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Portugal e a Grande Guerra - 1º Capítulo

PREÂMBULO






O presente livro é o resultado de uma série de conferências ou comunicações, proferidas em colóquios e seminários académicos na universidade, e de intervenções mais pontuais que fui fazendo, desde 2014 a 2018, a propósito da efeméride histórica do centenário da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e da participação portuguesa nesse grande confronto internacional, que assinalou a verdadeira transição entre o século XIX e o século XX. Alguns desses trabalhos ou intervenções foram genéricos, com o objetivo de recordar o essencial da Primeira Guerra, do seu contexto político, diplomático e social, das suas operações militares e, sobretudo, do seu significado e consequências civilizacionais. A esses se juntaram estudos mais específicos, sobre um ou outro ângulo, tema ou protagonista português da Guerra, ou durante a Guerra, que permitem compreender, ou visualizar, a beligerância portuguesa de maneira mais aproximada.
Concretizando a estrutura do trabalho, ele funciona como um tríptico, constituído por um primeiro texto de caráter introdutório e (mais) geral, e por um segundo e terceiro textos de temática especializada. Assim, o capítulo 1 tem por objetivo oferecer um resumo da importância da Grande Guerra de 1914-1918 no curso, mais vasto, da contemporaneidade europeia (e mundial), e uma evocação das razões, discursos, dinâmicas e resultados da muito polémica participação nacional no conflito, particularmente na frente europeia da Guerra, com o envio do Corpo Expedicionário Português (o CEP) para a Flandres. Traçado este cenário, que explora também o que eram as condições sociais, políticas, culturais e até económicas da Primeira República portuguesa, seguem-se então dois estudos de caso.
O primeiro desses estudos – que ocupa o capítulo 2 – aborda a figura de João Chagas, nome cimeiro da política e da diplomacia republicanas, e, sobretudo, o seu Diário (mais de um milhar de páginas distribuídas por quatro volumes), como narrativa coeva e uma das fontes históricas mais importantes para o conhecimento do belicismo português, isto é, da defesa propagandística da intervenção de tropas portuguesas em França, ao lado dos aliados, contra o inimigo germânico. O segundo desses estudos – que ocupa o capítulo 3 – centra-se na figura de José Stuart Carvalhais, nome importante do meio artístico, jornalístico e boémio da Lisboa republicana do tempo, e, sobretudo, na sua criação de banda desenhada mais famosa – a dupla de heróis Quim e Manecas, sempre inventivos e irrequietos – como forma inovadora de, nas páginas d’O Século Cómico e da Ilustração Portuguesa, fazer, para os mais novos (em registo infanto-juvenil, mas com ressonâncias para os adultos), uma narrativa visual, ficcional e romanesca do guerrismo português.
Através da biografia e da escrita de João Chagas, embaixador de Portugal em Paris durante quase toda a Primeira República, podemos mergulhar nos bastidores da alta política nacional (e internacional) e compreender por que razões o país foi para a Grande Guerra, e como essa participação, hiperbolizada nas suas vantagens pelos apoiantes de Afonso Costa, foi vivida, desde a expetativa otimista inicial até ao desalento final, como um dos temas mais polémicos e divisivos de toda a história da Primeira República portuguesa. Através da biografia e dos desenhos de Stuart Carvalhais, caricaturista, pintor, fotógrafo, figurinista ou cenógrafo multifacetado e autodidata, podemos visualizar um registo único de como a Grande Guerra, decidida e feita nas cúpulas do poder, chegava aos jornais, à opinião pública, à sociedade que a viveu e a sofreu, e como podia ser contada aos mais novos, a cores, através da linguagem inovadora da banda desenhada, com o registo humorístico das aventuras de Quim e Manecas.
Coexistentes no tempo, João Chagas e Stuart Carvalhais provavelmente nunca se cruzaram, sobretudo depois de 1910, quando o primeiro passou de conspirador antimonárquico a importante porta-voz do novo regime republicano, enquanto o segundo continuou a sua vida de artista errante, que fazia “bonecos” para se sustentar, para encher páginas de jornais e para divertir quem o lia. Postos lado a lado, contudo, ambos oferecem ao historiador algo em comum: a oportunidade de olhar o envolvimento de Portugal no grande conflito internacional de 1914-1918 a partir de registos discursivos que são muito diferentes, embora complementares um do outro: decidir fazer a Guerra (intervindo ou tentando intervir nos corredores do poder), e transmitir que Guerra ia sendo feita, naqueles anos, representando-a e recriando-a livremente na linguagem gráfica da banda desenhada que começava, há um século, a revelar as suas virtualidades artísticas nas páginas dos jornais. Daí o subtítulo deste livro. Ele não é (mais) uma história contínua de Portugal na Grande Guerra, mas um olhar diverso, contextualizado a partir do geral desse tema, sobre a sociedade que viveu a Guerra, sobre as modalidades da política republicana perante a Guerra, e sobre uma das formas possíveis de comunicação dessa realidade, tão omnipresente naqueles anos centrais do regime republicano português.
Construído como um todo que espero ser coerente, este livro pode ser lido em sequência, da primeira à última página, ou considerando cada um dos seus três capítulos como um trabalho autónomo. Por isso mesmo, não há uma bibliografia final única, mas bibliografias específicas em cada capítulo. Alguns títulos ali referidos – os mais importantes e, por isso mesmo, de uso mais recorrente –  aparecem repetidos em duas ou até em todas as partes do livro; outros, específicos do tema em tratamento, figuram apenas no final do texto a que dizem respeito. A identificação completa das referências bibliográficas que constam das notas de rodapé deverá, portanto, ter isso em conta. Para não truncar os capítulos, que não foram redigidos em continuidade, mas em momentos diferentes, deixei ficar algumas repetições entre eles, sobretudo visíveis em aspetos gerais de contextualização, factos, datas ou números de Portugal na Grande Guerra.
Cada capítulo é introduzido por um separador com uma imagem alusiva ao seu tema central – uma fotografia de Joshua Benoliel, da partida de soldados do CEP para a Flandres, que fez capa da revista Ilustração Portuguesa em fevereiro de 1917; uma outra fotografia, em bilhete postal da época, de João Chagas; e uma página da banda desenhada Quim e Manecas, de Stuart Carvalhais, alusiva à declaração de guerra da Alemanha a Portugal, publicada n’O Século Cómico em março de 1916. As legendas que acompanham essas imagens são da minha responsabilidade.
Evocar a guerra – as suas expetativas, as suas ilusões, as suas dinâmicas e os seus resultados, por norma trágicos – escrevendo sobre a Primeira Guerra Mundial é um imperativo cívico, para lá do registo historiográfico. As camadas demográficas dos jovens e de muitos adultos de Portugal e da Europa de hoje não têm, felizmente, experiência ou memória do que é viver em guerra. Mas o mundo, em geral, já esteve mais tranquilo, mais seguro e mais pacífico (mais previsível, em suma), do que está hoje. Lembrar 1914-1918 no fecho do ciclo de evocações do seu centenário é falar acerca do passado, sem, todavia, perder de vista o que não se deseja que possa vir a ser o presente e o futuro do nosso século XXI. Este livro pretende constituir um pequeno contributo para essa causa.
Gostava de expressar o meu muito obrigado à Dra. Zita Seabra pelo interesse e disponibilidade com que, à semelhança de ocasiões anteriores, acolheu a publicação deste meu trabalho na Alêtheia, sobretudo no cenário atual, de crescente contração do mercado livreiro, e, também na editora, à Alexandra Louro, que cuidou da parte administrativa e contratual, e à Rita Martins, que assegurou a produção gráfica da obra, tanto na sua versão impressa como na versão digital de e-book. Um agradecimento é igualmente devido às instituições que cederam as imagens aqui reproduzidas: a Biblioteca Nacional de Portugal, a Hemeroteca Municipal de Lisboa e o Museu Militar de Lisboa.
Este livro é dedicado à minha família e, em particular, à memória dos meus quatro avós, nenhum deles hoje vivo e todos nascidos antes, durante ou pouco tempo depois da Primeira Guerra Mundial, em 1902, 1908, 1916 e 1923. E porque quem escreve livros, em longas horas solitárias, retira tempo de atenção e convívio a quem lhe está mais próximo, ele é também dedicado – uma vez mais, e sempre mais – à Rita.

25 de Abril, Corte e Costura - 1º capítulo

A celebração do 25 de Abril e a Democracia do Futuro

Fundada no século I pelos romanos, a cidade de Augusta decidira celebrar os 40 anos da Revolução como nunca outra fizera. Não seria apenas com a pompa e a cerimónia que a data impunha. Em Augusta exigia­‑se muito mais. A pompa e a cerimónia eram os alicerces a partir dos quais a festa do 25 de Abril seria alçada para outro patamar. Exaltar, sublimar, transcender eram as novas palavras de ordem ligadas às comemorações da revolução. O festejo dos 40 anos do 25 de Abril tornar­‑se­‑ia, pois, um marco histórico quase tão importante como a própria Revolução dos Cravos. O Estado Novo tivera a Exposição do Mundo Colonial; o regime democrático teria a festa dos 40 anos da Revolução (que, pelo seu simbolismo, destronaria a Expo 98) – disso estavam convencidos os dirigentes locais.
Duas ponderosas razões sustentavam o ambicioso projecto. Primeiro, a razão mais nobre: as comemorações do 25 de Abril, ano após ano, estavam a tornar­‑se repetitivas, monótonas e inócuas. Os desfiles pelas avenidas de cravo ao peito com os cidadãos a gritarem «Fascismo nunca mais!», «25 de Abril sempre!», «Juntos venceremos!», assim como os comícios e os concertos de música revolucionária, estavam esgotados e despertavam cada vez menos o entusiasmo da população; com a agravante dos jovens situarem a data algures entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial e julgarem que Salazar fora o último rei de Portugal. Segundo, a razão menos nobre: a cidade de Augusta era desconhecida, não tinha belezas naturais ou património relevante, a juventude fugia da terra e andava toda a gente entediada. Combinava­‑se, portanto, uma razão nacional com uma razão local ­– o 25 de Abril também se fizera para desenvolver o interior – e assim se criava um projecto de vital importância para a consolidação da identidade da pátria, o reforço da democracia, o desenvolvimento regional e a alegria do povo.
Por outro lado, também partilhavam a convicção de muitos revolucionários de que, dos três Dês do 25 de Abril ­apenas o segundo D, o da Descolonização, fora totalmente cumprido, enquanto os outros dois Dês, a Democracia e o Desenvolvimento, não tinham sido atingidos. Para uns, mais o primeiro do que o segundo; para outros, mais o segundo do que o primeiro; e para muitos, nem um nem outro. O país permanecia um dos mais atrasados da Europa e quem criticava o poder continuava a sofrer retaliações. Por vezes, dada a impunidade dos poderosos e a promiscuidade entre os negócios e a política, parecia uma república das bananas.
Todavia, como fazer outro 25 de Abril equivaleria a derrubar o regime que trouxera a liberdade e a democracia, um novo 25 de Abril seria totalmente contrário ao espírito do 25 de Abril. Além disso, de nenhuma revolução poderia nascer um sistema social e político perfeito: a Revolução Francesa originara o Terror e Napoleão, a americana conduzira à guerra civil, a russa engendrara Estaline; a portuguesa fora mais pacífica porque somos um povo de brandos costumes e brandos atentados à bomba.
Da revolução nascia uma esperança, um projecto, uma semente cuja futura árvore necessitaria de permanente poda. E as comemorações dos 40 anos do 25 de Abril em Augusta seriam a tesoura que desbastaria alguns dos ramos tortos e dos frutos podres. Só faltava agora definir a estratégia do podador.

Para celebrar como nunca havia sido antes celebrado o 25 de Abril, o presidente da câmara de Augusta, Jaime Fagundes, criou uma Comissão de Honra das Comemorações dos 40 Anos do 25 de Abril. Composta por ele e pelos quatro vereadores da oposição, a comissão tinha a tarefa de programar a jamais vista comemoração do 25 de Abril. Entretanto, com o objectivo de ser publicado um livro que enaltecesse as celebrações em Augusta, Fagundes havia convidado a socióloga Albertina Dias, cujo currículo garantia a qualidade da obra.
O presidente Jaime Fagundes criara a Comissão de Honra porque a tal era obrigado, regra democrática que se via forçado a respeitar. Na verdade, Fagundes entendia que sozinho decidiria muito melhor do que acompanhado por aquela «cambada de energúmenos da oposição» cujo único objectivo era denegrir e sabotar o seu esforço em prol da comunidade. Se nunca haviam concordado consigo, verberando grandes ideias e excelentes medidas com os impropérios de «despesistas», «irrealizáveis», «absurdas», e rematando por fim a protérvia com a inevitável conclusão de Fagundes «não viver na realidade» e «ser um autarca nocivo ao interesse de Augusta», também não iria ser agora que o compreenderiam. Estes tipos estavam na política por não saberem fazer mais nada na vida. Só se distinguiam pelo espírito de contradição, mesquinhez e vistas curtas. Negociar com o FMI, a Troika e a dona Merkel, seria decerto muito mais fácil.
Eis a única certeza que havia quanto ao projecto.
Fagundes congeminava uma festa do 25 de Abril moderna, expurgada de anacronismos e romarias folclóricas. Quanto a isso estavam todos de acordo. O problema surgiria quando apresentasse as suas ideias, devido ao espírito de contradição da pandilha opositora. A primeira reunião da Comissão de Honra era dali a dois dias e já se antevia o resultado: disparates, discussão, gritaria e, no fim, nada. Depois viriam as segunda, terceira e quarta reuniões e tudo continuaria no mesmo impasse.
A democracia tinha este inconveniente: a mania de consultar e pedir a opinião, princípio aceitável na teoria mas que na prática impedia os governantes de fazer avançar o mundo. A Democracia do Futuro – sonhava Fagundes – acabaria por resolver este problema, libertar­‑se deste empecilho que, bem vistas as coisas, era até antidemocrático pois obstruía o progresso e a felicidade das massas. Na Democracia do Futuro, sobretudo no Poder Local, a tomada de decisões seria da competência exclusiva de um só homem. Este poderia de vez em quando escutar a voz dos vereadores para enfim lhes dar que fazer, mas decidiria sozinho, sem dar cavaco a ninguém. O povo elegera­‑o para isso mesmo. Quantos debates inúteis não seriam evitados? Quanto dinheiro não seria poupado? E quantas ideias brilhantes não escapariam ao torpedear da oposição?
Além de mais eficaz, a Democracia do Futuro seria igualmente mais personalizada, pois voltaria a confiar no indivíduo ao invés de diluir as responsabilidades pelo grupo. Assim, cada cidadão que escolhesse a carreira política saberia, ao contrário do que actualmente sucede, que dele se exigiriam elevadas competências e nos seus ombros se colocariam pesados encargos. E uma vez que teria de arcar com tudo isso sozinho, como um Cristo que rumasse ao Calvário desamparado de Simão de Sirene, apenas os homens genuinamente dedicados à causa pública se lançariam nesta via­‑sacra. Os demais – os oportunistas, os interesseiros, os corruptos e a restante gente vil – largariam a fugir da política como o diabo da cruz. Como tal, estando na Democracia do Futuro o poder entregue aos melhores, o espaço entre as eleições seria cada vez maior. E, em certos casos de excelência governativa, deixariam até de ser necessárias. Afinal, não havia cada vez mais abstenção? Mais um problema que a Democracia do Futuro resolveria.
Mas a Democracia do Futuro não ficaria apenas pela selecção dos melhores e pelo reforço dos seus poderes. Alguém tinha uma vez falado em forças de bloqueio; ora aí está a identificação exacta do maior problema da actual democracia. Suprimiam­‑se pois essas forças de bloqueio, como quem ceifa uma erva daninha ou remove uma maçã podre, e o funcionamento democrático seria perfeito. Ao contrário da actual democracia que estava totalmente desprotegida e à mercê dos seus inimigos, qual dama rodeada de dragões sem nenhum cavaleiro protector, a Democracia do Futuro trataria de se defender. Com unhas e dentes. Não haviam já sido derrubadas tantas democracias? E foram­‑no porque os golpistas se aproveitaram da sua fraqueza, porque se permitiu que as víboras medrassem no seu seio, porque o conceito de liberdade nunca foi verdadeiramente compreendido. Mas com a Democracia do Futuro terminariam esses tempos de vulnerabilidade e frouxidão. O seu punho forte esmagaria as víboras à nascença e nunca mais haveriam golpes de estado.
Criava­‑se uma Alta Autoridade de Vigilância Democrática que ficaria de olho nos jornais, livros, programas de televisão, filmes, teatro, obras de arte e restante produção cultural. Qualquer crítica aos governantes ou intuito de destabilizar a ordem e confundir os cidadãos, seria censurado e o seu autor repreendido. Esta Alta Autoridade deveria prestar especial atenção às notícias dos telejornais, pois é ali que o espírito antidemocrático mais facilmente se incuba e alastra. Porque o povo adora televisão e, pela sua natural ingenuidade, é presa fácil do engodo. Aliás, já alguns governos – do seu partido e do PSD – haviam ensaiado esta profilaxia democrática com razoável sucesso. Mesmo com as leis actuais, havia muitas maneiras legais de calar vozes incómodas.
E como nas universidades e entre os sindicatos também por vezes campeia o ódio à vontade da maioria, também lá seriam infiltrados agentes da Alta Autoridade para detectar eventuais conspirações estudantis ou proletárias.
Assim, sendo muito mais ágil, eficaz e potente, a Democracia do Futuro traria estabilidade e devolveria a confiança aos cidadãos. Em suma, tudo o que o povo exigia de um governo. Não andavam os intelectuais a alertar que a democracia estava em perigo, ameaçada por forças tenebrosas? Não passavam o tempo a denunciar falhas e a apontar defeitos ao sistema democrático? Não protestavam os próprios capitães de Abril que «não tinham feito o 25 de Abril para isto»? Eis a prova de que algo estava mal, ou melhor, péssimo. Como tal, o que se exigia agora era uma evolução da frágil democracia do presente para a robusta Democracia do Futuro. Uma democracia entrada nos eixos, adulta, perene, que por fim justificaria o elogio: o melhor de todos os sistemas. O melhor de todos os sistemas, por estar devidamente protegido. Não faltariam velhos do Restelo a arengar e a fazer comparações demagógicas, mas sempre tal sucedia quando havia avanços democráticos. Fosse o fim da escravatura ou o sufrágio universal, todos os progressos da humanidade foram precedidos de resistência tenaz.
As comemorações dos 40 anos do 25 de Abril levaram assim Jaime Fagundes a dar­‑se conta de que o assunto que mais o fascinava, quase obscurecendo essa mesma celebração, era a Democracia do Futuro. Os altos desígnios de uma utopia que poucos se atreviam a sonhar. Porque o 25 de Abril só estaria cumprido quando lá se chegasse. Embalado pelo devaneio, imaginava um porvir edénico para os governantes democráticos cujo único modelo aproximado apenas descortinava nalguns países africanos, na Rússia e, volta e meia, na ilha da Madeira.

Crónica de uma Ressurreição - 1.º capítulo

Já está despachadinha

…– Dispa­‑se da cintura para cima, vista esta bata e aguarde que já a vêm chamar.
… Dispa­‑se que já a vêm chamar.
… Dispa­‑se da cintura para cima, vista esta bata…
… Da cintura para cima… dispa­‑se… a vimos chamar.
Já sei! É para me despir da cintura para cima.

E depois ali estamos todas nós, vestidas da cintura para baixo, de bata branca da cintura para cima. Sou a mais nova da sala. As outras senhoras estão todas na casa dos 50. Eu farei 40 na próxima semana. Até lá ainda chegarei com certeza. Terão vindo por rotina apenas, ou, como eu, terão vindo para espreitar uma coisa que já sabem estar lá dentro?
Ninguém se fala. Tantas mulheres assustadas e nenhuma procura um consolo noutra, um desabafo ou uma partilha. Talvez seja o medo de ouvir uma história pior do que a sua. Talvez porque o medo da morte seja um sentimento solitário. Uma intimidade. Um acto de isolamento. No fundo, morrer é ficar só. E em silêncio.
Mas ainda não era altura. Havia ainda vários preliminares. Não digo eróticos. Antes fossem. Digo os procedimentos médicos, os exames, as biópsias as perguntas, os relatórios, as dúvidas, os diagnósticos, com seus avanços e recuos, as probabilidades, um sem­‑fim de afazeres qual rally paper em que a cada posto de informação recebemos a pista para encontrar o novo posto com a nova pista a decifrar.
–Va mos?
– Sim.
– Pode vir por aqui e abrir a sua bata?
– Sim.
– Agora encosta­‑se aqui por favor?
– Sim.
E começa. Aquilo parece a boca do Pac­‑Man cor­‑de­‑rosa. Tudo aquilo é muito difícil, mas o pormenor de fazerem os «apliques» das máquinas em rosa­‑bebé é sórdido e perfeitamente dispensável; de um certo requinte de malvadez, diria eu. Quem teve essa ideia só pode ser real e profundamente estúpido. Ou mal­‑intencionado mesmo.
Dão­‑se coisas cor­‑de­‑rosa às meninas desde que nascem. Alguma mente brilhante achou que aquela maquineta de espreitar coisas más dentro do peito das senhoras devia ser cor­‑de­‑rosa como os quartos de bebé das meninas, os seus babygrows, as suas fraldinhas de pano, a colcha do berço, a cortina do quarto, a primeira bicicleta, a mochila e o estojo da escola, o primeiro verniz das unhas, ou o bouquet de noiva, o enxoval das nossas filhinhas e, claro, as máquinas das mamografias ao nosso peito. Tão óbvio quanto isso. Se fossem máquinas para realizar testiculografias seriam naturalmente azul­‑bebé.  
Empurram o nosso seio para dentro de duas bandejas acrílicas transparentes, puxam­‑no, ajeitam­‑no e repuxam­‑no mais ainda para se certificarem de que ele está todo bem dentro da boca do Pac­‑Man cor­‑de­‑rosa. E depois vem o torniquete. Sim, não basta estar despida da cintura para cima na sala gelada das catacumbas escuras em que estas máquinas prosperam, o puxa e repuxa para dentro da boca do Pac­‑Man rosa­‑bebé e o «e agora não se mexa por favor». Ainda é preciso apertar.
E a jovem senhora, que por alguma razão impenetrável andou anos a estudar para fazer disto um modo de vida, carrega no botão para apertar o torniquete electrónico. Eu ainda tenho a imagem do torniquete mecânico das aulas de trabalhos manuais do quinto ano. O torniquete sempre me fascinou conceptualmente pela simplicidade da inteligência que subjaz ao mecanismo. Girar uma tira de ferro sem nenhum esforço e pela conjunção de mecanismos de alavanca apertar uma coisa qualquer com uma força n vezes superior à força humana isolada de quem manipula o mecanismo. Ali estava a minha maminha sob a força do torniquete e entre as duas bandejas acrílicas servida ao Pac­‑Man rosa­‑bebé.
Algum tempo depois de o torniquete me estar a doer, grito. Ela pára.
Parva que fui: devia ter gritado antes de me doer – penso. Bem, talvez não… era preciso tirar uma boa foto para ver tudo o que estava ali.
– Agora não se mexa.
– Não, não me mexo. – Aguento a dor
– Pronto! Já está despachadinha.
– Já estou despachadinha. Esta frase acordou­‑me à violência do que se estava a passar.
Foi ontem à noite: pousei a mão naquele seio enquanto, deitada, conversava animadamente, gesticulando. Numa pausa do discurso desço a mão, poisando­‑a. Eis que sinto algo.
– Que é isto?! – Penso em voz alta, para dentro de mim.
– Uma costura da camisa de noite? – penso.
Enfio a mão por debaixo dos lençóis, por debaixo da camisa de noite rendilhada sexy e coleante, de algodão azul­‑escuro; deslizo os dedos à procura, na expectativa ardente de que não vá sentir nada, nenhum volume duro e estranho que nunca lá estivera antes, como se batesse à porta de alguém desejando que a casa estivesse vazia, ou como se telefonasse a alguém desejando que não atendesse mas cumprindo o frete de ter feito a chamada deixando prova inequívoca disso mesmo e aliviando assim qualquer remorso.
Mas não. Alguém abriu a porta.
Alguém atendeu o telefone.
Naquele instante a Terra parou de girar, o Sol suspendeu as suas explosões, as estrelas estancaram no Céu, os cães do bairro não ladraram, as cigarras interromperam a sua corte sexual estreónica, a emissão televisiva congelou, e nem os corações da população mundial bombearam sangue durante escassos momentos. Estava ali uma coisa.
Já está despachadinha. Esta frase repôs o mundo a funcionar na minha cabeça. Até ali a estupefacção criogenizara­‑me o pensamento e a emoção. Já está despachadinha. Acordei!
Mas então, eu devo mesmo ter aquilo! Eu?! Isso não existe nas mulheres da minha família!… E eu, eu sou o cúmulo do optimismo, da atitude positiva: corro, danço, salto, trabalho tanto, até monto a cavalo!…Eu?! Morrer assim?!
– Boa tarde – digo, em rios de lágrimas – dê­‑me uma caixa de Valdispert por favor –.
– De 50 ou de 125 gramas?
– 125 – piscando os olhos para tentar ver através da água dos olhos.
O amigo indesejado abriu a porta, atendeu o telefone, e agora eu tinha ali 300 gramas da minha nova amiga Raiz de Valeriana para me ajudar a conversar com ele. Foi ela que me conduziu o carro de volta à casa onde vivia.

Winston Churchill na Madeira - 1º capítulo

Winston Churchill e a civilização ocidental da liberdade sob a lei

João Carlos Espada

(Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa; Presidente da International Churchill Society of Portugal).

 

Foi com alguma surpresa que recebi o telefonema do senhor Presidente do Governo Regional da Madeira informando-me de que ia publicar um livro de sua autoria sobre a visita que Winston Churchill fizera à Madeira, em Janeiro de 1950. Digo apenas “alguma surpresa” porque já conhecia bem a admiração de Dr. Miguel Albuquerque por Winston Churchill, bem como a sua familiaridade com a vida e obra do grande estadista. Essa admiração e esta familiaridade tinham ficado bem patentes nas suas marcantes intervenções em vários eventos “Churchillianos”, promovidos regularmente pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, em associação com a International Churchill Society of Portugal.

 

A surpresa foi bastante maior quando o Dr. Miguel Albuquerque me convidou a escrever um prefácio para o seu livro. É um convite que muito me honra e que aceitei de imediato, embora com alguma apreensão. E a apreensão aumentou quando pude ler o magnífico trabalho que o leitor tem agora nas suas mãos. O meu prefácio será apenas um modesto contributo para esta grande homenagem madeirense e portuguesa a Winston Churchill — um modesto contributo que tem o privilégio de acompanhar um eloquente trabalho histórico e literário de Miguel Albuquerque, bem como uma belíssima colecção fotográfica.

 

Mesmo nos dias que correm, Winston Churchill ainda é reconhecido como o homem que liderou a resistência ocidental ao totalitarismo nazi e um dos primeiros a denunciar o totalitarismo soviético. Mas a sua visão política tende hoje a ser desvalorizada e é por muitos considerada reaccionária ou ultrapassada. Gostaria de contestar esse entendimento e de recordar alguns dos aspectos que fizeram de Winston Churchill “o orgulhoso herdeiro e representante da velha tradição europeia e ocidental da liberdade sob a lei, a quem a Europa ficou a dever a liberdade” — para citar a muito apropriada avaliação de Miguel Albuquerque no presente livro.

 

Winston Churchill nasceu em 1874, numa muito antiga família aristocrática inglesa, ainda que sua mãe fosse americana. Estudou em Harrow, um dos melhores colégios ingleses, mas não ingressou na Universidade, tendo seguido a carreira militar e estudado na muito distinta Academia Militar de Sandhurst. Foi pela primeira vez eleito para o Parlamento, como deputado Conservador, em 1900, e permaneceu como deputado até 1964, tendo morrido em Janeiro de 1965. Churchill foi sempre um profundo admirador e activo participante do Parlamento britânico.

 

Na alvorada do século XX, as novas modas intelectuais emergentes na Europa não nutriam grande entusiasmo, para dizer o mínimo, pela democracia parlamentar ocidental. Vale talvez a pena recordar que, em 1904, Winston Churchill deixou a sua bancada Conservadora no parlamento britânico para se juntar à bancada dos Liberais. Vinte anos mais tarde, em 1924, voltaria a fazê-lo em sentido contrário, juntando-se novamente aos Conservadores. Mas, enquanto Churchill trocava de bancada entre dois muito antigos partidos parlamentares, as modas intelectuais da época atacavam a democracia parlamentar e as instituições da economia de mercado. Foi um período durante o qual o funcionamento das instituições democráticas europeias, à excepção das britânicas e das suíças, foi perturbado pela guerra e pelas ideologias revolucionárias, de esquerda e de direita.

 

As novas modas intelectuais tendiam a ser entusiastas fervorosas das marés revolucionárias, fossem da esquerda ou da direita, do comunismo ou daquilo que viria a ser o nacional-socialismo. Os revolucionários apresentavam-se como porta-vozes de um mundo novo. Havia que deixar para trás a inércia da democracia parlamentar e a mesquinhez comercial do capitalismo. A Inglaterra e a América eram vistas como símbolos do velho mundo. Dizia-se que estavam à mercê da "conspiração judaica" e da "plutocracia financeira mundial". A Inglaterra e a América eram acusadas de resistir ao novo "Estado total”, centralizado e inovador, introduzido por Lenine na Rússia, em 1917, por Mussolini em Itália, em 1924, e por Hitler na Alemanha, em 1933. Na Europa, muitas pessoas mostravam-se sensíveis às novas tendências: "Sim, o mundo está a mudar", diziam, "e, tal como o mundo, também temos de mudar".

 

Winston Churchill permaneceu imune à linguagem da revolução e da inovação. Dizia-se que ele era um conservador antiquado que não compreendia os novos tempos. Mas Churchill compreendia os novos tempos. E não gostava daquilo que compreendia. Churchill era um admirador da tradição liberal-conservadora do seu país, do Império Britânico e da civilização europeia e ocidental. Estudara Macaulay e aprendera que a Revolução Gloriosa de 1688 – a última revolução que ocorrera em Inglaterra – fora feita com relutância e com o objectivo principal de tornar desnecessárias futuras revoluções.

 

Esta tradição é dificilmente traduzível na linguagem ideológica moderna. Mas Churchill resumiu-a brilhantemente numa passagem em que procurou descrever as convicções políticas de seu pai, Lord Randolph Churchill, que tinha sido uma ilustre parlamentar Conservador. Disse Winston Churchill:

 

“[Lord Randolph Churchill] não via razão para que as velhas glórias da Igreja e do Estado, do Rei e do país, não pudessem ser reconciliadas com a democracia moderna; ou por que razão as massas do povo trabalhador não pudessem tornar-se os maiores defensores destas antigas instituições através das quais tinham adquirido as suas liberdades e o seu progresso. É esta união do passado e do presente, da tradição e do progresso, esta corrente de ouro, nunca até agora quebrada, porque nenhuma pressão indevida foi exercida sobre ela, que tem constituído o mérito peculiar e a qualidade soberana da vida nacional inglesa.”[1]

 

Foi com base neste “corrente de ouro” que Churchill anunciou desde o início a sua firme oposição ao comunismo e ao nacional-socialismo, dizendo que "entre as doutrinas do Camarada Trotsky e as do Dr. Goebbels deve haver espaço para cada um de nós, e mais umas quantas pessoas, cultivarmos as nossas próprias opiniões”.

 

Num discurso em 1938, Churchill recordou a tradição da liberdade sob a lei em nome da qual condenava a dupla ameaça despótica do comunismo e do nacional-socialismo:

 

“Não temos nós uma ideologia própria — se tivermos de usar esta horrível expressão, ‘ideologia’ — na liberdade, numa Constituição liberal, no governo democrático e parlamentar, na Magna Carta e na Petição dos Direitos?” [2]

 

         Foi em nome desta tradição ocidental da liberdade sob a lei que Winston Churchill fez tudo o que estava ao seu alcance para resistir à tirania. No seu primeiro discurso como Primeiro-Ministro na Câmara dos Comuns, a 13 de Maio de 1940, enquanto ainda estava a formar o seu Governo, Churchill anunciou o seu programa de resistência em palavras que ficaram célebres:

 

“Nada tenho a oferecer senão sangue, esforço, lágrimas e suor. Temos perante nós uma ameaça da mais grave natureza. Temos perante nós muitos, muitos longos meses de combate e sofrimento. Perguntam-me, qual é a nossa política? Eu direi que é a de fazer a guerra, por mar, terra e ar, com todo o nosso poder e com toda a força que Deus nos deu; fazer a guerra contra uma monstruosa tirania, nunca ultrapassada no lamentável catálogo do crime humano. Esta é a nossa política… Perguntam-me, qual é o nosso objectivo? Posso responder numa palavra: é a vitória. Vitória a todo o custo, vitória a despeito de todo o terror, vitória por mais longo e difícil que possa ser o caminho que a ela nos conduz; porque, sem vitória, não sobreviveremos.”[3]

 

Menos de um mês depois, a 4 de Junho, Churchill voltaria ao Parlamento, um dia após a evacuação com êxito de 224,318 soldados ingleses e 112,172 soldados franceses de Dunkirk. Foi neste contexto que ele proferiu o célebre discurso no Parlamento:

 

“Apesar de largas partes da Europa e muitos velhos e famosos Estados terem caído ou poderem cair nas garras da Gestapo e de todo o odioso aparato do poder Nazi, nós não vacilaremos.

Iremos até ao fim. Combateremos em França, combateremos nos mares e nos oceanos, combateremos no ar com crescente confiança e crescente força, defenderemos a nossa ilha, qualquer que seja o seu custo.

Lutaremos nas praias, lutaremos nos campos de aterragem, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas montanhas; nunca nos renderemos.”[4]

 

A 8 de Maio de 1945, Churchill pôde celebrar a vitória da causa da liberdade pela qual se batera incansavelmente. Menos de dois meses depois, a 5 de Julho, a sua venerada democracia parlamentar britânica derrotava-o em eleições gerais, dando uma larga vitória ao partido Trabalhista de Clement Attlee, que tinha sido seu leal vice-primeiro-ministro durante a guerra. Churchill aceitou a derrota eleitoral sem um protesto. E passou tranquilamente a liderar a bancada da Leal Oposição Conservadora de Sua Majestade.

 

O Reino Unido estava exausto. A Europa estava exausta. Mas o velho Winston Churchill, então com 71 anos, não se rendeu. No ano seguinte, em Março de 1946, no Colégio de Westminster, em Fulton, Missouri, na presença do Presidente Truman, Churchill denunciou solenemente a Cortina de Ferro que a União Soviética impusera na Europa central e de Leste:

 

“De Stettin no Báltico até Trieste no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente europeu. Para lá dessa linha ficam todas as capitais dos antigos estados da Europa central e oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sofia, todas estas famosas cidades e as populações circundantes estão agora no que eu devo chamar de esfera soviética, e todos estão submetidos, por uma forma ou por outra, não apenas à influência soviética mas também em grande e crescente medida ao controlo de Moscovo.”[5]

 

Este foi o ponto de partida oficial para o início da chamada “Guerra Fria” que opôs o Ocidente ao bloco soviético. Uma guerra fria que viria a ser vencida pacificamente pelo Ocidente com a queda do Muro de Berlim, em 1989. Churchill já não pôde testemunhar essa nova vitória da civilização ocidental pela qual combatera toda a vida. Mas tinha sido ele, mais uma vez, quem denunciara em primeiro lugar o despotismo soviético — e fizera-o enquanto líder da Leal Oposição Conservadora britânica.

 

Foi neste estatuto de líder da Leal Oposição Conservadora de Sua Majestade que Churchill visitou a Madeira em Janeiro de 1950. Mas — como recorda eloquentemente este livro de Miguel Albuquerque, e como as excelentes fotografias ilustram, — foi como líder do Mundo Livre que ele foi recebido entusiasticamente pela população madeirense.

 

Esta entusiástica recepção constituiu também uma honrosa homenagem à aliança luso-britânica, selada no Tratado de Windsor, em 1386. É a mais antiga aliança, ainda em vigor, do mundo ocidental. Tem sido muito criticada por modas intelectuais recorrentes, de esquerda e de direita. Infelizmente, tem sido muito pouco defendida na praça pública. Devemos estar gratos a Miguel Albuquerque, e à sábia população da Madeira que o elegeu, por esta destemida e eloquente recordação da visita de Churchill à Madeira — e da ancestral aliança luso-britânica que ela ilustrou.


 

Winston Churchill and the Western Civilisation of Liberty under Law

João Carlos Espada

(Director, Institute for Political Studies at the Catholic University of Portugal; President, the International Churchill Society of Portugal).

 

It was with some surprise that I received a phone call from HE the President of the Regional Government of Madeira, telling me that he was going to publish a book of his on the visit that Winston Churchill had paid to Madeira in January 1950. I say with “some surprise” only, because I already knew quite well of the admiration that Mr. Miguel Albuquerque had for Winston Churchill and of his familiarity with the life and work of the great statesman. That admiration and this familiarity had become quite apparent in the remarkable interventions of Mr. Miguel Albuquerque at several Churchillian events which have been and are frequently promoted by the Institute for Political Studies of the Catholic University of Portugal, in association with the International Churchill Society of Portugal.

 

My surprise was rather stronger when Mr Miguel Albuquerque invited me to write a preface for his book. I am very honoured by this invitation, which I have immediately accepted, but not without some trepidation. And this trepidation has only increased when I read the magnificent work that the reader now has in his or her hands. My preface will be a rather modest contribution to this great “Madeirense” and Portuguese tribute to Winston Churchill — a modest contribution that is privileged to accompany an eloquent historical and literary work of Miguel Albuquerque, as well as an extremely beautiful photo collection.

 

Even in the present days, Winston Churchill is still acknowledged as the man who led the Western resistance against nazi totalitarianism and as one of the very first to denounce soviet totalitarianism. But his political views tend now to be discarded and many denounce them as reactionary and outdated. I would like to challenge that perception and to recall some of the many aspects that made Winston Churchill “the proud heir and representative of the old European and Western tradition of liberty under law, to whom Europe has owed her liberty” — to quote the very appropriate evaluation of Miguel Albuquerque in the present book.

 

Winston Churchill was born in 1874 in a very ancient English aristocratic family, even though his mother was American. He studied at Harrow, one of best English public (ie, private) schools, but he did not go into University, having embarked upon a military career and studying at the very distinguished military academy of Sandhurst. He was elected to Parliament for the first time in 1900, and he remained a Member of Parliament until 1964, having died in January 1965. Churchill was always a profound admirer of, and an active participant in, the British Parliament.

 

At the dawn of the 20th century, the new intellectual fashions that were then emerging in Europe did not express great enthusiasm, to say the least, for the Western parliamentary democracy. It is perhaps worth recalling that, in 1904, Winston Churchill left his Conservative bench at the British Parliament and crossed the aisle to join the Liberal bench.Twenty years later, in 1924, he crossed the floor again and returned to the Conservative bench. But, whereas Churchill was changing benches between two very ancient parliamentary parties, the intellectual fashions of those times were attacking parliamentary democracy and the institution of the market economy. That was a period in which European democratic institutions, with the exception of the British and the Swiss ones, were disturbed by war and by revolutionary ideologies, both from the left and the right.

 

The new intellectual fashions tended to be ardent supporters of the revolutionary tides, either of the left or the right, either of communism or of what would become national-socialism. Revolutionaries presented themselves as spokesmen for a new world. One should leave behind the paralysis of parliamentary democracy and the commercial pettiness of capitalism, they claimed. England and America were described as symbols of the old world. They were said to be hostages to the “Jewish conspiracy” and the “world financial plutocracy”. England and America were accused of resisting the new centralised and innovative “total state” which was introduced by Lenin in Russia, in 1917, then by Mussolini in Italy, in 1924, later by Hitler in Germany, in 1933. Many people in Europe were sensitive to the new trends: “Yes, the world is changing,” -- they would say -- “and we must change with the world”.

 

Winston Churchill remained immune to the language of revolution and innovation. He was described as an old-fashioned reactionary who did not understand the new times. But Churchill did understand the new times. And he did not like what he understood. Churchill was an admirer of the European and Western tradition of liberty, to which he thought his country and the British Empire had given a significant contribution. He had carefully studied Macaulay and his whig, liberal-conservative, view of English history. He therefore knew very well that the 1688 Glorious Revolution – the last revolution that England underwent – was made with reluctance and with the main purpose of making further revolutions unnecessary. He therefore was not impressed by the language of revolution that was growing on the Continent.

 

This tradition can hardly be translated in modern ideological language. But Churchill summarised it brilliantly in a passage in which he tried to describe the political views of his father, Lord Randolph Churchill, who had been a distinguished Conservative Member of Parliament. Winston Churchill said:

 

“He [Lord Randolph Churchill] saw no reason why the old glories of Church and State, of King and country, should not be reconciled with modern democracy; or why the masses of working people should not become the chief defenders of those ancient institutions by which their liberties and progress had been achieved. It is this union of past and present, of tradition and progress, this golden chain, never yet broken, because no undue strain is placed upon it, that has constituted the peculiar merit and sovereign quality of English national life.”[6]

 

It was on the basis of this “golden chain” that Churchill announced from the outset his firm opposition to communism and national-socialism, saying that “between the doctrines of Comrade Trotsky and those of Dr. Goebbels there must be  space for each of us, and some more people, to cultivate our own opinions.” In a speech in 1938, Churchill recalled the tradition of liberty under law for which he condemned the double threat of communism and national-socialism:

 

““Have we not an ideology — if we must use this ugly word — of our own in freedom, in a liberal constitution, in democratic and Parliamentary government, in Magna Carta and the Petition of Right?” [7]

 

         It was on behalf of this Western tradition of liberty under law that Winston Churchill did all he could to resist against tyranny. In his first speech as Prime Minister in the House of Commons, on 13 May 1940, while he was still forming his Cabinet, he announced his programme of resistance in words that became famous:

 

““I have nothing to offer but blood, toil, tears and sweat. We have before us an ordeal of the most grievous kind. We have before us many, many long months of struggle and of suffering. You ask, what is our policy? I will say, it is to wage war, by sea, land and air, with all our might and with all the strength that God can give us; to wage war against a monstrous tyranny, never surpassed in the dark, lamentable catalogue of human crime. This is our policy. You ask, what is our aim? I can answer in one word: Victory — victory at all costs, victory in spite of all terror, victory, however long and hard the road may be: for without victory, there is no survival.”[8]

 

Less than one month later, on 4 June, Churchill returned to Parliament, one day after the successful evacuation of 224,318 British soldiers and 112,172 French soldiers from Dunkirk. It was in this context that he made his famous speech before Parliament:

 

““Even though large tracts of Europe and many old and famous States have fallen or may fall into the grip of the Gestapo and all the odious apparatus of Nazi rule, we shall not flag or fail. We will go on to the end. We shall fight in France, we shall fight on the seas and the oceans, we shall fight in the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender.”[9]

 

On 8 May 1945, Churchill was able to celebrate the victory of the cause of liberty for which he had fought tirelessly. Less than two months later, on 5 July, his venerated British parliamentary democracy defeated him in general elections, giving a landslide victory to the Labour Party of Clement Attlee, who had been his loyal deputy Prime Minister during the war. Churchill accepted the electoral defeat without a protest. And he quietly became the leader of Her Majesty’s Loyal Opposition.

 

The United Kingdom was exhausted. Europe was exhausted. But the old Winston Churchill, then aged 71, did not surrender. In the following year, in March 1946, at Westminster College, in Fulton, Missouri, in the presence of President Truman, Churchill denounced the Iron Curtain that the Soviet Union had imposed upon Central and Eastern Europe:

 

“From Stettin in the Baltic to Trieste in the Adriatic, an iron curtain has               descended across the Continent. Behind that line lie all the capitals of the     ancient states of Central and Eastern Europe. Warsaw, Berlin, Prague,        Vienna, Budapest, Belgrade, Bucharest and Sofia, all these famous cities             and the population around them lie in what I must call the Soviet sphere,     and all are subject in one form or another, not only to Soviet influence but to a very high and, in some cases, increasing measure of control from Moscow.”[10]

 

This was the official starting point of the “Cold War” that has opposed the West agains the Soviet bloc. A cold war that was peacefully won by the West at the fall of the Berlin Wall in 1989. Churchill could no longer witness that victory of the Western civilisation for which he had fought the whole his life. But it had been he, once again, who had first denounced soviet despotism — and he had done that as the leader of Her Majesty’s Conservative Loyal Opposition.

 

It was under this status of Her Majesty’s Conservative Loyal Opposition that Churchill visited Madeira in January 1950. But — as it is eloquently recalled in this book by Miguel Albuquerque, and as it is beautifully illustrated by the excellent photos — it was as leader of the Free World that he was enthusiastically welcomed by the people of Madeira.

 

This enthusiastic reception was also a honourable tribute to the Luso-British alliance, sealed in the Windsor Treaty of 1386. It is the oldest surviving alliance of the Western world. It has been much criticised by recurrent intellectual fashions, both from the left and from the right. It has unfortunately been seldom defended in the public square. We must be grateful to Miguel Albuquerque, and to the wise population of Madeira who have elected him, for this courageous and eloquent recollection of Churchill’s visit to Madeira — and of the ancestral Luso-British alliance that this visit has illustrated.


 

 

[1] Winston S. Churchill, “Personal Contacts”, in Thoughts and Adventures, (London: Thornton Butterworth, Ltd, 1934), p. 52.

[2] Discurso de 9 de Maio de 1938, citado em Peter Clarke, Mr Churchill’s Profession: Statesman, Orator, Writer (London: Bloomsbury, 2012), p. 225.

[3] Discurso no Parlamento de 13 de Maio de 1940, citado por Martin Gilbert, Winston Churchill’s War Leadership, (New York: Vintage Books, 2004), pp. 38-9.

[4] Discurso no Parlamento a 4 de Junho de 1940, citado por Martin Gilbert, Winston Churchill: A Life (London: Heinemann, 1991), p. 656.

[5] Discurso em Fulton, Missouri, citado e discutido em James W. Muller, ed., Churchill’s Iron Curtain Speech Fifty Years Later (Columbia and London: University of Missouri Press, 1999).

[6] Winston S. Churchill, “Personal Contacts”, in Thoughts and Adventures, (London: Thornton Butterworth, Ltd, 1934), p. 52.

[7] Speech on 9 May 1938, quoted in Peter Clarke, Mr Churchill’s Profession: Statesman, Orator, Writer (London: Bloomsbury, 2012), p. 225.

[8] Speech in the House of Commons, 13 May 1940, quoted in Martin Gilbert, Winston Churchill’s War Leadership, (New York: Vintage Books, 2004), pp. 38-9.

[9] Speech in the House of Commons, 4 June 1940, quoted in Martin Gilbert, Winston Churchill: A Life (London: Heinemann, 1991), p. 656.

[10] Speech in Fulton, Missouri, quoted and discussed in James W. Muller, ed., Churchill’s Iron Curtain Speech Fifty Years Later (Columbia and London: University of Missouri Press, 1999).

Reis de Portugal e sua Descendência | Volume 2 - 1º capítulo

 D. LUÍS I (1838 — 1889)

 

Com a colaboração de: António Sérgio, Pedro Batalha Reis, Afonso Zúquete

 

Trigésimo-primeiro rei de Portugal, D. Luís I nasceu em Lisboa, no Palácio das Necessidades, a 31-10-1838 e morreu na Cidadela de Cascais a 19-10-1889. Foi batizado na Capela das Necessidades a 14-11‑1838, com o nome completo de Luís Filipe Maria Fernando Pedro de Alcântara António Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis João Augusto Júlio Volfando, tendo tido como padrinho o rei de França, Luís Filipe. Foi cognominado o Popular.

Até à morte do irmão, o rei D. Pedro V, foi o infante D. Luís o 1.° duque do Porto e duque da Saxónia. Destinou-o a mãe à carreira da armada, não simplesmente como oficial de marinha honorário, mas como prático. Quando faleceu D. Maria II (15-11‑1853) contava D. Luís 15 anos de idade, e D. Pedro, o irmão mais velho, 16, faltando a este apenas 2 para atingir a maioridade, segundo a Constituição do país. Ficou o pai, D. Fernando, regente do reino, e os dois irmãos logo empreenderam uma viagem pelas cortes europeias. Saíram do Tejo no vapor Mindelo em maio de 1854, foram diretamente a Londres, e de aí passaram à Bélgica,

Holanda, Prússia, Áustria, França, Saxe-Coburgo-Gotha, voltando depois a Londres, de onde regressaram a Lisboa. Pela rainha Vitória foram recebidos com particular carinho.

No ano seguinte realizaram outra viagem, visitando algumas das cortes onde já haviam estado no anterior, e também a Itália e a Suíça. No regresso, o príncipe assumiu o governo (16-9‑1855), com o nome de D. Pedro V, no próprio dia em que fazia 18 anos de idade. Quanto a D. Luís, foi investido no comando do brigue Pedro Nunes, e depois no da corveta Bartolomeu Dias, da qual era o verdadeiro comandante o seu precetor naval, o então capitão-de-mar-e-guerra, depois almirante, António Sérgio de Sousa, visconde de Sérgio de Sousa. Nesse navio visitou os nossos portos africanos, designadamente os de Angola. Regressado à Europa, e promovido ao posto de capitão-de-fragata (24-3‑1858), acompanhou a Lisboa a sua futura cunhada, D. Estefânia, e em Lisboa assistiu, na qualidade de condestável do reino, ao casamento de D. Pedro V (maio de 1858).

Em 1861 saiu de Lisboa com o infante D. João, em viagem pela Europa, e achava-se em Londres quando recebeu a notícia de que D. Pedro V adoecera gravemente, pelo que urgia o seu regresso a Portugal. Os dois infantes embarcaram logo na Bartolomeu Dias, e desembarcaram em Lisboa pouco depois do falecimento do rei, ocorrido a 11-11‑1861. O infante D. Fernando, ainda criança, morrera dois dias antes do monarca; em dezembro seguinte, nas vésperas do Natal, finava-se o infante D. João, enfermando gravemente D. Augusto. Correram boatos de envenenamento, acusando-se pessoas do paço, e fantasiando-se que o marido da rainha Vitória, o príncipe Alberto, com quem D. Luís jantara na véspera da sua partida, sucumbira, por engano, a um envenenamento preparado para este.

O povo tumultuou pelas ruas. A saída do duque de Loulé do ministério, e de alguns dos outros ministros, que eram os mais alvejados pelas suspeitas populares, concorreu para que a situação se fosse modificando, mas verdadeiramente só houve completo sossego em 1864, depois de sufocada a insurreição militar que rebentara no Minho.

O novo soberano, tendo assumido o governo a 14-11‑1861, convocou para o dia seguinte as cortes, às quais ratificou o juramento feito, e foi aclamado a 22 de dezembro seguinte.

Pensou-se no seu casamento, sendo escolhida a filha mais nova do rei de Itália, Vítor Manuel II, a princesa Maria Pia de Saboia. Realizou-se o consórcio por procuração em Turim a 27-9‑1862, sendo ratificado em Lisboa a 6 do mês seguinte.

Em 1865 houve no Porto uma exposição internacional no Palácio de Cristal, construído para esse fim. Nesse ano caía o ministério progressista histórico perante a fusão de um dos principais grupos desse partido com o partido regenerador. Constituiu-se então um gabinete presidido por Joaquim António de Aguiar (4-9‑1865), sendo sua personalidade proeminente Fontes Pereira de Melo, estadista muito afeiçoado a D. Luís.

A 1-1-1868, em consequência da criação do imposto geral de consumo, criado pela lei de 10-6‑1867, que a opinião pública recebeu mal, deu-se o motim a que se chamou Janeirinha.

Este movimento teve a sua mais ruidosa manifestação no Porto, no 1.° de janeiro, facto que deu origem ao título do jornal portuense O Primeiro de Janeiro, fundado por Gaspar Ferreira Baltar.

O monarca recebeu uma comissão protestatária de portuenses; o ministério demitiu-se, e foi chamado ao governo António José de Ávila, já conde de Avila, que organizou governo com José Dias Ferreira na pasta da Fazenda.

Abertas as cortes a 15 de abril, teve a sessão a marcá-la a atitude assumida pelo conde de Peniche (mais tarde marquês de Angeja), um dos mais enérgicos propulsores da Janeirinha, que atacou Ávila como lesador da liberdade de reunião. As medidas que tinham provocado os tumultos foram revogadas. Dias Ferreira apresentou uma reforma tributária contra a qual gritaram as oposições, protestando contra os vencimentos do alto clero, dos diplomatas e dos funcionários que não trabalhavam, e achando que deviam ser reduzidas as despesas com luxos de representação. Ou se libertava o tesouro da parasitagem, ou se não pagaria mais tributos. Viu-se o governo obrigado a contrair empréstimos com juros elevadíssimos, que ainda mais agravaram a crise política e financeira. Para maior desgraça, a guerra do Paraguai impedia a remessa de dinheiro do Brasil para a Europa, o que muito afetava o crédito português, já vacilante pelas discórdias internas.

Assustava também o país a revolução que rebentara em Espanha em 1868 para derrubar do trono a rainha D. Isabel II. Apelou-se para o recurso das economias, e o ministério de Ávila foi substituído por outro, presidido pelo marquês de Sá da Bandeira, mas onde a personalidade dominante era o bispo de Viseu, D. António Alves Martins, que tomou a pasta do reino. A sua obra, porém, foi apenas burocrática, sem que se entrasse no período das grandes reformas reclamadas.

Em 1869 subiu ao poder um ministério progressista, presidido pelo duque de Loulé. As circunstâncias não melhoravam. Entretanto, chegava a ponto agudo a questão ibérica. Em Espanha decidiu-se, depois da fuga da rainha, procurar um rei, e viram-se em Lisboa, onde havia partidários da união ibérica, cartazes onde se lia: «Viva o senhor D. Luís, chefe dos dois países unidos! portugueses, ponhamos de parte estúpidos preconceitos: Portugueses e espanhóis são irmãos pela religião, pelos costumes, pelo idioma, e sobretudo pelo decidido amor à liberdade». Foi nessa ocasião que D. Luís escreveu uma famosa carta em que afirmava que nascera português, e português queria morrer.

O ministro da Fazenda, conde de Samodães, empreendeu economias, mas pouco tempo se manteve com a sua pasta. O rei cedia 36 contos por ano da sua lista civil, a décima parte do rendimento da dotação da rainha, pagando os príncipes 4 contos por ano para as urgências do tesouro. Compraram-se as linhas férreas do Sul e Sueste, que habilitavam ao empréstimo de 4 milhões de libras contratados em Londres na Casa Goschen. Adjudicavam-se-lhe os rendimentos dos tabacos e das alfândegas para garantir a anuidade do pagamento de 420 mil libras, durante 30 anos.

A 11-8‑1869 o ministério do bispo de Viseu era substituído por um chefiado pelo duque de Loulé, presidente e ministro do Reino, figurando na pasta da Justiça José Luciano de Castro, que era chamado pela primeira vez aos conselhos da coroa. Este gabinete não era do agrado da maioria dos deputados de renome. As eleições tinham decorrido tumultuariamente, e formou-se uma conjura.

O marechal duque de Saldanha, julgando-se ofendido pelo governo de Loulé, promoveu a revolta militar de 19-5-1870. Com as forças que se tinham formado em Entre-Muros, perto de Campolide, onde o marechal residia, avançou sobre o Paço da Ajuda na noite de 18 para 19 e pediu a D. Luís a demissão do ministério. Falou ao rei acompanhado de uma comissão (Sena de Freitas, Silva Lobo, Liberato Branco, D. Diogo e D. Francisco de Sousa, etc.) e obteve a queda do governo. O chefe da revolta, nomeado presidente, preencheu as pastas com partidários do conde de Peniche e do bispo de Viseu, entrando também Rodrigues Sampaio.

Este ministério apenas durou cem dias, levantando contra si todos os partidos organizados. À revolta de 19 de maio respondeu o golpe de Estado de 29 de agosto, pelo qual o monarca demitiu o ministério Saldanha, chamando ao poder Sá da Bandeira, o qual imediatamente cedeu ao conde de Ávila o encargo de constituir o ministério, pois que o velho general só pensara em livrar o soberano da situação difícil em que se encontrava. O novo gabinete formou-se com elementos reformistas, sendo o bispo de Viseu um dos ministros. A 13-9‑1871 demitiu-se esse ministério subindo ao poder Fontes Pereira de Melo, que organizou um gabinete regenerador, o qual se conservou até 1877.

Durante esse largo período deram-se agitados acontecimentos em Espanha. O rei Amadeu viu-se obrigado a abdicar, sendo proclamada a república. Perante a desordem em que decorreu a vida desta, foi restabelecida a monarquia (janeiro de 1875).

Elementos dos partidos histórico e reformista juntaram-se na Granja, a fim de se unirem num só partido — o progressista — os políticos que andavam dispersos. Anselmo Braamcamp, eleito chefe dos históricos, deu grande impulso à ideia, e a 7-12‑1876 instalava-se o novo organismo político («Pacto da Granja»), tendo à sua frente, além de Braamcamp, o bispo de Viseu, Pereira de Miranda, António de Sá Nogueira (já falecera Sá da Bandeira, a 6 de janeiro daquele ano), Saraiva de Carvalho, José Luciano de Castro, Luís Daun e Lorena, Maldonado de Eça, Mariano de Carvalho, Manuel de Jesus Coelho e os viscondes de S. Januário e de Valmor.

No princípio do ano de 1877 demitiu-se o ministério regenerador de Fontes, depois de se conservar no poder durante um período de seis anos, em que se deu ao país a impressão da prosperidade. Seguiu-se o do duque de Ávila (6-3‑1877), que não pôde sustentar-se por lhe faltar maioria. Supunha-se que lhe sucederia o novo partido progressista, mas não aconteceu assim; e quando, em 1878, rebentou um conflito parlamentar, foi chamado outra vez Fontes para constituir gabinete.

Deste facto se originou uma das campanhas de mais vastas consequências que ocorreram em Portugal. Os progressistas atacaram diretamente o rei, acusando-o de patrocinar escandalosamente os regeneradores, isto com grave desprestígio do regime monárquico e incentivo ao desenvolvimento do republicanismo. Anselmo Braamcamp acusou o rei de não haver resolvido a crise conforme as indicações constitucionais, mostrando-se parcial a favor de Fontes. O Diário Popular e o Progresso publicaram artigos violentíssimos. Este último dizia: «O senhor D. Luís lançou mão, como de uma arma de guerra, do poder pessoal». Adiante acrescentava ter o monarca «afastado os progressistas do poder a golpes de Estado», arrojando-se inconstitucionalmente nos braços dos regeneradores, «enodoados pela sua própria crápula». Joaquim Martins de Carvalho, no Conimbricense, chamava aos regeneradores o «partido do rei», e perguntava: «Então voltamos à época do poder pessoal, em que o reinante, em vez de ser o primeiro magistrado da nação, era também o chefe de um bando político?». Apareciam opúsculos soeses, panfletos de prosa contundentíssima.

O nome de D. Luís foi completamente desprestigiado; acusavam-no das faltas mais graves: de haver procurado subir ao trono de Espanha, entrando para isso em negociações com Napoleão III, e não sendo, portanto, a sua célebre carta, em tempo publicada, senão um documento hipócrita; de ter sido cúmplice do marechal Saldanha na revolta de 19-5-1870, com o fim de demitir o ministério de Loulé porque o duque recusara aumentar o subsídio ao Teatro de S. Carlos para que a empresa pudesse contratar certa bailarina de notável formosura, etc.

Alcançou por então grande êxito o jornal de caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro, o qual tinha por título o nome do presidente do conselho: António Maria (12-6‑1879). Em todos os números era caricaturado o rei. O desenhador criou nesse período a famosa figura do Zé Povinho, representativa do povo português.

Os republicanos (Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, Elias Garcia, Rodrigues de Freitas, etc.) propuseram-se a deputados nas eleições de 1879, falando num comício celebrado no Teatro da Rua dos Condes, presidido pelo escritor Ramalho Ortigão. A campanha difamatória contra D. Luís durou um ano, ao fim do qual, tendo caído o ministério regenerador (junho de 1879),      D. Luís chamou os progressistas a formarem gabinete.

Os republicanos tomaram mais ímpeto quando se celebrou o centenário de Camões. A maçonaria ajudou a promover essa manifestação, que inquietou o governo e o paço. Organizou-se um grande cortejo (10-6‑1880) que passou entre estrondosas aclamações, nas quais havia um manifesto propósito de assoalhar republicanismo.

Em 1881 levantou-se a questão do projeto de tratado com a Inglaterra relativo a Lourenço Marques e à Índia. Esse projeto, que o governo progressista queria fazer votar nas câmaras, continha cláusulas extremamente desagradáveis para o País. A Grã-Bretanha poderia construir um caminho de ferro até o Transvaal; dar-se-lhe-ia isenção de direitos para as mercadorias inglesas, no porto; consentir-se-lhe-ia embarque e desembarque de tropas; conceder-se-lhe-ia livre-trânsito pelos domínios portugueses no Ultramar, acordo de pautas, edificações de armazéns no términus da linha, sob a direção de agentes ingleses, e licença para os navios britânicos poderem exercer a sua ação fiscalizadora nas águas de Moçambique — devendo ser perpétuas todas estas concessões. Levantaram-se protestos por todo o país. Faziam-se comícios em que falavam oradores republicanos, os quais se aproveitavam da repulsa que o tratado inspirou para promoverem uma agitação, de que resultou a queda do ministério. Por fim concordou-se, ao cabo de longas negociações, em se substituir a cláusula da perpetuidade do tratado pela de um período de 12 anos; em fazer depender o fim das isenções de direitos de alfândega da amortização do capital empregado no caminho de ferro; em ficar dependente de uma convenção especial a passagem das tropas; e em que a polícia dos cruzadores britânicos só seria possível desde que levassem a bordo um oficial português. Quanto à pauta, ficaria em igualdade de condições com a do Transvaal.

Reis de Portugal e sua Descendência | Volume 1 - 1º capítulo

Sabe quem são os reis da 2.ª Dinastia?

  • D. João I
  • D. Duarte
  • D. Afonso V
  • D. João II
  • D. Manuel I
  • D. João III
  • D. Sebastião
  • D. Henrique | Cardeal-Rei

 

D. SEBASTIÃO

(1554–1578)

 

Com a colaboração de: Hernâni Cidade, Pedro Batalha Reis, Afonso Zúquete

 

Desejado foi o cognome de D. Sebastião, décimo-sexto rei de Portugal, único do seu nome, nascido em Lisboa a 20-1-1554 e morto na batalha de Alcácer Quibir a 4-8‑1578. O cognome que recebeu da História tem plena justificação: o seu nascimento foi ardentemente desejado pela nação inteira.

O pai, o príncipe D. João — último dos nove filhos de D. João III — morrera no dia 2-1-1554, e deixara a princesa D. Joana, filha de Carlos V — que era mais velha quase dois anos que o marido — no último período da gravidez, já assistida da parteira. Decidiram, por isso, os sogros não lhe dar conhecimento da morte do marido e impedir que alguém lhe transmitisse a notícia. Quando a visitavam, nunca vestiam trajos de luto e o mesmo faziam as damas e criadas que a serviam. No dia 19, à tarde, começou D. Joana a sentir os primeiros rebates do parto. Por volta da meia-noite, apontaram as dores. Do paço mandaram então aviso a todos os mosteiros para que se fizessem preces; e ao toque do sino grande da Sé, como ordenara o arcebispo, ali se foram juntando o clero da cidade e muitas comunidades religiosas, que depois das duas horas, saíram em procissão para a igreja de S. Domingos, levando sob o pálio, um braço de S. Sebastião, relíquia que Carlos V oferecera ao cunhado. Entre as oito e as nove horas da manhã nasceu o príncipe; e quando das janelas do Palácio da Ribeira anunciaram à multidão — que enchia completamente a vasta praça fronteira — que D. Joana dera à luz um filho varão, foram tão grandes as expressões de júbilo, como tinham sido grandes o desassossego e o cuidado com que havia dezoito dias vivia o povo da capital. Todavia, e até sem que se assuma uma adesão formal aos perigos genéticos da consanguinidade, poucas situações de gestação se poderiam apresentar com tão alto grau de desfavor.

D. Sebastião era filho de primos duplamente coirmãos: o pai, filho de D. João III e da rainha D. Catarina, era neto paterno de D. Manuel e da rainha D. Maria e materno de Filipe, o Belo e de Joana, a Louca; a mãe tinha os mesmos avôs, respetivamente pelo lado da mãe e pelo lado do pai. D. Sebastião tinha apenas quatro bisavôs em vez dos oito de qualquer indivíduo sem consanguinidades ancestrais.

Viu-se na biografia de D. João III como as consanguinidades se multiplicavam na abolência régia: D. João III, filho de primos terceiros, D. Manuel filho de primos coirmãos, etc. O caso não era mais brilhante do lado espanhol e castelhano e nas suas ligações com o lado português, não se devendo esquecer que os próprios reis católicos eram primos terceiros.

E não se deve esquecer, também, que na ascendência régia — tanto a direta como a colateral — havia uma patologia carregada: mortalidade perinatal, infantil e juvenil elevada, a tuberculose em todas as suas formas, vários casos de loucura, outros de misticismo extremo.

São factos que pesam na apreciação que se possa fazer da personalidade do rei, pois que se a consanguinidade não é perniciosa por si mesma, favorece o aparecimento de taras e tendências ocultas e latentes, principalmente quando — como neste caso — ela se repetia e se múltiplicava nas gerações.

Não se entendeu assim na época, em que os casamentos régios apenas se norteavam pelos interesses dos Estados, mas as consequências foram fatais para as dinastias.

No entanto, o júbilo dos portugueses foi imenso: na realidade só o nascimento de um príncipe podia afastar de Portugal o perigo de ser o reino herdado pelo infante D. Carlos, filho da infanta D. Maria, filha dos soberanos portugueses, e do príncipe Filipe de Espanha. Em 28 de janeiro, na capela do paço realizou-se o batizado do novo príncipe a quem impuseram o nome de Sebastião, em memória do dia em que nascera. Só depois dessa cerimónia é que comunicaram a D. Joana a notícia da morte do marido.

Segundo as capitulações matrimoniais, as princesas D. Maria e D. Joana, no caso de ficarem viúvas, podiam regressar ao seu país, sem qualquer impedimento. O príncipe D. Filipe, que já tinha o seu segundo casamento tratado com a rainha de Inglaterra Maria Tudor, prima coirmã de Carlos V, por ser também neta dos reis católicos, pediu a D. João III se não opusesse à partida da irmã. A 15-5-1554, saiu D. Joana de Lisboa para não mais voltar a Portugal, deixando o filho entregue aos cuidados dos sogros. Em Alcântara esperava-a o irmão. Caminharam algum tempo juntos, separando-se depois, ele em direção à Corunha, onde embarcou, e ela para Valhadolide, onde ficou como governadora da Espanha, conforme os poderes que lhe dera o imperador.

Na noite de 11-6‑1557, fulminado por um ataque apoplético, faleceu D. João III. Dois dias depois, por ordem de D. Catarina, foram convocados para o paço o cardeal-infante D. Henrique;    D. Duarte, filho do infante D. Duarte; D. António, filho bastardo do infante D. Luís; os duques de Bragança e de Aveiro; o conde de Vimioso e o barão de Alvito vedores da Fazenda; o arcebispo de Lisboa, D. Fernando de Vasconcelos e Meneses; o regedor da Casa da Suplicação, D. João da Silva; e o secretário de Estado Pedro de Alcáçova Carneiro, o qual apresentou uns apontamentos, escritos por ele e redigidos pelo chanceler-mor, Dr. Gaspar de Carvalho, apontamentos que deviam ser tomados como uma verdadeira verba testamentária, pois representavam a última vontade de D. João III de confiar à rainha a tutoria de D. Sebastião e a regência do reino. Todos os presentes concordaram em que o governo fosse entregue a D. Catarina. Na câmara municipal de Lisboa, houve quem recordasse que D. Catarina era castelhana, tia e sogra de Filipe II, que já fora proclamado rei de Espanha, pela abdicação do pai. Mas, afinal, foi aprovado o seu nome para regente do reino e tutora do neto.

Apesar da voluntária abdicação de todos os seus Estados no filho e no irmão, o encerramento de Carlos V no mosteiro de Yuste, na Estremadura espanhola, não representava o seu completo alheamento da política do mundo; e enviou a Lisboa, em missão especial junto de sua irmã, a rainha D. Catarina, o padre Francisco de Borja, antigo duque de Gandia, que depois da morte da esposa, trocara todas as grandezas pela roupeta de jesuíta. A missão consistia em ficar a que, no caso de D. Sebastião falecer sem filhos, herdaria a coroa portuguesa o príncipe D. Carlos, publicando-se nesse sentido uma declaração oficial. D. Catarina respondeu afirmativamente, mas a declaração não foi publicada, pois poria em perigo a sua própria regência.

Alguns meses antes do ataque apoplético que o vitimou, começara D. João III a padecer de melancolia. Resolveu a rainha apartá-lo dos negócios pesados, cujo despacho tomara a seu cargo, de acordo com o Conselho de Estado. O governo do reino não constituía portanto novidade para D. Catarina, que realmente se mostrou capaz de arrostar as fadigas de tão complexa administração. Um dos primeiros atos da regente foi impetrar do Papa Paulo IV a criação de dois bispados na Índia: o de Cochim e o de Malaca, passando a metropolitana a Sé de Goa. Tendo ficado vaga a igreja primacial de Braga, por morte de D. Fr. Baltasar Limpo, quis a rainha prover o arcebispado no seu confessor, Mestre Fr. Luís de Granada; mas o notável escritor ascético não aceitou, indicando para essa dignidade o prior do convento de   S. Domingos de Benfica, Fr. Bartolomeu dos Mártires.

Foi muito feliz D. Catarina na escolha de D. Constantino de Bragança, irmão do duque D. Teodósio, para vice-rei da Índia; durante o seu governo conquistou-se a cidade de Damão.

O cardeal-infante D. Henrique, que foi o primeiro arcebispo de Évora, depois da elevação dessa diocese a metrópole, criara ali, em 1553, um colégio de jesuítas, sob a invocação do Espírito Santo, que ganhou rapidamente tamanha fama, que eram às centenas os estudantes que frequentavam as suas aulas de Humanidades. Quis D. Henrique elevar o colégio à categoria de universidade, e com aquiescência da rainha, em 1558, impetrou do Papa Paulo IV o autorizasse a erigir, na capital do Alentejo, uma Universidade, sob a direção da Companhia de Jesus; e no dia 1-11‑1559, foi esse instituto inaugurado com grande solenidade. O primeiro reitor da universidade foi o padre Leão Henriques, confessor do cardeal-infante. A rainha D. Catarina era então desvelada protetora da companhia. A ela se deve o alvará de 13-8‑1561, dando-lhe o monopólio do ensino preparatório, indispensável para a admissão nas faculdades maiores.

Logo que D. Sebastião nasceu, escolheram os avôs, para sua aia, D. Joana de Meneses, viúva do alcaide-mor de Santarém, D. Bernardo Coutinho. Para aio foi também logo escolhido D. Aleixo de Meneses, irmão de D. Joana, que se tinha distinguido em numerosas campanhas na África e na Índia, e acompanhara a princesa D. Maria, desposada com seu primo, D. Filipe, na qualidade de mordomo-mor. Tendo a princesa falecido quatro dias depois do nascimento do infante D. Carlos, voltou D. Aleixo para Lisboa, sendo nomeado mordomo-mor da rainha D. Catarina. Mas só entrou no exercício do seu cargo, quando D. Sebastião atingiu cinco anos. Além do aio, nomeou a rainha como sumilheres de cortina — nome que desagradou muito, por ser o adotado na corte de Castela, organizada desde Carlos V ao uso de Borgonha — a D. Pedro de Meneses, D. Fernando Álvares de Noronha, D. Duarte de Almeida e Febo Moniz, fidalgos de bons costumes, que deviam servir o rei, às semanas, debaixo das ordens de D. Aleixo de Meneses.

Na escolha do mestre de D. Sebastião, não houve acordo entre os dois partidos, o da rainha e o do cardeal D. Henrique, em que na realidade se dividia a corte. A regente aconselhava dois: Fr. Luís de Granada, da Ordem de S. Domingos, ou Fr. Luís de Montoya, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho; na opinião de D. Henrique, o mestre devia ser um jesuíta português. D. Catarina só cedeu, a conselho do padre Miguel de Torres, provincial da Companhia de Jesus, que era então seu confessor; e sobretudo à intervenção da sua camareira-mor, D. Joana de Eça, tia afim do padre Luís Gonçalves da Câmara, exatamente a pessoa proposta por D. Henrique para esse importante cargo. Estava o padre Luís Gonçalves em Roma, como assistente de Portugal e reitor do Colégio Germânico. Com autorização do geral, padre Diogo Laynez, em princípios de julho de 1559, partiu para Lisboa, onde chegou em novembro seguinte. Mas só meses depois, ao entrar nos seis anos, começou D. Sebastião a receber as lições do mestre, que tinha, na realidade, uma sólida cultura humanista. Como adjunto, escolheu o padre Luís Gonçalves da Câmara, para o ensino da leitura e escrita, o padre Amador Rebelo; e para o lugar de professor dos jovens fidalgos, que tinham moradia no paço, foi escolhido o padre Gaspar Maurício, que também às vezes dava lição a el-rei, quando o mestre estava enfermo. Ambos pertenciam também à companhia. Para confessor do neto, nomeou, porém, a rainha Fr. Luís de Montoya.

Tão interessada, como seu marido no estabelecimento da Inquisição em Portugal, quis a rainha que o Tribunal do Santo Ofício se estendesse aos nossos domínios do Oriente; e, em princípios de 1560, impetrou do Papa Pio IV a criação de um tribunal na cidade de Goa. Acedeu o Pontífice ao pedido; e o cardeal D. Henrique, como inquisidor-geral, nomeou os dois primeiros inquisidores de Goa.

Também neste ano de 1560 se deu no Brasil um facto que merece registo especial; a expulsão da baía do Rio de Janeiro, de uma colónia de calvinistas franceses que ali se tinha estabelecido em 1555. Foi o próprio governador, Mem de Sá, que comandou essa expedição; mas só em 1567, a expulsão dos franceses se tornou definitiva, pois muitos se haviam refugiado nas florestas vizinhas.

Em fins de 1560 chamou a rainha o cardeal D. Henrique, para lhe anunciar que resolvera ceder-lhe o governo do reino. Observou-lhe o cunhado que o não devia fazer e só aceitaria a regência, se os Três Estados concordassem. D. Catarina não reuniu as cortes; mas enviou aos prelados, a muitos nobres e às principais cidades e vilas do reino uma carta-circular, datada de 24 de dezembro, comunicando-lhes a sua resolução e pedindo-lhes breve resposta; e quase todos pediram à rainha que desistisse da renúncia e continuasse regente.

Em fins de novembro de 1560 expedira Pio IV as bulas convocando os prelados e soberanos católicos para continuação, na cidade de Trento, do concílio geral, cujos trabalhos estavam suspensos desde abril de 1552. Como embaixador do rei de Portugal junto do concílio, foi nomeado D. Fernando Martins Mascarenhas, comendador de Mértola. Em sua companhia, como teólogos, foram o Dr. Belchior Cornejo, antigo lente de Cânones na Universidade de Coimbra, o Dr. Diogo de Paiva de Andrade e Fr. Francisco Foreiro, da Ordem de S. Domingos. Entre os prelados escolheu a rainha três: o arcebispo de Braga, D. Fr. Bartolomeu dos Mártires, o bispo de Coimbra, D. Fr. João Soares e o bispo de Leiria, D. Fr. Gaspar do Casal. Em 4-7‑1563 — já D. Catarina resignara — efetuou-se a última sessão, promulgando o Papa no dia 26 de janeiro seguinte a bula de confirmação dos decretos do concílio. Em Portugal foram eles admitidos e mandados observar sem restrição alguma, único país católico que não apresentou dúvidas.

Na África pertenciam ainda a Portugal, como atalaias em frente do inimigo secular, Ceuta e Tânger, no norte, e Mazagão, no sul. Foi esta praça que em 1562 veio cercar um poderoso exército comandado por Mulei Moâmede, filho primogénito do xerife, mancebo de vinte anos incompletos a quem o pai queria dar as honras da vitória. Em fins de fevereiro apareceram os primeiros mouros; e em 4 de março estava fechado o cerco por terra, com mais de cento e cinquenta mil homens, com vinte e quatro peças de artilharia. O governador interino de Mazagão, Rui de Sousa de Carvalho, enviou uma caravela ao reino avisando a regente. No caminho espalhou a notícia por o Algarve; e de toda esta província, num admirável impulso de patriotismo, acudiram a Mazagão reforços voluntários, ainda antes dos primeiros socorros oficiais. Diversos fidalgos armaram caravelas à sua custa, e foram lançar-se na fortaleza. A 24 de março, quando a luta já ia acesa, chegou a primeira armada, expedida pela regente. Vinha como general o capitão-mor de Mazagão, Álvaro de Carvalho, irmão do governador interino da praça. Em Lisboa não era menor o entusiasmo. Nobres, mercadores, artífices, partiam ou se quotizavam para pagar soldados. Rapazes de catorze e quinze anos, de grandes casas fidalgas, ou filhos de ricos comerciantes, tantos queriam embarcar para Mazagão, que a rainha se viu forçada a proibi-lo. As levas constantes de gente e a remessa de munições correspondiam à grandeza do perigo que ameaçava a fortaleza. Sessenta e cinco dias durou o cerco. Dois foram os assaltos gerais, a 24 e a 30 de abril. No segundo até as mulheres, idosas e moças, intervieram no combate, arremessando pedras contra os assaltantes. Em 7-5‑1562 retiraram os mouros com perdas superiores a vinte cinco mil homens. O concílio, então reunido, festejou a nossa insigne vitória com a maior solenidade.

Logo que o assédio terminou, resolveu D. Catarina apresentar a sua renúncia; e a 11-7‑1562 publicou as cartas-circulares, convocando os Três Estados para o dia 12 de dezembro seguinte, na cidade de Lisboa. A abertura solene das cortes realizou-se numa sala do Paço da Ribeira. À cerimónia assistiu D. Sebastião, sentado numa cadeira de espaldar coroada por um dossel. Falaram o Dr. António Pinheiro, representante do Estado eclesiástico, e o Dr. Estêvão Preto, procurador da cidade de Lisboa, em nome da nobreza e do povo. Depois, entrou na sala o vedor da casa da rainha, Simão Guedes, que entregou ao Dr. António Pinheiro um papel assinado por D. Catarina, renunciando à regência. Apesar de aguardada por muitos, a sua leitura causou profunda impressão na assembleia. Formou-se logo um numeroso grupo, defendendo a conservação da regente; outro grupo, não menos numeroso, capitaneado por Lourenço Pires de Távora, muito afeto ao cardeal D. Henrique, insistia pela sua aceitação. Nove dias duraram as discussões; e a 23-12‑1562, as cortes convieram na regência do cardeal-infante, mas com a cláusula expressa e juramento de entregar o governo do reino a D. Sebastião, logo que ele completasse catorze anos de idade, juramento que D. Henrique prestou na mesma sessão. A tutoria do rei continuaria, porém, confiada à velha rainha.

Um dos primeiros atos de D. Henrique foi instituir, com carácter permanente, o Conselho de Estado, ao qual D. Sebastião deu depois regimento, por alvará de 8-9‑1569. Não obstante o seu propósito de comprimir as despesas, teve D. Henrique em 1664 de concorrer, a pedido de Filipe II, para a reconquista da fortaleza do Pinhão de Beles, mandada construir por Fernando, o Católico, na costa africana fronteira a Málaga. A esquadra portuguesa compunha-se de um poderoso galeão, oito caravelas e alguns bergantins e fustas, mais de trezentos cavaleiros e mil e quinhentos soldados. Como general ia Francisco Barreto, ex-governador da Índia. A esquadra espanhola, comandada por D. Garcia de Toledo, marquês de Vilafranca e duque de Fernandina, constava de oitenta e cinco galés, além de sessenta barcos de pequena tonelagem, com cerca de treze mil soldados espanhóis, italianos, flamengos e alemães. Partiram as duas esquadras de Málaga em fins de agosto. A fortaleza resistiu apenas dois dias. O contínuo bombardeamento dos sitiantes, tanto do mar, como de terra, onde tinham levantado duas baterias, levou a guarnição a abandoná-la e a fugir para o interior. A Francisco Barreto enviou Filipe II o seu retrato, numa medalha, pendente de grossa cadeia de ouro, acompanhada de uma carta autógrafa, agradecendo-lhe efusivamente os seus serviços.

Nos primeiros dias de 1564 chegou a Lisboa a notícia de que o xerife Mulei Abdalá preparava uma expedição contra a cidade de Tânger. Era portanto urgente cuidar da sua defesa, aumentando e melhorando as fortificações e confiando o seu governo a quem tivesse autoridade e experiência para o exercer, em ocasião que podia ser muito grave; e o cardeal nomeou capitão-mor Lourenço Pires de Távora, que a 15 de abril partiu com uma armada, que conduzia mil soldados de cavalo e muitos fidalgos, ansiosos de ilustrar o seu nome em algum brilhante feito de armas. Dois anos durou a sua capitania, com vários combates em que os nossos ficaram sempre vitoriosos; e o xerife mandou dissolver o exército que devia pôr cerco a Tânger, não esquecido do tremendo desastre que sofrera em Mazagão.

As desavenças que, há alguns anos, se vinham acentuando entre o cardeal-infante e D. António, prior do Crato, filho bastardo do infante D. Luís, explodiram violentamente em 1565. Para satisfazer a vontade do pai e do tio, tomou D. António ordens de diácono, mas tendo sido nomeado prior do Crato, por morte do infante D. Luís, recusou-se a receber a ordem de presbítero, alegando ter abraçado o estado eclesiástico por imposição alheia e não devoção. Desde então, nunca mais o tio o olhou com simpatia. Tendo renunciado à herança do pai a benefício da coroa, a troco de prometidas compensações que nunca lhe deram, os rendimentos do priorado não bastavam para as suas despesas, forçando-o a contrair dívidas. Prometera-lhe D. Henrique cinco contos de réis por uma só vez e um conto e quinhentos mil réis de pensão anual, além de uma ajuda de custo extraordinária de dez mil cruzados para embolsar os credores; mas o cardeal punha tais condições antes de tornar efetivas as suas promessas que D. António se ausentou para Espanha a solicitar o patrocínio de Filipe II.

Procurou o rei de Espanha congraçar essas desavenças; e mandou a Lisboa o português Cristóvão de Moura, que havendo acompanhado a princesa D. Joana, de quem era pajem, conseguira boa posição na corte espanhola, pela amizade que D. Joana lhe mostrou sempre, nomeando-o seu estribeiro-mor. Chegou Cristóvão de Moura a Lisboa em abril de 1560. Após dois meses de negociações, conseguiu que o cardeal não só concedesse ao prior do Crato uma renda vitalícia e um importante subsídio para pagamento das suas dívidas, mas se comprometesse a não lhe impor a aceitação das ordens de missa, até que Deus o inspirasse.

Foi já depois de haver D. Sebastião assumido o poder, que o prior do Crato conseguiu do Papa Gregório XIII a almejada dispensa para trocar o hábito clerical pelo da Ordem de S. João de Jerusalém, então já denominada de Malta, para poder usar capa e espada.

Durante a regência de D. Henrique, foram as ilhas adjacentes invadidas e saqueadas por corsários franceses. Como Portugal não estava em guerra com a França, resolveu o cardeal-infante pedir ao rei Cristianíssimo o castigo dos culpados; mas, em vista da situação política da França, os roubos não foram restituídos, nem os seus autores castigados.

Durante o mesmo período, também houve discórdias com a Inglaterra, por causa do comércio na Costa da Mina. As negociações protelaram-se, terminando nós por conceder que os navios ingleses, pudessem ir à Guiné e à Mina, sob a condição de não levarem armamento.

Em 20-1‑1568, no dia em que D. Sebastião completava catorze anos, entregou-lhe o cardeal-infante o poder. A cerimónia efetuou-se no Paço dos Estaus, onde então residiam D. Sebastião e a avó. Concluída a solenidade, foi o rei a S. Domingos e no dia seguinte à Sé, para agradecer a Deus o haver chegado àquela idade.

No estudo das Humanidades com o padre Luís Gonçalves da Câmara, como nos das Matemáticas, com o Dr. Pedro Nunes,       D. Sebastião obteve uma instrução variada, apesar de concluída ao entrar na maioridade política. Era incontestável inteligente; mas os seus escritores revelam uma estranha confusão de ideias, uma imaginação exaltada, uma excessiva vaidade das suas qualidades pessoais.

O abandono de várias praças africanas fora um ato prudente de D. João III, pois a sua conservação seria cada vez mais dispendiosa para a Fazenda Pública. Mas a opinião geral condenara esse abandono; e essa opinião tinham o aio e os mestres de D. Sebastião. O padre Gonçalves da Câmara era um crente. Procurou portanto instruir D. Sebastião na doutrina católica, afervorá-lo no cumprimento dos preceitos da Igreja. Ouvia missa diariamente e duas aos sábados, em louvor de Nossa Senhora; ele próprio muitas vezes servia de acólito ao celebrante. Comungava, no seu oratório, todas as semanas, e em público, nas festas maiores. A inegável sedução que o padre Luís Gonçalves da Câmara exerceu sobre D. Sebastião não resultara apenas da sua erudição humanística; essa influência ganhou-a ele, principalmente, como confessor; e fácil era de prever o ascendente, a influência que ele exercia num ânimo tão ardente, como o do seu jovem discípulo e confessado. O ascendente que ele exercia no rei, não foi, porém, sempre o mesmo. Muito grande quando D. Sebastião tomou conta da governação do reino e nos quatro ou cinco anos mais próximos, veio depois decaindo, à medida que aumentava a autofilia do monarca, cuja vontade caprichosa não cedia os mais judiciosos conselhos.

Afora variados jogos e exercícios de equitação, a caça de volataria e de monte, raros foram os passatempos de D. Sebastião. Catorze anos sãos dizem os cronistas sebásticos; pois a verdade é que D. Sebastião padecia de uma doença crónica que o acompanhou até à morte. No inverno de 1565 começou D. Sebastião a sentir-se doente. O mal, segundo o embaixador D. Alonso Távora, consistia em expelir D. Sebastião por sus organos cierta substância ó purgacion, que aumentava ou diminuía, conforme ele se excedia ou restringia nos exercícios que praticava. Esta doença, com exacerbações ou remissões, nunca desapareceu completamente; e ela nos explica a relutância de Felipe II a conceder-lhe a mão de sua filha, a infanta Isabel Clara Eugénia.

Ao assumir o poder, D. Sebastião toma-o na plenitude daqueles direitos que as teorias, então dominantes, davam à autoridade real. Os próprios ministros, a quem deixa governar discricionariamente, hão de submeter-se aos seus caprichos. A mais simples observação enfada-o, qualquer objeção impacienta-o; e só lhe agradam os cortesãos, que encarecem até as suas extravagâncias. As suas intenções são boas. Em todas as suas variadas deslocações, de Lisboa para Sintra ou para Almeirim, o acompanhavam a rainha D. Catarina, o cardeal D. Henrique e a infanta D. Maria. A avó e o tio, mas sobretudo a primeira, assistiam frequentemente ao despacho. Esta intervenção da rainha contrariava-o muito, ofendendo o seu orgulho de soberano. D. Sebastião nomeou então novos ministros. Para o cargo de escrivão da puridade, vago desde o reinado do avô, nomeou Martim Gonçalves da Câmara, doutor em Teologia, e presidente da Mesa da Consciência. Antigo reitor da Universidade de Coimbra, ninguém lhe negava competência; mas deveu a sua nomeação a ser irmão do confessor. Para o cargo de secretário de Estado, que há muitos anos era desempenhado por Pedro de Alcáçova Carneiro, muito da intimidade de D. Catarina, foi nomeado Miguel de Moura, protegido do cardeal D. Henrique; e D. Sebastião afastou-se por completo da avó, impedindo-a de intervir nos negócios de Estado.

Nos fins de maio de 1569 começaram a sentir-se em Lisboa os primeiros rebates de peste. A violência da epidemia aumentou logo. Nos meses de julho, agosto e setembro, a mortalidade foi tamanha, que os cadáveres ficavam insepultos, apesar de serem enterrados às dezenas na mesma cova. A 22 de junho partiu D. Sebastião para Sintra; em julho, para mais se afastar da capital, seguiu para Óbidos; mas antes de partir, entregou a administração de Lisboa a três governadores privativos, um para tudo que dissesse respeito à saúde pública, outro para negócios da justiça e o terceiro para guarda e defesa da cidade. De Óbidos passou o rei a Alcobaça, hospedando-se no mosteiro, onde teve o doentio capricho de mandar abrir as sepulturas dos reis, seus antecessores. De Alcobaça saiu para o convento da Batalha e de lá para Leiria. Aqui, publicou o regimento do Conselho de Estado; e atendendo a várias queixas contra a centralização dos tribunais em Lisboa, nomeou D. Sebastião duas alçadas, uma para as comarcas ao norte do Tejo e outra para as comarcas ao sul do Tejo. Em setembro seguiu para Tomar e em princípios de outubro chegou a Montemor-o-Novo, onde recebeu a boa notícia de estar a peste quase debelada em Lisboa. Em 5 de novembro entrou em Évora, demorando-se até à Páscoa. Em abril de 1570 partiu para Salvaterra. É desta época a sua lei contra o luxo. Em fins de maio embarcou o rei para Lisboa, descendo, já de noite, no mosteiro de Belém, apesar dos festejos que a câmara de Lisboa lhe preparara; e uma semana depois saiu para Sintra, sem entrar na cidade, o que muito desgostou a população.

É deste verão a organização das Companhias das Ordenanças. Às suas primeiras manobras, em outubro, assistiu o rei, e tamanha exaltação lhe causaram as aclamações dos milicianos e as salvas de arcabuzaria que o cardeal D. Henrique e os câmaras resolveram levá-lo para longe. Aconselharam-no a visitar Coimbra. Ao passar pela Batalha, mandou abrir o túmulo de D. João II, cujo cadáver estava ainda incorrupto. Em outubro chegou D. Sebastião a Coimbra, onde se demorou dezasseis dias, de visita à universidade. O facto de não voltar o rei a Lisboa, só para se não encontrar com a avó, desgostou muito a velha senhora, há muito habituada a intervir no governo do reino. Recorreu D. Catarina à autoridade de Filipe II e da princesa D. Joana; e o tio e a mãe escreveram ao jovem monarca, estranhando o desfavor que lhe merecia quem o educara com tanto carinho. D. Sebastião não modificou, porém, a sua atitude; e a velha rainha anunciou então a sua retirada para Espanha. Esta deliberação de D. Catarina causou profunda impressão; e mais aumentou a oposição contra os Câmaras.

Em janeiro de 1571 o embaixador espanhol, D. João de Borja, entregou ao rei uma carta autógrafa de Filipe II, expondo os motivos porque pedira a sua tia e sogra que regressasse ao seu país natal. D. Sebastião reconheceu que era indispensável mudar de procedimento; e veio de Almeirim a Lisboa, tendo uma longa entrevista com a rainha. Queixou-se vivamente D. Catarina do confessor e do irmão, que o traziam afastado de Lisboa; mas não lhe assegurou que continuaria a permanecer em Portugal. Estas notícias produziram verdadeira inquietação; e o senado de Lisboa resolveu também representar ao rei os inconvenientes da retirada da avó para Espanha. D. Sebastião amiudou então as suas visitas a Xabregas, ao palácio onde residia a avó, jantando até às vezes com a rainha. As atenções do neto, após meses de indiferença, causaram na rainha a esperança de que o jovem monarca aceitasse os seus conselhos, casando com a princesa de França e libertando-se do padre Luís Gonçalves da Câmara e do escrivão da puridade. Nas dissensões entre a família real interveio o Papa Pio V, enviando dois breves, em 1-5-1571; o primeiro, dirigido a D. Catarina, exortava a rainha a renunciar ao seu intento; e no segundo, lembrava o Pontífice a D. Sebastião as fatais consequências da retirada da avó e pedia-lhe que ultimasse as negociações para o seu casamento com Margarida de Valois.

D. Pio V, empenhado em formar uma poderosa liga contra os turcos, resolvera enviar aos monarcas católicos dois legados, incumbidos dessa importante missão. Para a Europa Ocidental estava designado o cardeal Alexandrino, Miguel Bonelli, sobrinho do próprio Papa, encarregado também de vencer a resistência de D. Sebastião ao seu enlace com a irmã de Carlos IX de França. Conhecedora destes factos, teve D. Catarina a engenhosa ideia de aproveitar a vinda do legado pontifício, para conseguir a expulsão dos Câmaras. Era, portanto, necessário que o cardeal Alexandrino fosse acompanhado por quem tivesse autoridade para se impor e dominar os seus manejos. Esforçou-se então a rainha junto de Filipe II por conseguir que o legado fosse acompanhado pelo geral da companhia, padre Francisco de Borja.

Chegou o legado a Lisboa em 3-12‑1571. Na primeira audiência apresentou o cardeal a D. Sebastião um breve de S. Pio V pedindo a entrada de Portugal na liga e o seu casamento com a princesa de França. No mesmo dia visitou o mesmo legado a rainha, que lhe entregou um memorial, expondo os motivos que a impeliam a ausentar-se do reino. A resposta do monarca foi, na aparência, inteiramente favorável às propostas do Papa: não só mandaria uma grande armada, mas estava disposto a casar com Margarida de Valois, se Carlos IX também entrasse na liga. O cardeal Alexandrino aconselhou D. Catarina a manter-se no reino até ao casamento do neto: e do mesmo parecer foi o geral da companhia. Prometeram-lhe que mal chegassem a Roma e dessem conhecimento a S. Pio V dos resultados da viagem, o padre Francisco de Borja chamaria àquela cidade o confessor, sob qualquer pretexto que não magoasse D. Sebastião; e depois proibir-lhe-ia o regresso a Portugal. Sendo ele o principal sustentáculo de Martim Gonçalves da Câmara, fácil seria depois substituir este. O Pontífice faleceu, porém, antes da volta do geral a Roma; e este também poucos dias sobreviveu à sua chegada àquela cidade. Assim ruíram por terra todas as esperanças de D. Catarina.

Logo que o cardeal Alexandrino saiu de Lisboa, expediu D. Sebastião ordens urgentes para aprestar a armada que devia entrar na liga. Assim se reuniram no Tejo trinta navios. Mas na noite de 13 de setembro uma violenta tempestade açoutou Lisboa e todos os portos do sul. Durante o dia seguinte o ímpeto do vento aumentou ainda. Quebradas as amarras, atirados uns contra os outros, nem um só dos trinta navios escapou à fúria da tormenta. Muitas outras embarcações carregadas de géneros coloniais, se perderam também completamente.

O matrimónio de D. Sebastião foi o maior cuidado dos seus vassalos, pela falta de herdeiros diretos. Nos últimos meses de 1559 o embaixador de Portugal em França, João Pereira Dantas em nome do cardeal-infante, procurou negociar o futuro consórcio de D. Sebastião com a princesa Margarida de Valois, mais velha do que ele quase ano e meio. Portanto, antes das cortes terem aconselhado o matrimónio de D. Sebastião em França, já o cardeal D. Henrique sondara o governo francês. Quando Filipe II soube das diligências do embaixador português, tratou de as inutilizar. O casamento de D. Sebastião em França podia-lhe cercear a influência que exercia entre nós; e entrou em negociações com os reis da Boémia para o enlace da mais nova das suas filhas, a arquiduquesa Isabel de Áustria, com o jovem rei de Portugal. Maximiliano esquivou-se a dar uma resposta categórica: havia muito tempo para cuidar do assunto.

Em julho de 1563 faleceu o imperador da Alemanha, Fernando I, sucedendo-lhe seu filho Maximiliano II. Não aceitava nem rejeitava o casamento da sua filha com D. Sebastião; mas o seu casamento em França, no ponto de vista dos interesses do Império, era muito superior ao de Portugal. O enlace de D. Sebastião com uma princesa de França era bem visto em Portugal; a própria D. Catarina se não opunha a ele, por causa da relutância de Maximiliano II em casar a filha neste reino. Filipe II interveio então, expondo os males que adviriam a este país e à cristandade, se D. Sebastião não recebesse por mulher a arquiduquesa Isabel de Áustria.

Pela mesma ocasião chegou a Lisboa uma carta do nosso embaixador em Roma, D. Fernando de Meneses, informando que o novo Papa, Pio V, o mandara chamar para lhe dizer que o moço rei não devia casar em França. O assalto dos corsários franceses, comandados por Montluc, à ilha da Madeira, esfriara os defensores do casamento de D. Sebastião com Margarida de Valois. O aumento dos protestantes em França e sobretudo a falta de castigo dos corsários da Madeira, levaram o cardeal-infante a inclinar-se para a arquiduquesa Isabel; mas só em princípios de dezembro de 1567, tomou essa resolução. Era evidentemente de esperar que por todo o ano seguinte, em que D. Sebastião devia assumir o poder, seriam assinadas as capitulações matrimoniais entre os dois primos coirmãos.

Em 1568 deram-se factos que provocaram uma mudança completa do cenário: a prisão em 18 de janeiro e depois a morte em 24 de julho do príncipe D. Carlos; o falecimento da rainha de Espanha, Isabel de Valois, ocorrido em 3 de outubro. O rei católico, que tinha de assegurar a sucessão do reino, resolveu casar com a sobrinha, Ana de Áustria. Para dar satisfação a Carlos IX, que tanto queria unir-se à Casa de Áustria, ficava a arquiduquesa Isabel; e a princesa Margarida desposaria o rei de Portugal. Assim ficou assente em 27-2‑1569, entre os governos da Espanha e da Alemanha; e no dia seguinte comunicaram-no à rainha D. Catarina, que de nada suspeitava. Por conveniências pessoais e políticas, Filipe II desfazia o casamento em que tão vivamente se empenhara até então. É bem incisiva a carta que D. Catarina lhe escreveu. O casamento do neto com Margarida de Valois, apesar de admitido pelo Conselho de Estado, fora abandonado, não só por ele o considerar contrário aos interesses portugueses, como por haver demoradamente insistido no seu consórcio com Isabel de Áustria. E agora era exatamente em França que ele resolvera casar o sobrinho, sem consultar ninguém, D. Sebastião não fora tratado como soberano de um país independente.

Deu-se depois o rompimento de D. Sebastião com a avó. Longe da sua influência, no jovem monarca foi-se fortalecendo o ressentimento contra o proceder do tio, tanto mais que esse estado de espírito concordava com o seu íntimo desejo de não casar; e não mandou a procuração necessária para assinar as capitulações matrimoniais; nem a mandaria, enquanto a França lhe não desse a satisfação devida.

Interveio então o Papa, que procurava organizar uma liga contra os turcos, cujos progressos eram assustadores; e mandou a Portugal o cardeal Alexandrino, como já ficou relatado. Mas quando o legado pontifício chegou a Blois, onde então se encontrava a corte francesa, pelas delongas da resolução do rei de Portugal, já estava assente o matrimónio de Margarida de Valois com o príncipe Henrique de Bourbon, filho da rainha de Navarra.

A rainha D. Catarina não podia convencer-se de que a aversão do neto pelas mulheres, essa repugnância mórbida, que o levava até a afastar delas os olhos — todos os embaixadores espanhóis se referem às manifestações misóginas do rei — resultassem da sua incapacidade para o matrimónio, conforme lhe diziam pessoas íntimas; e resolveu insistir com ele, mostrando-lhe a necessidade de pensar em noiva que lhe conviesse. Na lista das princesas casadoiras estava, em primeiro lugar, a princesa Maximiliana, filha do duque da Baviera. Apressou-se o duque a responder a Filipe II que da melhor vontade concederia a mão de sua filha ao jovem rei de Portugal; e assim o comunicou o rei católico ao seu embaixador, D. João de Borja, em agosto de 1573. Mais de dois meses decorreram sem que o soberano português voltasse a referir-se ao seu casamento na Baviera. Nos fins de outubro, em carta a D. João de Borja, pedia Filipe II uma resposta, para a transmitir ao duque. Respondeu D. Sebastião que resolvera enviar a Madrid o seu estribeiro-mor, D. Francisco de Portugal, com instruções sobre o assunto. Mas só partiu em maio de 1574, com uma série de objeções e dúvidas, destinadas a preparar a retirada do amo. Em vez do casamento com a princesa Maximiliana, melhor seria esperar quatro ou cinco anos e casar com sua prima, a infanta Isabel Clara Eugénia. Por este casamento se interessava vivamente a rainha D. Catarina; mas Filipe II respondeu que, por muito desejar que o sobrinho tivesse sucessão, aconselhava com toda a instância o seu casamento na Baviera; mas sem nenhum resultado. Nas negociações relativas ao consórcio do rei de Portugal com a filha primogénita de Filipe II, manifesta-se a relutância do rei católico aos pedidos de D. Catarina e, posteriormente, aos do próprio sobrinho; mas essa resistência não pode imputar-se ao íntimo desejo de manter D. Sebastião solteiro. Incontestavelmente, lhe procurou noivas. O jovem rei é que as rejeitava com variados pretextos. Se pediu a mão de sua filha a Filipe II fê-lo apenas por ser essa a maneira mais eficaz de contar com o seu auxílio para a jornada de África.

Em outubro de 1572 partiu D. Sebastião para Évora, onde se demorou até ao fim do ano. Em 2-1‑1573 saiu o rei para várias terras do Alentejo e do Algarve. Esteve em Beja, onde correu touros; em Ourique, de visita ao campo que a tradição consagra como o local do combate de D. Afonso Henriques com cinco chefes mouros; em Lagos, cujos moradores celebraram o dia do seu aniversário natalício com uma festa tauromáquica, que D. Sebastião agradeceu elevando a vila à categoria de cidade; e depois por Castro Marim, Mértola, Serpa até Vila Viçosa, para caçar na tapada dos duques de Bragança. Em meados de fevereiro recolheu a Évora. Aqui se demorou um mês, indo na semana da Páscoa a Lisboa; mas, em fins de abril, estava de novo na capital do Alentejo, gastando o tempo em touradas e torneios. Nos últimos dias de julho voltou ao Algarve; e pousava em Lagos, cuja enseada o seduzia, quando recebeu a notícia da morte da mãe, com trinta e oito anos apenas. Decorridos os cinco dias de nojo, partiu D. Sebastião para Lisboa.

As visitas ao Algarve, pela proximidade da costa marroquina, tinham exacerbado, no jovem rei, a sua antiga aspiração de ir combater pessoalmente os mouros. Pediu D. Sebastião ao Papa S. Pio V autorização para reformar os estatutos das três Ordens Militares de Cristo, Sant’Iago, Avis. Acedeu o Pontífice; e em 6-2‑1572 promulgou D. Sebastião os novos estatutos, com modificações claramente denunciadoras das belicosas intenções que o haviam movido.

Em todas as ações do rei se revela agora o propósito de ativar a guerra contra o xerife. Começou D. Sebastião a preparar ocultamente a sua ida a África. Incumbiu o governo do Algarve — cargo que até então não existia — a D. Diogo de Sousa, com ordem de aparelhar meios de transporte para a expedição; e nomeou governador de Tânger seu primo D. António, que pouco antes conseguira do Papa Gregório XIII a almejada dispensa das ordens de diácono, trocando o hábito clerical pelo da Ordem de S. João de Jerusalém, a que ele pertencia como prior do Crato.

Depois da partida de D. António, mais se aferrou o monarca à ideia de guerrear pessoalmente o xerife. O confessor sabia-o, mas não conseguiu dissuadi-lo. A sua influência já não era a mesma, desde que a vontade obstinada do confessado começara a manifestar-se morbidamente. A 15 de agosto, estando D. Sebastião em Sintra, mandou que três galés devidamente equipadas o fossem aguardar a Cascais; e no dia 17 aqui embarcou com o seu séquito. Dirigiu-se a Lagos em cuja baía estava fundeada a esquadra do Estreito, e dali, a 20, escreveu à avó, ao cardeal-infante e ao secretário de Estado, Miguel de Moura, participando-lhes que resolvera passar à costa africana e incumbindo a regência ao tio. Enviou também algumas centenas de cartas — que já trazia escritas de Sintra — às diferentes cidades e vilas do reino, mandando-as concorrer com toda a gente e cavalos disponíveis para a campanha que projetava.

Esta desordenada e estranha forma de convocar gente bisonha, sem a mínima preparação militar, para uma empresa tão árdua, é a prova incontestável da ausência total de qualquer plano. Muitos fidalgos partiram logo para a África. Isto trazia em sobressalto a população de Lisboa; e o desassossego aumentou quando correu a notícia de que D. Sebastião mandara seguir para Tânger os músicos da capela real e o pessoal da corte, indispensável para as grandes cerimónias públicas. Em Ceuta não pôde D. Sebastião combater, porque os mouros nunca apareceram. Partiu então para Tânger. O seu primeiro ato foi depor o primo do governo da cidade, por não ter corrido a combate, sempre que ao longe assomavam forças inimigas. Os dias iam passando. A conquista de Larache seria possível; as forças, porém, eram poucas para guarnecer e fortificar a praça. A de Arzila, quase impossível, porque no inverno, que vinha próximo, a barra tornava-se muito perigosa. As murmurações generalizaram-se. Vários prelados o aconselharam a voltar ao reino; mas estas exortações não lhe abalaram o ânimo. A avó mandou-lhe então dizer que, se não voltasse em breve, iria ela mesma a Tânger, para o levar consigo, ou para acabar a vida, onde o rei a trazia constantemente em risco. Esta ameaça da velha rainha impressionou-o, pelo escândalo que a sua chegada produziria no reino e no estrangeiro. Foram, porém, a iminência do inverno e o reconhecimento de que as forças inimigas eram muito superiores às suas, que o obrigaram a desistir, temporariamente, dos seus projetos de conquista.

No dia 25 de outubro embarcou no galeão S. Sebastião; mas, pelo temporal que se levantou, só em 2 de novembro desembarcou em Sagres. Em vez de seguir logo por terra para sossegar a avó e o tio, que tinham vivido horas de angústia, esteve nove ou dez dias no mosteiro do cabo de S. Vicente, embarcando depois numa galé da esquadra do Algarve, que o levou a Lisboa.

Em 1574 começou o rei a mostrar que nem os conselhos, nem a companhia do cardeal-infante lhe eram necessários. Em 15-3‑1575 morreu o padre Luís Gonçalves da Câmara; D. Sebastião sentiu essa morte profundamente. Uma conspiração se urdiu então na corte, para derrubar o irmão do padre Câmara, o omnipotente valido. O chefe era D. Álvaro de Castro, vedor da Fazenda e membro do Conselho de Estado. Ligou-se a Cristóvão de Távora, filho de Lourenço Pires de Távora, mancebo que aliava a uma louca temeridade, tanto do agrado do rei, o respeito servil de cortesão. Dois outros fidalgos, Luís da Silva e Manuel Quaresma Barreto, que tinham sabido ganhar o favor do rei, se uniram também a D. Álvaro de Castro. Este chamou ainda ao conluio o velho servidor da coroa, Pedro de Alcáçova Carneiro, pela sua longa experiência dos negócios públicos. A causa próxima da queda do omnipotente ministro foi um ato de despotismo. D. Maria de Noronha, viúva de seu irmão Nuno Gonçalves da Câmara, desposara, em segundas núpcias, um homem de condição inferior à sua. Considerando este casamento como uma desonra, resolveu castigar a pobre senhora, mandando-a encerrar numa das prisões da Torre de Belém; e quis também expô-la à vergonha de atravessar as ruas da cidade, entre esbirros, sobre uma mula, com as mãos manietadas. Ao passar em frente da igreja de Santo António, D. Maria de Noronha atirou-se ao chão, na intenção de fugir para o templo; mas caiu tão descomposta, que foi alvo da chacota da garotada. A família de D. Maria de Noronha queixou-se ao rei; a rainha, que muitas vezes fora agravada pelo valido, protestou também contra a inqualificável injúria feita a uma dama nobre. Logo que o escrivão da puridade se apresentou a despacho, D. Sebastião voltou-lhe as costas. O ascendente do irmão do seu antigo confessor e mestre tinha findado; e mandou-lhe depois perguntar, por um dos seus pajens, com que autoridade ordenara ele a prisão da sua ex-cunhada. Martim Gonçalves da Câmara não respondeu e saiu do paço para nunca mais lá voltar. Deu-se este facto nos últimos dias de maio ou nos primeiros dias de junho; e D. Sebastião nomeou vedores da Fazenda a Manuel Quaresma Barreto, D. Francisco de Portugal e Pedro de Alcáçova Carneiro, que em breve saiu para Madrid numa importante missão diplomática.

Em 28-11‑1576 faleceu em Évora D. Duarte, filho do infante     D. Duarte e 5.° duque de Guimarães, aos trinta e cinco anos de idade, na força da vida. Era ele o herdeiro presuntivo da coroa; e talvez por isto mesmo, não era tratado pelo rei com a consideração que as suas qualidades pediam. A sua morte abria a porta às ambições de Filipe II.

A ideia de voltar a África tornara-se para o monarca uma verdadeira obsessão; todos os seus atos tendiam a esse fim. As lutas que sobrevieram então entre os mouros mais lhe exacerbaram o forte desejo de partir.

O grande movimento religioso e político, que começara por volta de 1510, alastrando como uma onda enorme, estabelecera solidamente em todo Marrocos a primeira dinastia dos xerifes, a dinastia dos Sádidas; mas as rivalidades, as ambições dos príncipes, ensanguentaram logo a Berberia. Quando Mulei Abdalá subiu ao trono, em 1557, os seus três irmãos, com receio de uma traição, refugiaram-se em Argel. O mais velho foi, anos depois, assassinado por uns sicários. O mais novo, Mulei Amede voltou para Marrocos; e talvez pela sua pouca idade, conseguiu escapar. O outro, Mulei Abde Almélique (o Mulei Maluco dos nossos cronistas), entrou ao serviço do sultão da Turquia. Os ócios dos combates aproveitou-os ele para se instruir. Em janeiro de 1574 morreu Abdalá, sucedendo-lhe seu filho Mulei Moâmede (o Mulei Mahamed dos cronistas), nascido de uma escrava negra, a quem o pai, transgredindo a ordem de sucessão, instituída pelo fundador da dinastia, designara como seu herdeiro. A ascendência materna do novo xerife tornava-o mal aceito. Abde Almélique, a quem pertencia legitimamente o trono, pediu ao sultão Amurate III lhe desse auxílio contra o sobrinho; e o sultão turco deu instruções ao vice-rei de Argel para ajudar Abde Almélique com todas as suas forças. Em princípios de 1575 o pretendente passou a fronteira marroquina, à frente de alguns milhares de janízaros e cavaleiros argelinos. Mulei Moâmede saiu-lhe ao encontro; mas foi completamente derrotado. Em março entrou Abde Almélique em Fez, retirando-se o sobrinho para a cidade de Marrocos, na intenção de continuar a luta.

Tal era a situação política da Berberia quando D. Sebastião nomeou novos ministros. A Pedro de Alcáçova Carneiro, confiou o rei a missão de apresentar a Filipe II estes pedidos seus: uma entrevista dos dois monarcas e o auxílio do tio para a conquista de Larache; e outro da rainha D. Catarina; o casamento do neto com a infanta Isabel Clara Eugénia. Em fins de junho de 1576 partiu Alcáçova para Madrid. D. Sebastião considerava perigosíssima a vitória de Abde Almélique, pois dava por assente que ele entregaria ao sultão os portos da Berberia, mais próximos da Península, donde os turcos nos viriam causar os maiores danos. Uma conferência entre os dois monarcas seria o melhor meio de tratar deste assunto.

Como D. Sebastião prometera uma romaria a Nossa Senhora de Guadalupe — célebre santuário na província da Estremadura espanhola — ali poderiam encontrar-se o tio e o sobrinho, sem necessidade de quaisquer cerimónias oficiais. Anuiu Filipe II a este desejo de D. Sebastião; mas não foi tão categórico quanto ao auxílio militar pedido. Quando o rei de Portugal chegou a Guadalupe, já ali o aguardava Filipe II; e durante os dez dias que estiveram juntos, não podiam ser mais delicadas as atenções que dedicou ao sobrinho.

Dois pedidos lhe fez o soberano português: a mão de sua filha primogénita e um corpo de exército para a expedição a África. Ao primeiro, respondeu favoravelmente o rei católico; mas o anúncio do casamento só se faria, quando a infanta atingisse os anos necessários para que ele pudesse celebrar-se. Quanto ao pedido de auxílio, prometeu-lhe, caso os turcos não ameaçassem os seus domínios na Itália, concorrer para a expedição com cinquenta galés e cinco mil homens. As condições, que D. Sebastião aceitou alegremente porque tudo que dizia respeito à guerra de África lhe parecia simples e fácil, dir-se-iam concertadas para o não cumprimento da promessa: a expedição efetuar-se-ia até agosto seguinte, isto é, dentro do curto prazo de oito meses.

O dinheiro indispensável para a organização da empresa não podia ir buscar-se às receitas ordinárias; havia que lançar mão de expedientes. O mais simples era solicitar do Pontífice a concessão de uma bula da cruzada. O rei pediu ainda ao Papa que os prazos eclesiásticos vitalícios pudessem ser reduzidos a fateusins perpétuos, pagando os enfiteutas uma certa quantia ao Estado regulada pelo valor do prazo. Alguns dos meios empregados eram violentos outros odiosos; mas a nobreza e o povo tudo pagaram, sem reclamações.

Mandou D. Sebastião inventariar todos os bens de raiz, lançando o tributo de um por cento sobre a avaliação do fisco. Levantou-se o dinheiro depositado no Cofre dos Órfãos, Defuntos e Ausentes, com a promessa de ser restituído, à volta da expedição. Venderam-se novos padrões de juro. Aos arrematantes das rendas da coroa foram oferecidas valiosas reduções, se pagassem adiantadamente. Fez-se uma transação sobre a prata existente na Casa da Moeda, que rendeu cento e trinta mil cruzados. Aos prelados e titulares, assim como aos negociantes mais abastados, pediu D. Sebastião um tributo voluntário; idêntico pedido receberam as cidades mais importantes. Coletou os mercadores de grosso trato; e por alvará de 6-12‑1576 e apostila de 10-7‑1577, decretou o estanco do sal. A maior soma que o soberano obteve foi-lhe oferecida pelos cristãos-novos, um subsídio de duzentos mil cruzados, se D. Sebastião conseguisse a promulgação de um breve, suspendendo, durante dez anos, a pena de confisco dos bens, quando presos pelo Santo Ofício; e D. Sebastião implorou de Gregório XIII o prometido breve, que foi publicado em Lisboa no dia 31-12‑1577.

Na organização das forças expedicionárias não mostrou D. Sebastião tanta atividade. O seu verdadeiro fim não era reaver as antigas praças portuguesas; era voltar a África, para combater pessoalmente os mouros. Se a expedição fosse comandada por outro, mais valia não ir.

Em 1577 deu-se um facto que merece registo especial. O alcaide Cid Abde Alquerime, senhor de Alcácer-Quibir, Larache e Arzila, escreveu a D. Duarte de Meneses, governador de Tânger, prometendo-lhe entregar Arzila, se lá aparecesse com a sua gente, num dia marcado, pois preferia ceder a praça aos portugueses, que vê-la conquistada por Abde Almélique. Assim sucedeu.

No começo de dezembro de 1577 o xerife destronado, Mulei Moâmede, não se julgando seguro em nenhum lugar do seu antigo império, chegou a uma aldeia próxima da fortaleza de Pinhão de Beles, pedindo a proteção das armas espanholas. Acompanhava-o seu filho, Mulei Xeque, alguns alcaides e seiscentos homens de armas e criados, cerca de mil pessoas; e daí, por um fidalgo português, seu cativo, D. António da Cunha, mandou pedir a D. Sebastião o quisesse auxiliar na guerra contra o tio, metendo-o na posse da Berberia.

Nem Mulei Moâmede, nem seu pai, tinham prestado a Portugal qualquer serviço que fizesse jus à nossa gratidão. O memorável cerco de Mazagão fora posto por ele; mas a D. Sebastião causou o pedido um vivo prazer, por lhe servir de argumento a favor da sua expedição. Cumprindo instruções, o marquês de Vila Real, capitão de Ceuta, enviou duas caravelas ao Pinhão de Beles para trazer Mulei Moâmede; o filho e a gente de guerra vieram a pé.

De Ceuta significou o xerife a D. Sebastião que, para o restabelecer no trono, bastariam quatro mil soldados sob a direção de um general habituado à guerra de África. Mas ao monarca português só interessava a expedição se fosse comandada por ele. Como já o participara a Filipe II e ao Papa, tinha agora D. Sebastião empenho em anunciar publicamente o seu propósito de passar à África; mas precisava de o comunicar primeiro à rainha D. Catarina ao cardeal-infante. Escreveu-lhe este uma sentida carta, acentuando os perigos a que se expunha, principalmente não tendo filhos, e a miséria em que essa expedição lançaria o reino. A carta não produziu efeito algum. Os validos de D. Sebastião, como privados de um monarca absoluto, não tinham sobre ele influência alguma; eles é que tinham, para não perder o valimento, de se dobrar a todos os seus caprichos, de enaltecer todas as suas imprudências.

Na junta que em 24 de fevereiro se realizou no Paço de Santos, a que assistiram os condes de Portalegre, de Odemira, do Redondo, de Tentúgal e da Vidigueira, o arcebispo de Lisboa, os bispos do Algarve, de Coimbra e Elvas, o regedor da Justiça, os vedores da Fazenda e os membros do Conselho de Estado, fez-lhe D. Sebastião uma longa prática, defendendo a sua ida à África, com o fim de restituir o trono ao xerife; e no intuito de prevenir qualquer discussão, terminou proclamando que os havia convocado, não para os ouvir, senão para que o ouvissem.

Afora um bando de moços, que o lisonjeavam, todos eram contrários à expedição, mas ninguém se atrevia a contradizê-lo. Filipe II fez várias tentativas para dissuadir o sobrinho do comando da expedição; mas tudo foi inútil. O exército sebástico compunha-se de um contingente fornecido pelo príncipe de Orange, composto de alemães, holandeses e valões, no total de dois mil e oitocentos homens, comandados por Martim de Borgonha, senhor de Tamberg; de um contingente espanhol, mil e seiscentos soldados, sob a chefia de D. Alonso de Aguilar, como coronel, e D. Luís Hernández de Córdova e D. Luís de Godoy, como sargentos-mores. Uma circunstância fortuita proporcionou a D. Sebastião seiscentos soldados italianos, que Gregório XIII enviava à Irlanda, sob o comando de Tomás Stukeley. As tropas portuguesas eram constituídas pelo esquadrão dos aventureiros, mil e quatrocentos homens que combatiam a pé, armados de piques; oito mil homens, comandados por quatro coronéis, Diogo Lopes de Sequeira, D. Miguel de Noronha, Vasco da Silveira e Francisco de Távora para comandar os quatro terços, recrutados nas diferentes províncias do reino. Cavaleiros eram seiscentos, comandados pelo rei, trezentos comandados pelo duque de Aveiro, D. Jorge, e quatrocentos cavaleiros de Tânger, no total de mil e trezentos homens. Havia ainda um pequeno troço de mouros, sob a chefia do xerife deposto. Entre os aventureiros havia antigos combatentes da África e da Índia; os oito mil soldados dos terços eram todos bisonhos, sem a mínima preparação militar.

Em 5 de junho ordenou o rei a D. Diogo de Sousa que nessa noite fosse dormir a bordo do navio almirante, o galeão S. Mateus. E na realidade, a 8, por toda a cidade foi lançado o pregão que se aviassem, pois o monarca embarcaria a 14, em seguida à bênção do estandarte real, na Sé. Neste dia, por volta das sete horas, saiu D. Sebastião do palácio da Ribeira. À frente do cortejo ia o alferes-mor, D. Luís de Meneses, com a bandeira enrolada. Após o rei, seguiam algumas centenas de fidalgos, em três filas. Depois da missa, celebrada pelo arcebispo, foi benzido o estandarte, que D. Sebastião recebeu de joelhos, entregando-o de novo ao alferes-mor. Parou o cortejo no Cais da Rainha, embarcando o monarca na galé real. A não ser para ouvir duas vezes missa, na igreja de Santos-o-Velho, nunca mais o rei voltou a terra, durante uns dez dias que a armada se demorou ainda no Tejo. A 16 embarcou o terço da Estremadura. Nos dias imediatos entraram a bordo dos navios que lhes estavam destinados o terço de Lisboa, o esquadrão dos aventureiros e os fidalgos com a sua criadagem. O duque de Bragança adoeceu tão gravemente, que se fez substituir pelo filho primogénito, D. Teodósio, duque de Barcelos, uma criança de dez anos, confiada à guarda de seu tio, D. Jaime.

Foi, porém, a persistência do mau tempo, com ventos contrários, que forçou D. Sebastião a uma inesperada demora; mas o seu empenho de partir era tamanho, que até ao dia da partida dormiu sempre vestido. Em 22 e 23 mandou o rei deitar bando, ordenando que todos tomassem os seus lugares, pois a armada largaria em 24; e no dia de S. João, entre salvas de artilharia e o estridor das trombetas bastardas, a galé real, descendo o rio, foi lançar âncoras em Oeiras, onde embarcaram os italianos e os tudescos. Na tarde de 25 partia D. Sebastião com rumo a África.

A armada, ao sair de Lisboa, não ascenderia talvez a quinhentas velas. No Tejo ficaram ainda os navios do prior do Crato, do duque de Aveiro e a frota do duque de Bragança, à espera do jovem duque de Barcelos, mandado chamar a Vila Viçosa. O galeão S. Martinho, artilhado com setenta peças, aguardava em Cascais esses navios, para os comboiar até Cádis. A 27 de junho fundeou D. Sebastião em Lagos, onde já o aguardavam alguns navios com soldados alentejanos, embarcados em Setúbal. Mas seguiu logo para Cádis, onde lançou ferro a 28. O duque de Medina Sidónia ofereceu-lhe uma festa, uma corrida de touros e um jogo de canas al uso de Xerez. Nestes dias, chegaram os últimos navios com os soldados do Algarve. Faltava ainda a carriagem; mas o tempo urgia; e ao amanhecer de 7, partiu a armada.

A demora em Cádis deu ensejo a que os fidalgos e aventureiros saltassem em terra. À cidade tinham acudido muitas damas galantes de Sevilha, atraídas pelas notícias das festas e fama da riqueza dos forasteiros; e como a disciplina era frouxa, bastantes se introduziram na armada. Chegou D. Sebastião a Tânger, cerca da meia-noite. Mandou-o Mulei Moâmede cumprimentar pelo filho; e logo de manhã o visitou ele próprio, com os poucos alcaides que lhe tinham ficado fiéis, entre os quais Cide Abde Alquerime, antigo senhor de Arzila. Veio depois D. Sebastião para a cidade, hospedando-se nas casas do governador. À tarde, pagou a visita ao xerife o recebeu a cavalo à porta da sua tenda. Dois dias depois mandou D. Sebastião prevenir D. Diogo de Sousa da sua próxima partida para Arzila. O rei seguiu na sua galé; na capitânia ia o xerife; e por terra foram Mulei Xeque, com todos os seus, assim como a gente disponível de Tânger, talvez seiscentos homens, cavaleiros e arcabuzeiros.

No dia seguinte, mal deu fundo em Arzila, desembarcou D. Sebastião para ver o campo e a vila, que não conhecia. Os navios de alto bordo, lutando com ventos contrários, só apareceram a 14. Ainda não chegara a Arzila a carriagem, encomendada no Algarve. A conquista de Larache deveria ser feita por mar; mas essa conquista era apenas um disfarce de D. Sebastião, para evitar objeções. O seu íntimo desígnio fora sempre caminhar por terra, no empenho de se defrontar com o xerife vencedor.

O desembarque do exército começou em 14, terminando em 16. Como a praça não podia acomodar tanta gente, aquartelaram-se junto das muralhas, formando um vistoso arraial de quase duas mil tendas.

Decidira o rei marchar por terra até Alcácer Quibir; e daí, obliquando para noroeste, atingir a Larache. No caminho, encontrar-se-ia com Mulei Abde Almélique, objetivo oculto, mas primário da sua vinda a África. A sua resolução estava assente. Quis, porém, ouvir os soldados mais práticos na guerra de África; e a 20 ou 21 convidou para a sua tenda esse conselho de oficiais. O discurso de D. Sebastião, pode resumir-se no seguinte: ganhar Larache por terra seria tão vantajoso quanto inconveniente acometê-la por mar. Os alcaides, cuja adesão se aguardava, decerto se animariam tendo junto de si o seu rei, com o auxílio que desejavam. Havia também a vantagem de tomar Alcácer Quibir. Mal fortificada, a sua conquista seria fácil, aos primeiros tiros; e à sua queda seguir-se-ia a de Larache. Pelo contrário, a ida por mar mostraria que o seu empenho era apenas conquistar uma pequena praça da Berberia; e os mouros perderiam a vontade de aderir a Mulei Moâmede, vendo que o rei de Portugal atendia mais ao seu interesse do que à prometida restauração do xerife. Não pediu o rei ao conselho de oficiais o seu parecer quanto aos inconvenientes ou vantagens de seguir este ou aquele caminho: limitou-se a dizer-lhes que desejava ouvi-los sobre o melhor meio de vencer as dificuldades da jornada por terra.

Os monarcas absolutos tiveram sempre cortesãos prontos a lisonjear as suas paixões, a aplaudir todos os seus atos. Por isso a maioria dos presentes se apressou a concordar com o plano de D. Sebastião. Mas Vasco da Silveira, coronel do terço do Alentejo, curando menos de agradar ao rei do que a expor com lealdade a sua opinião, mostrou os perigos da marcha por terra. A fama do exército português era realmente grande, pelo número de velas que o conduzira. Se o vissem porém, caminhando pelo sertão, reduzido como era, com tão escasso número de cavaleiros, mal provido e ordenado, perderia a reputação e com ela o respeito que devia incutir aos seus inimigos. Com a ida por mar não se fatigaria o exército, nem algumas horas de viagem poderiam deprimi-lo com o enjoo. Para conquistar Larache bastaria desembarcar parte das forças, pois a praça estava quase abandonada, por serem insuficientes os seus meios de resistência. Também não era de supor que o xerife, habituado a tanta peleja e sempre vitorioso, se arreceasse de nos dar combate, pois se jogava a sua sorte. Também não era de esperar a adesão dos alcaides que o haviam auxiliado a conquistar o reino e continuavam a tê-lo no maior apreço, tanto pelo seu valor, como pela liberalidade das suas recompensas. Já o xerife deposto, avaro, ambicioso, várias vezes vencido, não gozava de simpatia, nem de afeições. Levar o exército por terra, era um perigo e uma imprudência.

Usou então da palavra Cristóvão de Távora, o valido predileto de D. Sebastião. As considerações do coronel Vasco da Silveira, no ponto de vista puramente militar, estavam certas. Mas aos reis chegam muitas vezes notícias secretas, que os obrigam a tomar resoluções que podem parecer infundadas e perigosas a quem as não conheça. Se sua alteza deliberou fazer a jornada por terra, é porque tem a certeza de não encontrar resistência no caminho. Ninguém ignorava a intimidade de D. Sebastião com o valido: Cristóvão de Távora devia, portanto, estar na posse dessas razões secretas; e a maioria dos oficiais aplaudiu o seu voto.

Como depois o provaram cruelmente os factos, o rei não tinha informação nenhuma de que a doença ou o receio de ser abandonado por muitos dos seus alcaides levassem Abde Almélique a desistir do combate.

A 23 ocorreu um facto que veio demonstrar que a gente de Abde Almélique não estava inativa. Na manhã desse dia foram dois azenegues do bispo de Coimbra segar erva, quase a uma légua de Arzila. Surgiram de repente vários homens de cavalo, que os aprisionaram. Com cento e cinquenta dos seus acudiu o xerife deposto, que tinha a sua tenda no lugar mais alto do acampamento. À tenda do rei levaram a notícia de que os inimigos passavam de dois mil. Podia o rei ordenar que avançasse um troço da sua cavalaria; mas o seu empenho era entrar pessoalmente em combate. Por isso, avançou em galope desfechado; mas os mouros, cujo fim era apenas inquietar o exército cristão, já se haviam retirado. Três léguas e meia galopou o rei, cada vez mais distanciado do grosso dos seus companheiros. Só três fidalgos o acompanharam sempre: Cristóvão de Távora, Luís da Silva e Fernando de Mascarenhas. Os cavalos estavam tão cansados, que foi necessário voltar a passo; se os inimigos tivessem preparado uma emboscada, ser-lhes ia fácil matar ou aprisionar D. Sebastião.

A temeridade do rei causou grandes apreensões no exército. Até os seus privados começavam a reconhecer os perigos a que o expunha tão excessiva confiança. Alguns fidalgos chegaram até a reunir-se para lhe suplicar que não marchasse por terra. Mas o supersticioso respeito pela vontade do rei venceu o próprio instinto da conservação.

A correspondência do embaixador espanhol com Filipe II amiúda-se agora. Só no dia 25 de julho lhe escreveu duas cartas, ambas muito interessantes pelas notícias que davam. Na primeira, tratava D. João da Silva da situação do exército. Haviam chegado os carros, ansiosamente esperados, por sinal muito maus. Faltavam vitualhas e dinheiro. A segunda carta dava uma informação preciosa. Na véspera chegara a Arzila um judeu de Tetuão, com a nova de que Abde Almélique estava em Salé, à frente de um exército de sessenta mil homens. Parece que vinha incumbido de propor a paz, oferecendo Tetuão, Larache e o cabo de Guer, antes do rompimento das hostilidades. Mas D. Sebastião não permitiu negociações.

Da existência do agente de Abde Almélique não é possível duvidar. Em carta de 26, endereçada a Filipe II, narra D. João da Silva a conversa que tivera com D. Sebastião. Mostrou-lhe o embaixador a conveniência de um bom acordo com o xerife, caso este pacificamente lhe desse o que ele pretendia ganhar pela força, sobretudo se as propostas do judeu eram verdadeiras. No me lo pudo negar; pero dice que desde Alcázar se entenderá mejor el camino que se debe llevar. O rei não podia confessar abertamente que viera à África só para se bater com Abde Almélique.

Mais uma vez mandava o xerife propor acordos ao rei de Portugal. Era do seu dever defender-se contra quem vinha desafiá-lo à sua própria casa; mas a guerra tem surpresas. O seu estado de saúde era também muito precário; e isso bastaria para justificar o natural desejo de gozar o reino, obtido à custa de tantos esforços. Abde Almélique, pelos espiões que tinha em Cádis, sabia a composição do exército sebástico. Ordenou a seu irmão Mulei Amede que reunisse os soldados de Fez, para poderem acudir a qualquer ponto onde se efetuasse o desembarque. Assim se formou um corpo de oito mil cavaleiros e três mil atiradores, que se aquartelaram em Alcácer Quibir. Para Larache mandou Moâmede Zarco, com oito mil cavaleiros andaluzes e outros tantos azuagos. No caso de preferirem os portugueses entrar por Mazagão, destacou para aquelas terras seu sobrinho, Mulei Daúde, com seis mil homens de pé e de cavalo; e na hipótese de escolherem Santa Cruz do Cabo de Guer, incumbiu a defesa dessa região ao alcaide granadino, Dogali, com mil arcabuzeiros andaluzes e três mil cavaleiros de Suz.

Saiu Abde Almélique de Marrocos, deixando como governador da cidade o alcaide Reduão, um renegado português, inteligente e corajoso, que trouxera de Argel, homem da sua plena confiança. Mandou então proclamar a guerra santa contra os cristãos; e, acompanhado por toda a gente de guerra que pôde levantar, marchou em direção à província de Temecena. Abde Almélique começou a sentir-se muito doente; mas apesar disso, continuou a jornada para Salé. Naquela cidade soube o xerife do desembarque de D. Sebastião em Arzila. Imediatamente, mandou recolher de Larache as forças de Moâmede Zarco e do cabo de Guer o alcaide Dogali. Quanto a Mulei Daúde, deixou-o ficar nas proximidades de Mazagão, por constar que iria para aquela praça o filho do seu rival. Depois passou a vau o rio Cebu; e a 24 de julho estava a duas léguas de Alcácer Quibir. Acompanhavam-no, então, catorze mil homens de cavalo e dois mil e quinhentos arcabuzeiros, na maior parte andaluzes e renegados. Esperava-o, naquele ponto, seu irmão Mulei Amede com todas as forças que reunira.

O acampamento estabeleceu-se a cinco ou seis quilómetros ao sul de Alcácer. O exército compreendia então vinte e dois mil cavaleiros e cinco mil e quinhentos atiradores. Tinha vinte e seis peças, servidas por bons artilheiros. Os víveres eram abundantes e os soldados estavam pagos em dia. Estas forças aumentaram ainda com a chegada de contingentes voluntários, vindos de diferentes tribos, ao apelo da guerra santa.

Em 26 de julho chegara a Arzila um renegado francês, que há anos vivia em Marrocos. Estivera ainda na véspera no acampamento de Abde Almélique e podia, portanto, informar que eram muito consideráveis as forças de que dispunha o xerife. Estas notícias, rapidamente espalhadas, causaram grande terror no exército, pois todos sabiam que o rei não mudaria de resolução, nem de caminho. D. Sebastião mandou chamar o embaixador espanhol para o convencer de que as informações eram falsas e o renegado francês um espião de Abde Almélique. Pediu-lhe D. João da Silva que, antes de sair de Arzila, ponderasse maduramente. Só o facto de haver o xerife abandonado a sua capital, provava que ele tinha absoluta confiança nos seus alcaides. Contestou-lhe D. Sebastião que no dia imediato partiria, pois as forças de que dispunha Abde Almélique não eram suficientes para lhe dar batalha, nem para lhe barrar o caminho. As suas palavras eram bem claras: fossem quais fossem os perigos, o rei não desistiria de avançar. A obsessão mórbida do rei desprezava todos os conselhos.

No dia 27 chegou a Arzila Fr. Roque do Espírito Santo, comissário da Ordem da Trindade, e Diogo da Palma, mercador rico, que o auxiliava no resgaste dos cativos cristãos. Fr. Roque era irmão do corregedor da corte, Diogo da Fonseca, em cuja tenda ambos se hospedaram. Acolheu-os o rei com alvoroço; mal tinham porém começado a dizer que o exército de Abde Almélique era formidável e rigorosa a sua disciplina, despediu-os com palavras duríssimas e mandou ordem ao corregedor que prendesse Diogo da Palma e o encarcerasse na alcáçova. Diogo da Fonseca expôs ao rei o péssimo efeito que esse ato produziria no exército; e D. Sebastião consentiu em ouvi-los segunda vez. Esta conferência durou horas, mas no fim o rei anunciou que dali a três dias se havia de ver com o Maluco.

A partida do exército foi definitivamente marcada para o dia 29. A boiada que acompanhara a carriagem estava muito debilitada pelas privações que sofrera na viagem do Algarve a Arzila. Precisava de longo descanso; mas D. Sebastião ardia na impaciência de se encontrar com Abde Almélique.

O exército saiu de Arzila às primeiras horas do dia 29 de julho.

À frente ia D. Duarte de Meneses, governador de Tânger, que D. Sebastião nomeara mestre-de-campo-general. A seguir, a artilharia. Depois a infantaria, formada em duas colunas, cada uma dividida em três esquadrões: vanguarda, corpo de batalha e retaguarda. Os terços, tanto os portugueses como os estranhos, deviam alternar-se diariamente nos diferentes lugares das colunas. Aos lados, a cavalaria: o rei, com o maior troço, à direita; à esquerda, o duque de Aveiro e Mulei Moâmede. No centro, quase todos a cavalo, os eclesiásticos e a gente de justiça. No couce, além da bagagem, transportada em centenas de carros, 3 000 gastadores, mais de 1 000 boieiros e carreteiros, centenas de pajens, criados e lacaios, grande cópia de escravos, muitas mulheres — dez a onze mil bocas, que contribuiriam largamente para o gasto dos mantimentos.

A primeira jornada terminou num sítio chamado Os Moinhos, a uma légua de Arzila, em linha reta. A boiada estava tão fraca, que à mais pequena subida tinha de ser ajudada a braço. No dia seguinte, chegou a expedição a Almenara. Em dois dias, vencera o exército apenas duas léguas; e faltavam quatro para alcançar Larache. Dos mantimentos já ia gasta quase metade: o exército estava, portanto, na iminência de morrer de fome.

Convocado o conselho de oficiais, todos foram de parecer que se regressasse a Arzila. Os infantes embarcariam na armada, que logo tomaria o rumo de Larache; a artilharia e os cavalos ficariam na praça. Ainda de noite, partiu Afonso Correia com 40 cavaleiros tangerinos, para avisar D. Diogo de Sousa. Entrou em Arzila às primeiras horas da manhã de 31; mas a armada partira na véspera.

Chegara nesse dia à vila o capitão espanhol Francisco de Aldana, por cuja vinda tanto instara D. Sebastião. Acompanhavam-no 500 soldados, sem armas; e em Arzila não as havia. Quando Aldana soube que o rei se internara, disse ao capitão da praça que a sua perdição era certa. Voltaria para Espanha. Viera, porém, com ele, um fidalgo, D. Pedro del Mármol, que se entusiasmara por esta jornada. Observou-lhe que, trazendo uma carta do duque de Alba para o rei de Portugal, não devia retirar-se sem a entregar; e como Afonso Correia se oferecesse para guia e escolta, partiu com a sua gente.

A notícia da saída da armada causou deceção no exército. Não a sentiu D. Sebastião, cujo íntimo desejo era continuar a marcha até encontrar o inimigo; e acolheu com alvoroço Francisco de Aldana pela sua prática de guerra. Os 500 soldados representariam um valioso auxílio, se na bagagem houvesse arcabuzes ou piques; desarmados, só vinham agravar a escassez dos mantimentos.

Em 1 de agosto saiu o exército de Almenara; nesse dia caminhou três léguas. Na manhã de 2 ficou resolvido tomar a direção de Larache. Até às proximidades do rio Mocazim, o caminho para essa praça ou para Alcácer Quibir era o mesmo. Pela tarde descobriram os batedores na margem esquerda do Mocazim, junto à ponte de Alcácer — assim chamavam os portugueses à ponte sobre o Mocazim, na estrada entre Arzila e aquela cidade — quatro a cinco mil cavaleiros mouros. Queriam alguns fidalgos que se alterasse a direção. A marcha continuou, porém, no mesmo sentido; e acamparam num sítio alto, denominado Sobreiral de Larache.

Murmuravam os mais exaltados por se não haver passado a ponte; e D. Sebastião, cujo propósito era esse, convocou o conselho. Opinavam uns que a única solução era caminhar sem detença, para Larache; os mantimentos eram poucos e na armada havia-os com abundância. Alegavam outros que, abandonando o combate, o exército português perderia a sua antiga reputação. Para oeste, a terra era montuosa. Atravessado o rio, a margem esquerda abria-se em planície, e então se resolveria. Replicaram os primeiros: se a margem direita era acidentada, não devia atravessar-se o Mocazim, simples afluente do Luco, mas o próprio Luco ou rio de Larache, em cuja margem esquerda estava situada a povoação. Abaixo da confluência do Mocazim havia um vau, por aí devia passar o exército.

Noite ainda, mandou D. Sebastião sondar o vau. Em maré vazante, até a artilharia podia atravessar o rio. Não gostou o rei da informação; exaltou os inconvenientes da passagem, se o exército ficasse dividido em duas partes, e uma delas fosse atacada pelos mouros, sem a outra lhe poder dar socorro. No dia seguinte passaria o Mocazim pela ponte de Alcácer.

No domingo, 3, muito cedo, puseram-se as forças em marcha. Não atravessaram a ponte, e foram descendo ao longo do rio até encontrarem um vau. Teria o exército andado meia légua, surgiram milhares de cavaleiros inimigos. As tropas suspenderam a marcha. Adiantaram-se alguns, na intenção de escaramuçar. Ao seu encontro correram vários companheiros de Mulei Moâmede: e entabulando conversação, deram larga notícia do poderoso exército de Abde Almélique. Retiraram os mouros, que vinham apenas explorar; e D. Sebastião incumbiu o duque de Aveiro com 300 homens de cavalo de reconhecer as forças adversas. Voltou D. Jorge de Lencastre com informações análogas.

Retomou o exército a marcha, detendo-se numa boa posição, entre as águas de dois rios: o Mocazim e o Rur, seu afluente. Ao longo do primeiro, uma alta ribanceira constituía a mais segura defesa natural. O Rur é uma ribeira de curso intermitente; facilmente vadeável, representava, no entanto, uma linha de defesa. Os lados abertos foram guarnecidos com as carretas e carros de bagagem.

Nessa noite o bispo de Coimbra e vários fidalgos principais pediram a D. Sebastião que se demorasse naquele sitio, pois a defesa seria fácil, e não se arriscaria o exército, em campo aberto, ao primeiro embate dum poder tão formidável. Também lhe mandou solicitar o xerife deposto que não saísse do acampamento no dia seguinte; as tropas restaurariam as forças e, entretanto, ocorreria a morte de Abde Almélique, cuja agonia estava próxima. Negou-se o rei a admitir estes pedidos. D. Duarte de Meneses rogou-lhe então licença para ir com os cavaleiros de Tânger dar uma encamisada aos mouros. O sobressalto e a desordem dos inimigos seriam enormes, pois se atemorizavam de noite facilmente. Recusou-lhe também a permissão.

O exército regular de Abde Almélique compreendia, pelo menos, 40 000 cavaleiros e oito a nove mil infantes armados de escopetas. Tinha também 26 peças, servidas por bons artilheiros. Constantemente informado das delongas da expedição, o xerife só no sábado, 2 de agosto, transferiu o seu acampamento para as proximidades de Alcácer Quibir, mas ainda ao sul do Luco. Ao saber, porém, que D. Sebastião, em vez de se dirigir a Larache, transpusera o Mocazim, todo o exército passou o Luco, estabelecendo arraiais numa vasta campina, perfeitamente adequada às manobras da sua cavalaria.

No campo cristão, a ansiedade era enorme. Ao romper de alva, D. Sebastião reuniu o conselho de oficiais, a que assistiram também Mulei Moâmede e os seus alcaides. Alguns fidalgos, dos que mais defendiam a empresa, pediram ao rei se mantivesse naquela posição até à noite. Depois retirariam para Larache. A artilharia ocultar-se-ia em escavações abertas para esse fim, e os carros da bagagem ficariam no lugar em que estavam, para iludir os mouros. Chegados à costa, a armada abastecê-los-ia, e ganhar-se-ia a fortaleza.

Increpou-os D. Sebastião, num violento acesso de cólera, por alvitrarem agora a retirada os mesmos que afirmavam a facilidade da vitória. Estavam convencidos, replicaram, de que os mouros, em vez de combater, se apressariam a seguir Mulei Moâmede, como ele sempre afirmava; mas agora reconheciam a inanidade dessa presunção, e que o xerife dispunha dum enorme poder. Mulei Moâmede interveio para propor o simples adiamento da batalha por um dia. Abde Almélique devia falecer em breve. A desordem seria imediata, e os alcaides abandonariam o campo, ou viriam para o seu lado. Retorquiu D. Sebastião que não queria triunfar de Abde Almélique morto. Voltou o deposto xerife a insistir: que o combate se diferisse para a tarde, a horas em que o calor já não prejudicasse a atividade e a energia dos soldados.

Concordou o rei com o alvitre. Chegando, porém, a notícia ao capitão Aldana, o velho soldado correu a D. Sebastião, gritando-lhe «que se perdia, se não desse logo a batalha». A intervenção deste homem estava de acordo com os seus secretos desejos. Ordenou imediatamente que as tropas marchassem contra o inimigo, e incumbiu Aldana de formar a infantaria. A cavalaria ficava a seu cargo.

A ordem de batalha do exército luso era a seguinte: a infantaria dividia-se em três corpos: vanguarda, centro e retaguarda. A vanguarda foi entregue aos soldados mais experientes ou destemidos. Ao meio, o terço dos aventureiros; à direita, o dos alemães; à esquerda, parte do dos italianos e o terço dos espanhóis. Todos estavam armados de piques. Por isso, cada grupo era guarnecido com mangas de arcabuzeiros: o terço dos aventureiros com atiradores de Tânger; o dos alemães com arcabuzeiros italianos; o dos italianos e espanhóis com atiradores desta nacionalidade.

O centro era formado pelos terços de Vasco da Silveira e de Diogo Lopes de Sequeira, o primeiro atrás dos alemães, o segundo atrás dos espanhóis e italianos. No espaço aberto entre eles e, portanto, atrás dos aventureiros, foram colocados os gastadores, a bagagem mais preciosa, a gente de serviço, os soldados castelhanos sem armamento, os religiosos que não entravam na batalha, e as mulheres.

A retaguarda era também constituída por dois terços; o de Francisco de Távora e o de D. Miguel de Noronha. Fechando o espaço existente entre ambos, para amparo das bagagens e da multidão dos não combatentes, ficavam mangas de arcabuzeiros. A carriagem formava duas longas filas, paralelas e exteriores à infantaria.

A cavalaria portuguesa cindiu-se em três grupos: à esquerda, do lado de fora da carriagem, ficou o rei, com 600 cavaleiros. À direita, o duque de Aveiro, com cerca de 300; e a seguir, mas separado por um intervalo, o mestre-de-campo-general, com os homens de cavalo de Tânger, em número de 400. Na extrema direita, para além do quadrado constituído pelo exército cristão, colocou-se o antigo xerife, com os seus partidários. A artilharia caminhava à frente, no enfiamento do terço dos espanhóis; cercava-a um pequeno troço de gastadores.

A formatura do exército xerifiano era em crescente ou meia-lua, com a infantaria no centro e a cavalaria nas alas. A ala direita, dirigida por Mulei Amede, irmão do xerife, compunha-se de 1 000 escopeteiros a cavalo, e 10 000 cavaleiros armados de lança e adarga. A ala esquerda, sob o comando de Moâmede Zarco, tinha 2 000 escopeteiros e 10 000 lanceiros.

A infantaria estava dividida em dois corpos; a vanguarda, formada pelos andaluzes e gazulas, em cuja valentia menos confiava Abde Almélique; a retaguarda, constituída pelos elches, ou renegados, e os azuagos, soldados absolutamente seguros, que não só animariam, mas impediriam os outros de fugir. A meio, vinha o xerife, sentado numa liteira, à frente da qual tremulavam antigas bandeiras dos seus antepassados. Ao fundo, cingindo a infantaria, talvez 16 000 cavalos, quase todos pertencentes a tribos árabes (os alarves das Crónicas), na maioria ainda armados de bestas. A artilharia fora colocada numa dobra do terreno, de maneira a enfiar de través o exército cristão, quando viesse caminhando.

Terminada a formatura, à frente das tropas, pronunciou D. Sebastião um discurso, exaltando a antiga coragem portuguesa, fiadora de grande vitória. Deram depois as trombetas o sinal de marcha; e o rei determinou a todos os coronéis, ao duque de Aveiro, ao mestre-de-campo-general e a Mulei Moâmede, que ninguém entrasse em combate sem ordem expressa sua.

Entre o acampamento cristão e o xerifiano havia uma pequena elevação. A seguir era a campina rasa, vulgarmente designada por campo de Alcácer, com mais de duas léguas em redondo, onde se travou a célebre batalha, conhecida na história universal com o nome de Alcácer Quibir. Esta povoação fica à distância de 15 quilómetros; por isso, com mais propriedade, os mouros lhe chamam batalha do rio Mocazim ou dos Três Reis.

Logo que as trombetas portuguesas anunciaram a marcha do exército, o xerife, a muito custo, montou a cavalo; e reunidos os alcaides principais, proferiu breves palavras, prometendo elevadas recompensas a quantos se distinguissem na batalha. Começaram logo as forças xerifianas a avançar lentamente. A artilharia devia disparar, assim que os cristãos se encontrassem ao alcance de tiro.

Seriam 8 horas, puseram-se em movimentos os dois exércitos. Volvida uma hora, o centro das tropas muçulmanas suspendeu a marcha. Avançaram os nossos confiadamente, quando se ouviram os primeiros tiros da artilharia xerifiana. Mataram apenas dois cavalos; mas o terror foi tamanho, nos terços do centro e da retaguarda, que muitos soldados se lançaram por terra. Segunda vez troou a artilharia inimiga, prostrando alguns aventureiros; mas D. Sebastião, como alheado de tudo que o cercava, não se decidia a ordenar a investida. Novos pelouros abriram clareiras na vanguarda; e o rei continuava hesitante. Em rápidos volteios, os escopeteiros mouros já varejavam com balas os terços da frente; e D. Sebastião permanecia irresoluto. Brados impacientes se ergueram de diversos lados. Os aventureiros eram talvez os mais revoltados contra a sua perigosa inação; e, como a ordem demorasse, arrojaram-se sobre a infantaria inimiga, que avançava. Os espanhóis, alemães e italianos acompanharam-nos na arremetida. O rei, então, desperta e, dando voz de «S. Jorge» aos que o rodeiam, atira-se arrebatadamente contra os cavaleiros de Mulei Amede.

«O terço dos aventureirosescreve o Prof. Queirós Veloso no livro D. Sebastião (1554-–1578) — composto de homens decididos, especialmente as primeiras filas, apoiado nos arcabuzeiros de Tânger, investe com vigor. Os andaluzes e gazulas resistem, despejando as escopetas contra os assaltantes. O ímpeto dos aventureiros, porém, não afrouxa; e como os terços estrangeiros, incitados pelo nosso exemplo — mais rápidos os espanhóis e italianos, mais lentos, mas seguros, os alemães — carregassem em toda a frente, a vanguarda moura oscila e recua; esboça-se, aqui e além, a retirada. Os aventureiros redobram de esforços. As cinco filas dianteiras avançam com tamanho ímpeto, que se destacam das restantes. Em desordem, os andaluzes voltam costas, numa fuga precipitada. Pungido da mais viva indignação por este ato de cobardia, Abde Almélique ergue-se vacilante da liteira e monta a cavalo para ir ao encontro dos fugitivos... Este violento gesto provoca-lhe uma síncope, caindo sobre o pescoço do cavalo. Tomam-no os seus íntimos nos braços e deitam-no na liteira. Minutos depois falecia, sem haver recuperado os sentidos; mas a guarda, corridas imediatamente as cortinas, a todos dizia que estava vivo...

«A cólera de Abde Almélique não resultaria unicamente da pusilanimidade dos andaluzes. Também devia concorrer, poderosamente, para esse desespero, a debandada de centenas de cavaleiros da ala direita, comandada por seu irmão, que não podendo resistir à violenta carga do esquadrão real, abandonaram o campo com tão desabalada pressa, que alguns só pararam em Alcácer Quibir... Esta retirada e a dos andaluzes estiveram, por momentos, a dar-nos a vitória...

«Os aventureiros mais audazes conseguem apoderar-se de dois estandartes de Abde Almélique. Veem-no descer do cavalo, convencidos de que um tiro de arcabuz tangerino o matara. Soltam-se logo gritos: «Vitória! Vitória! O Maluco é morto!». Mas os elches e os azuagos, que formavam a retaguarda, acodem rapidamente a preencher o lugar dos fugitivos; uma bala fere então, numa perna, o capitão Álvaro Pires de Távora. O sargento-mor, Pedro Lopes, manda-o conduzir para uma das liteiras, que havia na bagagem; e certamente, com receio de que a retirada se tornasse difícil, ordena que se detenham, dando a celebrada voz: «Ter! Ter!». O entusiasmo, que os impelia, esmorece. Hesitam; e quando decidem retroceder, encontram-se cercados. O avanço que levavam aos seus companheiros, fora ocupado pelos inimigos. Os intrépidos aventureiros da vanguarda ficavam assim abandonados: o que se passou depois não foi combate; foi a inglória luta de três ou quatro centenas de bravos, vendendo cara a sua vida».

O duque de Aveiro, D. Duarte de Meneses e Mulei Moâmede lançam-se também na peleja; mas como não há plano, nem direção superior, cada um arremete ao acaso. D. Jorge de Lencastre, com insuperável audácia, abre largas clareiras nos esquadrões de Moâmede Zarco. Os cavaleiros de Tânger avançam com tamanha energia sobre a artilharia xerifiana, que a teriam conquistado se fossem sustentados por infantaria. Mulei Moâmede investe também várias vezes. Estes feitos isolados nenhuma vantagem traziam ao resultado da batalha.

A nossa artilharia, que nem tempo tivera para se colocar em posição, é atacada por centenas de inimigos. Corre D. Sebastião a libertá-la, e, num combate renhidíssimo, consegue repelir os assaltantes, à custa de muitas vidas. Mas a bateria ficou perdida, porque os artilheiros, sem guarda que os defendesse, estavam mortos ou foragidos. Chega então ao rei a notícia dum furioso ataque à bagagem. Para lá corre à desfilada, à frente de duzentos cavaleiros — a estes se reduzira o esquadrão real e desbarata alguns milhares de mouros, entretidos na rapina. Foi, porém, impossível reconstituir os terços de Vasco Silveira e de D. Miguel de Noronha. Gente arrancada aos serviços agrícolas, sem a mínima instrução militar, escondera-se, cheia de terror, debaixo das carretas.

A vanguarda continuava a ser incessantemente alvejada pelos elches e pelos azuagos. As filas dos aventureiros, como as dos terços estranhos, vão rareando. A infantaria moura já se não expõe ao perigo dum combate corpo-a-corpo. Os escopeteiros a cavalo, como os nossos já não tinham mangas de atiradores a defendê-los, avançavam até à distância de tiro, despejavam as suas escopetas, e quando os piqueiros corriam sobre eles, viravam rapidamente, para voltar depois, com as armas novamente carregadas.

Diversos fidalgos pedem ao rei que se retire. Vencer era impossível, mas fácil ainda salvar-se pelo caminho de Arzila. D. Sebastião recusa. Atraídos pelo estandarte real, centenas de mouros de cavalo acometem-no de todos os lados. Fernando de Mascarenhas pergunta-lhe: «E agora, Senhor, que havemos de fazer com tanta multidão?» — «Fazer o que eu faço», responde o rei; e, como costumado ímpeto, rompe os inimigos, derrubando os mais próximos.

Na retaguarda, o terço de Diogo Lopes de Sequeira abandonara também os piques. Só o terço de Francisco de Távora combatia com uma coragem que honrava os soldados algarvios, em grande número alistados voluntariamente. A morte do seu heroico coronel deprimiu-lhes, porém, o ânimo e renderam-se.

Depois de quatro horas de luta, terminara a batalha. Apenas         D. Sebastião e um pequeno grupo de fidalgos seguiam combatendo. Nem a bandeira, nem o guião real, chamavam já a atenção dos mouros sobre o monarca; e talvez a esta circunstância devesse não ter sido ainda morto. Mas era um fim previsto. Cristóvão de Távora suplica-lhe que se renda. D. João de Portugal acrescenta: «Que pode haver aqui que fazer, senão morrermos todos?». Redarguiu D. Sebastião: «Morrer, sim, mas devagar». D. Nuno de Mascarenhas chegou a arvorar um lenço, na ponta da lança ou da espada. D. Sebastião, porém, não se rendeu; e travando-se combate, foram mortos o conde de Vimioso, Cristóvão de Távora e alguns fronteiros de Tânger. Os restantes ficaram prisioneiros. Mais adiante, foi o soberano português cercado por um grupo de alarves que o mataram, com profundos golpes na cabeça e algumas arcabuzadas no tronco.

Mulei Moâmede pretendeu salvar-se, atravessando o Mocazim. A maré começava, porém, a descer rapidamente. O cavalo meteu uma das mãos pela rédea e voltou-se, despedindo o cavaleiro, que morreu afogado.

Nunca, na Berberia, houvera batalha mais sangrenta: cinco a seis mil mouros e sete a oito mil cristãos mortos, com milhares de prisioneiros de várias nacionalidades e de todas as categorias e classes, entre eles muitos centenares de mulheres e de crianças. Portugal ficou arruinado. As despesas da expedição e depois o resgate dos prisioneiros levaram as últimas economias. A falta de braços para o amanho das terras era enorme. As consequências políticas da derrota foram, porém, ainda mais terríveis: a perda da independência. Tudo isto torna esta batalha uma das mais notáveis da História Universal.

O corpo de D. Sebastião foi encontrado no dia seguinte, completamente nu e coberto de profundos ferimentos. O calor do deserto provocara-lhe já um avançado grau de putrefação. Mulei Amede mandou que o reconhecessem vários nobres aprisionados, entre os quais D. Duarte de Meneses, António de Azevedo, D. António de Noronha, Belchior do Amaral, D. Constantino de Bragança, João Rodrigues de Sá, D. Jorge de Meneses, D. Nuno de Mascarenhas e outros.

Foi sepultado em Alcácer Quibir, em casa do alcaide Abraém Sufiane.

A Filipe II convinha que o cadáver do sobrinho viesse para Portugal, para contrariar a lenda sebastianista, que começava a formar-se e que excluía a realidade da morte de D. Sebastião.

Acedeu Mulei Amede ao pedido do rei católico a que se juntou outro do cardeal-rei D. Henrique, que ofereceu sessenta mil cruzados pelos despojos do seu antecessor. O xerife recusou o resgate, mandou que se procedesse à exumação (novembro de 1578), vindo o cadáver a ser entregue ao mercador genovês André Gaspar Corvo, agente de Filipe II, e ao religioso trinitário Frei Roque do Espírito Santo, que o levaram a Ceuta. Recebeu sepultura na capela-mor do mosteiro da Trindade daquela cidade.

Só em 1582 Filipe II o mandou trazer para Lisboa, sendo então sepultado no mosteiro dos Jerónimos.

Foi trasladado a ocultas para o túmulo definitivo que lhe fez construir D. Pedro II em 1682.

O povo, onde mais se difundiu a lenda do Encoberto, nunca acreditou que ali estivesse o corpo do rei. E é o que ressalta do célebre epitáfio que lhe puseram:

 

CONDITVR HOC TVMVLO SI VERA EST FAMA SEBASTVS

QUEM TVLIT IN LIBICIS MORS PROPERATA PLAGIS

NEC DICAS FALLI REGEM QVI VIVERE CREDIT

PROLEGE EXTINCTO MORS QVASI VITA FVIT

 

Afonso Lopes Vieira traduziu livremente a famosa legenda:

 

Se é vera a fama, aqui jaz Sebastião,

Vida nas plagas de África ceifada.

Não duvideis de que ele é vivo, não!

A Morte deu-lhe vida ilimitada.

(Em Demanda do Graal, 386)

 D. Sebastião foi o último dos nossos reis cantado por Camões, que dele foi contemporâneo. Não tem justificação a lenda de que o poeta tivesse lido Os Lusíadas diante dele. Bem ao contrário, de alguns versos se depreende que dele não era conhecido. E por exemplo:

 

Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,

De vós não conhecido nem sonhado?

 

Se o poeta tivesse lido o poema antes de publicado perante o rei (e depois de publicado já seria mais difícil de admitir o facto) teria certamente modificado a estrofe, pela substituição destes versos.

Refere-se-lhe, todavia, mais de uma vez, desde a dedicatória do início do poema, até aos conselhos que no fim dele lhe dirige. Não é preciso dizer que o faz em estilo grandiloquente, e com as hipérboles da convenção. O rei é para ele a bem nascida segurança / Da lusitana antiga liberdade, / E não menos certíssima esperança / De aumento da pequena cristandade. Ele é ainda o temor da maura lança, a unânime esperança de que seja um dia jugo e vitupério / Do torpe Ismaelita cavaleiro, / Do Turco oriental e do Gentio / Que ainda bebe o licor do santo rio. Mais adiante, sempre no mesmo tom de sonora exaltação, assim lhe fala:

 

E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,

Sublime rei, que não me atrevo a tanto,          

Tomai as rédeas vós do Reino vosso:

Dareis matéria a nunca ouvido canto.

Comecem a sentir o peso grosso         

(Que polo mundo todo faça espanto)

De exércitos e feitos singulares

De África as terras as do Oriente os mares.

 

Em vós os olhos tem o mouro frio;

Em quem vê seu exício afigurado;

Só com vos ver, o bárbaro Gentio

Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;

Tétis todo o cerúleo senhorio

Tem pera vós por dote aparelhado,

Que, afeiçoada ao gesto belo e tenro,

Deseja de comprovar-vos pera genro.

I, 15-16

 

Nestas estrofes e ainda nas duas últimas do poema em que o autor, depois de dar os conselhos da sua experiência ao rei, supõe a hipótese de empresa digna de ser cantada segundo a mente vaticina / Olhando a sua inclinação divina, acrescenta:

 

Ou fazendo que mais que a Medusa

A vista vossa tema o monte Atlante;

 

Ou rompendo nos campos de Ampelusa

Os muros de Marrocos e Trudante…,

 

têm visto alguns críticos em Camões um defensor da política africanista de D. Sebastião ou seja um dos que levaram o rei ao desastre de Alcácer Quibir...

É evidente que, ainda que o poeta apoiasse o desvio para Marrocos dos esforços realizados no Oriente, onde se estava desmoronando o império construído por Albuquerque e diminuindo a energia que o mantinha, não se lhe poderiam atribuir as responsabilidades no modo como foi organizada e executada a empresa de tal conquista. Depois, se a última estrofe apenas se refere à conquista marroquina, a verdade é que todas as outras são suscitadas pelo anseio da dilatação da Lei da vida eterna através do mundo africano como do mundo oriental. Fala o poeta das terras de África, tanto como dos mares do Oriente; do Mouro frio tanto como do Pagão oriental / Que ainda bebe o licor do santo rio.

Onde, todavia, Camões de modo mais impressionante nos fala de D. Sebastião é nas estrofes com que se lhe refere no canto IX. Segundo a ficção do poeta, quando Vénus pensa em compensar os navegantes fazendo-lhes surgir no meio do mar, no regresso à pátria, a Ilha dos Amores, onde eles encontram todas as compensações do esforço heroico da conquista e do descobrimento — prazeres dos sentidos, anelos de ambição, satisfações da curiosidade intelectual — resolve ir procurar seu filho — Cupido — para que a auxilie na realização da empresa. Cupido anda caçando pelos idálios montes, empenhado numa expedição contra o mundo revelde, Porque emende / Erros grandes que há dias (ou seja há tempos) nele estão. Entre os erros que aponta ocorre o de Actéon na caça tão austero / De cego na alegria bruta, insana, / Que por seguir um feio animal fero / Foge da gente e bela forma humana. Todos os críticos têm visto na invocação deste mito uma nítida alusão ao monarca português, também entusiasta da caça e desprezador da bela forma humana, pois se recusava a contrair matrimónio. A expressão — há dias — é que só impensadamente se tem aproveitado como prova da atualidade de objeto da censura, visto que de modo nenhum significa, como parece, há pouco tempo, mas há tempo indeterminado. Outras alusões parecem ser feitas a governadores e atos do governo desse momento histórico, e mais de um crítico julga ver uma alusão aos dois irmãos Câmaras naquela referência

 

àqueles que devem à pobreza

Amor divino e ao povo caridade

Amam somente mandos e riqueza,

Simulando justiça e integridade.

 

A alusão parece mais explícita nesta outra estrofe:

 

E vós outros que os nomes usurpais    

De mandados de Deus, como Tomé                            

 

Dizei : se sois mandados, como estais

Sem irdes a pregar a Santa Fé?

 

Mandados de Deus é o significado de Apóstolos e tal era a designação que se dava aos filhos de Santo Inácio.

Quatro versos adiante, o poeta resolve prudentemente mudar de assunto: Mas passo esta matéria perigosa... E tão perigosa, na verdade, que a edição de 1584, chamada dos Piscos, a eliminou do poema.

É preciso, todavia, atentar em que se a censura se refere aos irmãos Câmaras, como já no tempo de Camões, segundo Manuel Correia, foi julgado, não se estende à ordem a que um pertence como membro com todos os votos, outro como irmão secular. Porque dum jesuítaGonçalo da Silveiracelebra ele o martírio como missionário em Benomotapa, onde sofre morte e vitupério pola Fé Santa sua.

De qualquer modo, o que é certo é que de toda a evidência Camões atentou na realidade social, política e religiosa daquele tempo em que, no regresso à pátria, se sentava no trono de Portugal o rei que ele bem parece satirizar em Actéon. D. Sebastião aparece na Mensagem de Fernando Pessoa, como uma das «quinas» simbólicas. As outras são D. Duarte, D. Pedro, D. Fernando e D. João — os altos infantes — sem que se compreenda bem tão estranha associação:

 

Louco, sim, louco porque quis grandeza

Qual a sorte a não dá.

Não coube em mim minha certeza;     

Por isso onde a areal está                                           

Ficou um ser que houve, não o que há.                       

 

Minha loucura, outros que me a tomem

Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

 

Associação, afinal, de idealismos e de infelicidades... Mas D. Sebastião impressionou profundamente Fernando Pessoa e todo o estranho capítulo de «Os Símbolos» se impregna da lenda sebástica e do mito do Encoberto.

 

Sperai! caí no areal e na hora adversa

Que deus concede aos seus

Para o intervalo em que esteja a alma imersa            

Em sonhos que são Deus.                                            

Que importa o areal e a morte e a desventura

Se com Deus me guardei?

É O que me sonhei que eterno dura

É Esse que regressarei.

 

A notícia da morte de D. Sebastião e da perda do exército que o acompanhava foram golpes terríveis para o país. Desaparecera a mocidade do reino e com ela a esperança no futuro; as circunstâncias económicas eram desastrosas; o trono era ocupado por um velho valetudinário, sem esperanças de sucessão. Tudo concorria para adensar sobre o futuro da pátria as mais as mais pesadas nuvens, com os mais desfavoráveis presságios, que se confirmaram logo que morreu o cardeal D. Henrique e Filipe II entrou em Portugal.

Por outro lado, muita gente não acreditava na morte do rei nas plagas africanas e tinha fé no seu reaparecimento, que resolveria toda a complexa situação. Criou-se assim o mito do sebastianismo, e o ambiente favorável para o aparecimento de falsos monarcas, que em circunstâncias diversas encarnaram a personalidade do desaparecido D. Sebastião.

Foram quatro os mais conhecidos: dois, os primeiros, nasceram naturalmente da crença popular, foi o povo que os fez reis, sem que tivessem anteriormente o pensamento reservado da exploração de tal situação; os outros foram vítimas dos manejos ambiciosos. O primeiro foi o chamado rei de Penamacor, rapazote que vivia nas proximidades de Alcobaça. A sua influência não foi grande e os espanhóis limitaram-se a condená-lo a servir nas galés; incorporado na Invencível Armada conseguiu fugir para França. O segundo foi o rei da Ericeira, Mateus Álvares, que chegou a sublevar a gente da Ericeira e Mafra, e foi decapitado a 14-6‑1585. O terceiro foi o célebre Gabriel Espinosa, conhecido por Pasteleiro do Madrigal, que foi enforcado em 1595, com Fr. Miguel dos Santos. O último, o que deixou mais profundas impressões e também maiores dúvidas quanto à sua identidade, foi o aventureiro Marco Túlio Catizóni, igualmente enforcado em 23-9‑1603.

Observador Romano (1º Capítulo)

A IGREJA NO BANCO DOS RÉUS

ZANGAS ECLESIAIS

Zangam‐se as comadres e sabem‐se as verdades. E, quando são os compadres – sacerdotes, bispos ou até cardeais – que se zangam?!

O sínodo extraordinário sobre a família já lá vai, mas ainda há muita poeira no ar. Muita gente ficou surpreendida ao ver bispos contra bispos, cardeais a contradizer cardeais e, até, o Papa Francisco a incentivar a discussão, convidando os padres sinodais a falarem com toda a espontaneidade e liberdade. Se, também nas famílias mais unidas, há fraternais divergências, por que se escandalizam?! Um pai de numerosa prole gostava de ver os filhos a lutarem entre si porque, dizia, era sinal de que estavam fortes e saudáveis!

Este exercício da colegialidade episcopal não é novo na história bimilenar do cristianismo. O papa governa a Igreja universal em união com todos os bispos: cada um, para além da responsabilidade directa sobre a parte do rebanho que lhe foi confiada, participa também na solicitude de Pedro por todas as igrejas. O exercício dessa colegialidade, que o Vaticano II promoveu, pode ocorrer por via dos concílios ecuménicos, com a presença de todos os bispos, ou dos sínodos, em que só participa uma representação do episcopado mundial. Quer o concílio, quer o sínodo, actuam sempre sob a autoridade do Papa (cfr. Código de Direito Canónico, cânones 749, 331‐334), que os convoca, preside e referenda as suas conclusões. Uma decisão conciliar, ou sinodal, mesmo unânime, não sancionada pelo vigário de Cristo, carece de qualquer valor normativo.

Na Igreja discute‐se... há dois mil anos! Com efeito, logo nos primeiros anos surgiram fortes controvérsias, nomeadamente em relação à questão das práticas judaicas, a que alguns fiéis, procedentes do judaísmo, queriam obrigar os gentios convertidos à fé em Cristo. «Tendo‐se suscitado uma grande discussão», foi necessário reunir, em Jerusalém, o primeiro concílio que, presidido por Pedro, contou com a sua presença, bem com a de Tiago, Paulo, Barnabé, outros «apóstolos e os presbíteros». Ao primeiro Papa coube por fim decidir, contra a facção dos judaizantes, não impor aos gentios convertidos a observância da lei de Moisés (cfr. Act 15, 6‐29).

Concluído o concílio de Jerusalém, Paulo propôs‐se realizar uma nova viagem apostólica com Barnabé, o qual queria levar com eles o evangelista Marcos, que os acompanhara no início da anterior missão, tendo‐os depois abandonado. Por este motivo, Paulo não o quis aceitar «e houve tal desacordo entre eles, que se separaram um do outro» (cfr. Act 16, 35‐40). Ou seja: um santo, Paulo, discutiu forte e feio com outro santo, Barnabé, por causa de um outro santo, Marcos! Todos santos e, contudo, não se entenderam sobre esta questão pastoral!

Aliás, em matéria dessa natureza, mas não doutrinal, também Pedro mereceu a correcção fraterna de Paulo, que publicamente lhe recriminou o facto de não comer com os gentios, com receio dos circuncisos (cfr. Gal 2, 11‐14). De facto, o papa, quando fala de fé ou de moral, invocando a sua máxima autoridade, é infalível, mas não goza dessa prerrogativa em questões de governo, como se prova pelo facto de Clemente XIV ter extinto, em 1773, a Companhia de Jesus que, em 1814, um seu sucessor, Pio VII, restaurou e a que, por sinal, pertence o actual Papa.

É salutar este exercício apaixonado do direito de opinião, porque a Igreja, que é hierárquica, é também, na comunhão da fé, um espaço de liberdade. Mas as compreensíveis divergências pastorais não podem afectar a essência da mensagem revelada, nem ferir a unidade eclesial. Como o Santo Padre recordou, qualquer sucessor de Pedro, «pondo de lado qualquer arbítrio pessoal», é «o garante da obediência e da conformidade da Igreja com a vontade de Deus, o Evangelho de Cristo e a Tradição da Igreja».

22/11/2014

Nós, os padres (1º capitulo)

 

PREFÁCIO

 D. António Couto

 

Com a chancela da Alêtheia Editores, que saudamos, sai agora para fora do confessionário, como verdadeira confissão, ou exposição, o rol da vida de 11 padres, desenrolado e exposto pelos próprios. Seriam sempre extraordinárias estas narrativas, pelo simples facto de as figuras que nelas se retratam serem padres católicos, que nos habituámos a ver como pessoas reservadas e discretas, longe dos holofotes, dos palcos e dos escaparates. Mas são ainda mais extraordinárias e relevantes estas onze narrativas, pelo facto de os padres que nelas se retratam terem optado pelo caminho do sacerdócio, por assim dizer numa 2.ª via, depois de terem trilhado outros rumos universitários, que lhes abririam portas sociais e profissionais bem diferentes. Portanto, estes onze padres, que aqui expõem a sua vida e as razões que a sustentam, vão contar‑nos a sua experiência, os caminhos que encetaram e prosseguiram, os passos que deram, e, sobretudo, o que os fez, ou foi fazendo, nas diferentes encruzilhadas que se lhes depararam, começar a ver a vida com olhos diferentes, com esquadrias diferentes. Será sobretudo interessante e surpreendente, de modo particular para quem tem a ideia feita de que os padres são cinzentos e monótonos, feitos de renúncias e sacrifícios vários, verificar que palpita nestes onze retratos, não apenas uma vida igual a tantas outras, mas também uma alegria nova, um amor novo, um grande abraço à vida. Sim, não são retratos de plástico, anódinos e asséticos. E sim, o que levou, ou Quem levou estes onze jovens (ou nem tanto) a deixar para trás um percurso já andado e cimentado, uma carreira já perspectivada, um modo de vida já experimentado, e a abraçar livros novos, páginas novas, portas novas, todas ainda por abrir e percorrer? Vê‑se bem que não foi por desgosto ou desamor, mas por um amor maior, por mais amor.

Também se vê bem que anda muito Deus metido nos caminhos quotidianos destas histórias quotidianas e encantadas, e que é, com certeza Ele, o primeiro responsável por estas reviravoltas e peripécias. Em boa verdade, sou dos que penso que poucas coisas nos é dado verdadadeiramente escolher. Sou cada vez mais levado a ver que o veio mais fundo e fecundo que vai urdindo a nossa identidade e unicidade – que é aquilo que só eu posso fazer, e ninguém pode fazer  em  vez  de  mim  –,  não  depende  de  nenhuma  das  nossas escolhas, pois vem de antes de nós, de antes de a nossa memória registar qualquer sinal, de antes de podermos avançar algum acto voluntário meritório, de antes do ventre materno, de antes de antes. Vem do «amor fontal» de Deus, nosso Pai. Nós não escolhemos Deus nem o Amor nem o Bem. Não escolhemos. Somos escolhidos. Deus entra‑nos pela casa adentro, sem bater à porta e sem pedir licença, e elege‑nos, sem previamente nos ouvir, marca‑nos com uma eleição que não prescreve nunca, confia‑nos uma missão que não podemos rescindir, entrega‑nos um Amor a que não nos podemos subtrair.

Penso que foi assim que foram sendo tecidas estas vidas e estas histórias agora dadas a ler. Dia‑a‑dia vivendo, saboreando e respondendo a Deus e ao próximo com um amor novo, uma liberdade dada, recebida e agradecida, uma responsabilidade bela e auroral. Amor, liberdade, responsabilidade que não puderam parar e de que não puderam fugir. Caiu‑lhes nas mãos e no coração a condição de uma impossibilidade a que não se puderam subtrair. Impossibilidade mais impossível do que sair da própria pele, dever imprescritível e irrecusável que amorosa, livre, responsável e traumaticamente para sempre os marcou.

É tempo de lhes dar, a eles, a palavra, e aos leitores, tempo para lerem as linhas e entrelinhas destas histórias, aparentemente iguais a tantas outras, mas com Deus sempre por perto, na sala de aula, no corredor, no café, em tantos encontros ou desencontros que quase sempre julgamos apenas ocasionais. Pouco a pouco vamo‑nos apercebendo de que, quase sempre, nada é mais profundo do aquilo que se passa à superfície. É aí que tantas vezes caímos nas fintas pedagógicas que Deus, ou alguém por Ele, nos faz. E é assim, finta após finta, que Ele vai urdindo as vidas que se dizem nestas histórias. Ou as histórias que se dizem nestas vidas. E que implicarão certamente também o leitor, que se aventurar por estas avenidas. Por mim, fico à espera dessas aventuras.

 

† D. António Couto

Bispo de Lamego




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