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Observador Romano (1º Capítulo)

A IGREJA NO BANCO DOS RÉUS

ZANGAS ECLESIAIS

Zangam‐se as comadres e sabem‐se as verdades. E, quando são os compadres – sacerdotes, bispos ou até cardeais – que se zangam?!

O sínodo extraordinário sobre a família já lá vai, mas ainda há muita poeira no ar. Muita gente ficou surpreendida ao ver bispos contra bispos, cardeais a contradizer cardeais e, até, o Papa Francisco a incentivar a discussão, convidando os padres sinodais a falarem com toda a espontaneidade e liberdade. Se, também nas famílias mais unidas, há fraternais divergências, por que se escandalizam?! Um pai de numerosa prole gostava de ver os filhos a lutarem entre si porque, dizia, era sinal de que estavam fortes e saudáveis!

Este exercício da colegialidade episcopal não é novo na história bimilenar do cristianismo. O papa governa a Igreja universal em união com todos os bispos: cada um, para além da responsabilidade directa sobre a parte do rebanho que lhe foi confiada, participa também na solicitude de Pedro por todas as igrejas. O exercício dessa colegialidade, que o Vaticano II promoveu, pode ocorrer por via dos concílios ecuménicos, com a presença de todos os bispos, ou dos sínodos, em que só participa uma representação do episcopado mundial. Quer o concílio, quer o sínodo, actuam sempre sob a autoridade do Papa (cfr. Código de Direito Canónico, cânones 749, 331‐334), que os convoca, preside e referenda as suas conclusões. Uma decisão conciliar, ou sinodal, mesmo unânime, não sancionada pelo vigário de Cristo, carece de qualquer valor normativo.

Na Igreja discute‐se... há dois mil anos! Com efeito, logo nos primeiros anos surgiram fortes controvérsias, nomeadamente em relação à questão das práticas judaicas, a que alguns fiéis, procedentes do judaísmo, queriam obrigar os gentios convertidos à fé em Cristo. «Tendo‐se suscitado uma grande discussão», foi necessário reunir, em Jerusalém, o primeiro concílio que, presidido por Pedro, contou com a sua presença, bem com a de Tiago, Paulo, Barnabé, outros «apóstolos e os presbíteros». Ao primeiro Papa coube por fim decidir, contra a facção dos judaizantes, não impor aos gentios convertidos a observância da lei de Moisés (cfr. Act 15, 6‐29).

Concluído o concílio de Jerusalém, Paulo propôs‐se realizar uma nova viagem apostólica com Barnabé, o qual queria levar com eles o evangelista Marcos, que os acompanhara no início da anterior missão, tendo‐os depois abandonado. Por este motivo, Paulo não o quis aceitar «e houve tal desacordo entre eles, que se separaram um do outro» (cfr. Act 16, 35‐40). Ou seja: um santo, Paulo, discutiu forte e feio com outro santo, Barnabé, por causa de um outro santo, Marcos! Todos santos e, contudo, não se entenderam sobre esta questão pastoral!

Aliás, em matéria dessa natureza, mas não doutrinal, também Pedro mereceu a correcção fraterna de Paulo, que publicamente lhe recriminou o facto de não comer com os gentios, com receio dos circuncisos (cfr. Gal 2, 11‐14). De facto, o papa, quando fala de fé ou de moral, invocando a sua máxima autoridade, é infalível, mas não goza dessa prerrogativa em questões de governo, como se prova pelo facto de Clemente XIV ter extinto, em 1773, a Companhia de Jesus que, em 1814, um seu sucessor, Pio VII, restaurou e a que, por sinal, pertence o actual Papa.

É salutar este exercício apaixonado do direito de opinião, porque a Igreja, que é hierárquica, é também, na comunhão da fé, um espaço de liberdade. Mas as compreensíveis divergências pastorais não podem afectar a essência da mensagem revelada, nem ferir a unidade eclesial. Como o Santo Padre recordou, qualquer sucessor de Pedro, «pondo de lado qualquer arbítrio pessoal», é «o garante da obediência e da conformidade da Igreja com a vontade de Deus, o Evangelho de Cristo e a Tradição da Igreja».

22/11/2014

Nós, os padres (1º capitulo)

 

PREFÁCIO

 D. António Couto

 

Com a chancela da Alêtheia Editores, que saudamos, sai agora para fora do confessionário, como verdadeira confissão, ou exposição, o rol da vida de 11 padres, desenrolado e exposto pelos próprios. Seriam sempre extraordinárias estas narrativas, pelo simples facto de as figuras que nelas se retratam serem padres católicos, que nos habituámos a ver como pessoas reservadas e discretas, longe dos holofotes, dos palcos e dos escaparates. Mas são ainda mais extraordinárias e relevantes estas onze narrativas, pelo facto de os padres que nelas se retratam terem optado pelo caminho do sacerdócio, por assim dizer numa 2.ª via, depois de terem trilhado outros rumos universitários, que lhes abririam portas sociais e profissionais bem diferentes. Portanto, estes onze padres, que aqui expõem a sua vida e as razões que a sustentam, vão contar‑nos a sua experiência, os caminhos que encetaram e prosseguiram, os passos que deram, e, sobretudo, o que os fez, ou foi fazendo, nas diferentes encruzilhadas que se lhes depararam, começar a ver a vida com olhos diferentes, com esquadrias diferentes. Será sobretudo interessante e surpreendente, de modo particular para quem tem a ideia feita de que os padres são cinzentos e monótonos, feitos de renúncias e sacrifícios vários, verificar que palpita nestes onze retratos, não apenas uma vida igual a tantas outras, mas também uma alegria nova, um amor novo, um grande abraço à vida. Sim, não são retratos de plástico, anódinos e asséticos. E sim, o que levou, ou Quem levou estes onze jovens (ou nem tanto) a deixar para trás um percurso já andado e cimentado, uma carreira já perspectivada, um modo de vida já experimentado, e a abraçar livros novos, páginas novas, portas novas, todas ainda por abrir e percorrer? Vê‑se bem que não foi por desgosto ou desamor, mas por um amor maior, por mais amor.

Também se vê bem que anda muito Deus metido nos caminhos quotidianos destas histórias quotidianas e encantadas, e que é, com certeza Ele, o primeiro responsável por estas reviravoltas e peripécias. Em boa verdade, sou dos que penso que poucas coisas nos é dado verdadadeiramente escolher. Sou cada vez mais levado a ver que o veio mais fundo e fecundo que vai urdindo a nossa identidade e unicidade – que é aquilo que só eu posso fazer, e ninguém pode fazer  em  vez  de  mim  –,  não  depende  de  nenhuma  das  nossas escolhas, pois vem de antes de nós, de antes de a nossa memória registar qualquer sinal, de antes de podermos avançar algum acto voluntário meritório, de antes do ventre materno, de antes de antes. Vem do «amor fontal» de Deus, nosso Pai. Nós não escolhemos Deus nem o Amor nem o Bem. Não escolhemos. Somos escolhidos. Deus entra‑nos pela casa adentro, sem bater à porta e sem pedir licença, e elege‑nos, sem previamente nos ouvir, marca‑nos com uma eleição que não prescreve nunca, confia‑nos uma missão que não podemos rescindir, entrega‑nos um Amor a que não nos podemos subtrair.

Penso que foi assim que foram sendo tecidas estas vidas e estas histórias agora dadas a ler. Dia‑a‑dia vivendo, saboreando e respondendo a Deus e ao próximo com um amor novo, uma liberdade dada, recebida e agradecida, uma responsabilidade bela e auroral. Amor, liberdade, responsabilidade que não puderam parar e de que não puderam fugir. Caiu‑lhes nas mãos e no coração a condição de uma impossibilidade a que não se puderam subtrair. Impossibilidade mais impossível do que sair da própria pele, dever imprescritível e irrecusável que amorosa, livre, responsável e traumaticamente para sempre os marcou.

É tempo de lhes dar, a eles, a palavra, e aos leitores, tempo para lerem as linhas e entrelinhas destas histórias, aparentemente iguais a tantas outras, mas com Deus sempre por perto, na sala de aula, no corredor, no café, em tantos encontros ou desencontros que quase sempre julgamos apenas ocasionais. Pouco a pouco vamo‑nos apercebendo de que, quase sempre, nada é mais profundo do aquilo que se passa à superfície. É aí que tantas vezes caímos nas fintas pedagógicas que Deus, ou alguém por Ele, nos faz. E é assim, finta após finta, que Ele vai urdindo as vidas que se dizem nestas histórias. Ou as histórias que se dizem nestas vidas. E que implicarão certamente também o leitor, que se aventurar por estas avenidas. Por mim, fico à espera dessas aventuras.

 

† D. António Couto

Bispo de Lamego




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