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Portugal e a Grande Guerra - 1º Capítulo

PREÂMBULO






O presente livro é o resultado de uma série de conferências ou comunicações, proferidas em colóquios e seminários académicos na universidade, e de intervenções mais pontuais que fui fazendo, desde 2014 a 2018, a propósito da efeméride histórica do centenário da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e da participação portuguesa nesse grande confronto internacional, que assinalou a verdadeira transição entre o século XIX e o século XX. Alguns desses trabalhos ou intervenções foram genéricos, com o objetivo de recordar o essencial da Primeira Guerra, do seu contexto político, diplomático e social, das suas operações militares e, sobretudo, do seu significado e consequências civilizacionais. A esses se juntaram estudos mais específicos, sobre um ou outro ângulo, tema ou protagonista português da Guerra, ou durante a Guerra, que permitem compreender, ou visualizar, a beligerância portuguesa de maneira mais aproximada.
Concretizando a estrutura do trabalho, ele funciona como um tríptico, constituído por um primeiro texto de caráter introdutório e (mais) geral, e por um segundo e terceiro textos de temática especializada. Assim, o capítulo 1 tem por objetivo oferecer um resumo da importância da Grande Guerra de 1914-1918 no curso, mais vasto, da contemporaneidade europeia (e mundial), e uma evocação das razões, discursos, dinâmicas e resultados da muito polémica participação nacional no conflito, particularmente na frente europeia da Guerra, com o envio do Corpo Expedicionário Português (o CEP) para a Flandres. Traçado este cenário, que explora também o que eram as condições sociais, políticas, culturais e até económicas da Primeira República portuguesa, seguem-se então dois estudos de caso.
O primeiro desses estudos – que ocupa o capítulo 2 – aborda a figura de João Chagas, nome cimeiro da política e da diplomacia republicanas, e, sobretudo, o seu Diário (mais de um milhar de páginas distribuídas por quatro volumes), como narrativa coeva e uma das fontes históricas mais importantes para o conhecimento do belicismo português, isto é, da defesa propagandística da intervenção de tropas portuguesas em França, ao lado dos aliados, contra o inimigo germânico. O segundo desses estudos – que ocupa o capítulo 3 – centra-se na figura de José Stuart Carvalhais, nome importante do meio artístico, jornalístico e boémio da Lisboa republicana do tempo, e, sobretudo, na sua criação de banda desenhada mais famosa – a dupla de heróis Quim e Manecas, sempre inventivos e irrequietos – como forma inovadora de, nas páginas d’O Século Cómico e da Ilustração Portuguesa, fazer, para os mais novos (em registo infanto-juvenil, mas com ressonâncias para os adultos), uma narrativa visual, ficcional e romanesca do guerrismo português.
Através da biografia e da escrita de João Chagas, embaixador de Portugal em Paris durante quase toda a Primeira República, podemos mergulhar nos bastidores da alta política nacional (e internacional) e compreender por que razões o país foi para a Grande Guerra, e como essa participação, hiperbolizada nas suas vantagens pelos apoiantes de Afonso Costa, foi vivida, desde a expetativa otimista inicial até ao desalento final, como um dos temas mais polémicos e divisivos de toda a história da Primeira República portuguesa. Através da biografia e dos desenhos de Stuart Carvalhais, caricaturista, pintor, fotógrafo, figurinista ou cenógrafo multifacetado e autodidata, podemos visualizar um registo único de como a Grande Guerra, decidida e feita nas cúpulas do poder, chegava aos jornais, à opinião pública, à sociedade que a viveu e a sofreu, e como podia ser contada aos mais novos, a cores, através da linguagem inovadora da banda desenhada, com o registo humorístico das aventuras de Quim e Manecas.
Coexistentes no tempo, João Chagas e Stuart Carvalhais provavelmente nunca se cruzaram, sobretudo depois de 1910, quando o primeiro passou de conspirador antimonárquico a importante porta-voz do novo regime republicano, enquanto o segundo continuou a sua vida de artista errante, que fazia “bonecos” para se sustentar, para encher páginas de jornais e para divertir quem o lia. Postos lado a lado, contudo, ambos oferecem ao historiador algo em comum: a oportunidade de olhar o envolvimento de Portugal no grande conflito internacional de 1914-1918 a partir de registos discursivos que são muito diferentes, embora complementares um do outro: decidir fazer a Guerra (intervindo ou tentando intervir nos corredores do poder), e transmitir que Guerra ia sendo feita, naqueles anos, representando-a e recriando-a livremente na linguagem gráfica da banda desenhada que começava, há um século, a revelar as suas virtualidades artísticas nas páginas dos jornais. Daí o subtítulo deste livro. Ele não é (mais) uma história contínua de Portugal na Grande Guerra, mas um olhar diverso, contextualizado a partir do geral desse tema, sobre a sociedade que viveu a Guerra, sobre as modalidades da política republicana perante a Guerra, e sobre uma das formas possíveis de comunicação dessa realidade, tão omnipresente naqueles anos centrais do regime republicano português.
Construído como um todo que espero ser coerente, este livro pode ser lido em sequência, da primeira à última página, ou considerando cada um dos seus três capítulos como um trabalho autónomo. Por isso mesmo, não há uma bibliografia final única, mas bibliografias específicas em cada capítulo. Alguns títulos ali referidos – os mais importantes e, por isso mesmo, de uso mais recorrente –  aparecem repetidos em duas ou até em todas as partes do livro; outros, específicos do tema em tratamento, figuram apenas no final do texto a que dizem respeito. A identificação completa das referências bibliográficas que constam das notas de rodapé deverá, portanto, ter isso em conta. Para não truncar os capítulos, que não foram redigidos em continuidade, mas em momentos diferentes, deixei ficar algumas repetições entre eles, sobretudo visíveis em aspetos gerais de contextualização, factos, datas ou números de Portugal na Grande Guerra.
Cada capítulo é introduzido por um separador com uma imagem alusiva ao seu tema central – uma fotografia de Joshua Benoliel, da partida de soldados do CEP para a Flandres, que fez capa da revista Ilustração Portuguesa em fevereiro de 1917; uma outra fotografia, em bilhete postal da época, de João Chagas; e uma página da banda desenhada Quim e Manecas, de Stuart Carvalhais, alusiva à declaração de guerra da Alemanha a Portugal, publicada n’O Século Cómico em março de 1916. As legendas que acompanham essas imagens são da minha responsabilidade.
Evocar a guerra – as suas expetativas, as suas ilusões, as suas dinâmicas e os seus resultados, por norma trágicos – escrevendo sobre a Primeira Guerra Mundial é um imperativo cívico, para lá do registo historiográfico. As camadas demográficas dos jovens e de muitos adultos de Portugal e da Europa de hoje não têm, felizmente, experiência ou memória do que é viver em guerra. Mas o mundo, em geral, já esteve mais tranquilo, mais seguro e mais pacífico (mais previsível, em suma), do que está hoje. Lembrar 1914-1918 no fecho do ciclo de evocações do seu centenário é falar acerca do passado, sem, todavia, perder de vista o que não se deseja que possa vir a ser o presente e o futuro do nosso século XXI. Este livro pretende constituir um pequeno contributo para essa causa.
Gostava de expressar o meu muito obrigado à Dra. Zita Seabra pelo interesse e disponibilidade com que, à semelhança de ocasiões anteriores, acolheu a publicação deste meu trabalho na Alêtheia, sobretudo no cenário atual, de crescente contração do mercado livreiro, e, também na editora, à Alexandra Louro, que cuidou da parte administrativa e contratual, e à Rita Martins, que assegurou a produção gráfica da obra, tanto na sua versão impressa como na versão digital de e-book. Um agradecimento é igualmente devido às instituições que cederam as imagens aqui reproduzidas: a Biblioteca Nacional de Portugal, a Hemeroteca Municipal de Lisboa e o Museu Militar de Lisboa.
Este livro é dedicado à minha família e, em particular, à memória dos meus quatro avós, nenhum deles hoje vivo e todos nascidos antes, durante ou pouco tempo depois da Primeira Guerra Mundial, em 1902, 1908, 1916 e 1923. E porque quem escreve livros, em longas horas solitárias, retira tempo de atenção e convívio a quem lhe está mais próximo, ele é também dedicado – uma vez mais, e sempre mais – à Rita.

25 de Abril, Corte e Costura - 1º capítulo

A celebração do 25 de Abril e a Democracia do Futuro

Fundada no século I pelos romanos, a cidade de Augusta decidira celebrar os 40 anos da Revolução como nunca outra fizera. Não seria apenas com a pompa e a cerimónia que a data impunha. Em Augusta exigia­‑se muito mais. A pompa e a cerimónia eram os alicerces a partir dos quais a festa do 25 de Abril seria alçada para outro patamar. Exaltar, sublimar, transcender eram as novas palavras de ordem ligadas às comemorações da revolução. O festejo dos 40 anos do 25 de Abril tornar­‑se­‑ia, pois, um marco histórico quase tão importante como a própria Revolução dos Cravos. O Estado Novo tivera a Exposição do Mundo Colonial; o regime democrático teria a festa dos 40 anos da Revolução (que, pelo seu simbolismo, destronaria a Expo 98) – disso estavam convencidos os dirigentes locais.
Duas ponderosas razões sustentavam o ambicioso projecto. Primeiro, a razão mais nobre: as comemorações do 25 de Abril, ano após ano, estavam a tornar­‑se repetitivas, monótonas e inócuas. Os desfiles pelas avenidas de cravo ao peito com os cidadãos a gritarem «Fascismo nunca mais!», «25 de Abril sempre!», «Juntos venceremos!», assim como os comícios e os concertos de música revolucionária, estavam esgotados e despertavam cada vez menos o entusiasmo da população; com a agravante dos jovens situarem a data algures entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial e julgarem que Salazar fora o último rei de Portugal. Segundo, a razão menos nobre: a cidade de Augusta era desconhecida, não tinha belezas naturais ou património relevante, a juventude fugia da terra e andava toda a gente entediada. Combinava­‑se, portanto, uma razão nacional com uma razão local ­– o 25 de Abril também se fizera para desenvolver o interior – e assim se criava um projecto de vital importância para a consolidação da identidade da pátria, o reforço da democracia, o desenvolvimento regional e a alegria do povo.
Por outro lado, também partilhavam a convicção de muitos revolucionários de que, dos três Dês do 25 de Abril ­apenas o segundo D, o da Descolonização, fora totalmente cumprido, enquanto os outros dois Dês, a Democracia e o Desenvolvimento, não tinham sido atingidos. Para uns, mais o primeiro do que o segundo; para outros, mais o segundo do que o primeiro; e para muitos, nem um nem outro. O país permanecia um dos mais atrasados da Europa e quem criticava o poder continuava a sofrer retaliações. Por vezes, dada a impunidade dos poderosos e a promiscuidade entre os negócios e a política, parecia uma república das bananas.
Todavia, como fazer outro 25 de Abril equivaleria a derrubar o regime que trouxera a liberdade e a democracia, um novo 25 de Abril seria totalmente contrário ao espírito do 25 de Abril. Além disso, de nenhuma revolução poderia nascer um sistema social e político perfeito: a Revolução Francesa originara o Terror e Napoleão, a americana conduzira à guerra civil, a russa engendrara Estaline; a portuguesa fora mais pacífica porque somos um povo de brandos costumes e brandos atentados à bomba.
Da revolução nascia uma esperança, um projecto, uma semente cuja futura árvore necessitaria de permanente poda. E as comemorações dos 40 anos do 25 de Abril em Augusta seriam a tesoura que desbastaria alguns dos ramos tortos e dos frutos podres. Só faltava agora definir a estratégia do podador.

Para celebrar como nunca havia sido antes celebrado o 25 de Abril, o presidente da câmara de Augusta, Jaime Fagundes, criou uma Comissão de Honra das Comemorações dos 40 Anos do 25 de Abril. Composta por ele e pelos quatro vereadores da oposição, a comissão tinha a tarefa de programar a jamais vista comemoração do 25 de Abril. Entretanto, com o objectivo de ser publicado um livro que enaltecesse as celebrações em Augusta, Fagundes havia convidado a socióloga Albertina Dias, cujo currículo garantia a qualidade da obra.
O presidente Jaime Fagundes criara a Comissão de Honra porque a tal era obrigado, regra democrática que se via forçado a respeitar. Na verdade, Fagundes entendia que sozinho decidiria muito melhor do que acompanhado por aquela «cambada de energúmenos da oposição» cujo único objectivo era denegrir e sabotar o seu esforço em prol da comunidade. Se nunca haviam concordado consigo, verberando grandes ideias e excelentes medidas com os impropérios de «despesistas», «irrealizáveis», «absurdas», e rematando por fim a protérvia com a inevitável conclusão de Fagundes «não viver na realidade» e «ser um autarca nocivo ao interesse de Augusta», também não iria ser agora que o compreenderiam. Estes tipos estavam na política por não saberem fazer mais nada na vida. Só se distinguiam pelo espírito de contradição, mesquinhez e vistas curtas. Negociar com o FMI, a Troika e a dona Merkel, seria decerto muito mais fácil.
Eis a única certeza que havia quanto ao projecto.
Fagundes congeminava uma festa do 25 de Abril moderna, expurgada de anacronismos e romarias folclóricas. Quanto a isso estavam todos de acordo. O problema surgiria quando apresentasse as suas ideias, devido ao espírito de contradição da pandilha opositora. A primeira reunião da Comissão de Honra era dali a dois dias e já se antevia o resultado: disparates, discussão, gritaria e, no fim, nada. Depois viriam as segunda, terceira e quarta reuniões e tudo continuaria no mesmo impasse.
A democracia tinha este inconveniente: a mania de consultar e pedir a opinião, princípio aceitável na teoria mas que na prática impedia os governantes de fazer avançar o mundo. A Democracia do Futuro – sonhava Fagundes – acabaria por resolver este problema, libertar­‑se deste empecilho que, bem vistas as coisas, era até antidemocrático pois obstruía o progresso e a felicidade das massas. Na Democracia do Futuro, sobretudo no Poder Local, a tomada de decisões seria da competência exclusiva de um só homem. Este poderia de vez em quando escutar a voz dos vereadores para enfim lhes dar que fazer, mas decidiria sozinho, sem dar cavaco a ninguém. O povo elegera­‑o para isso mesmo. Quantos debates inúteis não seriam evitados? Quanto dinheiro não seria poupado? E quantas ideias brilhantes não escapariam ao torpedear da oposição?
Além de mais eficaz, a Democracia do Futuro seria igualmente mais personalizada, pois voltaria a confiar no indivíduo ao invés de diluir as responsabilidades pelo grupo. Assim, cada cidadão que escolhesse a carreira política saberia, ao contrário do que actualmente sucede, que dele se exigiriam elevadas competências e nos seus ombros se colocariam pesados encargos. E uma vez que teria de arcar com tudo isso sozinho, como um Cristo que rumasse ao Calvário desamparado de Simão de Sirene, apenas os homens genuinamente dedicados à causa pública se lançariam nesta via­‑sacra. Os demais – os oportunistas, os interesseiros, os corruptos e a restante gente vil – largariam a fugir da política como o diabo da cruz. Como tal, estando na Democracia do Futuro o poder entregue aos melhores, o espaço entre as eleições seria cada vez maior. E, em certos casos de excelência governativa, deixariam até de ser necessárias. Afinal, não havia cada vez mais abstenção? Mais um problema que a Democracia do Futuro resolveria.
Mas a Democracia do Futuro não ficaria apenas pela selecção dos melhores e pelo reforço dos seus poderes. Alguém tinha uma vez falado em forças de bloqueio; ora aí está a identificação exacta do maior problema da actual democracia. Suprimiam­‑se pois essas forças de bloqueio, como quem ceifa uma erva daninha ou remove uma maçã podre, e o funcionamento democrático seria perfeito. Ao contrário da actual democracia que estava totalmente desprotegida e à mercê dos seus inimigos, qual dama rodeada de dragões sem nenhum cavaleiro protector, a Democracia do Futuro trataria de se defender. Com unhas e dentes. Não haviam já sido derrubadas tantas democracias? E foram­‑no porque os golpistas se aproveitaram da sua fraqueza, porque se permitiu que as víboras medrassem no seu seio, porque o conceito de liberdade nunca foi verdadeiramente compreendido. Mas com a Democracia do Futuro terminariam esses tempos de vulnerabilidade e frouxidão. O seu punho forte esmagaria as víboras à nascença e nunca mais haveriam golpes de estado.
Criava­‑se uma Alta Autoridade de Vigilância Democrática que ficaria de olho nos jornais, livros, programas de televisão, filmes, teatro, obras de arte e restante produção cultural. Qualquer crítica aos governantes ou intuito de destabilizar a ordem e confundir os cidadãos, seria censurado e o seu autor repreendido. Esta Alta Autoridade deveria prestar especial atenção às notícias dos telejornais, pois é ali que o espírito antidemocrático mais facilmente se incuba e alastra. Porque o povo adora televisão e, pela sua natural ingenuidade, é presa fácil do engodo. Aliás, já alguns governos – do seu partido e do PSD – haviam ensaiado esta profilaxia democrática com razoável sucesso. Mesmo com as leis actuais, havia muitas maneiras legais de calar vozes incómodas.
E como nas universidades e entre os sindicatos também por vezes campeia o ódio à vontade da maioria, também lá seriam infiltrados agentes da Alta Autoridade para detectar eventuais conspirações estudantis ou proletárias.
Assim, sendo muito mais ágil, eficaz e potente, a Democracia do Futuro traria estabilidade e devolveria a confiança aos cidadãos. Em suma, tudo o que o povo exigia de um governo. Não andavam os intelectuais a alertar que a democracia estava em perigo, ameaçada por forças tenebrosas? Não passavam o tempo a denunciar falhas e a apontar defeitos ao sistema democrático? Não protestavam os próprios capitães de Abril que «não tinham feito o 25 de Abril para isto»? Eis a prova de que algo estava mal, ou melhor, péssimo. Como tal, o que se exigia agora era uma evolução da frágil democracia do presente para a robusta Democracia do Futuro. Uma democracia entrada nos eixos, adulta, perene, que por fim justificaria o elogio: o melhor de todos os sistemas. O melhor de todos os sistemas, por estar devidamente protegido. Não faltariam velhos do Restelo a arengar e a fazer comparações demagógicas, mas sempre tal sucedia quando havia avanços democráticos. Fosse o fim da escravatura ou o sufrágio universal, todos os progressos da humanidade foram precedidos de resistência tenaz.
As comemorações dos 40 anos do 25 de Abril levaram assim Jaime Fagundes a dar­‑se conta de que o assunto que mais o fascinava, quase obscurecendo essa mesma celebração, era a Democracia do Futuro. Os altos desígnios de uma utopia que poucos se atreviam a sonhar. Porque o 25 de Abril só estaria cumprido quando lá se chegasse. Embalado pelo devaneio, imaginava um porvir edénico para os governantes democráticos cujo único modelo aproximado apenas descortinava nalguns países africanos, na Rússia e, volta e meia, na ilha da Madeira.

Crónica de uma Ressurreição - 1.º capítulo

Já está despachadinha

…– Dispa­‑se da cintura para cima, vista esta bata e aguarde que já a vêm chamar.
… Dispa­‑se que já a vêm chamar.
… Dispa­‑se da cintura para cima, vista esta bata…
… Da cintura para cima… dispa­‑se… a vimos chamar.
Já sei! É para me despir da cintura para cima.

E depois ali estamos todas nós, vestidas da cintura para baixo, de bata branca da cintura para cima. Sou a mais nova da sala. As outras senhoras estão todas na casa dos 50. Eu farei 40 na próxima semana. Até lá ainda chegarei com certeza. Terão vindo por rotina apenas, ou, como eu, terão vindo para espreitar uma coisa que já sabem estar lá dentro?
Ninguém se fala. Tantas mulheres assustadas e nenhuma procura um consolo noutra, um desabafo ou uma partilha. Talvez seja o medo de ouvir uma história pior do que a sua. Talvez porque o medo da morte seja um sentimento solitário. Uma intimidade. Um acto de isolamento. No fundo, morrer é ficar só. E em silêncio.
Mas ainda não era altura. Havia ainda vários preliminares. Não digo eróticos. Antes fossem. Digo os procedimentos médicos, os exames, as biópsias as perguntas, os relatórios, as dúvidas, os diagnósticos, com seus avanços e recuos, as probabilidades, um sem­‑fim de afazeres qual rally paper em que a cada posto de informação recebemos a pista para encontrar o novo posto com a nova pista a decifrar.
–Va mos?
– Sim.
– Pode vir por aqui e abrir a sua bata?
– Sim.
– Agora encosta­‑se aqui por favor?
– Sim.
E começa. Aquilo parece a boca do Pac­‑Man cor­‑de­‑rosa. Tudo aquilo é muito difícil, mas o pormenor de fazerem os «apliques» das máquinas em rosa­‑bebé é sórdido e perfeitamente dispensável; de um certo requinte de malvadez, diria eu. Quem teve essa ideia só pode ser real e profundamente estúpido. Ou mal­‑intencionado mesmo.
Dão­‑se coisas cor­‑de­‑rosa às meninas desde que nascem. Alguma mente brilhante achou que aquela maquineta de espreitar coisas más dentro do peito das senhoras devia ser cor­‑de­‑rosa como os quartos de bebé das meninas, os seus babygrows, as suas fraldinhas de pano, a colcha do berço, a cortina do quarto, a primeira bicicleta, a mochila e o estojo da escola, o primeiro verniz das unhas, ou o bouquet de noiva, o enxoval das nossas filhinhas e, claro, as máquinas das mamografias ao nosso peito. Tão óbvio quanto isso. Se fossem máquinas para realizar testiculografias seriam naturalmente azul­‑bebé.  
Empurram o nosso seio para dentro de duas bandejas acrílicas transparentes, puxam­‑no, ajeitam­‑no e repuxam­‑no mais ainda para se certificarem de que ele está todo bem dentro da boca do Pac­‑Man cor­‑de­‑rosa. E depois vem o torniquete. Sim, não basta estar despida da cintura para cima na sala gelada das catacumbas escuras em que estas máquinas prosperam, o puxa e repuxa para dentro da boca do Pac­‑Man rosa­‑bebé e o «e agora não se mexa por favor». Ainda é preciso apertar.
E a jovem senhora, que por alguma razão impenetrável andou anos a estudar para fazer disto um modo de vida, carrega no botão para apertar o torniquete electrónico. Eu ainda tenho a imagem do torniquete mecânico das aulas de trabalhos manuais do quinto ano. O torniquete sempre me fascinou conceptualmente pela simplicidade da inteligência que subjaz ao mecanismo. Girar uma tira de ferro sem nenhum esforço e pela conjunção de mecanismos de alavanca apertar uma coisa qualquer com uma força n vezes superior à força humana isolada de quem manipula o mecanismo. Ali estava a minha maminha sob a força do torniquete e entre as duas bandejas acrílicas servida ao Pac­‑Man rosa­‑bebé.
Algum tempo depois de o torniquete me estar a doer, grito. Ela pára.
Parva que fui: devia ter gritado antes de me doer – penso. Bem, talvez não… era preciso tirar uma boa foto para ver tudo o que estava ali.
– Agora não se mexa.
– Não, não me mexo. – Aguento a dor
– Pronto! Já está despachadinha.
– Já estou despachadinha. Esta frase acordou­‑me à violência do que se estava a passar.
Foi ontem à noite: pousei a mão naquele seio enquanto, deitada, conversava animadamente, gesticulando. Numa pausa do discurso desço a mão, poisando­‑a. Eis que sinto algo.
– Que é isto?! – Penso em voz alta, para dentro de mim.
– Uma costura da camisa de noite? – penso.
Enfio a mão por debaixo dos lençóis, por debaixo da camisa de noite rendilhada sexy e coleante, de algodão azul­‑escuro; deslizo os dedos à procura, na expectativa ardente de que não vá sentir nada, nenhum volume duro e estranho que nunca lá estivera antes, como se batesse à porta de alguém desejando que a casa estivesse vazia, ou como se telefonasse a alguém desejando que não atendesse mas cumprindo o frete de ter feito a chamada deixando prova inequívoca disso mesmo e aliviando assim qualquer remorso.
Mas não. Alguém abriu a porta.
Alguém atendeu o telefone.
Naquele instante a Terra parou de girar, o Sol suspendeu as suas explosões, as estrelas estancaram no Céu, os cães do bairro não ladraram, as cigarras interromperam a sua corte sexual estreónica, a emissão televisiva congelou, e nem os corações da população mundial bombearam sangue durante escassos momentos. Estava ali uma coisa.
Já está despachadinha. Esta frase repôs o mundo a funcionar na minha cabeça. Até ali a estupefacção criogenizara­‑me o pensamento e a emoção. Já está despachadinha. Acordei!
Mas então, eu devo mesmo ter aquilo! Eu?! Isso não existe nas mulheres da minha família!… E eu, eu sou o cúmulo do optimismo, da atitude positiva: corro, danço, salto, trabalho tanto, até monto a cavalo!…Eu?! Morrer assim?!
– Boa tarde – digo, em rios de lágrimas – dê­‑me uma caixa de Valdispert por favor –.
– De 50 ou de 125 gramas?
– 125 – piscando os olhos para tentar ver através da água dos olhos.
O amigo indesejado abriu a porta, atendeu o telefone, e agora eu tinha ali 300 gramas da minha nova amiga Raiz de Valeriana para me ajudar a conversar com ele. Foi ela que me conduziu o carro de volta à casa onde vivia.



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