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Entre Mulheres | 1.º capítulo

Rita


É curioso como nas épocas festivas nos apercebemos, ainda mais agudamente, da passagem do tempo. Outro jantar de Natal só de mulheres… Há quantos anos instituímos a obrigatoriedade deste encontro? Não me consigo lembrar, mas estou certa de que, no primeiro jantar, o Miguel ainda não tinha nascido, portanto, é de certeza há mais de dezasseis anos. Dezasseis anos… E, apesar disso, o jantar do ano passado parece ter sido apenas há um ou dois meses. Passou‑se um ano, já?

Pergunto‑me há quanto tempo comecei a dizer a frase “parece que foi ontem”. Dantes, parecia‑me uma frase de velhos, um sinal de senescência, mas, agora… Tanto do que é a vida que me parece que foi ontem e, por não ter sido ontem, dou comigo a olhar para um filho adolescente, um homem quase, mais alto do que eu, e em quem mal consigo reconhecer aquele bebé frágil, aquele menino risonho, cujos olhos se acendiam de amor e orgulho, quando me via, de coração suspenso, junto ao portão da escola. Hoje já não... Hoje, para lá deste meu coração ainda suspenso, há um quarto com a porta sempre fechada, com músicas que não entendo e palavras que parecem de aço.

E, por não ter sido ontem, o espelho das manhãs a devolver‑me cada vez mais pedaços estranhos de mim, do meu rosto, do meu corpo: o pescoço suave onde pousavam, sedentos, os teus beijos, aos poucos tornado indefinido, apesar dos cremes, apesar do colagénio, apesar desses rituais femininos com que julgamos evitar o inevitável. Os seios, de que eu tanto me orgulhava, pendendo agora tristes, apesar das promessas do pacote de tratamentos refirmantes que me ofereceste há dois anos, pelo Natal. Deveria ter sido capaz de ler, nessa oferta, o teu desânimo. Deveria ter sido capaz de entrever, nessa oferta, o peito extrovertido e orgulhoso da tua secretária, que julgo que mora em Massamá, ou na Rinchoa, ou na Reboleira, ou noutro qualquer desses subúrbios cinzentos, onde a vida se vai gastando, em prédios tão desolados como os sonhos dos que neles habitam. Deveria ter sido capaz de adivinhar, também nessa oferta, os serões pela noite fora e um perfume que me invadia o quarto, madrugada adentro, pé ante pé, agarrado ao corpo que, exausto, atiravas para a cama. Deveria ter sido capaz….

Hoje não sei se me apetece este jantar. As piadas de sempre, os mesmos risos demasiado postiços, as margaritas de aperitivo e o vinho, demasiado vinho, sempre demasiado vinho, para anestesiar as memórias do que nunca chegámos a ser.

Para além de tudo isso, talvez um grupo de homens na mesa ao lado e, nesse caso, os ridículos esgares do cio e as risadas, nervosas e tolas, próprias desses rituais nocturnos de acasalamento entre espécies à deriva, que adiam os seus medos, nestas noites de solidões  encontradas.

E, em cada riso postiço, a ilusão de que somos de novo adolescentes: quatro raparigas, de dezassete anos, para quem o mundo inteiro é uma possibilidade. Talvez seja já postiça, também, a nossa amizade. Será apenas a teimosia de não deixar morrer um mundo em que fomos felizes? Um mundo que cabia, por inteiro, no recreio do liceu e nas festas de sábado à noite. Um mundo feito de horas ao espelho, ensaiando roupas e maquilhagens e ouvindo a mesma música, vezes e vezes sem fim. Um mundo em que os amores (todos os amores) seriam, para sempre, os últimos. Um mundo que éramos só nós e a nossa amizade, e apenas isso nos importava, e apenas isso contava, porque havia os olhares que diziam e percebiam tudo, porque havia o abraço que apagava todos os medos, porque havia a mentira dita aos pais, piedosa e no momento certo, e, se havia tudo isto, de que mais poderíamos, algum dia, precisar?

Mas mesmo que, nessa época, tal nos parecesse absolutamente impossível, a vida foi‑nos mostrando que não se tem dezassete anos para sempre. Foi‑nos mostrando que os amores nunca são os últimos, mas que vão deixando marcas. Foi‑nos mostrando que o mundo é demasiado grande e não cabe, afinal, no recreio do liceu nem nas festas de sábado à noite. Foi‑nos mostrando que os olhares e os abraços nem sempre chegam a tempo, e que as mentiras só foram piedosas para quem as contou, e nunca para quem as ouviu.
Hoje temos todas quarenta e cinco anos e várias cicatrizes, destas vidas que, para nenhuma de nós, foram aquilo com que sonhámos. Recordamos o passado para não pensar no presente e porque nos apavora o futuro. Ainda rimos e choramos juntas, nestes jantares, e desculpamos, com o vinho, a imensa fragilidade do que somos.

Olho para o vestido estendido, dócil, sobre a cama, à espera de deslizar pela minha pele, cobrindo uma nudez que me incomoda cada vez mais. É novo o vestido. Elegante, sóbrio, capaz de me tirar alguns anos e alguns quilos. No fim de contas, é disto que se trata, é isto que todas queremos: a ilusão de menos uns anos e menos uns quilos. A acompanhar o vestido, um colar de autor, uma bijutaria caríssima, que para mim foi um capricho e para ti foi expiação. A lembrança da manhã em que o comprámos, durante um passeio pelo Príncipe Real, faz‑me sorrir. Nesse momento, quase acreditei que éramos como no princípio (e que poderíamos ser agora, e que poderíamos ser sempre) e que ainda nos olhávamos, que ainda nos conhecíamos, que ainda nos (amávamos?)… Foi um passeio sereno, aquele, tão parecido com aquelas manhãs do começo de nós: um café e uma fatia de bolo, na pastelaria onde dantes passávamos tantas horas, os jornais lidos sem pressas e um sol de inverno, que quase me aqueceu a alma. Depois do café e dos jornais, a minha mão no teu braço e os nossos passos, lentos e outra vez cúmplices, maravilhando‑se nas montras de design, cheias dessa panóplia de objectos que são absolutamente essenciais para aqueles que têm tudo.

E, numa das montras, este colar: — “Lindo!” — Disse eu.

— “Anda, vou oferecer‑to!” — Respondeste tu, e eu, tonta, julgando ver, nos teus olhos, o que os teus olhos há tanto tinham esquecido.

Reparei na empregada da loja, elegante e em‑ proada, de seios extrovertidos e empinados que, seguramente, te hão‑de ter recordado os infindáveis serões de trabalho, todos passados em restaurantes do Guincho, com mãos acariciando‑se sobre a mesa, discretas e vigilantes, e em motéis com espumante barato e espelhos no tecto, onde te reconciliavas com a tua própria virilidade.

E reparei, também, no alívio com que pagaste uma peça estupidamente cara, expurgando, em cada cêntimo, a culpa pela tua infidelidade, a culpa pelo teu silêncio, a culpa deste desamor.

Mas hoje este colar é apenas mais um pormenor elegante, um detalhe do bom gosto pelo qual sempre fui reconhecida. Bom gosto e bom‑ar foram sempre, aliás, a minha marca.

Já no liceu, quando todas tentávamos a rebeldia nas roupas, nas maquilhagens, nos penteados, era o meu ar de menina‑bem que sobressaía, atraindo os remoques dos nossos colegas (todos eles meninos ricos), que se diziam de esquerda, e que criticavam, a mim mais que a qualquer de vós, a burguesice.

Agora acho que já não me importo demasiado. Habituei‑me. Mas ainda assim, há dias em que me irrita a minha própria compostura, que me irrita o meu bom‑ar e a minha contenção.

A contenção e a compostura próprias das verdadeiras senhoras, assim mo ensinaram, desde pequena, e assim as conheci, na minha mãe e na minha avó. A contenção que só os olhos não conseguiam acompanhar, nas noites em que também o meu pai se afadigava, em serões de trabalho intermináveis, dos quais regressava envolto num cheiro de perfume intenso e barato, tão diferente do que deveria ser o perfume de uma verdadeira senhora, tão diferente do perfume da minha mãe. Um perfume que se lhe entranhava nas mãos e que persistia nelas, até ser de manhã, até à hora em que, com um gesto distraído e com os olhos presos no jornal, me despedia na saída para a escola.
Enquanto me inclino para calçar os sapatos, reparo, como aliás tem sucedido nos últimos tempos, que até este gesto, tão simples, já deixou de ser fácil e que o corpo, o meu corpo, desencadeia, nesse processo, um mecanismo complexo de articulações, que antes, na fluidez dos anos, eu jamais suspeitara existir.

É curioso como, com o tempo, vamos ganhando a consciência de cada pequena parcela de nós. Dantes eu era inteira, um corpo uno e indivisível, que sentia como um todo. Hoje sou a soma de muitos pedaços de mim. Pedaços com vida e sentir próprios, que se manifestam nas suas dores e nos seus desconfortos, que acordam e adormecem com vontade autónoma, sem me obedecerem, sem obedecerem a isto que julgo ser eu.

Estou pronta! Olho‑me ao espelho e acho que estou bem: objectivo cumprido na tal ilusão de menos anos e menos quilos. E, por isso, apetece‑me sorrir. Na verdade, apetecem‑me os dezassete  anos.

Apetece‑me rever‑vos, rever‑nos, e retomar as conversas que, ainda ontem (e faz já um ano), deixámos a meio, por causa do vinho, por causa da música, por causa dos jeitosos da outra mesa que, afinal, acabaram por se revelar insuportavelmente cabotinos, no seu alarde de BMWs e estratégias de marketing, tentando, também eles, disfarçar, com penosa agilidade, as atrofias dos seus quarenta anos já bem avançados.

Passámos a adolescência juntas: os fins‑de‑semana nas casas umas das outras, os campos de férias, as tardes de estudo. Depois, mesmo em faculdades diferentes, em cursos diferentes,  acompanhámo‑nos sempre. Nos bons e nos maus momentos, nos sucessos, nos fracassos, nos sonhos desfeitos e nos caminhos que abríamos à vida. Éramos tão diferentes e eram tão diferentes as nossas aspirações de felicidade. Tantos projectos, meu Deus! E tantas gargalhadas! A alma inteira posta num riso!
Reparo, com uma olhadela ao relógio, que está na hora de sair. Não me quero atrasar, embora saiba que eu vou ser, como sempre, a primeira a chegar e que vou ficar furiosa: comigo própria, por causa desta minha incapacidade de chegar tarde, e convosco, pelo habitual desrespeito, nesse gesto de nunca chegarem a horas.

Pego na carteira, uma clutch sofisticada e vistosa, que foi outro capricho, desta vez de uma tarde solitária e de chuva em que o mundo ameaçava abater por dentro. Li no outro dia, numa revista de cabeleireiro, um artigo acerca do poder curativo das compras para quem se sente deprimido, e lembro‑me de ter pensado que, olhando para as peças de roupa, para os acessórios e para os sapatos, os meus armários são um verdadeiro recordatório de insatisfações, frustrações e solidões várias.

Quando passo no corredor, oiço a música no quarto do Miguel. Bato ao de leve à porta, enquanto lhe digo: — Até logo, meu filho. Vou jantar fora. — Tenho a certeza de que me ouviu (uma mãe sente estas coisas) e, no entanto, nenhuma resposta. Nunca nenhuma resposta. Onde se terão perdido as luzes que se acendiam nos teus olhos, ao simples som da minha voz?

Fecho a porta de casa e chamo o elevador, enquanto tento, com gestos dignos de ilusionista, guardar na pequeníssima clutch, onde se acotovelam já um batom, algum dinheiro, um cartão de crédito, um pacote de lenços de papel e o estojo das lentes de contacto (coração para a direita, flor para a esquerda), as chaves de casa.

Já tinha decidido não levar carro. É um inferno o estacionamento, numa sexta‑feira e nestas épocas festivas. Além disso nunca gostei de guiar sozinha depois de escurecer. Tenho saudades de me sentar ao teu lado, sentindo‑me bonita, protegida e feliz, quando saíamos à noite. Eras sempre tu quem guiava, quando estávamos os dois. Mais um sinal da minha compostura e do meu conservadorismo!

Talvez apenas mais um sinal da minha submissão a ti, como sempre reclamou a Cristina, ostentando essas certezas absolutas, com que sempre mascarou o seu medo da solidão.

A Cristina, emancipada e precursora das ladies nights, com strip‑tease masculino, e das aventuras de uma noite que doíam uma vida. A Cristina com o telefone sempre desligado nos Natais e nas Páscoas, que a presenteavam com uns olhos vermelhos e inchados. A solidão mascarada, como preço da independência. A carreira e o loft junto ao rio, de cujas janelas observa as famílias felizes em passeios domingueiros, deixando, atrás de si, um rasto de risos infantis, que a persegue para o resto do dia, e que ela afoga em whisky e xanax, com a desculpa do cansaço de uma semana infernal, na agência de comunicação. Bolas, não é fácil apanhar um táxi! Todos os que passam estão ocupados. Estou tentada a voltar a casa e ir buscar o carro. Enquanto, hesitante, dou dois passos atrás em direcção ao prédio, reconheço o teu carro a virar para a garagem. Chegas cedo hoje – o que terá acontecido ao serão no motel?

Ter‑se‑ão cansado de ti, as maminhas extrovertidas e empinadas da secretária de perfume barato?

Decido que agora é que não vou mesmo levar o carro: teria que ir, primeiro, buscar a chave, deixada, como sempre, no pequeno prato, logo à entrada da porta. Se o fizer, vou encontrar‑te no elevador, vou ter de sorrir, enquanto roças, ao de leve, os teus lábios na minha bochecha, num arremedo de beijo que me vai dar vontade de chorar.

Mulheres Liderança Política e Media | ebook

Introdução

O reconhecimento da igualdade entre homens e mulheres, consequência da Revolução democrática de 25 de Abril de 1974, é uma conquista que deve ser devidamente valorizada. Abriu no tempo a promessa de emancipação da população feminina, condicionada por um enquadramento legislativo e por práticas sociais e culturais que legitimavam a desigualdade e a subordinação. É uma evidência que, desde então, as mulheres registaram avanços notáveis em diferentes áreas, como sejam a educação, emprego, conjugalidade ou direitos reprodutivos. Porém, são muitas as vozes que criticam que essa progressão tem sido particularmente lenta na esfera política. Para diminuir a desproporção de género na representação política, a Assembleia da República aprovou, em 2006, a Lei da Paridade, que prevê a aplicação de quotas na elaboração das listas eleitorais. Este mecanismo foi ativado pela primeira vez nas três eleições realizadas em 2009 e, decorridos quase seis anos, carece de uma avaliação de impacto. 

Na presente obra, que resulta da dissertação de doutoramento da autora [1], reflete­‑se sobre a condição política feminina de uma perspetiva particular: propõe­‑se a articulação da política e do jornalismo a partir da categoria de “género”. Este é um âmbito de investigação ainda pouco explorado, apesar do seu caráter óbvio, uma vez que o mundo político é inseparável do espaço de mediação jornalística, para onde confluem os poderes e onde se constrói a visibilidade pública por excelência. Os media lato sensu continuam a ser a fonte simbólica primária a partir da qual se forma a compreensão da realidade social e se moldam as perceções sobre o perfil, a competência e a relevância dos sujeitos políticos. O que torna a pesquisa inovadora é, na verdade, o facto de até à data poucas mulheres terem chegado ao topo da liderança política em Portugal. 

Importa olhar para a formação histórica dos campos. Política e jornalismo. Ambos se orientam para o tornar público. Ambos se constituíram como domínios sociais dos quais as mulheres estiveram excluídas durante longo tempo e em que o acesso feminino conheceu resistências. Muitos jornalistas opunham­‑se à entrada de mulheres nas redações. “Os homens reclamavam que o trabalho era demasiado árduo para as mulheres e que estas, expostas ao ambiente pouco polido e caótico da redação, perderiam os seus ideais elevados, os seus modos doces e ternos, de facto, a sua feminilidade” (Chambers et al., 2004: 19). As mulheres foram sendo admitidas como profissionais do jornalismo e como delegadas políticas, em número reduzido e em situações excecionais, ocupando áreas marginais, para corresponder a ou tratar de necessidades femininas específicas, menos valorizadas e mais trivializadas. Das jornalistas esperava­‑se que desenvolvessem “reportagens ligeiras”, sobre “todo o tipo de trivialidades, incluindo as domésticas”, e que o seu trabalho correspondesse a um tipo de notícias mais leves e que fizessem “cócegas” aos leitores (Holland, 1998: 18). Já as primeiras representantes políticas foram relegadas para o assistencialismo e, mais genericamente, para matérias relacionadas com uma conceção ideologizada e idealizada do universo feminino. 

O jornalismo feminizou­‑se (embora as direções dos meios a um ritmo menos acelerado), a política continua uma arena masculina. Em Portugal, nas legislativas de 2011, a proporção de mulheres eleitas correspondeu a 26,5%. No momento da constituição do 19.º Governo, em Junho de 2011, as governantes femininas correspondiam a 17%. Na história parlamentar, uma única mulher foi eleita Presidente da Assembleia da República, em 2011. Por uma única vez, em 1979, uma mulher foi indigitada para o cargo de Primeira­‑Ministra. Até à data nenhuma mulher desempenhou funções como Presidente da República.

Do prisma das representações simbólicas veiculadas, como lembra Silveirinha (2012: 92), as ligações entre a comunicação e as desigualdades das mulheres estiveram sempre presentes nas diversas articulações do feminino. Sobretudo a partir dos anos de 1970, os conteúdos mediáticos passaram a constituir uma “área de preocupação da agenda feminina” (Silveirinha, 2006: 5), no pressuposto de que “muito do poder social e político se jogava na representação” (Silveirinha, 2004: 5).

O primeiro problema coloca­‑se ao nível da (in)visibilidade. Pesquisas convergem num diagnóstico de sub­‑representação das mulheres na informação. Em 2010, essa presença foi quantificada em 24% pelo Global Media Monitoring Project (23% em Portugal). Outros estudos nacionais confirmam a expressão desmaiada de vozes femininas. Segundo os resultados de 2011 da monitorização dos jornais televisivos da noite efetuada pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social, 72,9% dos atores principais das notícias analisadas na SIC eram homens, e apenas 11,1% mulheres; e, na TVI, 74,3% dos protagonistas noticiosos eram homens e 8,5% mulheres (ERC, 2012) [2]. O mesmo padrão repete­‑se nos convidados dos programas informativos televisivos de três canais generalistas (RTP1, SIC e TVI) e três canais temáticos de informação, emitidos entre Setembro de 2010 e Junho de 2011: 84% foram homens, 16% mulheres (Baptista, 2012).

A questão é mais complexa do que apontar esta sub­‑representação, pois está diretamente associada às lógicas da mediação. 

Como salienta Mário Mesquita [3], “o jornalismo é a componente dos dispositivos mediáticos que mais de perto se relaciona com a visibilidade dos atores políticos, económicos, culturais, artísticos e desportivos”. Complementarmente, vários estudos no âmbito da sociologia do jornalismo identificam a “notoriedade do agente principal do acontecimento” como um dos mais principais valores­‑notícia na seleção informativa (Traquina, 2002: 188). Para que as mulheres adquiram visibilidade mediática, não é suficiente que estejam mais presentes nas instituições políticas, mas também que ocupem funções de maior responsabilidade. Com efeito, o desempenho de cargos cimeiros, pela centralidade desses lugares, o poder de decisão e as responsabilidades inerentes, “assegura uma presença regular nos media e qualifica quase automaticamente os seus ocupantes como interlocutores privilegiados dos jornalistas” (Baptista, 2012: 69­‑70). 

Na produção jornalística, há uma tensão entre o compromisso com os princípios da igualdade e da não­‑discriminação e o trabalho quotidiano, em que os critérios de seleção informativa podem reproduzir, e mesmo agudizar, as desigualdades entre homens e mulheres na distribuição de poder na sociedade. Deste modo, admite­‑se que as lógicas editoriais contemporâneas poderão contribuir para agravar o fenómeno de glass ceiling, ao dar voz quase exclusivamente a titulares das posições de topo... às quais, e será forçoso repetir esta ideia, raramente as mulheres chegam. 

As investigações dedicadas à inter­‑relação entre género, media e política partilham ansiedades, não só em torno da quantidade, como também da qualidade das representações mediáticas, atendendo aos seus impactos no exercício político e na democracia deliberativa. O género dos atores políticos interfere, explícita ou implicitamente, nas práticas discursivas do jornalismo? A política tem género sob o olhar dos e das jornalistas? 

Estas são interrogações centrais que orientam o aprofundamento desta problemática. O laço invisível que une os campos político e jornalístico através de representações simbólicas é aqui explicitado através de dois estudos de caso, ambos recortados do período histórico pós­‑democrático em Portugal, em que duas mulheres ascenderam a lugares políticos de topo e adquiriram elevado perfil mediático. 

O primeiro reporta­‑se a 1979, quando Maria de Lourdes Pintasilgo foi convidada pelo Presidente da República, Ramalho Eanes, a formar o V Governo Constitucional, que ficou conhecido como o “Governo dos 100 dias”. Lourdes Pintasilgo tornou­‑se a primeira Primeira­‑Ministra – e até agora única – em Portugal e a segunda da Europa, depois da eleição de Margaret Thatcher, em Inglaterra, em Maio do mesmo ano. O segundo estudo de caso situa­‑se temporalmente na primeira década do século XXI e acompanha três momentos da carreira política da social­‑democrata Manuela Ferreira Leite, a primeira mulher ministra das Finanças (em 2002) e a primeira mulher presidente de um grande partido (é eleita líder do PSD, em 2008), pelo qual se candidata às eleições legislativas de 2009, defrontando o Primeiro­‑Ministro incumbente, José Sócrates. Deve notar­‑se a coincidência de, em 2009, terem sido aplicados pela primeira vez os mecanismos legais da paridade de género na composição das listas eleitorais, contra os quais Ferreira Leite se bateu. 

Maria de Lourdes Pintasilgo e Manuela Ferreira Leite exibem percursos e perfis marcadamente distintos, mas também revelam alguns paralelismos interessantes.

Nascidas com uma década de diferença (Lourdes Pintasilgo em 1930 e Ferreira Leite em 1940), ambas se licenciaram em áreas “masculinas”, Engenharia Química e Económicas. No início dos seus trajetos profissionais, circulam entre homens: Lourdes Pintasilgo é a primeira técnica superior dos quadros da Companhia União Fabril, Ferreira Leite a única mulher da equipa do então Centro de Estudos de Economia e Finanças da Fundação Calouste Gulbenkian e a segunda assistente de Economia no então ISCEF (atual Instituto Superior de Economia e Gestão). As duas mulheres chegam à política aos 39 anos, não por declarada iniciativa própria ou ambição, mas pela mão de homens que admiram e com os quais mantêm relações de amizade. Convergem na noção da política como missão, serviço e dever. Ambas são profundamente católicas. 

Contrastam noutros aspetos fundamentais, como os traços de personalidade, as referências culturais, as escolhas pessoais. Distanciam­‑se radicalmente no posicionamento quanto às “questões femininas”. O percurso de Lourdes Pintasilgo está intimamente associado, na teoria e na ação, às lutas das mulheres e ao seu contributo específico, apoiado na sua “diferença”, para a comunidade. Ferreira Leite, além de não revelar sensibilidade por esta temática, esgrimiu argumentos, enquanto deputada, contra a adoção de políticas públicas que distinguiam a situação das mulheres.

Maria de Lourdes Pintasilgo e Manuela Ferreira Leite foram “primeiras” no exercício de cargos de responsabilidade na alta política. A notoriedade pública e mediática que alcançaram nessa qualidade oferece uma rara oportunidade de observação dos modos de representação simbólica da política no feminino. Os resultados da análise permitirão recensear estilos particulares de liderança construídos e projetados pelos media, bem como, eventualmente, identificar padrões de cobertura jornalística baseados em assunções de género (Norris, 1997), detetados em estudos levados a cabo noutros países. 

As investigações da mediação jornalística da política não podem ignorar os contextos históricos particulares. Por exemplo, no final dos anos de 1970, não é possível empreender a análise ignorando a instabilidade dos jovens órgãos políticos ou o caráter extremado da luta pelo poder sob o efeito da bipolarização da vida partidária entre “esquerda” e “direita”. Não se pode ainda ignorar que os meios de comunicação revelam graus variáveis de compromisso com posições político­‑ideológicas, o que condiciona a sua intervenção no combate político.  

Nestes intrincados contextos, um dos desafios consiste em destrinçar enviesamentos no tratamento jornalístico baseados no género dos atores políticos retratados. Antecipa­‑se que, entre 1979 e a primeira década do século XXI, se registará uma evolução no sentido de uma maior naturalização da participação política feminina e da ultrapassagem de esquemas dicotómicos e estereotipados de representação. Esta é, claro, uma hipótese que terá de passar pelo crivo da análise dos jornais.

A esfera política é aqui delimitada a uma aceção formal – o domínio do poder convencional. Segundo Henderson e Jeydel (2010: 6), este é “o mundo da política que se desenrola em instituições governamentais formais, como parlamentos/ legislaturas e órgãos executivos, e inclui o comportamento político, regulado pelo Estado, que se dirige à eleição de pessoas para essas instituições”. A amplitude das manifestações políticas da sociedade não se esgota na configuração formal do campo, sendo pertinente sublinhar, no entanto, que historicamente foi destas instituições que as mulheres ficaram arredadas. Pretende­‑se analisar uma realidade em que as decisões “importam e contam”. Os titulares do poder político têm a prerrogativa de fazer cumprir as suas decisões e detêm posições de autoridade (Paxton e Hughes, 2007: 3). Seria de igual modo pertinente, como sugere Victoria Camps (2001: 12), adotar um conceito lato de política, como “metáfora da tomada de decisões”, tendo em mente outros domínios relevantes. Porém, restringir o objeto de análise permite compreender a especificidade de um domínio com as suas instituições e leis próprias de funcionamento. 

A obra está organizada em duas partes. A primeira, de contextualização teórica e histórica, é composta por dois capítulos, nos quais se percorrem a emergência da cidadania feminina e os seus limites nas democracias ocidentais, e se discute a pertinência da categoria de género para descrever a participação política. Um segundo capítulo introduz a temática dos media e do jornalismo, abordando­‑se o impactos da feminização das redações sobre as normas profissionais, os padrões noticiosos de tratamento das mulheres na política e a mobilização de estratégias de comunicação baseadas no género. Na segunda parte é descrita a análise dos jornais, cuja nota metodológica é explicada no Apêndice 1. As conclusões, bem como um conjunto final de reflexões sobre o tema, são apresentados no último capítulo. 

[1] A dissertação de doutoramento foi submetida à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sob orientação da professora Cristina Ponte. A obra é também devedora da participação da autora no projeto “Política no Feminino”, desenvolvido no Centro de Investigação Media e Jornalismo. Os contributos resultantes deste projeto de investigação e aqui utilizados são devidamente referenciados.
[2] O restante valor que perfaz 100% corresponde às categorias “ambos os géneros” e “não identificável”. 
[3] Mário Mesquita, “Quando o Superman se disfarça de Clark Kent”, Público, 26/09/2004.

Mulheres Liderança Política e Media

Introdução

O reconhecimento da igualdade entre homens e mulheres, consequência da Revolução democrática de 25 de Abril de 1974, é uma conquista que deve ser devidamente valorizada. Abriu no tempo a promessa de emancipação da população feminina, condicionada por um enquadramento legislativo e por práticas sociais e culturais que legitimavam a desigualdade e a subordinação. É uma evidência que, desde então, as mulheres registaram avanços notáveis em diferentes áreas, como sejam a educação, emprego, conjugalidade ou direitos reprodutivos. Porém, são muitas as vozes que criticam que essa progressão tem sido particularmente lenta na esfera política. Para diminuir a desproporção de género na representação política, a Assembleia da República aprovou, em 2006, a Lei da Paridade, que prevê a aplicação de quotas na elaboração das listas eleitorais. Este mecanismo foi ativado pela primeira vez nas três eleições realizadas em 2009 e, decorridos quase seis anos, carece de uma avaliação de impacto. 

Na presente obra, que resulta da dissertação de doutoramento da autora [1], reflete­‑se sobre a condição política feminina de uma perspetiva particular: propõe­‑se a articulação da política e do jornalismo a partir da categoria de “género”. Este é um âmbito de investigação ainda pouco explorado, apesar do seu caráter óbvio, uma vez que o mundo político é inseparável do espaço de mediação jornalística, para onde confluem os poderes e onde se constrói a visibilidade pública por excelência. Os media lato sensu continuam a ser a fonte simbólica primária a partir da qual se forma a compreensão da realidade social e se moldam as perceções sobre o perfil, a competência e a relevância dos sujeitos políticos. O que torna a pesquisa inovadora é, na verdade, o facto de até à data poucas mulheres terem chegado ao topo da liderança política em Portugal. 

Importa olhar para a formação histórica dos campos. Política e jornalismo. Ambos se orientam para o tornar público. Ambos se constituíram como domínios sociais dos quais as mulheres estiveram excluídas durante longo tempo e em que o acesso feminino conheceu resistências. Muitos jornalistas opunham­‑se à entrada de mulheres nas redações. “Os homens reclamavam que o trabalho era demasiado árduo para as mulheres e que estas, expostas ao ambiente pouco polido e caótico da redação, perderiam os seus ideais elevados, os seus modos doces e ternos, de facto, a sua feminilidade” (Chambers et al., 2004: 19). As mulheres foram sendo admitidas como profissionais do jornalismo e como delegadas políticas, em número reduzido e em situações excecionais, ocupando áreas marginais, para corresponder a ou tratar de necessidades femininas específicas, menos valorizadas e mais trivializadas. Das jornalistas esperava­‑se que desenvolvessem “reportagens ligeiras”, sobre “todo o tipo de trivialidades, incluindo as domésticas”, e que o seu trabalho correspondesse a um tipo de notícias mais leves e que fizessem “cócegas” aos leitores (Holland, 1998: 18). Já as primeiras representantes políticas foram relegadas para o assistencialismo e, mais genericamente, para matérias relacionadas com uma conceção ideologizada e idealizada do universo feminino. 

O jornalismo feminizou­‑se (embora as direções dos meios a um ritmo menos acelerado), a política continua uma arena masculina. Em Portugal, nas legislativas de 2011, a proporção de mulheres eleitas correspondeu a 26,5%. No momento da constituição do 19.º Governo, em Junho de 2011, as governantes femininas correspondiam a 17%. Na história parlamentar, uma única mulher foi eleita Presidente da Assembleia da República, em 2011. Por uma única vez, em 1979, uma mulher foi indigitada para o cargo de Primeira­‑Ministra. Até à data nenhuma mulher desempenhou funções como Presidente da República.

Do prisma das representações simbólicas veiculadas, como lembra Silveirinha (2012: 92), as ligações entre a comunicação e as desigualdades das mulheres estiveram sempre presentes nas diversas articulações do feminino. Sobretudo a partir dos anos de 1970, os conteúdos mediáticos passaram a constituir uma “área de preocupação da agenda feminina” (Silveirinha, 2006: 5), no pressuposto de que “muito do poder social e político se jogava na representação” (Silveirinha, 2004: 5).

O primeiro problema coloca­‑se ao nível da (in)visibilidade. Pesquisas convergem num diagnóstico de sub­‑representação das mulheres na informação. Em 2010, essa presença foi quantificada em 24% pelo Global Media Monitoring Project (23% em Portugal). Outros estudos nacionais confirmam a expressão desmaiada de vozes femininas. Segundo os resultados de 2011 da monitorização dos jornais televisivos da noite efetuada pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social, 72,9% dos atores principais das notícias analisadas na SIC eram homens, e apenas 11,1% mulheres; e, na TVI, 74,3% dos protagonistas noticiosos eram homens e 8,5% mulheres (ERC, 2012) [2]. O mesmo padrão repete­‑se nos convidados dos programas informativos televisivos de três canais generalistas (RTP1, SIC e TVI) e três canais temáticos de informação, emitidos entre Setembro de 2010 e Junho de 2011: 84% foram homens, 16% mulheres (Baptista, 2012).

A questão é mais complexa do que apontar esta sub­‑representação, pois está diretamente associada às lógicas da mediação. 

Como salienta Mário Mesquita [3], “o jornalismo é a componente dos dispositivos mediáticos que mais de perto se relaciona com a visibilidade dos atores políticos, económicos, culturais, artísticos e desportivos”. Complementarmente, vários estudos no âmbito da sociologia do jornalismo identificam a “notoriedade do agente principal do acontecimento” como um dos mais principais valores­‑notícia na seleção informativa (Traquina, 2002: 188). Para que as mulheres adquiram visibilidade mediática, não é suficiente que estejam mais presentes nas instituições políticas, mas também que ocupem funções de maior responsabilidade. Com efeito, o desempenho de cargos cimeiros, pela centralidade desses lugares, o poder de decisão e as responsabilidades inerentes, “assegura uma presença regular nos media e qualifica quase automaticamente os seus ocupantes como interlocutores privilegiados dos jornalistas” (Baptista, 2012: 69­‑70). 

Na produção jornalística, há uma tensão entre o compromisso com os princípios da igualdade e da não­‑discriminação e o trabalho quotidiano, em que os critérios de seleção informativa podem reproduzir, e mesmo agudizar, as desigualdades entre homens e mulheres na distribuição de poder na sociedade. Deste modo, admite­‑se que as lógicas editoriais contemporâneas poderão contribuir para agravar o fenómeno de glass ceiling, ao dar voz quase exclusivamente a titulares das posições de topo... às quais, e será forçoso repetir esta ideia, raramente as mulheres chegam. 

As investigações dedicadas à inter­‑relação entre género, media e política partilham ansiedades, não só em torno da quantidade, como também da qualidade das representações mediáticas, atendendo aos seus impactos no exercício político e na democracia deliberativa. O género dos atores políticos interfere, explícita ou implicitamente, nas práticas discursivas do jornalismo? A política tem género sob o olhar dos e das jornalistas? 

Estas são interrogações centrais que orientam o aprofundamento desta problemática. O laço invisível que une os campos político e jornalístico através de representações simbólicas é aqui explicitado através de dois estudos de caso, ambos recortados do período histórico pós­‑democrático em Portugal, em que duas mulheres ascenderam a lugares políticos de topo e adquiriram elevado perfil mediático. 

O primeiro reporta­‑se a 1979, quando Maria de Lourdes Pintasilgo foi convidada pelo Presidente da República, Ramalho Eanes, a formar o V Governo Constitucional, que ficou conhecido como o “Governo dos 100 dias”. Lourdes Pintasilgo tornou­‑se a primeira Primeira­‑Ministra – e até agora única – em Portugal e a segunda da Europa, depois da eleição de Margaret Thatcher, em Inglaterra, em Maio do mesmo ano. O segundo estudo de caso situa­‑se temporalmente na primeira década do século XXI e acompanha três momentos da carreira política da social­‑democrata Manuela Ferreira Leite, a primeira mulher ministra das Finanças (em 2002) e a primeira mulher presidente de um grande partido (é eleita líder do PSD, em 2008), pelo qual se candidata às eleições legislativas de 2009, defrontando o Primeiro­‑Ministro incumbente, José Sócrates. Deve notar­‑se a coincidência de, em 2009, terem sido aplicados pela primeira vez os mecanismos legais da paridade de género na composição das listas eleitorais, contra os quais Ferreira Leite se bateu. 

Maria de Lourdes Pintasilgo e Manuela Ferreira Leite exibem percursos e perfis marcadamente distintos, mas também revelam alguns paralelismos interessantes.

Nascidas com uma década de diferença (Lourdes Pintasilgo em 1930 e Ferreira Leite em 1940), ambas se licenciaram em áreas “masculinas”, Engenharia Química e Económicas. No início dos seus trajetos profissionais, circulam entre homens: Lourdes Pintasilgo é a primeira técnica superior dos quadros da Companhia União Fabril, Ferreira Leite a única mulher da equipa do então Centro de Estudos de Economia e Finanças da Fundação Calouste Gulbenkian e a segunda assistente de Economia no então ISCEF (atual Instituto Superior de Economia e Gestão). As duas mulheres chegam à política aos 39 anos, não por declarada iniciativa própria ou ambição, mas pela mão de homens que admiram e com os quais mantêm relações de amizade. Convergem na noção da política como missão, serviço e dever. Ambas são profundamente católicas. 

Contrastam noutros aspetos fundamentais, como os traços de personalidade, as referências culturais, as escolhas pessoais. Distanciam­‑se radicalmente no posicionamento quanto às “questões femininas”. O percurso de Lourdes Pintasilgo está intimamente associado, na teoria e na ação, às lutas das mulheres e ao seu contributo específico, apoiado na sua “diferença”, para a comunidade. Ferreira Leite, além de não revelar sensibilidade por esta temática, esgrimiu argumentos, enquanto deputada, contra a adoção de políticas públicas que distinguiam a situação das mulheres.

Maria de Lourdes Pintasilgo e Manuela Ferreira Leite foram “primeiras” no exercício de cargos de responsabilidade na alta política. A notoriedade pública e mediática que alcançaram nessa qualidade oferece uma rara oportunidade de observação dos modos de representação simbólica da política no feminino. Os resultados da análise permitirão recensear estilos particulares de liderança construídos e projetados pelos media, bem como, eventualmente, identificar padrões de cobertura jornalística baseados em assunções de género (Norris, 1997), detetados em estudos levados a cabo noutros países. 

As investigações da mediação jornalística da política não podem ignorar os contextos históricos particulares. Por exemplo, no final dos anos de 1970, não é possível empreender a análise ignorando a instabilidade dos jovens órgãos políticos ou o caráter extremado da luta pelo poder sob o efeito da bipolarização da vida partidária entre “esquerda” e “direita”. Não se pode ainda ignorar que os meios de comunicação revelam graus variáveis de compromisso com posições político­‑ideológicas, o que condiciona a sua intervenção no combate político.  

Nestes intrincados contextos, um dos desafios consiste em destrinçar enviesamentos no tratamento jornalístico baseados no género dos atores políticos retratados. Antecipa­‑se que, entre 1979 e a primeira década do século XXI, se registará uma evolução no sentido de uma maior naturalização da participação política feminina e da ultrapassagem de esquemas dicotómicos e estereotipados de representação. Esta é, claro, uma hipótese que terá de passar pelo crivo da análise dos jornais.

A esfera política é aqui delimitada a uma aceção formal – o domínio do poder convencional. Segundo Henderson e Jeydel (2010: 6), este é “o mundo da política que se desenrola em instituições governamentais formais, como parlamentos/ legislaturas e órgãos executivos, e inclui o comportamento político, regulado pelo Estado, que se dirige à eleição de pessoas para essas instituições”. A amplitude das manifestações políticas da sociedade não se esgota na configuração formal do campo, sendo pertinente sublinhar, no entanto, que historicamente foi destas instituições que as mulheres ficaram arredadas. Pretende­‑se analisar uma realidade em que as decisões “importam e contam”. Os titulares do poder político têm a prerrogativa de fazer cumprir as suas decisões e detêm posições de autoridade (Paxton e Hughes, 2007: 3). Seria de igual modo pertinente, como sugere Victoria Camps (2001: 12), adotar um conceito lato de política, como “metáfora da tomada de decisões”, tendo em mente outros domínios relevantes. Porém, restringir o objeto de análise permite compreender a especificidade de um domínio com as suas instituições e leis próprias de funcionamento. 

A obra está organizada em duas partes. A primeira, de contextualização teórica e histórica, é composta por dois capítulos, nos quais se percorrem a emergência da cidadania feminina e os seus limites nas democracias ocidentais, e se discute a pertinência da categoria de género para descrever a participação política. Um segundo capítulo introduz a temática dos media e do jornalismo, abordando­‑se o impactos da feminização das redações sobre as normas profissionais, os padrões noticiosos de tratamento das mulheres na política e a mobilização de estratégias de comunicação baseadas no género. Na segunda parte é descrita a análise dos jornais, cuja nota metodológica é explicada no Apêndice 1. As conclusões, bem como um conjunto final de reflexões sobre o tema, são apresentados no último capítulo. 

[1] A dissertação de doutoramento foi submetida à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sob orientação da professora Cristina Ponte. A obra é também devedora da participação da autora no projeto “Política no Feminino”, desenvolvido no Centro de Investigação Media e Jornalismo. Os contributos resultantes deste projeto de investigação e aqui utilizados são devidamente referenciados.
[2] O restante valor que perfaz 100% corresponde às categorias “ambos os géneros” e “não identificável”. 
[3] Mário Mesquita, “Quando o Superman se disfarça de Clark Kent”, Público, 26/09/2004.

Poemas de Santa Teresa de Jesus (excerto)

«[Teresa de Jesus] é uma mística de olhos bem abertos ao mundo por quem se deixou fascinar nos primeiros anos da sua vida. Aberta aos problemas de uma Igreja dividida que procura remediar; ao “novo mundo” cujas almas procura salvar. Aberta ao continente africano — para o Congo vai a primeira expedição de carmelitas missionários por ela fundados, depois de receberem a sua bênção.

Teresa é uma mística com os pés bem assentes na terra. Em vinte anos fundou dezassete conventos espalhados por toda a geografia de Espanha. Ela comprava e vendia. Era boa negociante, talvez devido à sua ascendência judia. Tratava com o mesmo à vontade a “Sua Majestade” como os arrieiros dos caminhos de Castela. 

É esta mulher que muito sinteticamente vamos apresentar, dando-‑lhe sempre que possível a palavra.»

Pe. Jeremias Carlos Vechina in Prefácio

Perfil do Marquês de Pombal

A marquesa de Távora 

Agora que temos aí à porta o centenário do Marquês de Pombal, vem de molde lembrar alguns episódios daquele tempo. 

Toda a gente sabe que as marquesas de Távora eram simultaneamente duas: uma, D. Leonor; a outra, D. Teresa. A primeira, a velha, foi a que morreu degolada como regicida em 1759; a segunda, casada com o marquês, filho da justiçada, era a barregã do gordo D. José I. 

Esta passava os seus dias confortavelmente entre as comendadeiras de Santos, ao passo que o marido, no cadafalso de Belém, era estrangulado, fracturado nas canas das pernas e nos braços a pancadas de marreta, rodado, queimado sobre uma barrica de alcatrão, pulverizado e atirado ao Tejo. 

O ministro inglês Hay escrevia então para a corte de Jorge II: 

 

«Pois que sua majestade deseja ser informado das particularidades desta conspiração, mencionarei uma circunstância, que procuram ocultar engenhosamente sem impedir que se não acredite, e é a única a que se atribui o pérfido procedimento dos Távoras: – são as relações do rei com a mulher do marquês novo, as quais começaram no tempo em que o general foi vice­‑rei da Índia e continuavam agora.» (Memoirs of the marquis of Pombal, by John Smith). 

 

Deste texto infere­‑se que a injúria feita pelo rei a um marido, na condição vulgar do Távora, se não se considerava uma mercê magnânima, estava tão longe de ser um delito, que a tentativa de vingança foi considerada, pelo ministro inglês, um pérfido procedimento – treacherous behaviour

João Lourenço da Cunha, quando Fernando I lhe arpoou a mulher, adornou a sua fronte com pontas de ouro; outros maridos, porém, recebiam dos monarcas o ouro; e, em vez de o porem na cabeça em formas caprichosamente retorcidas, escondiam­‑no nas algibeiras para evitarem o escândalo. Estes não se nomeiam aqui para que os seus descendentes se não gabem de ter colaboração régia no seu génesis. 

Desta marquesa apenas direi que era galante e casada aos dezasseis anos com o marquês seu sobrinho e da sua mesma idade; aos vinte e seis, cedeu sem rebuço às solicitações do rei e, aos trinta e seis, assistiu com heróico desplante ao desfecho da tragédia, cuja responsabilidade era toda sua. Era mulher forte a valer. Sobreviveu incólume, tranquila e respeitada. Qualquer outra sucumbiria no seu patíbulo interior, vendo tão barbaramente supliciado seu irmão, o marquês de Távora velho, sua cunhada e sogra, a honrada marquesa D. Leonor, seu cunhado e sobrinho José Maria de Távora, o outro seu cunhado conde de Atouguia, o duque de Aveiro marido de sua irmã Leonor, e finalmente seu marido e sobrinho, que devia pungir­‑lhe a consciência porque é certo que a adorava. Invulnerável a estes golpes, era natural que resistisse às passageiras inquietações de ouvir o estertor dos que morreram nos subterrâneos do Bugio e da Junqueira – uns que tiveram a boa sorte de morrer depressa, e outros que aí agonizaram dezoito anos. O conde de Oeiras nada tinha que ver com o adultério de seu real amo e senhor; mas agora que temos aí à porta o centenário do Marquês de Pombal, vem de molde lembrar alguns episódios daquele tempo. 

 

* * * 

O meu empenho é dar a conhecer o perfil da marquesa de Távora D. Leonor.

Tinha sido gentilíssima, de um talento extraordinário, muito lida, uma verdadeira distinção na corte de D. João V. Quando foi do terramoto, contava ela cinquenta e cinco anos, e os que a conheceram nesse tempo chamavam­‑lhe formosa. O congregado Teodoro de Almeida, seu contemporâneo e amigo, escreveu um mau poema intitulado Lisboa destruída. Se o publicasse em vida de D. José I, teria o destino do sábio Moura Portugal e do padre José Moreira. Neste poema, publicado em 1803, há uma vinheta, a do canto III, em que se vê a miniatura da marquesa D. Leonor, e diz a tradição que era um retrato fidelíssimo em que o artista se esmerara a rogos do poeta. Estão com ela a filha condessa de Atouguia, a nora marquesa de Távora e uma neta. Representam­‑se a fugir do seu palácio derruído pelo terramoto. O congregado não extrema a marquesa velha das mais novas, quanto a beleza: 

 

Neste ponto avistaram de repente

Junto a si três Matronas mui formosas. 

Quem avistou as três matronas são dois sujeitos pouco épicos, Tirso e Misseno, que andam a filosofar por entre as ruínas. O poema raras vezes consegue ser lúgubre, como o caso pedia. Quando a gente se prepara para chorar na procissão de penitência, o padre Teodoro de Almeida, que triunfara no seu Feliz independente, dá­‑nos estas duas estâncias: 

 

Ali marcha entr’os justos misturada

Uma infame mulher, arrependida

De seus crimes, e vai já tão mudada,

Que sua face não é já conhecida.

O ermitão cuja vida retirada

Estrangeiro o faria e morto em vida

Ali vai: vão também os Estudantes,

Os que vivem d’Ofícios, e os tratantes. 

 

Vai um Monge, uma velha c’um letrado 

Um menino, e um cego c’um estrangeiro; 

Vão dois padres, um coxo, um aleijado, 

Um abade, um marquês e um barqueiro, 

Um ministro de Toga c’um soldado: 

Não importa ir depois ou ir primeiro, 

E a Gram Patriarchal finalizava 

Este culto, com o qual Deus s’ aplacava. 

 

Para que Deus se aplacasse foi preciso que a procissão saísse daquele feitio. E com efeito, sacrificadas 40 000 vítimas, Deus aplacou­‑se e tudo correu pelo melhor, como dizia o Doutor Pangloss que os inquisidores queimaram em Lisboa, se Voltaire não mente.

No poema, os arrazoados da marquesa são sempre eloquentes. O padre António das Neves, da congregação do oratório, escreveu notas eruditas à Lisboa destruída; e, com referência aos conceituosos discursos da marquesa, observa que foi fácil ao poeta inventá­‑los, pois que ainda eram vivas pessoas que a conheceram. O certo é que a marquesa, aos cinquenta e cinco anos, era ainda uma esbelta senhora com o aprumo juvenil e o garbo da mocidade sadia e alegre. Às maneiras fidalgas e altivez de raça ajuntava a superioridade do espírito, essa segunda fidalguia que devia torná­‑la odiosa à estupidez das suas primas.

 

* * *

 

A marquesa foi vice­‑rainha da Índia, desde 1750 até 1754. 

Um dos muitos e maus poetas toanteiros daquele tempo celebrou assim o denodo da marquesa na coragem de se embarcar para a Índia:

 

Vai, ó formosa heroína, 

Do mar essas ondas sulca,

Que, se és Vénus na beleza, 

Vénus nasceu das espumas. 

 

Se és divindade, não temas 

Da salgada água as fúrias, 

Que até impera nos mares,

Imortal, a formosura. 

 

Vai ser de Tétis inveja, 

Ser de Neptuno ventura,

Das sereias lindo encanto, 

Das ninfas formosa injúria. 

Os tritões e as napeias

Sende alegres testemunhas,

A nau – Carroça, tu – Deusa, 

Passeia as ondas cerúleas.

 

Vai, que é pequeno hemisfério 

Um só mundo às luzes tuas, 

E quem em um só não cabe 

Juntamente o outro busca. 

 

São do sol os diamantes 

Produção brilhante e sua; 

Se produz lá um sol tantos

Três que farão? Conjectura! 

 

Vai examinar o oriente 

Donde sai a luz mais pura, 

Verás do teu nascimento

Belo esplendor, cópia justa.

 

Vai que desta vez, Senhora, 

Ficará por tua indústria, 

A valentia formosa, 

A formosura robusta. 

 

Mais vai só, vai teu esposo,

Tudo o mais creio se escusa, 

Onde basta a tua fama

Sobeja a tua figura.

 

Sem violência no estrago

Terão teus raios fortuna;

Se ao sol os bárbaros adoram,

Logo que chegas, triunfas.

Se anima entre dois corpos

Uma só alma e não duas,

Pois a não partes na ausência,

Melhor a vida asseguras. 

 

À dor da saudade foges

Tens razão, mostras desculpa

Por um estrago suave

Trocas uma morte dura.

 

Água e fogo são contrários, 

Teu amor naturais muda,

Pois faz um novo milagre

Que o incêndio ao mar se una.

 

Vai! Conheça o mundo todo,

Mais alto poder divulga;

Que o sexo em ti domina,

O sangue que em ti circula. 

 

Isto é o mais que podiam dar a Arte e o Ideal daquele tempo – o mais tenebroso eclipse das letras em Portugal. Mas este sincero entusiasmo inédito de Caetano José da Silva Souto­‑Maior – o Camões do Rossio, devia sair das trevas para nos dar um testemunho do alto espírito e fenomenal formosura da vice­‑rainha, que então orçava pelos cinquenta anos.

Dizem alguns historiadores que D. José I enviara capitão­‑general para a Ásia o marquês de Távora, a fim de lhe poder conquistar a nora, cuja honestidade era vigiada impertinentemente pela marquesa velha. A desmoralização era possível; mas o anacronismo desmente­‑a. D. José não era rei quando o marquês foi despachado. D. João V morreu, quando o marquês vice­‑reinava. É todavia aceitável que o príncipe cooperasse para esse despacho, porque a data provável do adultério de D. Teresa justifica o lapso dos historiadores. 

Ingratamente pagava D. José I ao marquês as pomposas festas de aclamação que lhe celebrava em Goa. Neste lance, o espírito da vice­‑rainha criou coisas novas na Índia, e deu aos estrangeiros um testemunho da fictícia magnificência do génio português. Foi ela quem fez construir o primeiro teatro na capital da Índia, para festejar em três noites a aclamação do rei. O teatro era no paço de Pangim. A primeira peça representada foi em francês – a tragédia de Poro vencido por Alexandre, de Corneille. 

São seis os personagens. Cinco dos actores eram franceses e um português, familiares da marquesa, à excepção de dois oficiais, filhos do coronel Pierremont. A maior parte dos assistentes não entendia palavra; – diz o desembargador de Goa Francisco Raimundo de Morais Pereira – foi a representação feita com tão vivas expressões que, ajudados de um sumário em português que a senhora marquesa tinha mandado traduzir da ópera, todos saíram satisfeitos e agradados da novidade, única até ao presente em Goa

Quem talhou os soberbos costumes e dirigiu o guarda­‑roupa foi a marquesa. Como a tragédia se passava na Índia, foi fácil seguir o rigor dos ricos trajos. A vice­‑rainha assistiu aos lavores de camarim; e, muito intransigente em pontos de verosimilhança, quis que tudo tivesse a cor local. Nem na Europa se representaria tão cabalmente, diz o desembargador. 

Depois da tragédia, houve baile, em que dançaram os interlocutores e alguns oficiais estrangeiros disfarçados. O desembargador não explica o disfarce: queria dizer que fingiam damas, talvez as baiaderas levantinas. O arcebispo primaz assistiu à tragédia e ao baile, na frente da plateia, ao lado esquerdo do vice­‑rei. Findas as danças, a marquesa deu uma lauta ceia às fidalgas goesas. 

Na noite seguinte, representou­‑se uma ópera portuguesa, desempenhada por curiosos, em que entraram os Correias de Sá, irmãos do visconde de Asseca. A ópera era Adolonymo em Sidonia, diz o desembargador com insuficiente correcção. Apolonymo em Sidonia é que era, imitação do Alessandro in Sidonia, de Apóstolo Zeno, indigesta empada impressa em 1740. Agradou muito pela inteligência do idioma, acrescenta o cronista.

Dois dias depois, houve outro jantar para os cavalheiros, outra ceia para as damas, e representação de uma comédia espanhola. Mas o grande banquete a toda a nobreza foi no quarto dia dos festejos, em que os brindes eram acompanhados a salvas de artilharia. Nunca se vira no Oriente uma exuberância igual de iguarias. O magistrado exclama, profundamente tocado: «Competiu em todos estes dias a grandeza com a profusão, estando a copa de sua excelência aberta e pronta para todos os que queriam chá, chocolate, café, doces e outras delicadas bebidas, sendo igual o gosto dos criados que serviam à grandeza e realeza do sangue do seu ilustríssimo e excelentíssimo amo!» A marquesa fazia então distribuir regalos e avultadas esmolas pelas famílias fidalgas decaídas em miséria – relíquias dos antigos potentados da Ásia arruinados pela dissipação; e durante os quatro anos do seu vice­‑reinado subsidiava com mesadas os que não podiam vir ao paço receber as esmolas. Esses mendigos envergonhados eram os legítimos representantes da Índia portuguesa. 

A caridade da marquesa era tanto ou quanto maculada pela soberba da sua estirpe. Não descia uma linha da pragmática da sua alta posição. A esposa de um rajá enviara­‑lhe um rico presente; mas no sobrescrito da carta não lhe dera excelência. A marquesa devolveu­‑lhe o presente e a carta, – coisas que lhe eram decerto entregues por engano, visto que a ilustríssima não era a vice­‑rainha da Índia. A mulher do régulo emendou; e, feita a errata, o presente foi recebido e liberalmente compensado.

 

O marquês inventara um ataque simulado entre a tropa e os sipais para festejar a aclamação. Nas suas Instruções aos sargentos­‑mores e aos coronéis, declara peremptoriamente que, se algum dos soldados não andar bem, depois de ensaiados, será castigado asperíssimamente. E os soldados, para evitarem o castigo, quando atacavam Pangim, defendido pelos sipais, atiravam­‑se ao mar despidos e calçados; e uns pobres cavaleiros, para evitarem a conflagração de uma mina, atascaram­‑se com os cavalos num pântano, donde lhes custou muito a sair com vida. 

Este marquês de Távora era inteligente. Não inventou a pólvora; mas inventou um engenho de a moer com perfeição desconhecida; e quem inventou o moinho, também seria capaz de inventar a pólvora, se fosse preciso. O desembargador descreve largamente os pormenores da máquina inventada pelo Exmo. vice­‑rei e demonstra que o barril de pólvora de custo de 56$000 réis, pelas reformas e invenções do marquês, se obtinha por 33$000 réis. Ele também fez bom uso da pólvora contra os régulos, naquela guerra de cabotagem em que os vice­‑reis imaginavam sustentar as tradições dos Albuquerques e dos Castros. Castigou o Canajá, inimigo poderoso que infestava os mares; arrasou a fortaleza de Neubadel e queimou as embarcações. Socorreu Neutim e venceu o Marata em batalha naval. Tomou a fortaleza de Piro ao rei de Sunda e devastou as terras de Pondá e Zambaulim. Enfim, as proezas do marquês de Távora têm a imortalidade de quinze opúsculos de autores diversos arquivados pelo Sr. Figanière, e quase todos raros, porque, depois da conspiração contra o rei, houve o propósito de eliminar da história o nome e os serviços da família Távora. 

O ex­‑vice­‑rei, quando se recolheu ao reino, em 1754, já não encontrou na barra de Lisboa os membros da família real que o tinham ido cumprimentar e acompanhar na saída para o Oriente. D. José I participava do ódio do seu ministro à família que o desconsiderara porque, em verdade, os Távoras não conheciam Sebastião José de Carvalho, neto do padre Sebastião da Mata Escura e da preta escrava Marta Fernandes. A marquesa, quando desembarcou, estava triste; sabia que a sua casa estava desonrada, e que seu filho devorava em silêncio a afronta da esposa. Não obstante, a ex­‑vice­‑rainha era a grande fidalga, a mais perfeita senhora, o mais brilhante espírito dos salões onde se não via Sebastião José de Carvalho. 

Agora, as duas páginas finais do destino da mais formosa jóia da corte de D. João V. 

 

* * * 

 

A aurora do dia 13 de Janeiro de 1759 alvorejava uma luz azulada do eclipse daquele dia, por entre castelos pardacentos de nuvens esfumaradas que, a espaços, saraivavam bátegas de aguaceiros glaciais. O cadafalso, construído durante a noite, estava húmido. As rodas e as aspas dos tormentos gotejavam sobre o pavimento de pinho. Às vezes, rajadas de vento do mar zuniam por entre as cruzes das aspas e sacudiam ligeiramente os postes. Uns homens, que bebiam aguardente e tiritavam, cobriam com encerados uma falua carregada de lenha e barricas de alcatrão, atracada ao cais defronte do tablado. Às 6 horas e 42 minutos ainda mal se entrevia a faixa escura com umas cintilações de espadas nuas, que se avizinhava do cadafalso. Era um esquadrão de dragões. O patear cadente dos cavalos fazia um ruído cavo na terra empapada pela chuva. Atrás do esquadrão seguiam os ministros criminais, a cavalo, um com as togas, outros de capa e volta, e o corregedor da corte com grande majestade pavorosa. Depois – uma caixa negra que se movia vagarosamente entre dois padres. Era a cadeirinha da marquesa de Távora, D. Leonor. Alas de tropa ladeavam o préstito. À volta do tablado postaram­‑se os juízes do crime, aconchegando as capas das faces varejadas pelas cordas da chuva. Do lado da barra reboava o mugido das vagas que rolavam e vinham chofrar espumas no parapeito do cais. Havia uma escada que subia para o patíbulo. A marquesa apeou da cadeirinha, dispensando o amparo dos padres. Ajoelhou no primeiro degrau da escada, e confessou­‑se por espaço de 50 minutos. Entretanto martelava­‑se no cadafalso. Aperfeiçoavam­‑se as aspas, cravavam­‑se pregos necessários à segurança dos postes, aparafusavam­‑se as roscas das rodas. Recebida a absolvição, a padecente subiu, entre os dois padres, a escada, na sua natural atitude altiva, direita, com os olhos fitos no espectáculo dos tormentos. Trajava de cetim escuro, fitas nas madeixas grisalhas, diamantes nas orelhas e num laço dos cabelos, envolta em uma capa alvadia roçagante. Assim tinha sido presa, um mês antes. Nunca lhe tinham consentido que mudasse camisa nem o lenço do pescoço. Receberam­‑na três algozes no topo da escada, e mandaram­‑na fazer um giro no cadafalso para ser bem vista e reconhecida. Depois, mostraram­‑lhe um a um os instrumentos das execuções, e explicaram­‑lhe por miúdo como haviam de morrer seu marido, seus filhos, e o marido da sua filha. Mostraram­‑lhe o maço de ferro que devia matar­‑lhe o marido a pancadas na arca do peito, as tesouras ou aspas em que se lhe haviam de quebrar os ossos das pernas e dos braços ao marido e aos filhos, e explicaram­‑lhe como era que as rodas operavam no garrote, cuja corda lhe mostravam, e o modo como ela repuxava e estrangulava ao desandar do arrocho. A marquesa então sucumbiu, chorou muito ansiada, e pediu que a matassem depressa. O algoz tirou­‑lhe a capa e mandou­‑a sentar num banco de pinho, no centro do cadafalso, sobre a capa, que dobrou devagar, horrendamente devagar. Ela sentou­‑se. Tinha as mãos amarradas, e não podia compor o vestido, que caíra mal. Ergueu­‑se, e com um movimento de pé concertou a orla da saia. O algoz vendou­‑a; e, ao pôr­‑lhe a mão no lenço que lhe cobria o pescoço, – não me descomponhas – disse ela, e inclinou a cabeça, que lhe foi decepada pela nuca, de um só golpe. 

 

* * * 

 

Este começo de carniçaria, naquela manhã de nevoeiro, debaixo de um céu de chumbo impassível como a lâmina que degolou Leonor de Távora, há­‑de sempre lembrar com horror e piedade. Porém, que nome execrado, que verdugo responsável escreveremos na página da História? Sebastião José, esse não tinha nada que ver com os adultérios de seu real amo e senhor. Mas agora que aí temos à porta o centenário do Marquês de Pombal, vem de molde recordar alguns episódios daquele tempo. 

As Palavras do Punk (1.º cap)

1. O punk e a possibilidade da sua sociologia

 

O punk é uma forma musical. Se a palavra já era usada, na gíria norte-americana, para designar certos grupos de jovens situados na base da estrutura social (Laing, 1987: 124), só ganhou reconhecimento quando aplicada à música, sobretudo com a publicação da revista Punk Magazine em 1976 (O’Hara, 1999). Como forma musical, o punk entronca no grande universo do rock and roll, emergindo mediaticamente na segunda metade dos anos de 1970, simultaneamente na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Ali, protagonizada pelos Sex Pistols, cujo disco Never mind the bollocks, here’s the Sex Pistols, lançado em 1977, constituirá o marco fundador de uma nova linguagem e atitude musical. Aqui, protagonizada pelos Ramones que, com o álbum homónimo de 1976, seguiam a via aberta por bandas como os New York Dolls, os Stooges, os MC5, The Velvet Underground, Richard Hell and the Voidoids, The Dictators ou Television, que fervilhavam no circuito underground nova-iorquino desde o final dos anos 60. Como aconteceu com outras formas do rock, o punk internacionalizou-se muito rapidamente, influenciando os modos de fazer, distribuir e consumir música um pouco por todo o mundo. 

Contribuíram para potenciar esta influência, entre outras caraterísticas de forma musical, três fundamentais. Primeiro, o punk representou uma inovação, isto é, a frescura de uma forma instituinte, numa altura em que o rock dos anos 60 e 70 se encontrava num processo de institucionalização particularmente vincado, incorporado pela grande indústria discográfica e aceite, quando não já consagrado, por várias instâncias de legitimação cultural (afinal, a Rainha já havia feito condecorado os Beatles em 1965). O punk afirmou-se exatamente como dissidência face a essa lógica de cooptação, retomando certos traços fundadores da chamada contracultura (Laing, 1987). Segundo, o punk descreve-se a si próprio como a música que não requer nenhuma espécie de conhecimento e perícia, a linguagem disponível para aqueles cuja pulsão expressiva não pode ser bloqueada pela ignorância técnica, uma música que não é, sabe que não é e não quer ser música, no sentido de uma gramática técnica e estética só acessível por via de conhecimento, formação e qualificação específicas (Bennett, 2001). Terceiro, e correlativamente, sendo a música que qualquer um/a pode fazer, “saiba” ou não “saiba”, o processo de realização do punk está disponível para todos, podendo qualquer um/a encarregar-se das melodias, das letras, dos instrumentos, das gravações, dos concertos, da distribuição, da apreciação e do consumo. A lógica do “faz por ti próprio”, cuja sigla inglesa, DIY – “do it yourself” – será a mais clara e imediata identificação do punk, leva ao limite o tipo de percurso que o rock e as bandas de garagem já haviam proposto, desde os anos 1960, fazendo dele a sua bandeira (McKay, 1998).

O punk é um movimento cultural. Inscreve-se na dinâmica de que são portadoras, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, sucessivas gerações de jovens europeus e norte-americanos, que vivem e interpretam os grandes processos históricos da escolarização de massas, do desenvolvimento da produção e do consumo de massas, da emergência dos meios de comunicação de massas e das indústrias culturais, do crescendo das funções de marketing, publicidade e moda na geração do valor económico, do Estado de bem-estar, da polarização ideológica e político-militar em blocos antagónicos e dos desafios à ordem ocidental colocados pela descolonização, o anti-imperialismo e a Guerra Fria. Partilha com outros movimentos culturais a matriz musical, a referência ao universo do lazer, da convivialidade e da sociabilidade entre pares, a reinterpretação por esta via das pertenças e das questões do trabalho, das classes trabalhadoras e das cidades industriais, o enquadramento urbano, a marca adolescente e juvenil, e a centralidade do estilo de vida para a produção e a expressão de identidades pessoais e de grupo (Marcus, 2000; Cogan, 2010).

Dentro destas grandes afinidades estruturais, o punk definir-se-á a si próprio como uma forma e um movimento cultural específico. Muitas vezes se recorrerá, no seu seio, ao uso da palavra subcultura, jogando até com a sua ambivalência no vocabulário sociológico: quer se invoca a subcultura do punk para marcar a diferença face a outras grandes correntes das culturas juvenis, quer para contrapô-la, enquanto forma dominada ou subalterna, às formas e instituições culturais hegemónicas. De qualquer modo, a diferença punk radica, desde os primeiros concertos e discos dos Ramones e Sex Pistols, numa combinação de traços como os seguintes: o posicionamento à margem ou no “subterrâneo” (underground) do que for apercebido como um sistema instituído, qualquer que seja a sua esfera de influência, da política à economia, da sociedade à música; o desafio permanente e irremissível a esse sistema, numa lógica de permanente questionamento e desconstrução de qualquer expressão, símbolo ou convenção, por mais naturalizada que pareça; a busca de uma coerência pessoal, quer baseada na articulação entre o que se é, o que se diz, o que se veste e o que se faz, quer baseada na realização prática dos princípios defendidos, designadamente na maneira como se vive a música (Hebdige, 1979; Marcus, 2000). Tudo isto parece consubstancial ao punk, desde o seu início, e constitui o critério principal e mais frequentemente usado para demarcá-lo e opô-lo a outras subculturas, dominantes ou contestatárias, estabelecidas ou emergentes. O punk distingue-se dos outros – incluindo dos rockers – por ser underground, por ser radical na interpelação e por elevar o “do it yourself” ao estatuto de uma ética pessoal e de uma moral de grupo.

O punk é uma cena. A palavra imprime um colorido próprio à estrutura que em cada caso liga os diferentes protagonistas: as bandas, as editoras, os promotores, os críticos, os divulgadores, os consumidores, os fãs; e os recursos e meios de que dispõem, como os discos e outros registos fonográficos, os concertos e outros eventos, os bares, caves, salas e outros espaços de exibição e encontro, os jornais, boletins e fanzines, as lojas de roupas, acessórios e discos, as ruas e bairros, as plataformas físicas e digitais… Esta estrutura tem uma espacialidade e uma territorialidade, inscreve-se num meio social (físico ou, mais recentemente, virtual), que ela recria e usa como uma dimensão constitutiva, potenciando economias de aglomeração e escala. De todos os elementos estruturantes dão bem conta conceitos sociológicos como o de campo ou de mundo da arte. A vantagem da qualificação como cena está na ênfase que coloca, como eixo do campo, na partilha de um estilo de vida. Estilo de vida (por contraposição e complemento a modo de vida) identifica formas de estruturação social a partir das práticas e hábitos de consumo e lazer. E esse é um ponto distintivo das cenas musicais contemporâneas: a estrutura das relações sociais constituídas em torno de trajetos, posições e papéis é por assim dizer irrigada por padrões de comportamento no espaço público e semipúblico que tendem a ser identitários, no duplo sentido em que fazem a unidade de um grupo (ou “tribo”) e o distinguem dos demais (Straw, 1991; Shank, 1994; Bennett, 2004). A cena punk compreende, pois, produção e comercialização, consumo e lazer musical; maneiras de ser, apresentar-se e agir; valores e atitudes emblemáticas; formas de viver e ocupar o espaço urbano e o tempo da sociabilidade, o mundo pós-laboral e pós-escolar da noite ou do fim-de-semana, de refazer e apresentar os corpos, vestir-se, adornar-se e mostrar, andar sozinho, em pares ou em grupos, exprimir-se e comunicar. É uma espécie de caldo cultural em que os protagonistas se sentem imersos – e tratam de apropriar e transformar, muitas vezes operando novos cortes, novos alinhamentos, novos microclimas e assim constituindo outras cenas, ou subcenas…

Cultura, cena, forma musical: o punk é isto, desde os seus primórdios. Como, antes, durante e depois dele, outras dinâmicas o foram e são. O ponto é que as dimensões estão articuladas. A estrutura melódica rudimentar, a sonoridade agressiva, a intensidade e a rapidez da canção, o impacto da percussão, as palavras que se gritam mais do que se cantam, a ocupação performativa do palco, as cores fortes, as incisões e pinturas dos corpos, os adereços metálicos, os símbolos que conotam dureza, masculinidade ou rebeldia, o teor cru e provocatório das letras, os ambientes e horas de encontro, tudo isso se conjuga numa ética e numa estética que dialogam entre si (cf. Castelo-Branco, 2010). Como veremos, os membros desta cultura usam, muitas vezes, para sugerir esta ligação totalizante, expressões fortes como “filosofia” ou “modo de ser”. Eles geram os seus emblemas, os seus ícones, os seus rituais. Identificam e cultivam uma aura. Convocam e codificam uma história, com mitos fundadores, heróis e proscritos, acontecimentos, linhagens e ruturas. 

E, como é habitual, a narrativa combina acasos e predestinações, ortodoxias e dissidências, coisas que foram novas e envelheceram, coisas que estavam perdidas e foram recuperadas, memórias, saberes e emoções, numa constante elaboração e reelaboração, intertextualidade e interpretação (Bennett, 2013). Os Sex Pistols ridicularizaram o próprio hino britânico, em 1977, com God save the Queen. Brilharam no universo do rock entre 1975 e 1978, para logo desaparecerem. Sid Vicious, o seu ícone verdadeiramente punk, morreu muito novo, em 1979. Os Ramones mantiveram-se unidos até 1996 mas com muitas mudanças na formação. The Clash traziam uma tonalidade mais política, sendo London calling o seu álbum bandeira. Patti Smith, com uma conotação mais intelectual e literária, distinguiu-se no seu disco de estreia, Horses, de 1975 como a poetisa do punk. Vivienne Westwood, a primeira mulher de Malcolm McLaren, definiu o estilo punk dentro das portas das suas lojas londrinas: Let it Rock (1972), Too Fast to Live (1973) e Sex (1974). Foi particularmente nesta última que criou roupas com citações sadomasoquistas e slogans situacionistas, feitas de couro, t-shirts rasgadas (catalyst-shirts) e acessórios feitos de correntes e cadeados (Colegrave & Sullivan, 2002), rodeada de uma corte de jovens em ebulição que, sem o saberem, já eram punks (Savage, 2002). 

No ciclo político dos anos 80, com Margareth Thatcher em Downing Street e Ronald Reagan na Casa Branca, o punk foi muitas vezes visto como a expressão musical da resistência ao neoliberalismo. Já o surgimento se havia situado em relação com as várias ondas de choque da crise petrolífera de 1973 e com o declínio da indústria britânica e o aumento do desemprego (Paraire, 1992). Esse entendimento da música como recurso para a resistência social marcará a subcultura (Hebdige, 1979).

Como é caraterístico dos movimentos culturais, a linguagem (como é que falamos), a simbolização (que signos reenviam para outros signos) e a narrativa (o que fizemos e fazemos, o que nos aconteceu e acontece, o que se passa) constituem, eles próprios, ensejos de construção e de luta social. Punk ou pós-punk, proto-punk ou punk new wave? Quando nasceu o punk? Já se foi? Está vivo? Caiu em coma e depois recuperou? O punk de hoje é igual ao primordial? E qual é o primordial? Há punks nacionais, ou só cenas nacionais de um mesmo punk, internacional? Quem é punk? Quem pode definir o que é punk e classificar os punks? Quem está autorizado a ser, ou é reconhecido como intérprete legítimo do punk? As questões são quase infindáveis, mas todas remetem para o mesmo facto: o nome da cultura e os nomes dos cultores estão entre os mais formidáveis codificadores do campo e do sistema de pertenças e de poderes que lhe vem associado.

Isto tem, evidentemente, implicações na análise sociológica, porque ela própria faz parte, ou pode ser usada como parte deste jogo. O esquema que provavelmente acolheria a aceitação de sociólogos distanciados do campo – o esquema que, no grande universo rock do último quartel do século XX e do que já decorreu até agora do século XXI, poderia distinguir uma grande corrente comercial de pop, uma corrente mainstream de rock, o rock dito alternativo ou independente, o punk, o heavy metal, o hip hop e as músicas eletrónicas – esse esquema também muito provavelmente despertará as mais acesas discussões e as mais radicais desqualificações no interior das cenas musicais.

A sociologia, que, como tal, é agnóstica nestes pontos, o que tem a fazer é incorporar todas as movimentações no seu próprio objeto de estudo. Se não há uma essência do punk, se não houve ainda tempo para formar um cânone e se muito menos há uma qualquer definição jurídico-administrativa, então é punk o que faz sentido como punk para os atores de qualquer forma relacionados ou envolvidos com o (que consideram ser) punk.

Este é, pelo menos, o ponto de partida da nossa aproximação sociológica ao “punk português”. 

Jornalista, profissão ameaçada (1º capitulo)

I Jornalistas sob pressão

 

Os jornalistas vivem hoje sob permanente pressão. Pressão para ser rentável. Pressão para fazer a cobertura de determinado acontecimento. Pressão para ouvir este ou aquele interlocutor. Pressão para não afrontar os acionistas ou financiadores da sua empresa. Pressão para cumprir leis que não deixam margem para noticiar factos com relevância noticiosa. Pressão para trabalhar depressa. Pressão para ser o primeiro a anunciar a última coisa que acontece. Pressão para multiplicar conteúdos em diversas plataformas. Pressão para atender àquilo que os cidadãos dizem nas redes sociais. Pressão para desenvolver conteúdos de qualidade que suscitem o interesse do público. Pressão para não provocar reações dos reguladores dos media. Não é fácil trabalhar assim. Por isso, atualmente, ser jornalista é aceitar exercer uma profissão que está sob ameaças de vária ordem. E isso deveria suscitar um amplo debate público.

O jornalismo livre, independente e de qualidade sempre foi vital para a construção de um espaço público dinâmico e para uma cidadania de alta intensidade. Esse jornalismo nunca constituirá um perigo para a democracia. Pelo contrário. Apresenta­‑se como um antídoto dos abusos de poder, da corrupção, das disfuncionalidades das instituições públicas, dos atropelos cometidos no setor privado, das tiranias individuais que aqui e ali vão fazendo o seu caminho. Felizmente esse jornalismo existe entre nós, o que nos devolve alguma esperança de que há um futuro para a profissão. No entanto, este é um campo cada vez mais minado e isso tem vindo a agravar­‑se. O que nos deveria deixar a todos, enquanto  cidadãos, muito preocupados. Os jornalistas não se sentem livres e isso percebe­‑se. Nas conversas que vamos tendo com eles. E, mais preocupante, no modo como vão trabalhando. 

Este livro começou com uma pergunta endereçada a 100 jornalistas portugueses. Quisemos primeiro ouvir a classe e só depois promover a reflexão a partir daquilo que são os problemas que se sentem no dia a dia das redações. A questão de partida foi a seguinte:

Quais os maiores  constrangimentos à liberdade de imprensa que os jornalistas portugueses enfrentam hoje?

Pedia­‑se um texto conciso. E as respostas lá foram chegando. Velozes, como que querendo significar que a classe sente necessidade de falar disto, porque isto, os constrangimentos, é uma espécie de manada de elefantes numa loja de porcelana. Estão ali acomodados e o menor movimento poderá desencadear danos significativos. Por isso, a atitude tem sido deixá­‑los lá estar, porque a sua expulsão dá trabalho, causa prejuízo, provoca estragos. Mas seria bem proveitoso todos nós estarmos conscientes de que esses elefantes têm de sair das redações, porque a sua presença aí asfixia movimentos de quem quer trabalhar com outra desenvoltura. 

Aquilo que hoje mais atormenta os jornalistas são os constrangimentos económicos. Estão aí as principais censuras, transpostas na diminuição de meios, na redução das equipas, na limitação dos trabalhos. A dependência dos anunciantes é colossal. O medo dos administradores, real. Hoje é difícil ir até ao fim da rua ou até ao fim do mundo à procura de uma boa história. Não há dinheiro. É preciso fazer mais com menos. E é preciso fazer. E no meio de tudo isto, ressalta ainda o pânico de perder o emprego. Porque todos sabem que o mercado está esgotadíssimo e não há margem para contratos, principalmente se isso significar bons salários. «As direções foram sequestradas pelas administrações, que, por sua vez, foram sequestradas pelos anunciantes», escreve uma jornalista sénior. E agora, como sair desta crise profunda? Um dos jornalistas aponta um caminho acertado, defendendo que «o principal constrangimento à independência dos media é a perceção de que só se combate a crise de rentabilidade admitindo compromissos; outro galo cantaria se se percebesse que a independência dá dinheiro.». É destes problemas e de algumas vias alternativas para um contexto de uma crise profunda que abala hoje o sistema mediático que fala o ponto II. 

Outro constrangimento apontado pelos jornalistas recai na pressão das fontes. O político que pressiona pessoalmente o jornalista pertence ao passado. Hoje os assessores e as agências de comunicação exercem essa influência no lugar dos vários poderes dominantes, desenvolvendo uma pressão de agendamento e de cobertura mediática com técnicas apuradíssimas, sendo, por vezes, muito difícil perceber onde para uma profícua mediação e começa uma intolerável manipulação.  Há também aqueles que fazem chegar às redações as suas mensagens em formato (pseudo) jornalístico, procurando que esses conteúdos sejam publicados integralmente assim. Os jornalistas ficam próximos do estatuto de «copy­‑paste» ou de pé­‑de­‑microfone. O desrespeito pela profissão não poderia ser maior.

Em contexto de retenção de despesas, há que trabalhar mais rápido e com menos custos. Isso origina uma diminuição de contactos com as fontes. Ora, perante a impossibilidade de ouvir todos aqueles que interessam, os jornalistas refugiam­‑se nas versões das elites do poder.Que se repetem invariavelmente em todos os media noticiosos. Está aqui a principal explicação para o espaço público rarefeito que atualmente asfixia um pensamento livre, alternativo, de valor.  «Cresce a dependência de fontes oficiais, diminui a capacidade de perceber a realidade, de a questionar, de encontrar vozes alternativas, de chegar aos protagonistas, sobretudo aos sem poder», alerta uma jornalista. E aí está o jornalismo como caixa de ressonância do poder dominante.A revolução já não se faz nos media. Os jornalistas parecem estar resignados às versões daqueles que se instalaram no poder. É preciso, pois, agitar redações que se anestesiaram em relação àquilo que se passa nas bordas da sociedade e que, de repente, pode aproximar­‑se perigosamente do centro. É este complexo dédalo construído por uma confraria de interlocutores que tomou de assalto a opinião mediática que está em destaque no ponto III. 

Abrimos o ponto IV, perspetivando o jornalismo a partir de quatro campos: o da justiça, o da política, o do futebol e o da religião. O primeiro fornece­‑nos apoio para enunciar os direitos e os deveres que a Lei fixa para os jornalistas, analisando como cada articulado pode abrir certos interstícios por onde é sempre possível ir violando o que está legalmente previsto. Neste contexto, detemo­‑nos com algum pormenor no Segredo de Justiça e perguntamos a cinco jornalistas que acompanham regularmente matérias de justiça se aquilo que o Código de Processo Penal prevê deveria, ou não, ser reformulado. Os três últimos campos têm em comum o facto de serem atravessados por uma forte componente emocional, o que coloca problemas à mediatização que aí se desenvolve. São esses constrangimentos que sublinharemos em cada um deles com a colaboração de jornalistas especializados, escolhendo para a política o caso particular dos contextos eleitorais.

O ponto V recupera as linhas de força de cada um dos pontos anteriores, apresentando vias alternativas para uma crise que não pode, de forma alguma, colocar em causa o futuro do jornalistas e do jornalismo. Há, pois, que reinventá­‑lo com urgência. 

Para além de causas exógenas, que são reais, os constrangimentos que os jornalistas atravessam hoje têm também causas endógenas. Por mais complexa que seja a situação – e aquela que os media noticiosos atravessam atualmente é das mais difíceis em termos de estabilidade profissional – os problemas devem começar a ser resolvidos a partir de cada jornalista, a partir de cada redação, a partir das universidades que formam licenciados em comunicação. Só assim é possível iniciar uma mudança profunda no modo de encarar a profissão. E os jornalistas têm consciência disso, como documentam algumas respostas à pergunta que nos orienta nesta obra: 

 

Quais os maiores  constrangimentos à liberdade de imprensa que os jornalistas portugueses enfrentam hoje?

«Um dos constrangimentos à liberdade de imprensa em Portugal reside na autocensura a que jornalistas precários, freelancers ou temerosos são obrigados a recorrer (por vezes de forma automática ou inconsciente) para se manterem no mercado de trabalho. Num tempo de crise, torna­‑se mais difícil investigar e publicar temas que possam ser considerados incómodos para figuras dominantes do setor político e/ou financeiro. Não se ouvirá nas redações que tal trabalho não valerá a pena ­‑ claro que vale, apenas não há tempo, apenas não é “sexy” o suficiente, apenas não há recursos, apenas não… Para tal cenário contribui ainda a ditadura do tráfego, que muitas vezes tem obrigado jornalistas a produzir com um propósito e um ritmo próprio dos hamsters a correr em rodinhas, para citar o famoso artigo de Dean Starkman no Columbia Journalism Review

Andreia Azevedo Soares (Público)

«O primeiro constrangimento é intrínseco a cada jornalista e é o medo. De ficar sem emprego, de contrariar orientações das chefias, das administrações, dos donos. O medo de fazer diferente, de arriscar uma abordagem divergente com o pensamento dominante nas redações. Por isso,  há autocensura. Depois, há também a falta de coragem para romper com a força das agências de comunicação que floresce e tapa o horizonte... A pressão do poder político pode estar sempre ao dobrar da esquina, mas é simples evitá­‑la, mais do que muitas vezes se julga, e isso é imperativo. A proximidade pessoal com as fontes, em que o dever de informar é confundido com o “dar uma mão” ao amigo, é comum e condenável. Quem decide e faz opções editoriais tem a obrigação de afugentar estas ameaças, às vezes bem reais, outras apenas dentro de cada um dos que dirige.»

António Jorge (Antena 1)

 

«Há dois constrangimentos preocupantes à liberdade de imprensa. Um são os microcosmos em que se transformaram as redações com dinâmicas de funcionamento que geram mecanismos de quase autocensura. A outra nasce de um problema geracional e de um sistema de educação e ensino que forma profissionais cada vez mais alheados e distanciados da realidade. São o fruto de uma sociedade hiperligada, mas cada vez mais desligada.»

Hélder Silva (RTP)

 

«Os constrangimentos à liberdade de imprensa não advêm apenas do Estado ou dos Governos. São aqueles “cuidado com isto” dos superiores hierárquicos; são os telefonemas de gestores ou até de colegas que nos tentam “esclarecer” sobre um determinado tema.         Todavia, o  primeiro constrangimento de todos é nosso: dos jornalistas.»

Hugo Bragança Monteiro  (Económico TV)

 

«O maior constrangimento à liberdade de imprensa parte muitas vezes de nós próprios, quando achamos que não podemos ou não devemos ir mais além. Só depois de travarmos esse combate interno podemos avaliar, identificar ou até lutar contra fatores externos que possam condicionar esse exercício.»

João Moleira (SIC)

 

«Seria mais fácil referir os constrangimentos económicos. Ou a presença dominante dos grandes grupos. A liberdade está dentro de cada um. Se evitarmos sermos fontes uns dos outros e citarmo­‑nos uns aos outros, partiremos para a descoberta dos factos e estaremos sempre no caminho da liberdade.»

Luís Marinho (RTP)

 

«Divido os atuais constrangimentos à liberdade de imprensa em duas ordens de razões, que se cruzam: a primeira constrange externamente as práticas e rotinas jornalísticas diárias através do estrangulamento das redações que, ao verem diminuído o número de jornalistas, assistem à precarização das relações de trabalho, atacando a independência dos jornalistas e não permitindo o desenvolvimento de trabalho em profundidade. O desinvestimento quantitativo nas redações e no raio de ação efetivamente permitido aos jornalistas resulta, assim, num desinvestimento qualitativo no jornalismo. A segunda relaciona­‑se com o estabelecimento de dispositivos automáticos e progressivos de autocensura. Impedidos de um exercício independente, os jornalistas, na grande maioria, optam por estratégias de autopreservação o que justifica a tendência para um jornalismo inócuo e orientado para o fait­‑divers e para o infotainment

Luís Miguel Loureiro (RTP)

 

«A liberdade de informação é um processo diário feito muitas vezes de autocensura. Cada uma tem o seu tempo e lugar, até formatos para que se estenda em toda a sua dimensão, com legitimidade, e consagre o tal direito inalienável que os acontecimentos mundiais recentes demonstram precisar cada vez mais ser defendido e praticado. Perspetivando esta liberdade a partir do campo da saúde, em que trabalho com mais regularidade, o maior constrangimento assenta na consciência da diferença entre  informação e expressão.                               A liberdade de expressar travada quando se tem a informação, mas não se consegue corrobora­‑la. Aí assenta um outro princípio: o da responsabilidade.»

Paula Rebelo (RTP)

 

«Os constrangimentos à liberdade de imprensa são aqueles que a liberdade individual e profissional permitem. São muitos? São poucos? São mais do que deviam. Essa luta de antanho é hoje mais séria e refinada, muito refinada, do que nunca. Só se combate com o regresso aos valores, que andam por aí perdidos nas redações ou foram arrumados no armário das conveniências, ou foram libertados através de um spray que tem no rótulo a palavra medo.»

Paulo Ferreira (Porto Canal)

 

«Os poderes político e económico são as maiores ameaças à imprensa livre. A tentativa de interferência dos agentes políticos é um dado tão velho como o jornalismo.  É  frequente haver pressões que não são necessariamente ilegítimas. Fazem parte das regras do jogo e compete aos jornalistas dar­‑lhes a ponderação devida no tratamento da informação. A situação é diferente quando falamos de constrangimentos vindos do setor económico. A concentração de propriedade dos media pode condicionar a ação do jornalista.                                Por outro lado, sendo o financiamento assegurado por publicidade, por vezes surgem pressões de grandes grupos económicos para não se tratar polémicas que os envolvam.
Um condicionamento da última década é a proliferação  das agências de comunicação. O jornalista deve estar atento na pesquisa e tratamento da informação. As inúmeras sugestões diárias trazem já informação tratada que exige uma readaptação dos jornalistas a esta nova ordem.
A autocensura é a pior das censuras, a mais perversa. Perante as pressões existentes, o jornalista tem estar alerta para não cair no erro de deixar instalar em si mecanismos de censura como autodefesa. Este é um dos desafios do jornalista do século XXI. Ponderação sempre, mas nunca manifestada sob a forma autocensura.»

Pedro Figueiredo (RTP)

 

«O medo dos jornalistas: de incomodar as fontes, de pensar diferente, de não ser aceite pelo rebanho corporativo da classe, dos poderes e grupos de pressão económicos, políticos, judiciais, desportivos e culturais. O medo do desemprego, dos chefes, das administrações. O medo de ser sensacionalista e o medo de não conseguir fazer vender jornais. O carreirismo aliado a uma tendência cultural para o servilismo. Uma predominante incompetência que limita a capacidade de agendamento autónomo, alternativo ao das grandes centrais de informação e diferente das tendências noticiosas dominantes. A tentação do elitismo. A utilização perversa do “jornalismo de causas” ao serviço de causas não jornalísticas.  Um quadro legal e uma interpretação deontológica dos deveres dos jornalistas que, hipocritamente, servem os interesses informativos dos poderosos e promovem a autocensura injustificada. Um sistema de regulação paroquial. A incapacidade empresarial de enfrentar a mudança dos tempos. A fragilidade económica e financeira de muitos grupos de comunicação social.» 

Pedro Tadeu (Diário de Notícias)

 

«O mais poderoso constrangimento à liberdade de imprensa é a autocensura: do jornalista quando rejeita tratar o que lhe possa beliscar a zona de conforto; do editor quando, pelo mesmo motivo, já não marca determinada reportagem. Porque sabem que há ­‑ e poucos serão sempre demasiados ­‑, casos em que questionar e denunciar determinados poderes, regimes ou práticas, acarreta consequências.»

Ricardo Alexandre (Antena 1)

 

«Em grande medida, e para lá das já há muito identificadas condicionantes externas, uma componente não desprezível dos constrangimentos à liberdade de imprensa parte das limitações cada vez mais gritantes de muitos jornalistas. Um jornalista mal informado, pouco culto, demasiado acondicionado ao pensamento estabelecido não questiona, nem se questiona. Se não estrutura um pensamento próprio, está mais disponível e permeável às influências externas, e menos capaz de se assumir como contrapoder.»

Valdemar Cruz (Expresso) 

 

Somos o que escolhemos ser (Introdução)

INTRODUÇÃO

 

Nós somos aquilo que escolhemos ser.
Mas o que escolhemos ser não é independente
das circunstâncias que conhecemos e que vivemos.
Pedro Passos Coelho

 

Pedro Passos Coelho é um homem da Política como de tantas outras coisas. 

Este projeto nasceu da intenção de descobrir mais sobre uma figura que evidencia uma forma de estar e de agir diferentes e que, por isso, suscita curiosidade e convida à descoberta do mundo que se esconde por detrás do que se vê. Não tem a pretensão de ser um retrato fiel do que foi a vida deste homem nem do que é hoje a base do seu pensamento. Essa história só ele poderá contar. A introspeção dos outros não está ao nosso alcance e, sempre sujeitos ao que é o nosso quadro de referência e à nossa visão, o mais que podemos ambicionar é compreendê­‑la. É o que tento fazer. E o que convido todos a tentar: ler, descobrir e, depois, concluir se esta é ou não uma vida que vale a pena conhecer.

Pedro Passos Coelho nasceu em 1964, em Coimbra. Do Caramulo, a sua primeira morada, tem memória das pequenas viagens que fazia com o pai, médico, nas suas consultas ao domicílio. É de Angola que guarda mais recordações de infância, sobretudo da circunstância feliz de viver livre como um menino de rua e de ter um teto e uma família como os mais afortunados. É o mais novo de quatro irmãos, filhos de António e Maria Passos Coelho, duas pessoas a quem a vida trocou muitas vezes a volta, mas que nunca deixaram de remar em frente. O azar foi parente presente, mas não levou nem a esperança, nem o ânimo. Pelo menos, por muito tempo. Das adversidades e da forma como as viu em redor ser superadas, Pedro terá retirado lições preciosas. Hoje, é um homem pragmático que sabe dar a devida importância ao que são efetivamente más notícias, mas consegue retirar dessa categoria muitos acontecimentos. Por já ter vivido pior, sabe quanto vale e como se mede o sofrimento.

Regressou a Portugal com dez anos, porque já eram de Vila Real muitas das suas raízes. A adaptação a Trás­‑os­‑Montes, às novas gentes, aos costumes e à terra não foi fácil, e como que à espera que um pesadelo passasse, Pedro refugiou­‑se, isolado, por um longo período de tempo.

Sempre pensou em ser médico e fez todo o percurso escolar para cumprir esse objetivo. Mais do que um sonho, era um caminho natural, óbvio, que nunca perdeu muito tempo a questionar. Teria seguido essa carreira, não fosse aparecer­‑lhe no caminho uma grande paixão: a Política.

Abençoado com o dom da oratória e uma voz de barítono, serviu­‑lhe a avidez, quase aditiva, pela busca do conhecimento para lhes dar substância e conteúdo. Com a obsessão precoce de saber o mais possível sobre tudo, escapou a alguns anos de adolescência dita «normal». Trocou muitas vezes as atividades pueris por outras que o transformavam num ser estranho. Pelos treze anos, em vez de jogar ao berlinde ou futebol de mesa, ouvia ópera e tentava sapatear como Fred Astaire. Trocava os livros de aventuras pelos ensaios históricos e tratados de filosofia que dissertavam sobre o conhecimento, a vida e a natureza humana. Aos catorze, já conseguia discorrer sobre expectativas, desejos e interrogações cognitivas. Foi com essa idade que se iniciou na política, com uma entrada a pés juntos que pretendia abanar o status quo. Entrou a questionar, num choque frontal com quem estava no comando das operações da Juventude Social Democrata. A representar o seu distrito, mandaram­‑no ir ganhar lugares para Vila Real. Saiu­‑se mal no cumprimento desse objetivo, mas conseguiu outro, mais importante: fazer­‑se notar. 

Cheio de si, não tinha medo de nada e as hierarquias não o impediam de expressar o seu pensamento. Durante a vida, foi limando arestas e ficando mais polido, pautou­‑se sempre por abordagens educadas e escolheu os fóruns próprios, mas nunca perdeu o ímpeto, às vezes suicida e muito pouco estratégico, de dizer o que sentia.

Foi o mais novo conselheiro nacional do PSD, secretário­‑geral, vice­‑presidente e, depois, presidente da JSD e quem ocupou o cargo por maior período de tempo. Foi deputado à Assembleia da República e vice­‑presidente do Grupo Parlamentar do Partido Social Democrata. Afastou­‑se, zangado e desiludido, e quando saiu não pensava mesmo voltar. Tentou encontrar alento noutras atividades profissionais e retomou o investimento pessoal que a política tinha absorvido. Regressou em 2005, movido por um laivo de esperança de que as coisas fossem mudar. E saiu, mais uma vez, quando viu que tudo ficaria na mesma. Tinha um plano para o país e para o partido desde cedo. Sabia que era preciso «mudar» e achava que tinha as condições certas para liderar essa transformação necessária e já tardia. Candidatou­‑se a presidente do PSD uma primeira vez, e perdeu. Foi à segunda que conseguiu a confiança da maioria dos militantes para conduzir o partido, numa conjuntura que já era especial. Passos Coelho tinha noção dos constrangimentos que a governação socialista provocava aos portugueses, mas não estava consciente da sua real dimensão. Pautou­‑se sempre pelo bem comum em detrimento do interesse partidário, o que incomodou muitas pessoas. A máquina partidária tem um modus operandi próprio e Passos Coelho afrontou­‑o. Viabilizou a governação socialista enquanto achou que essa seria a melhor alternativa para o país, mesmo com a certeza de que estaria a atrasar a chegada do PSD ao poder. O poder, só pelo poder, nunca lhe fez muito sentido. Essa postura pouco tradicional, custou­‑lhe certamente muitos pontos políticos ao longo da vida.

A política consumiu­‑lhe muito tempo e acabou por, inconscientemente, lhe dedicar grande parte da vida. Não de forma exclusiva, mas muitas vezes absorvente. Mas Pedro não foi só um político. Aliás, nunca foi esse o seu papel mais importante. Foi filho, pai, irmão, marido. Foi e é. E só nesse cenário é mais igual a si próprio.

Todos sabem quem é Pedro Passos Coelho. Mas poucos serão os que o conhecem. Identificam facilmente o homem que quase diariamente vêem entrar pelas suas casas e que durante algum tempo, trouxe as más notícias. É, ainda hoje e mesmo já superada a fase mais negra, o porta­‑voz do sacrifício, da austeridade, dos tempos de tempestade e amargura. Tal personagem não pode ser um homem bom. 

Mas é. É um homem como todos os outros, com uma vida para além da profissão que exerce e que o faz ser, ao olhar público, o rosto do augúrio e impositor da maldição. Mas como um médico que nos abre o peito para intervencionar o coração enfermo, pode ser quem nos salva, contando que não falhe, um milímetro, no exercício da sua função.   

Há um Pedro por detrás do Pedro que todos pensam conhecer. Há o homem, que o político nos tenta esconder. Há, de facto, dois lados de um mesmo Pedro. E a história só se completa quando os dois se dão a conhecer. Porque Passos Coelho é o que escolheu ser, mas o que é não é indiferente das circunstâncias que viveu nem dos acasos que a vida lhe deu. 

A sua história é a matéria de que ele é feito.

 




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