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Portugal e a Grande Guerra - 1º Capítulo

PREÂMBULO






O presente livro é o resultado de uma série de conferências ou comunicações, proferidas em colóquios e seminários académicos na universidade, e de intervenções mais pontuais que fui fazendo, desde 2014 a 2018, a propósito da efeméride histórica do centenário da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e da participação portuguesa nesse grande confronto internacional, que assinalou a verdadeira transição entre o século XIX e o século XX. Alguns desses trabalhos ou intervenções foram genéricos, com o objetivo de recordar o essencial da Primeira Guerra, do seu contexto político, diplomático e social, das suas operações militares e, sobretudo, do seu significado e consequências civilizacionais. A esses se juntaram estudos mais específicos, sobre um ou outro ângulo, tema ou protagonista português da Guerra, ou durante a Guerra, que permitem compreender, ou visualizar, a beligerância portuguesa de maneira mais aproximada.
Concretizando a estrutura do trabalho, ele funciona como um tríptico, constituído por um primeiro texto de caráter introdutório e (mais) geral, e por um segundo e terceiro textos de temática especializada. Assim, o capítulo 1 tem por objetivo oferecer um resumo da importância da Grande Guerra de 1914-1918 no curso, mais vasto, da contemporaneidade europeia (e mundial), e uma evocação das razões, discursos, dinâmicas e resultados da muito polémica participação nacional no conflito, particularmente na frente europeia da Guerra, com o envio do Corpo Expedicionário Português (o CEP) para a Flandres. Traçado este cenário, que explora também o que eram as condições sociais, políticas, culturais e até económicas da Primeira República portuguesa, seguem-se então dois estudos de caso.
O primeiro desses estudos – que ocupa o capítulo 2 – aborda a figura de João Chagas, nome cimeiro da política e da diplomacia republicanas, e, sobretudo, o seu Diário (mais de um milhar de páginas distribuídas por quatro volumes), como narrativa coeva e uma das fontes históricas mais importantes para o conhecimento do belicismo português, isto é, da defesa propagandística da intervenção de tropas portuguesas em França, ao lado dos aliados, contra o inimigo germânico. O segundo desses estudos – que ocupa o capítulo 3 – centra-se na figura de José Stuart Carvalhais, nome importante do meio artístico, jornalístico e boémio da Lisboa republicana do tempo, e, sobretudo, na sua criação de banda desenhada mais famosa – a dupla de heróis Quim e Manecas, sempre inventivos e irrequietos – como forma inovadora de, nas páginas d’O Século Cómico e da Ilustração Portuguesa, fazer, para os mais novos (em registo infanto-juvenil, mas com ressonâncias para os adultos), uma narrativa visual, ficcional e romanesca do guerrismo português.
Através da biografia e da escrita de João Chagas, embaixador de Portugal em Paris durante quase toda a Primeira República, podemos mergulhar nos bastidores da alta política nacional (e internacional) e compreender por que razões o país foi para a Grande Guerra, e como essa participação, hiperbolizada nas suas vantagens pelos apoiantes de Afonso Costa, foi vivida, desde a expetativa otimista inicial até ao desalento final, como um dos temas mais polémicos e divisivos de toda a história da Primeira República portuguesa. Através da biografia e dos desenhos de Stuart Carvalhais, caricaturista, pintor, fotógrafo, figurinista ou cenógrafo multifacetado e autodidata, podemos visualizar um registo único de como a Grande Guerra, decidida e feita nas cúpulas do poder, chegava aos jornais, à opinião pública, à sociedade que a viveu e a sofreu, e como podia ser contada aos mais novos, a cores, através da linguagem inovadora da banda desenhada, com o registo humorístico das aventuras de Quim e Manecas.
Coexistentes no tempo, João Chagas e Stuart Carvalhais provavelmente nunca se cruzaram, sobretudo depois de 1910, quando o primeiro passou de conspirador antimonárquico a importante porta-voz do novo regime republicano, enquanto o segundo continuou a sua vida de artista errante, que fazia “bonecos” para se sustentar, para encher páginas de jornais e para divertir quem o lia. Postos lado a lado, contudo, ambos oferecem ao historiador algo em comum: a oportunidade de olhar o envolvimento de Portugal no grande conflito internacional de 1914-1918 a partir de registos discursivos que são muito diferentes, embora complementares um do outro: decidir fazer a Guerra (intervindo ou tentando intervir nos corredores do poder), e transmitir que Guerra ia sendo feita, naqueles anos, representando-a e recriando-a livremente na linguagem gráfica da banda desenhada que começava, há um século, a revelar as suas virtualidades artísticas nas páginas dos jornais. Daí o subtítulo deste livro. Ele não é (mais) uma história contínua de Portugal na Grande Guerra, mas um olhar diverso, contextualizado a partir do geral desse tema, sobre a sociedade que viveu a Guerra, sobre as modalidades da política republicana perante a Guerra, e sobre uma das formas possíveis de comunicação dessa realidade, tão omnipresente naqueles anos centrais do regime republicano português.
Construído como um todo que espero ser coerente, este livro pode ser lido em sequência, da primeira à última página, ou considerando cada um dos seus três capítulos como um trabalho autónomo. Por isso mesmo, não há uma bibliografia final única, mas bibliografias específicas em cada capítulo. Alguns títulos ali referidos – os mais importantes e, por isso mesmo, de uso mais recorrente –  aparecem repetidos em duas ou até em todas as partes do livro; outros, específicos do tema em tratamento, figuram apenas no final do texto a que dizem respeito. A identificação completa das referências bibliográficas que constam das notas de rodapé deverá, portanto, ter isso em conta. Para não truncar os capítulos, que não foram redigidos em continuidade, mas em momentos diferentes, deixei ficar algumas repetições entre eles, sobretudo visíveis em aspetos gerais de contextualização, factos, datas ou números de Portugal na Grande Guerra.
Cada capítulo é introduzido por um separador com uma imagem alusiva ao seu tema central – uma fotografia de Joshua Benoliel, da partida de soldados do CEP para a Flandres, que fez capa da revista Ilustração Portuguesa em fevereiro de 1917; uma outra fotografia, em bilhete postal da época, de João Chagas; e uma página da banda desenhada Quim e Manecas, de Stuart Carvalhais, alusiva à declaração de guerra da Alemanha a Portugal, publicada n’O Século Cómico em março de 1916. As legendas que acompanham essas imagens são da minha responsabilidade.
Evocar a guerra – as suas expetativas, as suas ilusões, as suas dinâmicas e os seus resultados, por norma trágicos – escrevendo sobre a Primeira Guerra Mundial é um imperativo cívico, para lá do registo historiográfico. As camadas demográficas dos jovens e de muitos adultos de Portugal e da Europa de hoje não têm, felizmente, experiência ou memória do que é viver em guerra. Mas o mundo, em geral, já esteve mais tranquilo, mais seguro e mais pacífico (mais previsível, em suma), do que está hoje. Lembrar 1914-1918 no fecho do ciclo de evocações do seu centenário é falar acerca do passado, sem, todavia, perder de vista o que não se deseja que possa vir a ser o presente e o futuro do nosso século XXI. Este livro pretende constituir um pequeno contributo para essa causa.
Gostava de expressar o meu muito obrigado à Dra. Zita Seabra pelo interesse e disponibilidade com que, à semelhança de ocasiões anteriores, acolheu a publicação deste meu trabalho na Alêtheia, sobretudo no cenário atual, de crescente contração do mercado livreiro, e, também na editora, à Alexandra Louro, que cuidou da parte administrativa e contratual, e à Rita Martins, que assegurou a produção gráfica da obra, tanto na sua versão impressa como na versão digital de e-book. Um agradecimento é igualmente devido às instituições que cederam as imagens aqui reproduzidas: a Biblioteca Nacional de Portugal, a Hemeroteca Municipal de Lisboa e o Museu Militar de Lisboa.
Este livro é dedicado à minha família e, em particular, à memória dos meus quatro avós, nenhum deles hoje vivo e todos nascidos antes, durante ou pouco tempo depois da Primeira Guerra Mundial, em 1902, 1908, 1916 e 1923. E porque quem escreve livros, em longas horas solitárias, retira tempo de atenção e convívio a quem lhe está mais próximo, ele é também dedicado – uma vez mais, e sempre mais – à Rita.

25 de Abril, Corte e Costura - 1º capítulo

A celebração do 25 de Abril e a Democracia do Futuro

Fundada no século I pelos romanos, a cidade de Augusta decidira celebrar os 40 anos da Revolução como nunca outra fizera. Não seria apenas com a pompa e a cerimónia que a data impunha. Em Augusta exigia­‑se muito mais. A pompa e a cerimónia eram os alicerces a partir dos quais a festa do 25 de Abril seria alçada para outro patamar. Exaltar, sublimar, transcender eram as novas palavras de ordem ligadas às comemorações da revolução. O festejo dos 40 anos do 25 de Abril tornar­‑se­‑ia, pois, um marco histórico quase tão importante como a própria Revolução dos Cravos. O Estado Novo tivera a Exposição do Mundo Colonial; o regime democrático teria a festa dos 40 anos da Revolução (que, pelo seu simbolismo, destronaria a Expo 98) – disso estavam convencidos os dirigentes locais.
Duas ponderosas razões sustentavam o ambicioso projecto. Primeiro, a razão mais nobre: as comemorações do 25 de Abril, ano após ano, estavam a tornar­‑se repetitivas, monótonas e inócuas. Os desfiles pelas avenidas de cravo ao peito com os cidadãos a gritarem «Fascismo nunca mais!», «25 de Abril sempre!», «Juntos venceremos!», assim como os comícios e os concertos de música revolucionária, estavam esgotados e despertavam cada vez menos o entusiasmo da população; com a agravante dos jovens situarem a data algures entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial e julgarem que Salazar fora o último rei de Portugal. Segundo, a razão menos nobre: a cidade de Augusta era desconhecida, não tinha belezas naturais ou património relevante, a juventude fugia da terra e andava toda a gente entediada. Combinava­‑se, portanto, uma razão nacional com uma razão local ­– o 25 de Abril também se fizera para desenvolver o interior – e assim se criava um projecto de vital importância para a consolidação da identidade da pátria, o reforço da democracia, o desenvolvimento regional e a alegria do povo.
Por outro lado, também partilhavam a convicção de muitos revolucionários de que, dos três Dês do 25 de Abril ­apenas o segundo D, o da Descolonização, fora totalmente cumprido, enquanto os outros dois Dês, a Democracia e o Desenvolvimento, não tinham sido atingidos. Para uns, mais o primeiro do que o segundo; para outros, mais o segundo do que o primeiro; e para muitos, nem um nem outro. O país permanecia um dos mais atrasados da Europa e quem criticava o poder continuava a sofrer retaliações. Por vezes, dada a impunidade dos poderosos e a promiscuidade entre os negócios e a política, parecia uma república das bananas.
Todavia, como fazer outro 25 de Abril equivaleria a derrubar o regime que trouxera a liberdade e a democracia, um novo 25 de Abril seria totalmente contrário ao espírito do 25 de Abril. Além disso, de nenhuma revolução poderia nascer um sistema social e político perfeito: a Revolução Francesa originara o Terror e Napoleão, a americana conduzira à guerra civil, a russa engendrara Estaline; a portuguesa fora mais pacífica porque somos um povo de brandos costumes e brandos atentados à bomba.
Da revolução nascia uma esperança, um projecto, uma semente cuja futura árvore necessitaria de permanente poda. E as comemorações dos 40 anos do 25 de Abril em Augusta seriam a tesoura que desbastaria alguns dos ramos tortos e dos frutos podres. Só faltava agora definir a estratégia do podador.

Para celebrar como nunca havia sido antes celebrado o 25 de Abril, o presidente da câmara de Augusta, Jaime Fagundes, criou uma Comissão de Honra das Comemorações dos 40 Anos do 25 de Abril. Composta por ele e pelos quatro vereadores da oposição, a comissão tinha a tarefa de programar a jamais vista comemoração do 25 de Abril. Entretanto, com o objectivo de ser publicado um livro que enaltecesse as celebrações em Augusta, Fagundes havia convidado a socióloga Albertina Dias, cujo currículo garantia a qualidade da obra.
O presidente Jaime Fagundes criara a Comissão de Honra porque a tal era obrigado, regra democrática que se via forçado a respeitar. Na verdade, Fagundes entendia que sozinho decidiria muito melhor do que acompanhado por aquela «cambada de energúmenos da oposição» cujo único objectivo era denegrir e sabotar o seu esforço em prol da comunidade. Se nunca haviam concordado consigo, verberando grandes ideias e excelentes medidas com os impropérios de «despesistas», «irrealizáveis», «absurdas», e rematando por fim a protérvia com a inevitável conclusão de Fagundes «não viver na realidade» e «ser um autarca nocivo ao interesse de Augusta», também não iria ser agora que o compreenderiam. Estes tipos estavam na política por não saberem fazer mais nada na vida. Só se distinguiam pelo espírito de contradição, mesquinhez e vistas curtas. Negociar com o FMI, a Troika e a dona Merkel, seria decerto muito mais fácil.
Eis a única certeza que havia quanto ao projecto.
Fagundes congeminava uma festa do 25 de Abril moderna, expurgada de anacronismos e romarias folclóricas. Quanto a isso estavam todos de acordo. O problema surgiria quando apresentasse as suas ideias, devido ao espírito de contradição da pandilha opositora. A primeira reunião da Comissão de Honra era dali a dois dias e já se antevia o resultado: disparates, discussão, gritaria e, no fim, nada. Depois viriam as segunda, terceira e quarta reuniões e tudo continuaria no mesmo impasse.
A democracia tinha este inconveniente: a mania de consultar e pedir a opinião, princípio aceitável na teoria mas que na prática impedia os governantes de fazer avançar o mundo. A Democracia do Futuro – sonhava Fagundes – acabaria por resolver este problema, libertar­‑se deste empecilho que, bem vistas as coisas, era até antidemocrático pois obstruía o progresso e a felicidade das massas. Na Democracia do Futuro, sobretudo no Poder Local, a tomada de decisões seria da competência exclusiva de um só homem. Este poderia de vez em quando escutar a voz dos vereadores para enfim lhes dar que fazer, mas decidiria sozinho, sem dar cavaco a ninguém. O povo elegera­‑o para isso mesmo. Quantos debates inúteis não seriam evitados? Quanto dinheiro não seria poupado? E quantas ideias brilhantes não escapariam ao torpedear da oposição?
Além de mais eficaz, a Democracia do Futuro seria igualmente mais personalizada, pois voltaria a confiar no indivíduo ao invés de diluir as responsabilidades pelo grupo. Assim, cada cidadão que escolhesse a carreira política saberia, ao contrário do que actualmente sucede, que dele se exigiriam elevadas competências e nos seus ombros se colocariam pesados encargos. E uma vez que teria de arcar com tudo isso sozinho, como um Cristo que rumasse ao Calvário desamparado de Simão de Sirene, apenas os homens genuinamente dedicados à causa pública se lançariam nesta via­‑sacra. Os demais – os oportunistas, os interesseiros, os corruptos e a restante gente vil – largariam a fugir da política como o diabo da cruz. Como tal, estando na Democracia do Futuro o poder entregue aos melhores, o espaço entre as eleições seria cada vez maior. E, em certos casos de excelência governativa, deixariam até de ser necessárias. Afinal, não havia cada vez mais abstenção? Mais um problema que a Democracia do Futuro resolveria.
Mas a Democracia do Futuro não ficaria apenas pela selecção dos melhores e pelo reforço dos seus poderes. Alguém tinha uma vez falado em forças de bloqueio; ora aí está a identificação exacta do maior problema da actual democracia. Suprimiam­‑se pois essas forças de bloqueio, como quem ceifa uma erva daninha ou remove uma maçã podre, e o funcionamento democrático seria perfeito. Ao contrário da actual democracia que estava totalmente desprotegida e à mercê dos seus inimigos, qual dama rodeada de dragões sem nenhum cavaleiro protector, a Democracia do Futuro trataria de se defender. Com unhas e dentes. Não haviam já sido derrubadas tantas democracias? E foram­‑no porque os golpistas se aproveitaram da sua fraqueza, porque se permitiu que as víboras medrassem no seu seio, porque o conceito de liberdade nunca foi verdadeiramente compreendido. Mas com a Democracia do Futuro terminariam esses tempos de vulnerabilidade e frouxidão. O seu punho forte esmagaria as víboras à nascença e nunca mais haveriam golpes de estado.
Criava­‑se uma Alta Autoridade de Vigilância Democrática que ficaria de olho nos jornais, livros, programas de televisão, filmes, teatro, obras de arte e restante produção cultural. Qualquer crítica aos governantes ou intuito de destabilizar a ordem e confundir os cidadãos, seria censurado e o seu autor repreendido. Esta Alta Autoridade deveria prestar especial atenção às notícias dos telejornais, pois é ali que o espírito antidemocrático mais facilmente se incuba e alastra. Porque o povo adora televisão e, pela sua natural ingenuidade, é presa fácil do engodo. Aliás, já alguns governos – do seu partido e do PSD – haviam ensaiado esta profilaxia democrática com razoável sucesso. Mesmo com as leis actuais, havia muitas maneiras legais de calar vozes incómodas.
E como nas universidades e entre os sindicatos também por vezes campeia o ódio à vontade da maioria, também lá seriam infiltrados agentes da Alta Autoridade para detectar eventuais conspirações estudantis ou proletárias.
Assim, sendo muito mais ágil, eficaz e potente, a Democracia do Futuro traria estabilidade e devolveria a confiança aos cidadãos. Em suma, tudo o que o povo exigia de um governo. Não andavam os intelectuais a alertar que a democracia estava em perigo, ameaçada por forças tenebrosas? Não passavam o tempo a denunciar falhas e a apontar defeitos ao sistema democrático? Não protestavam os próprios capitães de Abril que «não tinham feito o 25 de Abril para isto»? Eis a prova de que algo estava mal, ou melhor, péssimo. Como tal, o que se exigia agora era uma evolução da frágil democracia do presente para a robusta Democracia do Futuro. Uma democracia entrada nos eixos, adulta, perene, que por fim justificaria o elogio: o melhor de todos os sistemas. O melhor de todos os sistemas, por estar devidamente protegido. Não faltariam velhos do Restelo a arengar e a fazer comparações demagógicas, mas sempre tal sucedia quando havia avanços democráticos. Fosse o fim da escravatura ou o sufrágio universal, todos os progressos da humanidade foram precedidos de resistência tenaz.
As comemorações dos 40 anos do 25 de Abril levaram assim Jaime Fagundes a dar­‑se conta de que o assunto que mais o fascinava, quase obscurecendo essa mesma celebração, era a Democracia do Futuro. Os altos desígnios de uma utopia que poucos se atreviam a sonhar. Porque o 25 de Abril só estaria cumprido quando lá se chegasse. Embalado pelo devaneio, imaginava um porvir edénico para os governantes democráticos cujo único modelo aproximado apenas descortinava nalguns países africanos, na Rússia e, volta e meia, na ilha da Madeira.

Crónica de uma Ressurreição - 1.º capítulo

Já está despachadinha

…– Dispa­‑se da cintura para cima, vista esta bata e aguarde que já a vêm chamar.
… Dispa­‑se que já a vêm chamar.
… Dispa­‑se da cintura para cima, vista esta bata…
… Da cintura para cima… dispa­‑se… a vimos chamar.
Já sei! É para me despir da cintura para cima.

E depois ali estamos todas nós, vestidas da cintura para baixo, de bata branca da cintura para cima. Sou a mais nova da sala. As outras senhoras estão todas na casa dos 50. Eu farei 40 na próxima semana. Até lá ainda chegarei com certeza. Terão vindo por rotina apenas, ou, como eu, terão vindo para espreitar uma coisa que já sabem estar lá dentro?
Ninguém se fala. Tantas mulheres assustadas e nenhuma procura um consolo noutra, um desabafo ou uma partilha. Talvez seja o medo de ouvir uma história pior do que a sua. Talvez porque o medo da morte seja um sentimento solitário. Uma intimidade. Um acto de isolamento. No fundo, morrer é ficar só. E em silêncio.
Mas ainda não era altura. Havia ainda vários preliminares. Não digo eróticos. Antes fossem. Digo os procedimentos médicos, os exames, as biópsias as perguntas, os relatórios, as dúvidas, os diagnósticos, com seus avanços e recuos, as probabilidades, um sem­‑fim de afazeres qual rally paper em que a cada posto de informação recebemos a pista para encontrar o novo posto com a nova pista a decifrar.
–Va mos?
– Sim.
– Pode vir por aqui e abrir a sua bata?
– Sim.
– Agora encosta­‑se aqui por favor?
– Sim.
E começa. Aquilo parece a boca do Pac­‑Man cor­‑de­‑rosa. Tudo aquilo é muito difícil, mas o pormenor de fazerem os «apliques» das máquinas em rosa­‑bebé é sórdido e perfeitamente dispensável; de um certo requinte de malvadez, diria eu. Quem teve essa ideia só pode ser real e profundamente estúpido. Ou mal­‑intencionado mesmo.
Dão­‑se coisas cor­‑de­‑rosa às meninas desde que nascem. Alguma mente brilhante achou que aquela maquineta de espreitar coisas más dentro do peito das senhoras devia ser cor­‑de­‑rosa como os quartos de bebé das meninas, os seus babygrows, as suas fraldinhas de pano, a colcha do berço, a cortina do quarto, a primeira bicicleta, a mochila e o estojo da escola, o primeiro verniz das unhas, ou o bouquet de noiva, o enxoval das nossas filhinhas e, claro, as máquinas das mamografias ao nosso peito. Tão óbvio quanto isso. Se fossem máquinas para realizar testiculografias seriam naturalmente azul­‑bebé.  
Empurram o nosso seio para dentro de duas bandejas acrílicas transparentes, puxam­‑no, ajeitam­‑no e repuxam­‑no mais ainda para se certificarem de que ele está todo bem dentro da boca do Pac­‑Man cor­‑de­‑rosa. E depois vem o torniquete. Sim, não basta estar despida da cintura para cima na sala gelada das catacumbas escuras em que estas máquinas prosperam, o puxa e repuxa para dentro da boca do Pac­‑Man rosa­‑bebé e o «e agora não se mexa por favor». Ainda é preciso apertar.
E a jovem senhora, que por alguma razão impenetrável andou anos a estudar para fazer disto um modo de vida, carrega no botão para apertar o torniquete electrónico. Eu ainda tenho a imagem do torniquete mecânico das aulas de trabalhos manuais do quinto ano. O torniquete sempre me fascinou conceptualmente pela simplicidade da inteligência que subjaz ao mecanismo. Girar uma tira de ferro sem nenhum esforço e pela conjunção de mecanismos de alavanca apertar uma coisa qualquer com uma força n vezes superior à força humana isolada de quem manipula o mecanismo. Ali estava a minha maminha sob a força do torniquete e entre as duas bandejas acrílicas servida ao Pac­‑Man rosa­‑bebé.
Algum tempo depois de o torniquete me estar a doer, grito. Ela pára.
Parva que fui: devia ter gritado antes de me doer – penso. Bem, talvez não… era preciso tirar uma boa foto para ver tudo o que estava ali.
– Agora não se mexa.
– Não, não me mexo. – Aguento a dor
– Pronto! Já está despachadinha.
– Já estou despachadinha. Esta frase acordou­‑me à violência do que se estava a passar.
Foi ontem à noite: pousei a mão naquele seio enquanto, deitada, conversava animadamente, gesticulando. Numa pausa do discurso desço a mão, poisando­‑a. Eis que sinto algo.
– Que é isto?! – Penso em voz alta, para dentro de mim.
– Uma costura da camisa de noite? – penso.
Enfio a mão por debaixo dos lençóis, por debaixo da camisa de noite rendilhada sexy e coleante, de algodão azul­‑escuro; deslizo os dedos à procura, na expectativa ardente de que não vá sentir nada, nenhum volume duro e estranho que nunca lá estivera antes, como se batesse à porta de alguém desejando que a casa estivesse vazia, ou como se telefonasse a alguém desejando que não atendesse mas cumprindo o frete de ter feito a chamada deixando prova inequívoca disso mesmo e aliviando assim qualquer remorso.
Mas não. Alguém abriu a porta.
Alguém atendeu o telefone.
Naquele instante a Terra parou de girar, o Sol suspendeu as suas explosões, as estrelas estancaram no Céu, os cães do bairro não ladraram, as cigarras interromperam a sua corte sexual estreónica, a emissão televisiva congelou, e nem os corações da população mundial bombearam sangue durante escassos momentos. Estava ali uma coisa.
Já está despachadinha. Esta frase repôs o mundo a funcionar na minha cabeça. Até ali a estupefacção criogenizara­‑me o pensamento e a emoção. Já está despachadinha. Acordei!
Mas então, eu devo mesmo ter aquilo! Eu?! Isso não existe nas mulheres da minha família!… E eu, eu sou o cúmulo do optimismo, da atitude positiva: corro, danço, salto, trabalho tanto, até monto a cavalo!…Eu?! Morrer assim?!
– Boa tarde – digo, em rios de lágrimas – dê­‑me uma caixa de Valdispert por favor –.
– De 50 ou de 125 gramas?
– 125 – piscando os olhos para tentar ver através da água dos olhos.
O amigo indesejado abriu a porta, atendeu o telefone, e agora eu tinha ali 300 gramas da minha nova amiga Raiz de Valeriana para me ajudar a conversar com ele. Foi ela que me conduziu o carro de volta à casa onde vivia.

Winston Churchill na Madeira - 1º capítulo

Winston Churchill e a civilização ocidental da liberdade sob a lei

João Carlos Espada

(Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa; Presidente da International Churchill Society of Portugal).

 

Foi com alguma surpresa que recebi o telefonema do senhor Presidente do Governo Regional da Madeira informando-me de que ia publicar um livro de sua autoria sobre a visita que Winston Churchill fizera à Madeira, em Janeiro de 1950. Digo apenas “alguma surpresa” porque já conhecia bem a admiração de Dr. Miguel Albuquerque por Winston Churchill, bem como a sua familiaridade com a vida e obra do grande estadista. Essa admiração e esta familiaridade tinham ficado bem patentes nas suas marcantes intervenções em vários eventos “Churchillianos”, promovidos regularmente pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, em associação com a International Churchill Society of Portugal.

 

A surpresa foi bastante maior quando o Dr. Miguel Albuquerque me convidou a escrever um prefácio para o seu livro. É um convite que muito me honra e que aceitei de imediato, embora com alguma apreensão. E a apreensão aumentou quando pude ler o magnífico trabalho que o leitor tem agora nas suas mãos. O meu prefácio será apenas um modesto contributo para esta grande homenagem madeirense e portuguesa a Winston Churchill — um modesto contributo que tem o privilégio de acompanhar um eloquente trabalho histórico e literário de Miguel Albuquerque, bem como uma belíssima colecção fotográfica.

 

Mesmo nos dias que correm, Winston Churchill ainda é reconhecido como o homem que liderou a resistência ocidental ao totalitarismo nazi e um dos primeiros a denunciar o totalitarismo soviético. Mas a sua visão política tende hoje a ser desvalorizada e é por muitos considerada reaccionária ou ultrapassada. Gostaria de contestar esse entendimento e de recordar alguns dos aspectos que fizeram de Winston Churchill “o orgulhoso herdeiro e representante da velha tradição europeia e ocidental da liberdade sob a lei, a quem a Europa ficou a dever a liberdade” — para citar a muito apropriada avaliação de Miguel Albuquerque no presente livro.

 

Winston Churchill nasceu em 1874, numa muito antiga família aristocrática inglesa, ainda que sua mãe fosse americana. Estudou em Harrow, um dos melhores colégios ingleses, mas não ingressou na Universidade, tendo seguido a carreira militar e estudado na muito distinta Academia Militar de Sandhurst. Foi pela primeira vez eleito para o Parlamento, como deputado Conservador, em 1900, e permaneceu como deputado até 1964, tendo morrido em Janeiro de 1965. Churchill foi sempre um profundo admirador e activo participante do Parlamento britânico.

 

Na alvorada do século XX, as novas modas intelectuais emergentes na Europa não nutriam grande entusiasmo, para dizer o mínimo, pela democracia parlamentar ocidental. Vale talvez a pena recordar que, em 1904, Winston Churchill deixou a sua bancada Conservadora no parlamento britânico para se juntar à bancada dos Liberais. Vinte anos mais tarde, em 1924, voltaria a fazê-lo em sentido contrário, juntando-se novamente aos Conservadores. Mas, enquanto Churchill trocava de bancada entre dois muito antigos partidos parlamentares, as modas intelectuais da época atacavam a democracia parlamentar e as instituições da economia de mercado. Foi um período durante o qual o funcionamento das instituições democráticas europeias, à excepção das britânicas e das suíças, foi perturbado pela guerra e pelas ideologias revolucionárias, de esquerda e de direita.

 

As novas modas intelectuais tendiam a ser entusiastas fervorosas das marés revolucionárias, fossem da esquerda ou da direita, do comunismo ou daquilo que viria a ser o nacional-socialismo. Os revolucionários apresentavam-se como porta-vozes de um mundo novo. Havia que deixar para trás a inércia da democracia parlamentar e a mesquinhez comercial do capitalismo. A Inglaterra e a América eram vistas como símbolos do velho mundo. Dizia-se que estavam à mercê da "conspiração judaica" e da "plutocracia financeira mundial". A Inglaterra e a América eram acusadas de resistir ao novo "Estado total”, centralizado e inovador, introduzido por Lenine na Rússia, em 1917, por Mussolini em Itália, em 1924, e por Hitler na Alemanha, em 1933. Na Europa, muitas pessoas mostravam-se sensíveis às novas tendências: "Sim, o mundo está a mudar", diziam, "e, tal como o mundo, também temos de mudar".

 

Winston Churchill permaneceu imune à linguagem da revolução e da inovação. Dizia-se que ele era um conservador antiquado que não compreendia os novos tempos. Mas Churchill compreendia os novos tempos. E não gostava daquilo que compreendia. Churchill era um admirador da tradição liberal-conservadora do seu país, do Império Britânico e da civilização europeia e ocidental. Estudara Macaulay e aprendera que a Revolução Gloriosa de 1688 – a última revolução que ocorrera em Inglaterra – fora feita com relutância e com o objectivo principal de tornar desnecessárias futuras revoluções.

 

Esta tradição é dificilmente traduzível na linguagem ideológica moderna. Mas Churchill resumiu-a brilhantemente numa passagem em que procurou descrever as convicções políticas de seu pai, Lord Randolph Churchill, que tinha sido uma ilustre parlamentar Conservador. Disse Winston Churchill:

 

“[Lord Randolph Churchill] não via razão para que as velhas glórias da Igreja e do Estado, do Rei e do país, não pudessem ser reconciliadas com a democracia moderna; ou por que razão as massas do povo trabalhador não pudessem tornar-se os maiores defensores destas antigas instituições através das quais tinham adquirido as suas liberdades e o seu progresso. É esta união do passado e do presente, da tradição e do progresso, esta corrente de ouro, nunca até agora quebrada, porque nenhuma pressão indevida foi exercida sobre ela, que tem constituído o mérito peculiar e a qualidade soberana da vida nacional inglesa.”[1]

 

Foi com base neste “corrente de ouro” que Churchill anunciou desde o início a sua firme oposição ao comunismo e ao nacional-socialismo, dizendo que "entre as doutrinas do Camarada Trotsky e as do Dr. Goebbels deve haver espaço para cada um de nós, e mais umas quantas pessoas, cultivarmos as nossas próprias opiniões”.

 

Num discurso em 1938, Churchill recordou a tradição da liberdade sob a lei em nome da qual condenava a dupla ameaça despótica do comunismo e do nacional-socialismo:

 

“Não temos nós uma ideologia própria — se tivermos de usar esta horrível expressão, ‘ideologia’ — na liberdade, numa Constituição liberal, no governo democrático e parlamentar, na Magna Carta e na Petição dos Direitos?” [2]

 

         Foi em nome desta tradição ocidental da liberdade sob a lei que Winston Churchill fez tudo o que estava ao seu alcance para resistir à tirania. No seu primeiro discurso como Primeiro-Ministro na Câmara dos Comuns, a 13 de Maio de 1940, enquanto ainda estava a formar o seu Governo, Churchill anunciou o seu programa de resistência em palavras que ficaram célebres:

 

“Nada tenho a oferecer senão sangue, esforço, lágrimas e suor. Temos perante nós uma ameaça da mais grave natureza. Temos perante nós muitos, muitos longos meses de combate e sofrimento. Perguntam-me, qual é a nossa política? Eu direi que é a de fazer a guerra, por mar, terra e ar, com todo o nosso poder e com toda a força que Deus nos deu; fazer a guerra contra uma monstruosa tirania, nunca ultrapassada no lamentável catálogo do crime humano. Esta é a nossa política… Perguntam-me, qual é o nosso objectivo? Posso responder numa palavra: é a vitória. Vitória a todo o custo, vitória a despeito de todo o terror, vitória por mais longo e difícil que possa ser o caminho que a ela nos conduz; porque, sem vitória, não sobreviveremos.”[3]

 

Menos de um mês depois, a 4 de Junho, Churchill voltaria ao Parlamento, um dia após a evacuação com êxito de 224,318 soldados ingleses e 112,172 soldados franceses de Dunkirk. Foi neste contexto que ele proferiu o célebre discurso no Parlamento:

 

“Apesar de largas partes da Europa e muitos velhos e famosos Estados terem caído ou poderem cair nas garras da Gestapo e de todo o odioso aparato do poder Nazi, nós não vacilaremos.

Iremos até ao fim. Combateremos em França, combateremos nos mares e nos oceanos, combateremos no ar com crescente confiança e crescente força, defenderemos a nossa ilha, qualquer que seja o seu custo.

Lutaremos nas praias, lutaremos nos campos de aterragem, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas montanhas; nunca nos renderemos.”[4]

 

A 8 de Maio de 1945, Churchill pôde celebrar a vitória da causa da liberdade pela qual se batera incansavelmente. Menos de dois meses depois, a 5 de Julho, a sua venerada democracia parlamentar britânica derrotava-o em eleições gerais, dando uma larga vitória ao partido Trabalhista de Clement Attlee, que tinha sido seu leal vice-primeiro-ministro durante a guerra. Churchill aceitou a derrota eleitoral sem um protesto. E passou tranquilamente a liderar a bancada da Leal Oposição Conservadora de Sua Majestade.

 

O Reino Unido estava exausto. A Europa estava exausta. Mas o velho Winston Churchill, então com 71 anos, não se rendeu. No ano seguinte, em Março de 1946, no Colégio de Westminster, em Fulton, Missouri, na presença do Presidente Truman, Churchill denunciou solenemente a Cortina de Ferro que a União Soviética impusera na Europa central e de Leste:

 

“De Stettin no Báltico até Trieste no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente europeu. Para lá dessa linha ficam todas as capitais dos antigos estados da Europa central e oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sofia, todas estas famosas cidades e as populações circundantes estão agora no que eu devo chamar de esfera soviética, e todos estão submetidos, por uma forma ou por outra, não apenas à influência soviética mas também em grande e crescente medida ao controlo de Moscovo.”[5]

 

Este foi o ponto de partida oficial para o início da chamada “Guerra Fria” que opôs o Ocidente ao bloco soviético. Uma guerra fria que viria a ser vencida pacificamente pelo Ocidente com a queda do Muro de Berlim, em 1989. Churchill já não pôde testemunhar essa nova vitória da civilização ocidental pela qual combatera toda a vida. Mas tinha sido ele, mais uma vez, quem denunciara em primeiro lugar o despotismo soviético — e fizera-o enquanto líder da Leal Oposição Conservadora britânica.

 

Foi neste estatuto de líder da Leal Oposição Conservadora de Sua Majestade que Churchill visitou a Madeira em Janeiro de 1950. Mas — como recorda eloquentemente este livro de Miguel Albuquerque, e como as excelentes fotografias ilustram, — foi como líder do Mundo Livre que ele foi recebido entusiasticamente pela população madeirense.

 

Esta entusiástica recepção constituiu também uma honrosa homenagem à aliança luso-britânica, selada no Tratado de Windsor, em 1386. É a mais antiga aliança, ainda em vigor, do mundo ocidental. Tem sido muito criticada por modas intelectuais recorrentes, de esquerda e de direita. Infelizmente, tem sido muito pouco defendida na praça pública. Devemos estar gratos a Miguel Albuquerque, e à sábia população da Madeira que o elegeu, por esta destemida e eloquente recordação da visita de Churchill à Madeira — e da ancestral aliança luso-britânica que ela ilustrou.


 

Winston Churchill and the Western Civilisation of Liberty under Law

João Carlos Espada

(Director, Institute for Political Studies at the Catholic University of Portugal; President, the International Churchill Society of Portugal).

 

It was with some surprise that I received a phone call from HE the President of the Regional Government of Madeira, telling me that he was going to publish a book of his on the visit that Winston Churchill had paid to Madeira in January 1950. I say with “some surprise” only, because I already knew quite well of the admiration that Mr. Miguel Albuquerque had for Winston Churchill and of his familiarity with the life and work of the great statesman. That admiration and this familiarity had become quite apparent in the remarkable interventions of Mr. Miguel Albuquerque at several Churchillian events which have been and are frequently promoted by the Institute for Political Studies of the Catholic University of Portugal, in association with the International Churchill Society of Portugal.

 

My surprise was rather stronger when Mr Miguel Albuquerque invited me to write a preface for his book. I am very honoured by this invitation, which I have immediately accepted, but not without some trepidation. And this trepidation has only increased when I read the magnificent work that the reader now has in his or her hands. My preface will be a rather modest contribution to this great “Madeirense” and Portuguese tribute to Winston Churchill — a modest contribution that is privileged to accompany an eloquent historical and literary work of Miguel Albuquerque, as well as an extremely beautiful photo collection.

 

Even in the present days, Winston Churchill is still acknowledged as the man who led the Western resistance against nazi totalitarianism and as one of the very first to denounce soviet totalitarianism. But his political views tend now to be discarded and many denounce them as reactionary and outdated. I would like to challenge that perception and to recall some of the many aspects that made Winston Churchill “the proud heir and representative of the old European and Western tradition of liberty under law, to whom Europe has owed her liberty” — to quote the very appropriate evaluation of Miguel Albuquerque in the present book.

 

Winston Churchill was born in 1874 in a very ancient English aristocratic family, even though his mother was American. He studied at Harrow, one of best English public (ie, private) schools, but he did not go into University, having embarked upon a military career and studying at the very distinguished military academy of Sandhurst. He was elected to Parliament for the first time in 1900, and he remained a Member of Parliament until 1964, having died in January 1965. Churchill was always a profound admirer of, and an active participant in, the British Parliament.

 

At the dawn of the 20th century, the new intellectual fashions that were then emerging in Europe did not express great enthusiasm, to say the least, for the Western parliamentary democracy. It is perhaps worth recalling that, in 1904, Winston Churchill left his Conservative bench at the British Parliament and crossed the aisle to join the Liberal bench.Twenty years later, in 1924, he crossed the floor again and returned to the Conservative bench. But, whereas Churchill was changing benches between two very ancient parliamentary parties, the intellectual fashions of those times were attacking parliamentary democracy and the institution of the market economy. That was a period in which European democratic institutions, with the exception of the British and the Swiss ones, were disturbed by war and by revolutionary ideologies, both from the left and the right.

 

The new intellectual fashions tended to be ardent supporters of the revolutionary tides, either of the left or the right, either of communism or of what would become national-socialism. Revolutionaries presented themselves as spokesmen for a new world. One should leave behind the paralysis of parliamentary democracy and the commercial pettiness of capitalism, they claimed. England and America were described as symbols of the old world. They were said to be hostages to the “Jewish conspiracy” and the “world financial plutocracy”. England and America were accused of resisting the new centralised and innovative “total state” which was introduced by Lenin in Russia, in 1917, then by Mussolini in Italy, in 1924, later by Hitler in Germany, in 1933. Many people in Europe were sensitive to the new trends: “Yes, the world is changing,” -- they would say -- “and we must change with the world”.

 

Winston Churchill remained immune to the language of revolution and innovation. He was described as an old-fashioned reactionary who did not understand the new times. But Churchill did understand the new times. And he did not like what he understood. Churchill was an admirer of the European and Western tradition of liberty, to which he thought his country and the British Empire had given a significant contribution. He had carefully studied Macaulay and his whig, liberal-conservative, view of English history. He therefore knew very well that the 1688 Glorious Revolution – the last revolution that England underwent – was made with reluctance and with the main purpose of making further revolutions unnecessary. He therefore was not impressed by the language of revolution that was growing on the Continent.

 

This tradition can hardly be translated in modern ideological language. But Churchill summarised it brilliantly in a passage in which he tried to describe the political views of his father, Lord Randolph Churchill, who had been a distinguished Conservative Member of Parliament. Winston Churchill said:

 

“He [Lord Randolph Churchill] saw no reason why the old glories of Church and State, of King and country, should not be reconciled with modern democracy; or why the masses of working people should not become the chief defenders of those ancient institutions by which their liberties and progress had been achieved. It is this union of past and present, of tradition and progress, this golden chain, never yet broken, because no undue strain is placed upon it, that has constituted the peculiar merit and sovereign quality of English national life.”[6]

 

It was on the basis of this “golden chain” that Churchill announced from the outset his firm opposition to communism and national-socialism, saying that “between the doctrines of Comrade Trotsky and those of Dr. Goebbels there must be  space for each of us, and some more people, to cultivate our own opinions.” In a speech in 1938, Churchill recalled the tradition of liberty under law for which he condemned the double threat of communism and national-socialism:

 

““Have we not an ideology — if we must use this ugly word — of our own in freedom, in a liberal constitution, in democratic and Parliamentary government, in Magna Carta and the Petition of Right?” [7]

 

         It was on behalf of this Western tradition of liberty under law that Winston Churchill did all he could to resist against tyranny. In his first speech as Prime Minister in the House of Commons, on 13 May 1940, while he was still forming his Cabinet, he announced his programme of resistance in words that became famous:

 

““I have nothing to offer but blood, toil, tears and sweat. We have before us an ordeal of the most grievous kind. We have before us many, many long months of struggle and of suffering. You ask, what is our policy? I will say, it is to wage war, by sea, land and air, with all our might and with all the strength that God can give us; to wage war against a monstrous tyranny, never surpassed in the dark, lamentable catalogue of human crime. This is our policy. You ask, what is our aim? I can answer in one word: Victory — victory at all costs, victory in spite of all terror, victory, however long and hard the road may be: for without victory, there is no survival.”[8]

 

Less than one month later, on 4 June, Churchill returned to Parliament, one day after the successful evacuation of 224,318 British soldiers and 112,172 French soldiers from Dunkirk. It was in this context that he made his famous speech before Parliament:

 

““Even though large tracts of Europe and many old and famous States have fallen or may fall into the grip of the Gestapo and all the odious apparatus of Nazi rule, we shall not flag or fail. We will go on to the end. We shall fight in France, we shall fight on the seas and the oceans, we shall fight in the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender.”[9]

 

On 8 May 1945, Churchill was able to celebrate the victory of the cause of liberty for which he had fought tirelessly. Less than two months later, on 5 July, his venerated British parliamentary democracy defeated him in general elections, giving a landslide victory to the Labour Party of Clement Attlee, who had been his loyal deputy Prime Minister during the war. Churchill accepted the electoral defeat without a protest. And he quietly became the leader of Her Majesty’s Loyal Opposition.

 

The United Kingdom was exhausted. Europe was exhausted. But the old Winston Churchill, then aged 71, did not surrender. In the following year, in March 1946, at Westminster College, in Fulton, Missouri, in the presence of President Truman, Churchill denounced the Iron Curtain that the Soviet Union had imposed upon Central and Eastern Europe:

 

“From Stettin in the Baltic to Trieste in the Adriatic, an iron curtain has               descended across the Continent. Behind that line lie all the capitals of the     ancient states of Central and Eastern Europe. Warsaw, Berlin, Prague,        Vienna, Budapest, Belgrade, Bucharest and Sofia, all these famous cities             and the population around them lie in what I must call the Soviet sphere,     and all are subject in one form or another, not only to Soviet influence but to a very high and, in some cases, increasing measure of control from Moscow.”[10]

 

This was the official starting point of the “Cold War” that has opposed the West agains the Soviet bloc. A cold war that was peacefully won by the West at the fall of the Berlin Wall in 1989. Churchill could no longer witness that victory of the Western civilisation for which he had fought the whole his life. But it had been he, once again, who had first denounced soviet despotism — and he had done that as the leader of Her Majesty’s Conservative Loyal Opposition.

 

It was under this status of Her Majesty’s Conservative Loyal Opposition that Churchill visited Madeira in January 1950. But — as it is eloquently recalled in this book by Miguel Albuquerque, and as it is beautifully illustrated by the excellent photos — it was as leader of the Free World that he was enthusiastically welcomed by the people of Madeira.

 

This enthusiastic reception was also a honourable tribute to the Luso-British alliance, sealed in the Windsor Treaty of 1386. It is the oldest surviving alliance of the Western world. It has been much criticised by recurrent intellectual fashions, both from the left and from the right. It has unfortunately been seldom defended in the public square. We must be grateful to Miguel Albuquerque, and to the wise population of Madeira who have elected him, for this courageous and eloquent recollection of Churchill’s visit to Madeira — and of the ancestral Luso-British alliance that this visit has illustrated.


 

 

[1] Winston S. Churchill, “Personal Contacts”, in Thoughts and Adventures, (London: Thornton Butterworth, Ltd, 1934), p. 52.

[2] Discurso de 9 de Maio de 1938, citado em Peter Clarke, Mr Churchill’s Profession: Statesman, Orator, Writer (London: Bloomsbury, 2012), p. 225.

[3] Discurso no Parlamento de 13 de Maio de 1940, citado por Martin Gilbert, Winston Churchill’s War Leadership, (New York: Vintage Books, 2004), pp. 38-9.

[4] Discurso no Parlamento a 4 de Junho de 1940, citado por Martin Gilbert, Winston Churchill: A Life (London: Heinemann, 1991), p. 656.

[5] Discurso em Fulton, Missouri, citado e discutido em James W. Muller, ed., Churchill’s Iron Curtain Speech Fifty Years Later (Columbia and London: University of Missouri Press, 1999).

[6] Winston S. Churchill, “Personal Contacts”, in Thoughts and Adventures, (London: Thornton Butterworth, Ltd, 1934), p. 52.

[7] Speech on 9 May 1938, quoted in Peter Clarke, Mr Churchill’s Profession: Statesman, Orator, Writer (London: Bloomsbury, 2012), p. 225.

[8] Speech in the House of Commons, 13 May 1940, quoted in Martin Gilbert, Winston Churchill’s War Leadership, (New York: Vintage Books, 2004), pp. 38-9.

[9] Speech in the House of Commons, 4 June 1940, quoted in Martin Gilbert, Winston Churchill: A Life (London: Heinemann, 1991), p. 656.

[10] Speech in Fulton, Missouri, quoted and discussed in James W. Muller, ed., Churchill’s Iron Curtain Speech Fifty Years Later (Columbia and London: University of Missouri Press, 1999).




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