homens. Pode-se bater na cabeça até ela ficar reduzida ao tamanho do chapéu. Não é preciso quebrar os grilhões do escravo; basta quebrar o escravo até ele se esquecer dos grilhões. A única reacção adequada a toda esta plausível argumentação moderna em favor da opressão é que há um ideal humano permanente, que não pode ser baralhado nem destruído. O homem mais importante do mundo é o homem perfeito que não existe. A religião cristã exprimiu de forma contundente a radical sanidade do Homem, diz a Escritura, que julgará a verdade encarnada e humana. A nossa vida e as nossas leis não são julgadas pela superioridade divina, mas apenas pela perfeição humana. A medida é o homem, diz Aristóteles; e será o Filho do Homem, diz a Escritura, a julgar os vivos e os mortos.

Assim, pois, não é a doutrina que causa dissensões; pelo contrário, só a doutrina pode curar as nossas dissensões. Mas é preciso saber, ainda que em termos aproximados, que forma abstracta e ideal de Estado e de família saciará a fome humana; e isto, independentemente de sermos ou não capazes de a alcançar por completo. Mas, quando nos pomos a perguntar quais são as necessidades do homem normal, qual é o desejo de todas as nações, o que é a casa ideal, ou a estrada ideal, ou a legislação, ou a república, ou a realeza ou o sacerdócio ideal, somos confrontados com uma estranha e irritante dificuldade, que é peculiar ao nosso tempo; temos portanto de fazer aqui uma paragem temporária, a fim de analisarmos esse obstáculo.

 


[1] O leão é um dos símbolos heráldicos da Grã-Bretanha.

As notas a este texto são da tradutora, e visam esclarecer, entre as muitas referências que Chesterton vai fazendo, aquelas que serão menos familiares ao leitor contemporâneo.

[2] Hilaire Belloc (1870-1953), escritor e polemista católico inglês, que também foi amigo de Chesterton; os dois apologetas constituíram uma dupla que ficou conhecida pela humorística designação de Chesterbelloc.

[3] Alfred Milner (1854-1925), aristocrata e político britânico de relevo.

[4] Caleb Williams Saleeby (1878-1940), médico, escritor e jornalista inglês, defensor apaixonado da eugenia.

[5] Designação dada pelo dramaturgo inglês Ben Jonson a William Shakespeare.

[6] Archibald Primrose (1847-1929), conde de Rosebery, político inglês que ocupou vários cargos no final do século XIX, entre eles o de primeiro-ministro. Lord Rosebery casar-se-ia com Hannah de Rothschild, a única filha e herdeira de toda a fortuna da família Rothschild.

[7] Maurice Maeterlinck (1862-1949), ensaísta e dramaturgo belga da corrente simbolista, que tratava frequentemente dos temas da morte e do sentido da vida. Para o final da sua carreira, escreveu várias obras de ciências naturais, entre elas La vie des abeilles (1901), a que Chesterton faz alusão mais aidante; foi acusado de plágio na sua produção científica.

[8] Marca de produtos alimentares, no mercado desde 1706, que em 1830 foi comprada por Edmund Crosse e Thomas Blackwell.

[9] Personagem de Martin Chuzzlewit, de Charles Dickens.

[10] Movimento religioso de protesto (não conformidade) com a Igreja de Inglaterra, surgido em meados do século XVII.

[11] Personagem de um poema absurdo de Edward Lear.

Era uma vez a Revolução (1.º capítulo)

Uma infância Tranquila

 

É apenas uma imagem fugaz, nem sei se verdadeira. É a imagem de um automóvel a descer a rua de São Lázaro em direcção ao Martim Moniz. O meu pai ia ao volante e, sentado ao lado, o meu avô. É a minha memória mais antiga e pode ter acontecido: o meu avô morava num casarão na rua da Palma e, como não conduzia, o meu pai costumava levá-lo a casa. Já lembrar-me da viagem é mais problemático: afinal, o meu avô morreu quando eu tinha apenas três anos de idade. Mas é possível.

A nossa memória é assim: há imagens que ficam e outras que passam. A maior parte passa. As que ficam é porque, de alguma forma, nos marcaram. Mesmo quando não sabemos porquê. Como este flash. Podia recordar-me de um abraço ou de um beijo do meu avô, pois certamente ele não deixou de os prodigalizar e não faltam velhas fotografias a recordá-lo. Podia lembrar-me de um qualquer outro passeio naquele imenso carro que encontro noutras fotografias, um Ford Zephyr que o meu pai ainda hoje insiste ter sido o melhor carro que possuiu, pelo menos o único de um modelo que ganhou o Rali de Monte Carlo (em 1953). Podia lembrar-me de outra qualquer rua de Lisboa que não a sombria rua de São Lázaro. Mas não: a minha mais antiga memória é apenas um fotograma solto de uma sequência que não deixou outro rasto. Chega, mesmo assim, para começar uma história.

Nasci em Lisboa em 1957. Sou lisboeta, filho de dois lisboetas, o que faz de mim um alfacinha, qualidade rara numa cidade onde quase todos – pelo menos na minha geração – eram de famílias de arribação recente. A minha, nessa altura, já cá estava há pelo menos duas gerações.

Esse meu avô de que guardo tão fugaz recordação foi o primeiro a chegar, ainda o século xx ia nos seus primeiros anos. Nascido numa aldeia da Beira Baixa, sobranceira ao Zêzere, terra pobre que ainda hoje é pobre, foi o primeiro da família a rumar a Lisboa, ainda muito novo. Chegou para servir como marçano num estabelecimento da rua do Benformoso, ali coladinha ao actual Martim Moniz. Trabalhador e empreendedor, passaria de empregado a patrão, abriria estabelecimentos de comércio de carnes nos velhos mercados da capital – como o da Praça da Figueira, demolido em 1949 –, chamaria os irmãos à cidade, dando-lhes sociedade, experimentaria outras actividades comerciais, investiria, como era normal na época, em «prédios de rendimento», isto é, em edifícios para arrendar.

O meu pai, filho único do casamento com a senhora minha avó, ela também vinda da Beira, mas de Vouzela, distrito de Viseu, nasceu em 1931. Viveu até se casar no tal casarão da rua da Palma, com vista para a encosta da Mouraria, e ainda gosta de recordar as corridas que fazia, miúdo, calçada de Santo André acima em direcção ao Liceu Gil Vicente, então instalado nos claustros do Mosteiro de São Vicente. Mais tarde, quando trocou o liceu pela Faculdade de Ciências de Lisboa, então instalada no edifício da rua da Escola Politécnica, teve direito a deslocar-se de automóvel – o tal Ford Zephyr –, sinal raro de prosperidade numa cidade soturna e pobre como era Lisboa na década de 1950. Na Alameda das Palmeiras poucos eram os carros estacionados, pois raros professores os pos­suíam e, entre os alunos, nem uma mão-cheia chegava motorizada à universidade.

A história da família da minha mãe é quase um negativo da do meu pai. Se uma reflecte a ascensão social de quem vem do interior para a grande cidade, a outra espelha as dificuldades de quem vai ficando no ramo menos favorecido de famílias com vidas desafogadas. A minha avó era a filha mais nova de três irmãos nascidos numa família que, reza a lenda doméstica, terá sido em tempos dona de boa parte do que é hoje o Barreiro antigo. A casa onde nasceu ainda existe e, apesar da nova avenida marginal, baptizada Bento Gonçalves, é possível imaginar como antes abria para uma praia fluvial para onde, em criança, a minha avó fugia com os irmãos, escapando-se pelo portão do quintal que então dava para o areal entretanto desaparecido. A mudança para Lisboa foi ainda na adolescência e do casamento nasceriam apenas duas filhas, mas só uma sobreviveria, a minha mãe. A vida revelar-se-ia madrasta, pois o meu avô morreria muito cedo, tinha a minha mãe apenas quatro anos.

Não deve ter sido fácil, a vida daquela mulher tão precocemente viúva. Recebia duas pensões – uma da CP, onde o meu avô trabalhava, outra da Caixa de Previdência –, mas os montantes eram muito baixos. Lembro-me de a acompanhar nos dias em que ia levantá-las à estação do Rossio e à rua da Emenda, e tenho memória de que insistia em recebê-las mais por orgulho do que por verdadeira utilidade, sobretudo nessa época – anos 60 – em que a inflação já havia corroído todo o seu valor.

A história da infância e juventude da minha mãe é por isso a história de uma rapariga que vivia entre um passado que devia ter sido de algum desafogo – e hábitos correspondentes: estudou sempre num colégio privado – e um presente muito dependente de apoios familiares. O meu tio-avô, o «tio Joaquim», que fora chefe de gabinete do primeiro-ministro António Granjo[1], fugira para Espanha na sequência da «noite sangrenta» de 19 de Outubro de 1921[2], nunca deixou de apoiar a irmã da sua mulher, a nossa «tia Maria». Quando deixou Portugal, foi trabalhar para os caminhos-de-ferro de Salamanca, na época propriedade de uma companhia liderada pela família Burnay. Faria depois carreira na Renfe – a CP espanhola –, onde chegaria a director-geral. Isso permitia-lhe chamar, todos os Verões, a cunhada e a sobrinha para passar férias na estância madrilena de Cercedilla, nas encostas da serra de Guadarrama. Para a minha mãe, sobretudo durante a adolescência, este programa estava longe de ser o mais apelativo, mas a situação familiar não permitia outras opções.

As coisas mudariam com o casamento. Os meus pais conheceram-se quando ambos estudavam na Faculdade de Ciências – o meu pai Biologia, a minha mãe Matemática – e casaram-se pouco depois de acabarem os seus cursos. Eu nasci um ano e seis dias depois.

O primeiro filho, diz-se, é sempre alvo de cuidados especiais. Eu não escapei à regra, apesar de, por vezes, a vida mostrar a inutilidade de algumas preocupações. A mim, por exemplo, deram-me sempre água previamente fervida até ao dia em que escapei à vigilância familiar e fui descoberto a provar, dizem que deliciado, a água de um lago de patos. De então para a frente, a água passou a vir directamente da torneira. Para mim e para os irmãos que se foram sucedendo.

Tudo isto se passou depois de um parto por cesariana na maternidade do antigo Hospital Alemão de Lisboa.[3] Apesar de viver perto da Maternidade Alfredo da Costa, a minha mãe parece ter preferido a companhia das robustas enfermeiras teutónicas que surgem nas primeiras fotografias do bebé muito cabeludo que eu era. As influên­cias germânicas ficaram-se no entanto por aí, e eu cresceria na mesma casa onde a minha mãe sempre vivera – e ainda vive – e onde a minha avó já crescera, um espaçoso andar de nove assoalhadas na rua Bernardo Lima, uma transversal do Conde Redondo.

A vida na Lisboa onde nasci era muito diferente da de hoje. Na minha rua eram poucos os automóveis e vários os pequenos comércios. Na esquina com o Conde Redondo, onde entretanto se instalou um banco, ficava a mercearia onde se faziam todos os avios. Do outro lado da rua, onde está hoje um hotel, era a farmácia. Sempre que alguém adoecia não se ia lá apenas para comprar os medicamentos, ia-se também para combinar com o empregado, um adepto ferrenho do Sporting, a sua deslocação a casa para dar as necessárias injecções. Um pouco mais abaixo ficava a drogaria, uma loja a que eu adorava ir por causa de todos os cheiros que nela se descobriam. Na minha rua, já perto da Duque de Loulé, havia também um talho de carne de cavalo, mas esse era produto que raramente entrava lá em casa. Curiosamente, esse talho ficava do outro lado da rua de uma casa em que Salazar viveu nos seus primeiros anos em Lisboa e, a algumas portas de distância, encontrávamos o edifício onde se albergavam os escritórios de uma das mais influentes revistas oposicionistas, a Seara Nova.

A padaria ficava numa paralela, a Luciano Cordeiro, e era uma loja luminosa, forrada a pedra lioz, onde eu estive uma larga temporada sem poder entrar: uma vez que lá fui com a minha avó, finquei os dentes nos braços de uma menina por razões que, julgo, ninguém percebeu, talvez nem eu. Mesmo quando me levavam ao barbeiro, que ficava umas portas adiante, faziam-me passar de largo pela porta da padaria, onde eu teria ficado com muito má fama. Quanto ao pão, esse passou a chegar de madrugada, depositado num saco de pano branco que se deixava pendurado do lado de fora da porta. Havia também o alfaiate, onde fui fazer o meu primeiro fato aí pelos 12 anos, e um sapateiro que trabalhava enfiado num cubículo meio enterrado.

Já a leitaria – ou seria um posto da UCAL? –, algumas portas acima da mercearia, deixar-me-ia impressões contraditórias, uma vez que, nesses tempos em que só havia uma variedade de leite e este se vendia em garrafas de litro seladas por uma prata colorida, havia também faltas e racionamentos. Épocas houve em que, antes de seguir para o liceu, tinha de passar pela leitaria, pois só vendiam um litro a cada pessoa e lá em casa (éramos cinco irmãos) isso não chegava para nada.

Em compensação, nunca esquecerei as idas ao mercado «do matadouro» com a minha avó. Esse mercado, grande parte dele a céu aberto, desenvolvia-se nos terrenos hoje ocupados pela Portugal Telecom e por um bloco de apartamentos de luxo nas Picoas. As minhas visitas preferidas eram à peixaria – onde tive o primeiro contacto com as artes do regateio apesar de ficar às vezes aflito quando a minha avó virava as costas e vinha alguém atrás dela gritando «Ó patroa» e oferecendo um preço mais baixo – e aos pavilhões onde se vendia manteiga a granel. Ainda hoje tenho saudades do espectáculo daquelas montanhas amareladas às quais se retirava um pedaço com uma espátula, pedaço logo pesado e embrulhado num grosso papel vegetal. A minha mãe nunca nos acompanhava nestas excursões, pois dizia-se incapaz de regatear e a minha avó não tolerava pagar o primeiro preço que lhe pediam.

Nada disto se comparava, claro está, a uma ida à Baixa fazer compras. E, para mim e para os meus irmãos, nada na Baixa se comparava, em encanto e fascínio, aos Armazéns Grandella. Sobretudo porque era lá que havia um cavalo mecânico que podíamos montar e que fazia que andava quando se introduzia a necessária moeda – um divertimento raríssimo à época –, tal como era lá que estavam as escadas rolantes. Na Lisboa de então – início da década de 1960 – só havia escadas rolantes entre os vários andares do Grandella e na estação de metropolitano do Parque, mas para entrar nessa era necessário pagar bilhete como se fôssemos utilizar esse meio de transporte. No Grandella, não: bastava entrar, subir nas escadas mecânicas, descer a correr pela velha escadaria de madeira e voltar a subir pelas escadas rolantes, esgueirando-nos por entre as pernas de clientes meio aparvalhados. Quando íamos com a avó materna, tudo se passava sem sobressaltos de maior, mas quando quem nos levava era a avó paterna tudo se complicava, pois esta tinha um pavor de morte às escadas rolantes. Mesmo assim, tudo correu sempre bem, excepto numa visita realizada com as duas avós alguns dias antes de um Natal, altura em que os armazéns estavam cheios de gente a fazer as últimas compras. Eu descobrira, em visitas anteriores, onde ficava o botão que fazia estacar as escadas rolantes, e já experimentara accioná-lo numa altura em que estávamos de saída do Grandella. Daquela vez, porém, quis mostrar a habilidade ao meu irmão e acabámos por fazer parar as escadas rolantes precisamente numa altura em que a minha avó que tinha medo delas estava a subir. Nós fizemos como se não fosse nada connosco quando chegaram os empregados a ver o que se passar, a minha avó lá conseguiu voltar para trás, só que a outra avó, mais matreira, acabou por descobrir o que tínhamos feito e arrastou-nos para fora da loja antes que algum dos funcionários chegasse à mesma dedução. O castigo ficou-se por uma descompostura e alguns meses sem voltar ao Grandella.

A minha primeira segunda casa foi o Jardim-Escola João de Deus, na Avenida Álvares Cabral, ao Jardim da Estrela. Andei por lá entre os quatro e os oito anos e há coleguinhas de então com quem ainda hoje me relaciono. Foi lá que aprendi a ler e a escrever – pelo método João de Deus, queme continua a parecer acertado –, assim como a contar. Era uma escola acolhedora mas rigorosa, um dos onze jardins-escola criados pelo filho do poeta-educador, João de Deus Ramos.

Todos andávamos de bibe – apenas se diferenciavam as cores, uma para cada idade e classe, e a enorme gola das meninas – e sabíamos que as regras eram para cumprir. Não podíamos, por exemplo, levar brinquedos próprios para a escola. Uma vez levei o meu carrinho preferido da Corgi Toys (os rivais da Dinky Toys) e logo fiquei sem ele: foi-me apreendido, enfiado numa prateleira onde o podia ver todos os dias mas não lhe podia chegar, e só me foi devolvido no final do período lectivo. Cumpriam-se também algumas tradições, como a de fazer pelo Natal um «presépio vivo» em que os alunos ocupavam os lugares das figuras tradicionais. A mim calhou-me um ano o papel de São José, e dizem que me saí bem, o que não era difícil: naquela figuração o importante era ficar pacientemente quieto.

O meu pai trazia-nos de manhã – a mim e ao meu irmão – e era a minha avó paterna quem nos vinha buscar ao fim do dia. Atravessávamos então o Jardim da Estrela para apanhar, em frente à Basílica, o eléctrico que nos levaria até ao Martim Moniz, onde ficava o tal casarão onde a minha avó morava. O eléctrico descia a calçada da Estrela e seguia depois pela D. Carlos antes de virar para a rua da Boavista. Aí, depois de passarmos pelo Conde Barão, eu e o meu irmão disputávamos sempre o lugar à janela, para podermos olhar para as máquinas e ferramentas expostas nalgumas lojas que nos fascinavam e que ainda hoje existem.

A casa da minha avó metia-nos medo. Situada num prédio da rua da Palma que já foi demolido, tinha uma entrada escura e uma escadaria ampla mas que parecia sempre mergulhada no breu. A maior parte das divisões eram interiores – incluindo o escritório do meu avô, a divisão que mais me fascinava mas que era de acesso interdito – e havia mesmo um «quarto escuro», imenso e cheio de armários e malas, de que passávamos o mais longe possível. As traseiras davam para os muros de suporte das primeiras casas que trepavam pelo morro de Santana e, num pátio cheio de ervas e de lixo, era quase sempre possível avistar enormes ratazanas. Nunca nos atrevemos a descer lá abaixo.

Os quartos da frente davam para o amplo terreiro que o camartelo havia aberto durante as décadas de 1940 e 1950.[4] No lugar onde antes se desenvolviam as ruas da Baixa Mouraria estava então um espaço vazio apenas ocupado por uns pavilhões que abrigavam alguns dos comerciantes desalojados e a capela de Nossa Senhora da Saúde, de onde todos os anos saía (e ainda sai) a procissão que fazia a minha avó tirar as melhores colchas das gavetas para as mostrar às janelas. Foi nesse «buraco» criado por uma fúria urbanística do Estado Novo que nasceu o actual largo do Martim Moniz, com o seu singular centro comercial e os seus estranhos quiosques, tudo fruto dos dislates de sucessivas administrações camarárias.

O meu pai vinha-nos buscar ao princípio da noite, depois de horas consumidas a ler os livros aos quadradinhos que conseguíamos convencer a nossa avó a comprar, em segunda mão, num vendedor que montava o seu estaminé no local onde hoje fica a entrada principal do Hotel Mundial. Foram os anos de descoberta do Major Alvega, do Búfalo Bill, do Ene 3 e do Kit Carson, entre muitos outros, devorados em edições a preto e branco que trocávamos no dia seguinte por novas histórias. Era a época de ouro das revistas Mundo de Aventuras e O Falcão e dos inúmeros títulos da Agência Portuguesa de Revistas.

Não sei exactamente quando é que a televisão fez a sua aparição lá em casa ou em casa da minha avó. Mas sei que já lá estava em Fevereiro de 1965, quando o Benfica de Eusébio recebeu e venceu no Estádio da Luz o Real Madrid por 5-1. Deve ter sido por essa altura que me tornei benfiquista, pois ainda recordo aquela transmissão televisiva e, sobretudo, o segundo golo do jogo, marcado por um Eusébio que pegou na bola ainda no meio campo do Benfica, passou por entre vários jogadores do Real e, à entrada da área, disparou de forma imparável. Quando já estava 4-1, o estádio cantava «só mais um» e o Benfica fez a vontade aos adeptos.[5]

Mesmo assim a televisão não era ainda, numa altura em que as emissões começavam às 18h30 e acabavam antes da meia-noite, uma presença avassaladora. Assistir, por exemplo, a um programa de desenhos animados era tão raro, que uma vez tive enorme dificuldade em optar entre ir ver uma peça ao Teatro da Trindade, um programa organizado pela minha mãe, ou ficar em casa para um episódio do Tom e Jerry. Acabei por ir ao Trindade, mas dilacerado. Nessa época era tão pouco frequente assistir-se a filmes desse tipo, que, quando o meu pai comprou uma máquina de projectar para filmes Super 8, esta tornou-se presença obrigatória em todas as festas de anos, nossas e dos amigos. Passava-se sempre um filminho do Bugs Bunny que eu e os meus irmãos já conhecíamos de trás para a frente, antecipando o que ia acontecer, para fúria dos amigos que também estavam a assistir às exibições.

A instrução primária foi concluída noutra escola João de Deus, agora o «Lar Educativo», situado na rua Viriato, mesmo em frente ao terreno onde, nos dois anos que lá passei, se foi erguendo no local do sumptuoso mas desaparecido Hotel Aviz o actual Imaviz. O ritual dos fins de tarde em casa da minha avó paterna manteve-se, só mudou o meio de transporte: ela vinha de eléctrico, mas nós regressávamos de metro. Em vez das montras com as máquinas eléctricas, havia agora outro prémio, mas não para todos os dias: uma bola-de-berlim numa pastelaria à entrada da rua da Palma. Custava dez tostões, um escudo, meio cêntimo de euro, e tinha um creme delicioso.

A maior parte das longas férias de Verão eram passadas numa moradia arrendada ao ano num local absolutamente improvável: Mem Martins. Era uma casa simpática numa terra que só então começava a transformar-se, lentamente, no subúrbio que é hoje. Quando acabavam as aulas a família mudava-se toda para lá e o meu pai passava a cumprir diariamente o vaivém casa-emprego que hoje faz o quotidiano dos utentes do IC19.

A vivenda possuía um pequeno quintal com um poço e uma grande figueira e dava para um descampado onde grupos de ciganos costumavam montar os seus acampamentos. O tempo consumia-se entre passeios de bicicleta, apanhas de amoras, longas partidas de Monopólio e livros dos Cinco e dos Sete. Quando finalmente o meu pai entrava também de férias, começavam as deslocações diá­rias até à praia Grande, uma ansiedade que se iniciava logo de manhã quando começávamos a calcular quanto tempo teríamos de esperar entre o pequeno-almoço e o primeiro banho de mar. A regra eram duas horas e o maior suplício era só poder molhar os pés enquanto se escoava a última meia hora de penitência.

A grande sensação desses anos foi a abertura, em 1966, da piscina de água salgada da praia Grande. Com 100 metros de comprimento, a piscina era então a maior da Europa e reflectia o clima de optimismo desses anos. Não longe, a praia das Maçãs já tinha a sua piscina, que era servida pela linha de eléctrico que, no Verão, trazia centenas de banhistas desde Sintra – até desde Lisboa. Mas para chegar à praia Grande era necessário ter automóvel, e a viatura particular só começou a vulgarizar-se nos anos de 1960. Nos pinhais do Banzão começavam também a multiplicar-se as moradias, sinal de que havia uma classe média e média-alta em rápida expansão. A abertura ao tráfego, também no Verão de 1966, da nova ponte sobre o Tejo iria criar as condições para uma explosão da procura nas praias a sul do Tejo, mas ainda teríamos de esperar alguns anos para vermos a classe média-baixa ocupar todos os espaços vazios nas proximidades das principais praias.

Para mim e para os meus irmãos, a nova piscina era um deslumbramento. Para os meus pais, suspeito que fosse uma dor de cabeça: apesar de tudo, pagar as entradas a um rancho de filhos criava problemas mesmo a quem vivia de forma desafogada. Pagar a entrada e pagar o lanche, pois era obrigatório comer as sandes feitas nuns pãezinhos absolutamente deliciosos.

De vez em quando havia umas variantes – como um Verão na Ericeira estragado por demasiados nevoeiros e por umas teimosas anginas –, mas a que mais me marcou foi a minha primeira ida ao Gerês, quando tinha nove anos. O meu pai trabalhava então no Museu de História Natural da Universidade de Lisboa, na Faculdade de Ciên­cias, onde era naturalista especializado em entomologia (o estudo dos insectos) e se dedicava ao estudo dos grilos.[6] A secção do museu em que investigava, a dedicada à
Zoologia e Antropologia, era conhecida por «Museu Bocaje», uma designação que na altura me fazia muita confusão, pois o Bocage mais conhecido era o poeta de Setúbal, não o seu primo afastado José Vicente Barbosa du Bocage, o zoólogo madeirense que, em 1858, fundara o museu. Para mim e para os meus irmãos eram fascinantes as idas a esse museu, instalado no edifício da rua da Escola Politécnica e que guardava fabulosas colecções, infelizmente quase totalmente desaparecidas durante o grande incêndio de 1978.

Aos sábados, quando não tínhamos aulas mas o meu pai tinha trabalho, era costume irmos com ele para a faculdade, e então eu e os meus irmãos tínhamos acesso livre a um museu que, na época, já era um «museu-de-porta-fechada», pois, por falta de dinheiro e pessoal, só abria ao público uma vez por semana. Era um mundo fascinante a que se acedia por um longo corredor que dava para o claustro do velho edifício e ao longo do qual se alinhavam crânios de elefantes e mandíbulas de baleias, estas colocadas de pé contra a parede e que várias vezes tive a tentação de utilizar como banco. Na principal galeria de exposições, a que de vez em quando nos deixavam ir, estavam guardadas preciosidades como alguns exemplares embalsamados de cabras do Gerês, entretanto extintas. Houve até uma altura em que o chão de uma das galerias de exposição se encheu com centenas de crânios que haviam sido recuperados das valas comuns dos cemitérios de Lisboa e que, garantiam os antropólogos, iriam permitir um estudo único sobre uma amostra larguíssima da população de Lisboa ao longo dos séculos. Além disso, nas zonas reservadas, era sempre fascinante abrir as gavetas onde estavam guardadas as colecções de borboletas colhidas em todo o mundo e de todas as cores e tamanhos, asas cuidadosamente abertas, um alfinete espetado no corpo e que também fixava o nome científico da espécie. Mas tal como havia as borboletas, as incontáveis gavetas guardavam baratas estranhíssimas, grilos de variadas formas, escaravelhos gigantescos, e por aí adiante. Não foi por acaso que, anos mais tarde, optei por seguir as pisadas do meu pai e vir estudar Biologia para este mesmo edifício.

A ida ao Gerês enquadrava-se no trabalho habitual do museu. Era uma expedição para levantamentos no terreno e recolha de espécimes. Como calhou no período das férias escolares, a expedição alargou-se às famílias. O director do museu, uma figura inesquecível e prolífica, Germano da Fonseca Sacarrão, juntou-se com a sua mulher ao meu pai, à minha mãe, a mim e à minha irmã, então com apenas seis meses. O carro era novo – uma carrinha Simca 1500
de que ainda hoje tenho saudades – e a viagem de Lisboa ao Gerês foi coisa para todo o dia. Não começou bem: à passagem por Alcoentre houve demora por causa de um terrível acidente que tinha provocado vários mortos. Mas terminou de forma inesquecível: quando, mal saídos da estrada que seguia de Braga para Chaves, pouco depois de termos tomado o caminho para a Caniçada e para as Termas do Gerês, entrámos no grandioso vale onde o Cávado corre cercado por montanhas que se estendem até Espanha, a paisagem obrigou-nos a parar. Ao fundo, lá em baixo, o lago azul da albufeira; a toda a volta, o verde intenso das matas que trepavam os montes; no topo, os picos cinzento-claros, de granito à vista, capazes de criar a ilusão de que estavam cobertos de neve. Naquele momento apaixonei-me pelo Gerês – uma paixão que se mantém viva e foi alimentada, ao longo dos anos, por muitos outros passeios e pela descoberta de paisagens porventura ainda mais poderosas.

Quando chegámos às Termas do Gerês fomos para o melhor hotel – julgo que se chamava Grande Hotel –, situado à direita na rua principal. Era um bom hotel para a época, se bem que o tivesse achado algo acanhado quando lá voltei muitos anos depois. Foi nessa altura que me apercebi, pela primeira vez de uma forma muito marcada, das diferenças de classe: enquanto os investigadores ficavam num bom hotel, os auxiliares – que haviam viajado desde Lisboa numa enorme carrinha americana, daquelas que tinham painéis de madeira de lado e consumia mais de 25 litros aos 100 km – dormiam numa pensão.

Os dias que passei no Gerês foram de permanente descoberta. Na piscina do hotel, onde só eu e o velho professor Sacarrão tivemos coragem de mergulhar, nadavam connosco girinos e alfaiates, cujo segredo para «andarem» sobre a água me foi então explicado.[7] Fiquei desde então com grande admiração por aquele professor que muitos anos mais tarde, quando estudei Biologia, reencontrei como aluno. Com um raro poder de comunicação, partilhava nas suas aulas os fundamentos de uma ciência que hoje está na ordem do dia, a ecologia. Era também capaz de ultrapassar os muros tantas vezes fechados da universidade, e por mais de uma vez dirigiu-se directamente ao grande público. Contrariando a tradição que faz com que a maioria dos nossos catedráticos se refugiem por detrás das suas cátedras, soube escrever livros simples de divulgação que lograram o milagre de esgotar edições. Chamava-lhes, nos prefácios, «estes meus livrinhos». Escreveu tanto para os caçadores como para os jovens do ensino secundário e, quando foi necessário, escreveu também ensaios polémicos. Biólogo empenhado, militante, tanto se indignava com a progressiva deterioração dos ambientes naturais que estudara toda a vida (animou durante longos anos a Liga da Protecção da Natureza), como era capaz de sair a terreiro para polemizar com colegas. Destinou mesmo dois dos seus últimos livros a contrariar – sem muita razão, infelizmente – as teses da sociobiologia e o seu aproveitamento político determinista.

No Gerês havia ainda, nesse tempo, um cercado que ficava logo acima das termas e onde se avistavam javalis e corços. Foi a minha primeira sensação quando acompanhei o meu pai numa saída de campo, e logo um pouco mais acima, depois de passada a mata de Albergaria, ao vislumbrar o primeiro grupo de corpulentas cabras, quis saber se eram selvagens, como as que tinham desaparecido no final do século xix, mas fui desiludido. Ao andar no campo com os naturalistas nessas saídas aprendi que não se devem levantar pedras, pois às vezes estas escondem escorpiões, e que de todas as cobras que avistasse só uma era realmente perigosa, a víbora, e essa identificava-se bem por ter a cabeça triangular. Muitos anos mais tarde, quando acampei no Gerês com os meus filhos muito pequeninos, voltei a transmitir-lhes estes ensinamentos, e até tivemos a sorte de, logo no primeiro passeio, vermos uma víbora. Como se tudo isso não chegasse, ainda aprendi a jogar à canasta nas tardes em que ficava no hotel.

O regresso a Lisboa, feito por Chaves (onde se comprou um presunto inteiro e fiquei a saber quem era o imperador Trajano), Lamego (onde visitámos a catedral) e Viseu (com passagem por um Hotel Grão Vasco que abrira há pouco tempo), deixou-me também recordações marcantes.

Na minha infância já saíra muitas vezes de Lisboa. Quase sempre acompanhando deslocações do meu pai, passara temporadas em Coimbra (onde passeava no Portugal dos Pequenitos e adorava dar a volta à cidade num eléctrico que tinha um percurso circular) e estivera mais de uma vez no Algarve (apesar de nunca ter passado lá férias). Com a minha avó paterna fora nalguns Verões até Vouzela, a terra onde nascera, e assistira na Roda, a aldeia da Beira Baixa de onde viera o meu avô, a um casamento épico onde as refeições se sucediam e nunca mais pareciam acabar. Para nós, miúdos, andar de casa em casa em aldeias onde os carros não cabiam nas ruas foi uma festa e só não gostámos das camas, pois os colchões eram de palha de milho, como era muito habitual no Portugal rural dessa época, e nós estávamos habituados a leitos mais fofos. A aldeia era tão remota e as estradas tão más, que no regresso ficámos parados na estrada antes de Coimbra quando se furou um segundo pneu, de tão maltratado que fora ao andar pelos caminhos de cabras dessa serrania interior (o meu pai teve de apanhar uma boleia para ir à procura de alguém que o remendasse). Mesmo assim, as terras de onde os meus avós tinham saído no princípio do século passado nunca foram, para mim, «a terra» a que a família voltava religiosamente, antes lugares distantes, um tanto exóticos, habitados por familiares que nem conhecia. Também por isso, foi verdadeiramente naquela viagem ao Gerês que Portugal passou a ser, para mim, muito mais do que Lisboa.

A primeira emancipação chegou aos 10 anos, quando terminei a instrução primária e fui para o liceu. O rito de passagem passou por dois exames, um de «admissão aos liceus», outro de «admissão às escolas técnicas», mas não pelo exame da 4.ª classe, que não era obrigatório para quem prosseguia os estudos, como era o meu caso. Em princípio eu nem necessitaria de fazer a admissão às técnicas, pois iria para o liceu, mas houve quem entendesse que, por precaução, eu devia fazer as duas provas. Curiosamente, foi a que fiz no Liceu Pedro Nunes que me correu mesmo bem, tendo ficado classificado entre os melhores. Já na que fiz na Eugénio dos Santos tropecei numa das questões durante a oral – sim, a prova de admissão exigia exame escrito e oral a miúdos de 10 anos. Quando me perguntaram quem levava as cartas a casa, eu insistia que era o correio e o examinador queria que eu respondesse que era o carteiro. Saí de lá todo corado.

A minha entrada no Pedro Nunes representou o regresso à Álvares Cabral onde já passara alguns anos no Jardim-Escola João de Deus, só que agora o meu pai já não me levaria à escola, eu iria de transportes públicos. Ensinaram-me que autocarros devia tomar e, pela primeira vez, deram-me uma «semanada». As contas feitas pelo meu pai foram simples: eu receberia 35$00 por semana, sendo 22$00 para pagar os 22 bilhetes de autocarro (como viria almoçar a casa, eram quatro idas e vindas por dia, vezes cinco dias, mais duas ao sábado, dia em que nessa altura também havia aulas de manhã) e 13$00 para os meus gastos. Não era muito dinheiro. Uma bola-de-berlim na cantina do liceu custava onze tostões (1$10), e o mais barato dos gelados da Olá, uma coisa feita de água e corante, andava pelos quinze tostões (1$50). Se eu quisesse fazer alguma coisa com o dinheiro, era obrigado a poupar, coisa que fiz com severidade e rigor: decidi comprar uma História Universal que a Verbo Juvenil estava a editar ao ritmo de um volume por mês, custando cada um 54$00, se a memória não me falha. Como quatro semanadas juntas só somavam 52$00, eu tinha de arranjar maneira de, de vez em quando, fintar o cobrador da Carris e fazer sem pagar a viagem entre o liceu e a minha casa. Não era demasiado difícil.

A escola que fui frequentar em 1967 era indiscutivelmente elitista. No ano em que entrei só foram abertas duas turmas na sede do liceu, na Álvares Cabral. Todos os restantes alunos foram desterrados para o anexo, na rua da Bela Vista à Lapa (hoje funciona lá uma escola pública do 1.º ciclo do básico), umas instalações que nós carinhosamente designávamos como «Texas», o que diz tudo. Eu fiquei na turma B, na sede, a turma para onde foram todos os alunos que tinham feito os melhores exames de admissão ou que eram filhos da incipiente classe média. Já a turma A era feita de outra farinha: estava reservada para os filhos da classe alta, e suponho que nem precisassem de ter tido boas notas. No meu ano entraram para essa turma, entre outros alunos, um neto do então presidente da República, o filho mais velho do então presidente da Emissora Nacional e um dos filhos de José de Mello, entre outros apelidos sonantes. Não faltavam meninos a chegarem de motorista à escola, alguns vindos de longe, de moradias no Restelo.

Na minha turma, como em breve perceberia, a maioria eram filhos de quadros intermédios, professores universitários, engenheiros, médicos, arquitectos, funcionários bancários. Era frequente, quando ia a casa de um colega para uma festa de anos, o meu pai descobrir que conhecia os seus pais dos tempos da universidade. Se hoje Lisboa ainda lembra, por vezes, uma aldeia, naquele tempo cabia num lenço de assoar: quase todos os (poucos) que haviam feito estudos universitários se conheciam uns aos outros.

Dessa minha turma faziam parte vários futuros jornalistas, como o João Paulo Velez[8] e o António Costa Santos[9], além de eu próprio, um músico, o Manuel Faria que foi teclista dos Trovante (um grupo todo feito por ex-alunos do Pedro Nunes) e um alto funcionário da União Europeia, o João Pedro Vale de Almeida.[10]

 

 

 

 



[1] António Granjo foi primeiro-ministro por duas vezes, primeiro entre 19 de Julho e 20 de Novembro de 1920, num governo liberal, e depois entre 30 de Agosto e 19 de Outubro de 1921. Foi este segundo mandato que terminou de forma trágica. Derrubado o governo por uma revolução radical, Granjo foi para casa, de onde fugiu depois para casa de Cunha Leal, onde seria capturado por um dos bandos que, na noite desse dia, cirandavam pela cidade de Lisboa. Levado para o Arsenal da Marinha, junto ao Terreiro do Paço, foi aí assassinado. Nessa madrugada, que ficou conhecida como «noite sangrenta», foram também assassinados Machado Santos e José Carlos da Maia, dois líderes republicanos ligados à revolução do 5 de Outubro. Foram também mortos o comandante Freitas da Silva, secretário do ministro da Marinha, e o coronel Botelho de Vasconcelos, antigo apoiante de Sidónio Pais.

 

[2] Depois da «noite sangrenta» o meu tio-avô terá estado escondido numa casa no Barreiro, com o motorista a dormir nas escadas para o alertar no caso de chegar alguém com más intenções.

 

[3] O Hospital Alemão de Lisboa ficava em Palhavã, ao lado do actual Instituto Português de Oncologia (IPO).

 

[4] O plano de demolições foi implacável e não poupou sequer edifícios emblemáticos, como o Palácio dos Marqueses de Alegrete, deitado abaixo em 1946, a bonita Igreja do Socorro, demolida em 1949, o Teatro Apolo, desaparecido em 1957, e, por fim, o Arco do Marquês de Alegrete. Este último correspondia à última porta sobrevivente da antiga muralha de Lisboa e caiu em 1961. Infelizmente não me lembro do tempo em que ainda existiam, apenas de ouvir a minha avó e o meu pai falarem de como era a Mouraria antes da «abertura» do Martim Moniz.

 

[5] Nesse ano o Benfica perderia a final da Taça dos Campeões Europeus ao ser derrotado na final pelo Inter por 1-0, num jogo que também vi pela televisão. Foi a final dramática, disputada num estádio de San Siro empapado, em que Costa Pereira deixou passar a bola por baixo das pernas. O guarda-redes lesionar-se-ia na segunda parte e o Benfica teria de jogar a última meia hora com Germano à baliza, pois nessa época não eram autorizadas substituições.

 

[6] O meu grilo preferido sempre foi um grilo branco que o meu pai tinha identificado como sendo uma espécie nova e que vivia na zona da serra de Grândola. Uma vez fui lá com ele fazer recolhas, para as quais se utilizavam grandes sacos de rede fina, parecidos com os de caçar borboletas, que se batiam nas ervas altas e nos arbustos, assim recolhendo os insectos que estavam agarrados à vegetação.

 

[7] Alguns insectos conseguem andar sobre a água graças à chamada tensão superficial, esse efeito físico que permite que à superfície se forme como que uma membrana elástica. Assim é possível, com muito cuidado, pousar uma pequena agulha à superfície de um líquido como a água sem que ela se afunde. Alguns insectos tiram partido deste efeito para como que andarem sobre a água sem sequer se molharem.

 

[8] O João Paulo Velez passou pelo jornal O Diário, foi director do Diário do Alentejo, voltou a Lisboa para o Público, esteve depois na Parque Expo e é actualmente director na LPM Comunicação.

 

[9] O António Costa Santos, que foi o nosso primeiro chefe de turma, também começou a sua carreira jornalística no Diário, tendo passado depois pelo Sete e pelo Expresso. Nos últimos anos tem-se dedicado à tradução e a escrever livros humorísticos.

 

[10] O João Vale de Almeida trabalha para a Comissão Europeia desde 1982, tendo chegado em 1998 a director na Direcção Geral da Informação, Comunicação, Cultura e Audiovisual. É desde 2010 embaixador da União Europeia em Washington.




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