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Winston Churchill na Madeira - 1º capítulo

Winston Churchill e a civilização ocidental da liberdade sob a lei

João Carlos Espada

(Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa; Presidente da International Churchill Society of Portugal).

 

Foi com alguma surpresa que recebi o telefonema do senhor Presidente do Governo Regional da Madeira informando-me de que ia publicar um livro de sua autoria sobre a visita que Winston Churchill fizera à Madeira, em Janeiro de 1950. Digo apenas “alguma surpresa” porque já conhecia bem a admiração de Dr. Miguel Albuquerque por Winston Churchill, bem como a sua familiaridade com a vida e obra do grande estadista. Essa admiração e esta familiaridade tinham ficado bem patentes nas suas marcantes intervenções em vários eventos “Churchillianos”, promovidos regularmente pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, em associação com a International Churchill Society of Portugal.

 

A surpresa foi bastante maior quando o Dr. Miguel Albuquerque me convidou a escrever um prefácio para o seu livro. É um convite que muito me honra e que aceitei de imediato, embora com alguma apreensão. E a apreensão aumentou quando pude ler o magnífico trabalho que o leitor tem agora nas suas mãos. O meu prefácio será apenas um modesto contributo para esta grande homenagem madeirense e portuguesa a Winston Churchill — um modesto contributo que tem o privilégio de acompanhar um eloquente trabalho histórico e literário de Miguel Albuquerque, bem como uma belíssima colecção fotográfica.

 

Mesmo nos dias que correm, Winston Churchill ainda é reconhecido como o homem que liderou a resistência ocidental ao totalitarismo nazi e um dos primeiros a denunciar o totalitarismo soviético. Mas a sua visão política tende hoje a ser desvalorizada e é por muitos considerada reaccionária ou ultrapassada. Gostaria de contestar esse entendimento e de recordar alguns dos aspectos que fizeram de Winston Churchill “o orgulhoso herdeiro e representante da velha tradição europeia e ocidental da liberdade sob a lei, a quem a Europa ficou a dever a liberdade” — para citar a muito apropriada avaliação de Miguel Albuquerque no presente livro.

 

Winston Churchill nasceu em 1874, numa muito antiga família aristocrática inglesa, ainda que sua mãe fosse americana. Estudou em Harrow, um dos melhores colégios ingleses, mas não ingressou na Universidade, tendo seguido a carreira militar e estudado na muito distinta Academia Militar de Sandhurst. Foi pela primeira vez eleito para o Parlamento, como deputado Conservador, em 1900, e permaneceu como deputado até 1964, tendo morrido em Janeiro de 1965. Churchill foi sempre um profundo admirador e activo participante do Parlamento britânico.

 

Na alvorada do século XX, as novas modas intelectuais emergentes na Europa não nutriam grande entusiasmo, para dizer o mínimo, pela democracia parlamentar ocidental. Vale talvez a pena recordar que, em 1904, Winston Churchill deixou a sua bancada Conservadora no parlamento britânico para se juntar à bancada dos Liberais. Vinte anos mais tarde, em 1924, voltaria a fazê-lo em sentido contrário, juntando-se novamente aos Conservadores. Mas, enquanto Churchill trocava de bancada entre dois muito antigos partidos parlamentares, as modas intelectuais da época atacavam a democracia parlamentar e as instituições da economia de mercado. Foi um período durante o qual o funcionamento das instituições democráticas europeias, à excepção das britânicas e das suíças, foi perturbado pela guerra e pelas ideologias revolucionárias, de esquerda e de direita.

 

As novas modas intelectuais tendiam a ser entusiastas fervorosas das marés revolucionárias, fossem da esquerda ou da direita, do comunismo ou daquilo que viria a ser o nacional-socialismo. Os revolucionários apresentavam-se como porta-vozes de um mundo novo. Havia que deixar para trás a inércia da democracia parlamentar e a mesquinhez comercial do capitalismo. A Inglaterra e a América eram vistas como símbolos do velho mundo. Dizia-se que estavam à mercê da "conspiração judaica" e da "plutocracia financeira mundial". A Inglaterra e a América eram acusadas de resistir ao novo "Estado total”, centralizado e inovador, introduzido por Lenine na Rússia, em 1917, por Mussolini em Itália, em 1924, e por Hitler na Alemanha, em 1933. Na Europa, muitas pessoas mostravam-se sensíveis às novas tendências: "Sim, o mundo está a mudar", diziam, "e, tal como o mundo, também temos de mudar".

 

Winston Churchill permaneceu imune à linguagem da revolução e da inovação. Dizia-se que ele era um conservador antiquado que não compreendia os novos tempos. Mas Churchill compreendia os novos tempos. E não gostava daquilo que compreendia. Churchill era um admirador da tradição liberal-conservadora do seu país, do Império Britânico e da civilização europeia e ocidental. Estudara Macaulay e aprendera que a Revolução Gloriosa de 1688 – a última revolução que ocorrera em Inglaterra – fora feita com relutância e com o objectivo principal de tornar desnecessárias futuras revoluções.

 

Esta tradição é dificilmente traduzível na linguagem ideológica moderna. Mas Churchill resumiu-a brilhantemente numa passagem em que procurou descrever as convicções políticas de seu pai, Lord Randolph Churchill, que tinha sido uma ilustre parlamentar Conservador. Disse Winston Churchill:

 

“[Lord Randolph Churchill] não via razão para que as velhas glórias da Igreja e do Estado, do Rei e do país, não pudessem ser reconciliadas com a democracia moderna; ou por que razão as massas do povo trabalhador não pudessem tornar-se os maiores defensores destas antigas instituições através das quais tinham adquirido as suas liberdades e o seu progresso. É esta união do passado e do presente, da tradição e do progresso, esta corrente de ouro, nunca até agora quebrada, porque nenhuma pressão indevida foi exercida sobre ela, que tem constituído o mérito peculiar e a qualidade soberana da vida nacional inglesa.”[1]

 

Foi com base neste “corrente de ouro” que Churchill anunciou desde o início a sua firme oposição ao comunismo e ao nacional-socialismo, dizendo que "entre as doutrinas do Camarada Trotsky e as do Dr. Goebbels deve haver espaço para cada um de nós, e mais umas quantas pessoas, cultivarmos as nossas próprias opiniões”.

 

Num discurso em 1938, Churchill recordou a tradição da liberdade sob a lei em nome da qual condenava a dupla ameaça despótica do comunismo e do nacional-socialismo:

 

“Não temos nós uma ideologia própria — se tivermos de usar esta horrível expressão, ‘ideologia’ — na liberdade, numa Constituição liberal, no governo democrático e parlamentar, na Magna Carta e na Petição dos Direitos?” [2]

 

         Foi em nome desta tradição ocidental da liberdade sob a lei que Winston Churchill fez tudo o que estava ao seu alcance para resistir à tirania. No seu primeiro discurso como Primeiro-Ministro na Câmara dos Comuns, a 13 de Maio de 1940, enquanto ainda estava a formar o seu Governo, Churchill anunciou o seu programa de resistência em palavras que ficaram célebres:

 

“Nada tenho a oferecer senão sangue, esforço, lágrimas e suor. Temos perante nós uma ameaça da mais grave natureza. Temos perante nós muitos, muitos longos meses de combate e sofrimento. Perguntam-me, qual é a nossa política? Eu direi que é a de fazer a guerra, por mar, terra e ar, com todo o nosso poder e com toda a força que Deus nos deu; fazer a guerra contra uma monstruosa tirania, nunca ultrapassada no lamentável catálogo do crime humano. Esta é a nossa política… Perguntam-me, qual é o nosso objectivo? Posso responder numa palavra: é a vitória. Vitória a todo o custo, vitória a despeito de todo o terror, vitória por mais longo e difícil que possa ser o caminho que a ela nos conduz; porque, sem vitória, não sobreviveremos.”[3]

 

Menos de um mês depois, a 4 de Junho, Churchill voltaria ao Parlamento, um dia após a evacuação com êxito de 224,318 soldados ingleses e 112,172 soldados franceses de Dunkirk. Foi neste contexto que ele proferiu o célebre discurso no Parlamento:

 

“Apesar de largas partes da Europa e muitos velhos e famosos Estados terem caído ou poderem cair nas garras da Gestapo e de todo o odioso aparato do poder Nazi, nós não vacilaremos.

Iremos até ao fim. Combateremos em França, combateremos nos mares e nos oceanos, combateremos no ar com crescente confiança e crescente força, defenderemos a nossa ilha, qualquer que seja o seu custo.

Lutaremos nas praias, lutaremos nos campos de aterragem, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas montanhas; nunca nos renderemos.”[4]

 

A 8 de Maio de 1945, Churchill pôde celebrar a vitória da causa da liberdade pela qual se batera incansavelmente. Menos de dois meses depois, a 5 de Julho, a sua venerada democracia parlamentar britânica derrotava-o em eleições gerais, dando uma larga vitória ao partido Trabalhista de Clement Attlee, que tinha sido seu leal vice-primeiro-ministro durante a guerra. Churchill aceitou a derrota eleitoral sem um protesto. E passou tranquilamente a liderar a bancada da Leal Oposição Conservadora de Sua Majestade.

 

O Reino Unido estava exausto. A Europa estava exausta. Mas o velho Winston Churchill, então com 71 anos, não se rendeu. No ano seguinte, em Março de 1946, no Colégio de Westminster, em Fulton, Missouri, na presença do Presidente Truman, Churchill denunciou solenemente a Cortina de Ferro que a União Soviética impusera na Europa central e de Leste:

 

“De Stettin no Báltico até Trieste no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente europeu. Para lá dessa linha ficam todas as capitais dos antigos estados da Europa central e oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sofia, todas estas famosas cidades e as populações circundantes estão agora no que eu devo chamar de esfera soviética, e todos estão submetidos, por uma forma ou por outra, não apenas à influência soviética mas também em grande e crescente medida ao controlo de Moscovo.”[5]

 

Este foi o ponto de partida oficial para o início da chamada “Guerra Fria” que opôs o Ocidente ao bloco soviético. Uma guerra fria que viria a ser vencida pacificamente pelo Ocidente com a queda do Muro de Berlim, em 1989. Churchill já não pôde testemunhar essa nova vitória da civilização ocidental pela qual combatera toda a vida. Mas tinha sido ele, mais uma vez, quem denunciara em primeiro lugar o despotismo soviético — e fizera-o enquanto líder da Leal Oposição Conservadora britânica.

 

Foi neste estatuto de líder da Leal Oposição Conservadora de Sua Majestade que Churchill visitou a Madeira em Janeiro de 1950. Mas — como recorda eloquentemente este livro de Miguel Albuquerque, e como as excelentes fotografias ilustram, — foi como líder do Mundo Livre que ele foi recebido entusiasticamente pela população madeirense.

 

Esta entusiástica recepção constituiu também uma honrosa homenagem à aliança luso-britânica, selada no Tratado de Windsor, em 1386. É a mais antiga aliança, ainda em vigor, do mundo ocidental. Tem sido muito criticada por modas intelectuais recorrentes, de esquerda e de direita. Infelizmente, tem sido muito pouco defendida na praça pública. Devemos estar gratos a Miguel Albuquerque, e à sábia população da Madeira que o elegeu, por esta destemida e eloquente recordação da visita de Churchill à Madeira — e da ancestral aliança luso-britânica que ela ilustrou.


 

Winston Churchill and the Western Civilisation of Liberty under Law

João Carlos Espada

(Director, Institute for Political Studies at the Catholic University of Portugal; President, the International Churchill Society of Portugal).

 

It was with some surprise that I received a phone call from HE the President of the Regional Government of Madeira, telling me that he was going to publish a book of his on the visit that Winston Churchill had paid to Madeira in January 1950. I say with “some surprise” only, because I already knew quite well of the admiration that Mr. Miguel Albuquerque had for Winston Churchill and of his familiarity with the life and work of the great statesman. That admiration and this familiarity had become quite apparent in the remarkable interventions of Mr. Miguel Albuquerque at several Churchillian events which have been and are frequently promoted by the Institute for Political Studies of the Catholic University of Portugal, in association with the International Churchill Society of Portugal.

 

My surprise was rather stronger when Mr Miguel Albuquerque invited me to write a preface for his book. I am very honoured by this invitation, which I have immediately accepted, but not without some trepidation. And this trepidation has only increased when I read the magnificent work that the reader now has in his or her hands. My preface will be a rather modest contribution to this great “Madeirense” and Portuguese tribute to Winston Churchill — a modest contribution that is privileged to accompany an eloquent historical and literary work of Miguel Albuquerque, as well as an extremely beautiful photo collection.

 

Even in the present days, Winston Churchill is still acknowledged as the man who led the Western resistance against nazi totalitarianism and as one of the very first to denounce soviet totalitarianism. But his political views tend now to be discarded and many denounce them as reactionary and outdated. I would like to challenge that perception and to recall some of the many aspects that made Winston Churchill “the proud heir and representative of the old European and Western tradition of liberty under law, to whom Europe has owed her liberty” — to quote the very appropriate evaluation of Miguel Albuquerque in the present book.

 

Winston Churchill was born in 1874 in a very ancient English aristocratic family, even though his mother was American. He studied at Harrow, one of best English public (ie, private) schools, but he did not go into University, having embarked upon a military career and studying at the very distinguished military academy of Sandhurst. He was elected to Parliament for the first time in 1900, and he remained a Member of Parliament until 1964, having died in January 1965. Churchill was always a profound admirer of, and an active participant in, the British Parliament.

 

At the dawn of the 20th century, the new intellectual fashions that were then emerging in Europe did not express great enthusiasm, to say the least, for the Western parliamentary democracy. It is perhaps worth recalling that, in 1904, Winston Churchill left his Conservative bench at the British Parliament and crossed the aisle to join the Liberal bench.Twenty years later, in 1924, he crossed the floor again and returned to the Conservative bench. But, whereas Churchill was changing benches between two very ancient parliamentary parties, the intellectual fashions of those times were attacking parliamentary democracy and the institution of the market economy. That was a period in which European democratic institutions, with the exception of the British and the Swiss ones, were disturbed by war and by revolutionary ideologies, both from the left and the right.

 

The new intellectual fashions tended to be ardent supporters of the revolutionary tides, either of the left or the right, either of communism or of what would become national-socialism. Revolutionaries presented themselves as spokesmen for a new world. One should leave behind the paralysis of parliamentary democracy and the commercial pettiness of capitalism, they claimed. England and America were described as symbols of the old world. They were said to be hostages to the “Jewish conspiracy” and the “world financial plutocracy”. England and America were accused of resisting the new centralised and innovative “total state” which was introduced by Lenin in Russia, in 1917, then by Mussolini in Italy, in 1924, later by Hitler in Germany, in 1933. Many people in Europe were sensitive to the new trends: “Yes, the world is changing,” -- they would say -- “and we must change with the world”.

 

Winston Churchill remained immune to the language of revolution and innovation. He was described as an old-fashioned reactionary who did not understand the new times. But Churchill did understand the new times. And he did not like what he understood. Churchill was an admirer of the European and Western tradition of liberty, to which he thought his country and the British Empire had given a significant contribution. He had carefully studied Macaulay and his whig, liberal-conservative, view of English history. He therefore knew very well that the 1688 Glorious Revolution – the last revolution that England underwent – was made with reluctance and with the main purpose of making further revolutions unnecessary. He therefore was not impressed by the language of revolution that was growing on the Continent.

 

This tradition can hardly be translated in modern ideological language. But Churchill summarised it brilliantly in a passage in which he tried to describe the political views of his father, Lord Randolph Churchill, who had been a distinguished Conservative Member of Parliament. Winston Churchill said:

 

“He [Lord Randolph Churchill] saw no reason why the old glories of Church and State, of King and country, should not be reconciled with modern democracy; or why the masses of working people should not become the chief defenders of those ancient institutions by which their liberties and progress had been achieved. It is this union of past and present, of tradition and progress, this golden chain, never yet broken, because no undue strain is placed upon it, that has constituted the peculiar merit and sovereign quality of English national life.”[6]

 

It was on the basis of this “golden chain” that Churchill announced from the outset his firm opposition to communism and national-socialism, saying that “between the doctrines of Comrade Trotsky and those of Dr. Goebbels there must be  space for each of us, and some more people, to cultivate our own opinions.” In a speech in 1938, Churchill recalled the tradition of liberty under law for which he condemned the double threat of communism and national-socialism:

 

““Have we not an ideology — if we must use this ugly word — of our own in freedom, in a liberal constitution, in democratic and Parliamentary government, in Magna Carta and the Petition of Right?” [7]

 

         It was on behalf of this Western tradition of liberty under law that Winston Churchill did all he could to resist against tyranny. In his first speech as Prime Minister in the House of Commons, on 13 May 1940, while he was still forming his Cabinet, he announced his programme of resistance in words that became famous:

 

““I have nothing to offer but blood, toil, tears and sweat. We have before us an ordeal of the most grievous kind. We have before us many, many long months of struggle and of suffering. You ask, what is our policy? I will say, it is to wage war, by sea, land and air, with all our might and with all the strength that God can give us; to wage war against a monstrous tyranny, never surpassed in the dark, lamentable catalogue of human crime. This is our policy. You ask, what is our aim? I can answer in one word: Victory — victory at all costs, victory in spite of all terror, victory, however long and hard the road may be: for without victory, there is no survival.”[8]

 

Less than one month later, on 4 June, Churchill returned to Parliament, one day after the successful evacuation of 224,318 British soldiers and 112,172 French soldiers from Dunkirk. It was in this context that he made his famous speech before Parliament:

 

““Even though large tracts of Europe and many old and famous States have fallen or may fall into the grip of the Gestapo and all the odious apparatus of Nazi rule, we shall not flag or fail. We will go on to the end. We shall fight in France, we shall fight on the seas and the oceans, we shall fight in the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender.”[9]

 

On 8 May 1945, Churchill was able to celebrate the victory of the cause of liberty for which he had fought tirelessly. Less than two months later, on 5 July, his venerated British parliamentary democracy defeated him in general elections, giving a landslide victory to the Labour Party of Clement Attlee, who had been his loyal deputy Prime Minister during the war. Churchill accepted the electoral defeat without a protest. And he quietly became the leader of Her Majesty’s Loyal Opposition.

 

The United Kingdom was exhausted. Europe was exhausted. But the old Winston Churchill, then aged 71, did not surrender. In the following year, in March 1946, at Westminster College, in Fulton, Missouri, in the presence of President Truman, Churchill denounced the Iron Curtain that the Soviet Union had imposed upon Central and Eastern Europe:

 

“From Stettin in the Baltic to Trieste in the Adriatic, an iron curtain has               descended across the Continent. Behind that line lie all the capitals of the     ancient states of Central and Eastern Europe. Warsaw, Berlin, Prague,        Vienna, Budapest, Belgrade, Bucharest and Sofia, all these famous cities             and the population around them lie in what I must call the Soviet sphere,     and all are subject in one form or another, not only to Soviet influence but to a very high and, in some cases, increasing measure of control from Moscow.”[10]

 

This was the official starting point of the “Cold War” that has opposed the West agains the Soviet bloc. A cold war that was peacefully won by the West at the fall of the Berlin Wall in 1989. Churchill could no longer witness that victory of the Western civilisation for which he had fought the whole his life. But it had been he, once again, who had first denounced soviet despotism — and he had done that as the leader of Her Majesty’s Conservative Loyal Opposition.

 

It was under this status of Her Majesty’s Conservative Loyal Opposition that Churchill visited Madeira in January 1950. But — as it is eloquently recalled in this book by Miguel Albuquerque, and as it is beautifully illustrated by the excellent photos — it was as leader of the Free World that he was enthusiastically welcomed by the people of Madeira.

 

This enthusiastic reception was also a honourable tribute to the Luso-British alliance, sealed in the Windsor Treaty of 1386. It is the oldest surviving alliance of the Western world. It has been much criticised by recurrent intellectual fashions, both from the left and from the right. It has unfortunately been seldom defended in the public square. We must be grateful to Miguel Albuquerque, and to the wise population of Madeira who have elected him, for this courageous and eloquent recollection of Churchill’s visit to Madeira — and of the ancestral Luso-British alliance that this visit has illustrated.


 

 

[1] Winston S. Churchill, “Personal Contacts”, in Thoughts and Adventures, (London: Thornton Butterworth, Ltd, 1934), p. 52.

[2] Discurso de 9 de Maio de 1938, citado em Peter Clarke, Mr Churchill’s Profession: Statesman, Orator, Writer (London: Bloomsbury, 2012), p. 225.

[3] Discurso no Parlamento de 13 de Maio de 1940, citado por Martin Gilbert, Winston Churchill’s War Leadership, (New York: Vintage Books, 2004), pp. 38-9.

[4] Discurso no Parlamento a 4 de Junho de 1940, citado por Martin Gilbert, Winston Churchill: A Life (London: Heinemann, 1991), p. 656.

[5] Discurso em Fulton, Missouri, citado e discutido em James W. Muller, ed., Churchill’s Iron Curtain Speech Fifty Years Later (Columbia and London: University of Missouri Press, 1999).

[6] Winston S. Churchill, “Personal Contacts”, in Thoughts and Adventures, (London: Thornton Butterworth, Ltd, 1934), p. 52.

[7] Speech on 9 May 1938, quoted in Peter Clarke, Mr Churchill’s Profession: Statesman, Orator, Writer (London: Bloomsbury, 2012), p. 225.

[8] Speech in the House of Commons, 13 May 1940, quoted in Martin Gilbert, Winston Churchill’s War Leadership, (New York: Vintage Books, 2004), pp. 38-9.

[9] Speech in the House of Commons, 4 June 1940, quoted in Martin Gilbert, Winston Churchill: A Life (London: Heinemann, 1991), p. 656.

[10] Speech in Fulton, Missouri, quoted and discussed in James W. Muller, ed., Churchill’s Iron Curtain Speech Fifty Years Later (Columbia and London: University of Missouri Press, 1999).

Reis de Portugal e sua Descendência | Volume 2 - 1º capítulo

 D. LUÍS I (1838 — 1889)

 

Com a colaboração de: António Sérgio, Pedro Batalha Reis, Afonso Zúquete

 

Trigésimo-primeiro rei de Portugal, D. Luís I nasceu em Lisboa, no Palácio das Necessidades, a 31-10-1838 e morreu na Cidadela de Cascais a 19-10-1889. Foi batizado na Capela das Necessidades a 14-11‑1838, com o nome completo de Luís Filipe Maria Fernando Pedro de Alcântara António Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis João Augusto Júlio Volfando, tendo tido como padrinho o rei de França, Luís Filipe. Foi cognominado o Popular.

Até à morte do irmão, o rei D. Pedro V, foi o infante D. Luís o 1.° duque do Porto e duque da Saxónia. Destinou-o a mãe à carreira da armada, não simplesmente como oficial de marinha honorário, mas como prático. Quando faleceu D. Maria II (15-11‑1853) contava D. Luís 15 anos de idade, e D. Pedro, o irmão mais velho, 16, faltando a este apenas 2 para atingir a maioridade, segundo a Constituição do país. Ficou o pai, D. Fernando, regente do reino, e os dois irmãos logo empreenderam uma viagem pelas cortes europeias. Saíram do Tejo no vapor Mindelo em maio de 1854, foram diretamente a Londres, e de aí passaram à Bélgica,

Holanda, Prússia, Áustria, França, Saxe-Coburgo-Gotha, voltando depois a Londres, de onde regressaram a Lisboa. Pela rainha Vitória foram recebidos com particular carinho.

No ano seguinte realizaram outra viagem, visitando algumas das cortes onde já haviam estado no anterior, e também a Itália e a Suíça. No regresso, o príncipe assumiu o governo (16-9‑1855), com o nome de D. Pedro V, no próprio dia em que fazia 18 anos de idade. Quanto a D. Luís, foi investido no comando do brigue Pedro Nunes, e depois no da corveta Bartolomeu Dias, da qual era o verdadeiro comandante o seu precetor naval, o então capitão-de-mar-e-guerra, depois almirante, António Sérgio de Sousa, visconde de Sérgio de Sousa. Nesse navio visitou os nossos portos africanos, designadamente os de Angola. Regressado à Europa, e promovido ao posto de capitão-de-fragata (24-3‑1858), acompanhou a Lisboa a sua futura cunhada, D. Estefânia, e em Lisboa assistiu, na qualidade de condestável do reino, ao casamento de D. Pedro V (maio de 1858).

Em 1861 saiu de Lisboa com o infante D. João, em viagem pela Europa, e achava-se em Londres quando recebeu a notícia de que D. Pedro V adoecera gravemente, pelo que urgia o seu regresso a Portugal. Os dois infantes embarcaram logo na Bartolomeu Dias, e desembarcaram em Lisboa pouco depois do falecimento do rei, ocorrido a 11-11‑1861. O infante D. Fernando, ainda criança, morrera dois dias antes do monarca; em dezembro seguinte, nas vésperas do Natal, finava-se o infante D. João, enfermando gravemente D. Augusto. Correram boatos de envenenamento, acusando-se pessoas do paço, e fantasiando-se que o marido da rainha Vitória, o príncipe Alberto, com quem D. Luís jantara na véspera da sua partida, sucumbira, por engano, a um envenenamento preparado para este.

O povo tumultuou pelas ruas. A saída do duque de Loulé do ministério, e de alguns dos outros ministros, que eram os mais alvejados pelas suspeitas populares, concorreu para que a situação se fosse modificando, mas verdadeiramente só houve completo sossego em 1864, depois de sufocada a insurreição militar que rebentara no Minho.

O novo soberano, tendo assumido o governo a 14-11‑1861, convocou para o dia seguinte as cortes, às quais ratificou o juramento feito, e foi aclamado a 22 de dezembro seguinte.

Pensou-se no seu casamento, sendo escolhida a filha mais nova do rei de Itália, Vítor Manuel II, a princesa Maria Pia de Saboia. Realizou-se o consórcio por procuração em Turim a 27-9‑1862, sendo ratificado em Lisboa a 6 do mês seguinte.

Em 1865 houve no Porto uma exposição internacional no Palácio de Cristal, construído para esse fim. Nesse ano caía o ministério progressista histórico perante a fusão de um dos principais grupos desse partido com o partido regenerador. Constituiu-se então um gabinete presidido por Joaquim António de Aguiar (4-9‑1865), sendo sua personalidade proeminente Fontes Pereira de Melo, estadista muito afeiçoado a D. Luís.

A 1-1-1868, em consequência da criação do imposto geral de consumo, criado pela lei de 10-6‑1867, que a opinião pública recebeu mal, deu-se o motim a que se chamou Janeirinha.

Este movimento teve a sua mais ruidosa manifestação no Porto, no 1.° de janeiro, facto que deu origem ao título do jornal portuense O Primeiro de Janeiro, fundado por Gaspar Ferreira Baltar.

O monarca recebeu uma comissão protestatária de portuenses; o ministério demitiu-se, e foi chamado ao governo António José de Ávila, já conde de Avila, que organizou governo com José Dias Ferreira na pasta da Fazenda.

Abertas as cortes a 15 de abril, teve a sessão a marcá-la a atitude assumida pelo conde de Peniche (mais tarde marquês de Angeja), um dos mais enérgicos propulsores da Janeirinha, que atacou Ávila como lesador da liberdade de reunião. As medidas que tinham provocado os tumultos foram revogadas. Dias Ferreira apresentou uma reforma tributária contra a qual gritaram as oposições, protestando contra os vencimentos do alto clero, dos diplomatas e dos funcionários que não trabalhavam, e achando que deviam ser reduzidas as despesas com luxos de representação. Ou se libertava o tesouro da parasitagem, ou se não pagaria mais tributos. Viu-se o governo obrigado a contrair empréstimos com juros elevadíssimos, que ainda mais agravaram a crise política e financeira. Para maior desgraça, a guerra do Paraguai impedia a remessa de dinheiro do Brasil para a Europa, o que muito afetava o crédito português, já vacilante pelas discórdias internas.

Assustava também o país a revolução que rebentara em Espanha em 1868 para derrubar do trono a rainha D. Isabel II. Apelou-se para o recurso das economias, e o ministério de Ávila foi substituído por outro, presidido pelo marquês de Sá da Bandeira, mas onde a personalidade dominante era o bispo de Viseu, D. António Alves Martins, que tomou a pasta do reino. A sua obra, porém, foi apenas burocrática, sem que se entrasse no período das grandes reformas reclamadas.

Em 1869 subiu ao poder um ministério progressista, presidido pelo duque de Loulé. As circunstâncias não melhoravam. Entretanto, chegava a ponto agudo a questão ibérica. Em Espanha decidiu-se, depois da fuga da rainha, procurar um rei, e viram-se em Lisboa, onde havia partidários da união ibérica, cartazes onde se lia: «Viva o senhor D. Luís, chefe dos dois países unidos! portugueses, ponhamos de parte estúpidos preconceitos: Portugueses e espanhóis são irmãos pela religião, pelos costumes, pelo idioma, e sobretudo pelo decidido amor à liberdade». Foi nessa ocasião que D. Luís escreveu uma famosa carta em que afirmava que nascera português, e português queria morrer.

O ministro da Fazenda, conde de Samodães, empreendeu economias, mas pouco tempo se manteve com a sua pasta. O rei cedia 36 contos por ano da sua lista civil, a décima parte do rendimento da dotação da rainha, pagando os príncipes 4 contos por ano para as urgências do tesouro. Compraram-se as linhas férreas do Sul e Sueste, que habilitavam ao empréstimo de 4 milhões de libras contratados em Londres na Casa Goschen. Adjudicavam-se-lhe os rendimentos dos tabacos e das alfândegas para garantir a anuidade do pagamento de 420 mil libras, durante 30 anos.

A 11-8‑1869 o ministério do bispo de Viseu era substituído por um chefiado pelo duque de Loulé, presidente e ministro do Reino, figurando na pasta da Justiça José Luciano de Castro, que era chamado pela primeira vez aos conselhos da coroa. Este gabinete não era do agrado da maioria dos deputados de renome. As eleições tinham decorrido tumultuariamente, e formou-se uma conjura.

O marechal duque de Saldanha, julgando-se ofendido pelo governo de Loulé, promoveu a revolta militar de 19-5-1870. Com as forças que se tinham formado em Entre-Muros, perto de Campolide, onde o marechal residia, avançou sobre o Paço da Ajuda na noite de 18 para 19 e pediu a D. Luís a demissão do ministério. Falou ao rei acompanhado de uma comissão (Sena de Freitas, Silva Lobo, Liberato Branco, D. Diogo e D. Francisco de Sousa, etc.) e obteve a queda do governo. O chefe da revolta, nomeado presidente, preencheu as pastas com partidários do conde de Peniche e do bispo de Viseu, entrando também Rodrigues Sampaio.

Este ministério apenas durou cem dias, levantando contra si todos os partidos organizados. À revolta de 19 de maio respondeu o golpe de Estado de 29 de agosto, pelo qual o monarca demitiu o ministério Saldanha, chamando ao poder Sá da Bandeira, o qual imediatamente cedeu ao conde de Ávila o encargo de constituir o ministério, pois que o velho general só pensara em livrar o soberano da situação difícil em que se encontrava. O novo gabinete formou-se com elementos reformistas, sendo o bispo de Viseu um dos ministros. A 13-9‑1871 demitiu-se esse ministério subindo ao poder Fontes Pereira de Melo, que organizou um gabinete regenerador, o qual se conservou até 1877.

Durante esse largo período deram-se agitados acontecimentos em Espanha. O rei Amadeu viu-se obrigado a abdicar, sendo proclamada a república. Perante a desordem em que decorreu a vida desta, foi restabelecida a monarquia (janeiro de 1875).

Elementos dos partidos histórico e reformista juntaram-se na Granja, a fim de se unirem num só partido — o progressista — os políticos que andavam dispersos. Anselmo Braamcamp, eleito chefe dos históricos, deu grande impulso à ideia, e a 7-12‑1876 instalava-se o novo organismo político («Pacto da Granja»), tendo à sua frente, além de Braamcamp, o bispo de Viseu, Pereira de Miranda, António de Sá Nogueira (já falecera Sá da Bandeira, a 6 de janeiro daquele ano), Saraiva de Carvalho, José Luciano de Castro, Luís Daun e Lorena, Maldonado de Eça, Mariano de Carvalho, Manuel de Jesus Coelho e os viscondes de S. Januário e de Valmor.

No princípio do ano de 1877 demitiu-se o ministério regenerador de Fontes, depois de se conservar no poder durante um período de seis anos, em que se deu ao país a impressão da prosperidade. Seguiu-se o do duque de Ávila (6-3‑1877), que não pôde sustentar-se por lhe faltar maioria. Supunha-se que lhe sucederia o novo partido progressista, mas não aconteceu assim; e quando, em 1878, rebentou um conflito parlamentar, foi chamado outra vez Fontes para constituir gabinete.

Deste facto se originou uma das campanhas de mais vastas consequências que ocorreram em Portugal. Os progressistas atacaram diretamente o rei, acusando-o de patrocinar escandalosamente os regeneradores, isto com grave desprestígio do regime monárquico e incentivo ao desenvolvimento do republicanismo. Anselmo Braamcamp acusou o rei de não haver resolvido a crise conforme as indicações constitucionais, mostrando-se parcial a favor de Fontes. O Diário Popular e o Progresso publicaram artigos violentíssimos. Este último dizia: «O senhor D. Luís lançou mão, como de uma arma de guerra, do poder pessoal». Adiante acrescentava ter o monarca «afastado os progressistas do poder a golpes de Estado», arrojando-se inconstitucionalmente nos braços dos regeneradores, «enodoados pela sua própria crápula». Joaquim Martins de Carvalho, no Conimbricense, chamava aos regeneradores o «partido do rei», e perguntava: «Então voltamos à época do poder pessoal, em que o reinante, em vez de ser o primeiro magistrado da nação, era também o chefe de um bando político?». Apareciam opúsculos soeses, panfletos de prosa contundentíssima.

O nome de D. Luís foi completamente desprestigiado; acusavam-no das faltas mais graves: de haver procurado subir ao trono de Espanha, entrando para isso em negociações com Napoleão III, e não sendo, portanto, a sua célebre carta, em tempo publicada, senão um documento hipócrita; de ter sido cúmplice do marechal Saldanha na revolta de 19-5-1870, com o fim de demitir o ministério de Loulé porque o duque recusara aumentar o subsídio ao Teatro de S. Carlos para que a empresa pudesse contratar certa bailarina de notável formosura, etc.

Alcançou por então grande êxito o jornal de caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro, o qual tinha por título o nome do presidente do conselho: António Maria (12-6‑1879). Em todos os números era caricaturado o rei. O desenhador criou nesse período a famosa figura do Zé Povinho, representativa do povo português.

Os republicanos (Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, Elias Garcia, Rodrigues de Freitas, etc.) propuseram-se a deputados nas eleições de 1879, falando num comício celebrado no Teatro da Rua dos Condes, presidido pelo escritor Ramalho Ortigão. A campanha difamatória contra D. Luís durou um ano, ao fim do qual, tendo caído o ministério regenerador (junho de 1879),      D. Luís chamou os progressistas a formarem gabinete.

Os republicanos tomaram mais ímpeto quando se celebrou o centenário de Camões. A maçonaria ajudou a promover essa manifestação, que inquietou o governo e o paço. Organizou-se um grande cortejo (10-6‑1880) que passou entre estrondosas aclamações, nas quais havia um manifesto propósito de assoalhar republicanismo.

Em 1881 levantou-se a questão do projeto de tratado com a Inglaterra relativo a Lourenço Marques e à Índia. Esse projeto, que o governo progressista queria fazer votar nas câmaras, continha cláusulas extremamente desagradáveis para o País. A Grã-Bretanha poderia construir um caminho de ferro até o Transvaal; dar-se-lhe-ia isenção de direitos para as mercadorias inglesas, no porto; consentir-se-lhe-ia embarque e desembarque de tropas; conceder-se-lhe-ia livre-trânsito pelos domínios portugueses no Ultramar, acordo de pautas, edificações de armazéns no términus da linha, sob a direção de agentes ingleses, e licença para os navios britânicos poderem exercer a sua ação fiscalizadora nas águas de Moçambique — devendo ser perpétuas todas estas concessões. Levantaram-se protestos por todo o país. Faziam-se comícios em que falavam oradores republicanos, os quais se aproveitavam da repulsa que o tratado inspirou para promoverem uma agitação, de que resultou a queda do ministério. Por fim concordou-se, ao cabo de longas negociações, em se substituir a cláusula da perpetuidade do tratado pela de um período de 12 anos; em fazer depender o fim das isenções de direitos de alfândega da amortização do capital empregado no caminho de ferro; em ficar dependente de uma convenção especial a passagem das tropas; e em que a polícia dos cruzadores britânicos só seria possível desde que levassem a bordo um oficial português. Quanto à pauta, ficaria em igualdade de condições com a do Transvaal.

Reis de Portugal e sua Descendência | Volume 1 - 1º capítulo

D. JOÃO II (1455–1495)

 

Com a colaboração de: António Sérgio, Fernando da Silva Correia, Hernâni Cidade, Pedro Batalha Reis, Afonso Zúquete

 

D. João II, décimo-terceiro rei de Portugal, cognominado o Príncipe Perfeito, porventura o maior dos soberanos portugueses, nasceu em Lisboa, no paço da Alcáçova, a 3-3-1455 e morreu em Alvor a 25-10-1495.

Caracteriza-se o seu reinado pelo estabelecimento da supremacia do poder real sobre a nobreza e por um impulso decisivo à obra dos Descobrimentos, impulso cujo resultado supremo se viu logo no princípio do reinado seguinte, quando Vasco da Gama chegou a Calicut.

Descrevem-no os cronistas como homem mais alto que baixo, espadaúdo mas bem proporcionado, «enxuto de carnes», destro, de grande força muscular, a ponto de cortar de um só golpe de espada quatro tochas juntas, «coisa que nunca achou quem fizesse». Trazia por vezes os olhos raiados de sangue, o que, nos acessos de ira, lhe dava um aspeto «mui temeroso». A obra do fortalecimento do poder real levou-a a cabo com feroz energia, e disse pouco antes de falecer: «não me conforteis, que eu fui tão mau bicho que nunca me acenavam que não mordesse». Os seus hábitos de economia no que tocava às finanças do Estado não obstavam a que «sempre se prezou de andar bem e ricamente vestido» e a que se mostrasse ostentoso e magnífico nas grandes festividades. Na poupança do património da coroa é que usava de severidade estrita; de bens territoriais fez pouquíssimas concessões, e apenas de rendimentos, sem jurisdições ou senhorios, que reservava para a coroa; tais concessões, além disso, «nunca passavam de vida», regressando à fazenda régia por morte dos agraciados. Na administração da justiça mostrou-se «mais rigoroso e severo que piedoso». Diz ainda Rui de Pina que «em sua vida foi havido por seco de condição e não humano, nem pareceu em vida de todos assim amado e estimado como o foi depois da sua morte».

Já monarca, conservou por emblema o pelicano, que adotara em príncipe, por sua mulher D. Leonor, e, como moto correspondente, a divisa célebre «Pola ley e pola grey». Em janeiro de 1471, dez anos, portanto, antes de subir ao trono, casou com sua prima coirmã D. Leonor, filha do infante D. Fernando, duque de Viseu. Dividiremos a sua biografia pelas seguintes rubricas: 1, ação enquanto príncipe; 2, relações com Castela e projeto de união das duas coroas; 3, ação para o estabelecimento da supremacia do poder real sobre a nobreza; 4, política em Marrocos; 5, política naval e de descobrimento; 6, o Tratado de Tordesilhas; 7, relações comerciais e políticas na Guiné e África equatorial; 8, relações com a Igreja; 9, procedimento para com os judeus; 10, assistência e organização militar.

  1. Ação enquanto príncipe.
Em 1471, contando apenas 16 anos de idade, acompanhou o pai na expedição a Marrocos, de onde resultou a tomada de Arzila e de Tânger, sendo armado cavaleiro pelo soberano depois da conquista daquela cidade, e recebendo dele o governo «das coisas de África», ao mesmo tempo que a doação dos rendimentos da alfândega de Lisboa e do comércio da Guiné. Passou desde então a dedicar-se aos negócios do Ultramar, a que tanto interesse consagraria depois de subir ao trono.
D. Afonso V, quando empreendeu a campanha em que pretendia conquistar a coroa de Castela, depois do seu casamento com D. Joana, decidiu deixar o príncipe na regência do reino. Tendo determinado em conselho as normas que o filho deveria seguir na administração da Justiça, no regimento da Fazenda e na concessão de mercês (8-4‑1475), em maio, estando em Arronches, fez um dia chamar todos os prelados, pessoas principais e cavaleiros, bem como os deputados das cidades e vilas do reino, e perante todos mandou em voz alta ler a patente pela qual declarava deixar a governança do reino ao príncipe.

Neste lance, manifestou D. João cabalmente a sua capacidade. O pai levara consigo o melhor da gente de guerra, cavaleiros e peões, e com o pouco que lhe ficara teve o regente de provar as suas capacidades de militar e de organizador, resistindo às incursões castelhanas, às quais, diz Rui de Pina, «o príncipe de noite e de dia, e em armas sempre vestido, socorria e resistia com muita viveza e trabalho, não como príncipe moço e novel, mas como ardido e velho cavaleiro que nos trabalhos e afrontas fora experimentado».

Depois de várias ações em que fez frente aos invasores, reuniu na Guarda os Estados do reino, e com conselho e parecer de todos apercebeu-se para entrar em Castela, em socorro do pai, que nada conseguira adiantar; «e para os gastos desta empresa», diz Damião de Góis na sua Crónica do príncipe D. João, «além do dinheiro que pôde haver das rendas do reino, pediu particularmente emprestado a todos aqueles que o podiam fazer; e, vendo que isto não bastava, por consentimento do estado eclesiástico tomou toda a prata das igrejas que não era sagrada, a qual ele, como bom e católico cristão, depois do falecimento de El-rei seu pai, pagou; e, como teve prestes a gente que havia de levar, e ordenadas as coisas que cumpriam ao reino, cuja governança ficou à princesa, sua mulher, partiu da cidade da Guarda em janeiro de 1476, entrando em Castela com sua hoste mui bem ordenada».

Dirigiu-se a Toro, «onde foi recebido de El-rei, da Rainha, e dos senhores e cavaleiros, que na vila estavam, com tanto prazer e alegria, como pessoa tão desejada, e em cujo socorro tinham todos posta sua esperança». Quinze dias depois saíam os portugueses em direção de Zamora, até que a 2-3‑1476, na planície de Toro, as forças do rei e do príncipe se encontraram com as de Fernando e de Isabel. «O príncipe D. João se pôs à mão esquerda da batalha de El-rei seu padre, afastado um pedaço dela, contra duas alas das mores do inimigo», afirma o mesmo cronista; e «ele (D. João) e assi seus capitães, com singular destreza e maravilhoso esforço, deram assi rijamente nas batalhas contrairas que, não podendo elas sofrer nem resistir tanta força, logo uma após outra foram desbaratadas e postas em fugida» (Rui de Pina). A parte do exército comandada pelo rei, porém, foi vencida. D. João, após o desbarato da ala direita castelhana, com a qual se defrontara, mandou cessar o combate e acolheu-se a um cômoro, esperando que a sua ala se refizesse com os que se haviam dispersado em perseguição do inimigo e que regressavam pouco a pouco. Caiu a noite. Apesar de militarmente indecisa, a batalha foi uma vitória política para Fernando, pois o rei de Portugal não pôde mais sustentar o seu exército na campanha e ficou aquele como assegurado soberano de Castela. Ao que parece, D. João manifestou o desejo de se conservar três dias no campo da contenda, para assim atestar a sua vitória, à maneira medieval; mas foi disso dissuadido, e retirou para Toro com as suas tropas, ao amanhecer.

Depois de se demorar alguns dias na Guarda, partiu a percorrer a fronteira, provendo os castelos e vilas do necessário, distribuindo tropas de cavalo pelas comarcas e tratando ao mesmo tempo da administração do reino, «o que tudo fazia com tanto tento e prudência que não tão somente se espantavam seus naturais haver nele tal juízo e saber nas coisas da guerra, mas os mesmos reis D. Fernando e D. Isabel afirmavam muitas vezes em prática que maior caso faziam da astúcia e vigilância do príncipe D. João que do acelerado e denodado esforço de El-rei D. Afonso, seu pai» (Góis).

Quando D. Afonso V foi a França combinar com Luís XI uma ação conjunta de França e Portugal contra aragoneses e castelhanos, D. João, que no reino continuou como regente, após uma campanha em terras do Guadiana, convocou cortes para Montemor-o-Novo, onde foram votados os «pedidos» necessários à satisfação das despesas da campanha. A seguir a isso, conseguiu evitar que uma incursão dos castelhanos pelo Guadiana chegasse até Évora.

Em novembro desse ano de 1477 chegaram a Portugal as cartas em que D. Afonso participava a sua abdicação a favor do filho e a retirada para Jerusalém. D. João, ouvido o conselho, resolveu fazer-se proclamar rei, no alpendre de S. Francisco, em Santarém (10-11-1477). Poucos dias depois, porém, chegava D. Afonso, e o filho restituiu-lhe a coroa, não assentindo em que o pai ficasse apenas rei do Algarve, como pretendia. A 28-8‑1481 falecia D. Afonso, e principiava o reinado de D. João II.

  1. Relações com Castela e projetos de união das duas coroas.
Já antes da sua acessão ao trono fora ele quem dirigira as negociações de paz com Castela, no decurso das quais se assentou o tratado das «terçarias de Moura». Estipulou-se aí que o infante D. Afonso, primogénito do príncipe D. João, casasse com a infanta D. Isabel, filha mais velha dos reis de Castela, e D. Joana com o príncipe João de Castela, filho dos reis Católicos, acordando-se ainda que, por caução do ajustado, D. Joana, o infantezinho Afonso de Portugal e a infanta de Castela, D. Isabel, fossem «postos em terçaria» na vila de Moura, confiados à guarda e educação da infanta D. Beatriz, avó de um e tia dos outros. O projetado casamento do infantezinho D. Afonso significava para o monarca português a possibilidade da união ibérica sob o cetro de seu filho.

No ano seguinte ao da sua subida ao trono, D. João II, receando pela segurança daquele, enviou a Castela, como embaixador, o barão de Alvito (a quem acompanhava, como secretário, Rui de Pina, o futuro cronista) com o encargo de obter a mudança do príncipe D. Afonso de Moura para a corte, ou propor a anulação do tratado das terçarias, o que veio a conseguir, modificando-se o relativo ao casamento de D. Afonso com D. Isabel.

Esse casamento, porém, voltou a ser ajustado mais tarde (1488) e realizou-se a 23-11‑1490 com sumptuosíssimas festas, em Évora. Porém, a 12-7‑1491, correndo o príncipe a cavalo na margem do Tejo, junto a Santarém, caiu o cavalo e levou o cavaleiro debaixo, deixando-o sem sentidos. Sem mais dar acordo de si, faleceu no dia seguinte. Ficaram assim desfeitos os sonhos ibéricos.

Depois da descoberta da América por Colombo, D. João II, «por crer que o dito descobrimento era feito dentro dos mares e termos do seu senhorio de Guiné», como diz Rui de Pina, ou ainda, como testemunha Barros, por «crer verdadeiramente que esta terra descoberta lhe pertencia, e assim lho davam a entender as pessoas do seu conselho, principalmente aquelas que eram oficiais deste mister da geografia, por a pouca distância que havia das ilhas Terceiras a estas que descobrira Colom», decidiu protestar, e reuniu conselho em Torres Vedras, onde se resolveu expedir sem demora uma forte armada contra as ilhas visitadas por Colombo.

Fernando e Isabel enviaram logo um mensageiro a pedir a D. João II que suspendesse a expedição e que mandasse a Castela embaixadores para se concertar o negócio como fosse de justiça. Partiu, efetivamente, a embaixada portuguesa; porém, os reis católicos dilataram a discussão, e entretanto o Papa Alexandre VI, que era espanhol, expediu a 4-5-1493 uma bula pela qual conferia aos reis castelhanos todas as terras, ou descobertas ou que viessem a descobrir-se situadas a ocidente do meridiano que passava a cem léguas das ilhas de Cabo Verde. D. João II não se conformou com essa distância de 100 léguas, embora ela lhe conferisse o caminho das Índias, a posse da África e o melhor da Ásia: exigiu a distância de 370 léguas, supondo-se que para ficar inclusa na sua parte a costa do Brasil. O acordo concluiu-se, depois de trocadas várias embaixadas, pelo tratado de Tordesilhas de 7-6-1494, como adiante mais demoradamente se explica.

Observador Romano (1º Capítulo)

A IGREJA NO BANCO DOS RÉUS

ZANGAS ECLESIAIS

Zangam‐se as comadres e sabem‐se as verdades. E, quando são os compadres – sacerdotes, bispos ou até cardeais – que se zangam?!

O sínodo extraordinário sobre a família já lá vai, mas ainda há muita poeira no ar. Muita gente ficou surpreendida ao ver bispos contra bispos, cardeais a contradizer cardeais e, até, o Papa Francisco a incentivar a discussão, convidando os padres sinodais a falarem com toda a espontaneidade e liberdade. Se, também nas famílias mais unidas, há fraternais divergências, por que se escandalizam?! Um pai de numerosa prole gostava de ver os filhos a lutarem entre si porque, dizia, era sinal de que estavam fortes e saudáveis!

Este exercício da colegialidade episcopal não é novo na história bimilenar do cristianismo. O papa governa a Igreja universal em união com todos os bispos: cada um, para além da responsabilidade directa sobre a parte do rebanho que lhe foi confiada, participa também na solicitude de Pedro por todas as igrejas. O exercício dessa colegialidade, que o Vaticano II promoveu, pode ocorrer por via dos concílios ecuménicos, com a presença de todos os bispos, ou dos sínodos, em que só participa uma representação do episcopado mundial. Quer o concílio, quer o sínodo, actuam sempre sob a autoridade do Papa (cfr. Código de Direito Canónico, cânones 749, 331‐334), que os convoca, preside e referenda as suas conclusões. Uma decisão conciliar, ou sinodal, mesmo unânime, não sancionada pelo vigário de Cristo, carece de qualquer valor normativo.

Na Igreja discute‐se... há dois mil anos! Com efeito, logo nos primeiros anos surgiram fortes controvérsias, nomeadamente em relação à questão das práticas judaicas, a que alguns fiéis, procedentes do judaísmo, queriam obrigar os gentios convertidos à fé em Cristo. «Tendo‐se suscitado uma grande discussão», foi necessário reunir, em Jerusalém, o primeiro concílio que, presidido por Pedro, contou com a sua presença, bem com a de Tiago, Paulo, Barnabé, outros «apóstolos e os presbíteros». Ao primeiro Papa coube por fim decidir, contra a facção dos judaizantes, não impor aos gentios convertidos a observância da lei de Moisés (cfr. Act 15, 6‐29).

Concluído o concílio de Jerusalém, Paulo propôs‐se realizar uma nova viagem apostólica com Barnabé, o qual queria levar com eles o evangelista Marcos, que os acompanhara no início da anterior missão, tendo‐os depois abandonado. Por este motivo, Paulo não o quis aceitar «e houve tal desacordo entre eles, que se separaram um do outro» (cfr. Act 16, 35‐40). Ou seja: um santo, Paulo, discutiu forte e feio com outro santo, Barnabé, por causa de um outro santo, Marcos! Todos santos e, contudo, não se entenderam sobre esta questão pastoral!

Aliás, em matéria dessa natureza, mas não doutrinal, também Pedro mereceu a correcção fraterna de Paulo, que publicamente lhe recriminou o facto de não comer com os gentios, com receio dos circuncisos (cfr. Gal 2, 11‐14). De facto, o papa, quando fala de fé ou de moral, invocando a sua máxima autoridade, é infalível, mas não goza dessa prerrogativa em questões de governo, como se prova pelo facto de Clemente XIV ter extinto, em 1773, a Companhia de Jesus que, em 1814, um seu sucessor, Pio VII, restaurou e a que, por sinal, pertence o actual Papa.

É salutar este exercício apaixonado do direito de opinião, porque a Igreja, que é hierárquica, é também, na comunhão da fé, um espaço de liberdade. Mas as compreensíveis divergências pastorais não podem afectar a essência da mensagem revelada, nem ferir a unidade eclesial. Como o Santo Padre recordou, qualquer sucessor de Pedro, «pondo de lado qualquer arbítrio pessoal», é «o garante da obediência e da conformidade da Igreja com a vontade de Deus, o Evangelho de Cristo e a Tradição da Igreja».

22/11/2014

Nós, os padres (1º capitulo)

 

PREFÁCIO

 D. António Couto

 

Com a chancela da Alêtheia Editores, que saudamos, sai agora para fora do confessionário, como verdadeira confissão, ou exposição, o rol da vida de 11 padres, desenrolado e exposto pelos próprios. Seriam sempre extraordinárias estas narrativas, pelo simples facto de as figuras que nelas se retratam serem padres católicos, que nos habituámos a ver como pessoas reservadas e discretas, longe dos holofotes, dos palcos e dos escaparates. Mas são ainda mais extraordinárias e relevantes estas onze narrativas, pelo facto de os padres que nelas se retratam terem optado pelo caminho do sacerdócio, por assim dizer numa 2.ª via, depois de terem trilhado outros rumos universitários, que lhes abririam portas sociais e profissionais bem diferentes. Portanto, estes onze padres, que aqui expõem a sua vida e as razões que a sustentam, vão contar‑nos a sua experiência, os caminhos que encetaram e prosseguiram, os passos que deram, e, sobretudo, o que os fez, ou foi fazendo, nas diferentes encruzilhadas que se lhes depararam, começar a ver a vida com olhos diferentes, com esquadrias diferentes. Será sobretudo interessante e surpreendente, de modo particular para quem tem a ideia feita de que os padres são cinzentos e monótonos, feitos de renúncias e sacrifícios vários, verificar que palpita nestes onze retratos, não apenas uma vida igual a tantas outras, mas também uma alegria nova, um amor novo, um grande abraço à vida. Sim, não são retratos de plástico, anódinos e asséticos. E sim, o que levou, ou Quem levou estes onze jovens (ou nem tanto) a deixar para trás um percurso já andado e cimentado, uma carreira já perspectivada, um modo de vida já experimentado, e a abraçar livros novos, páginas novas, portas novas, todas ainda por abrir e percorrer? Vê‑se bem que não foi por desgosto ou desamor, mas por um amor maior, por mais amor.

Também se vê bem que anda muito Deus metido nos caminhos quotidianos destas histórias quotidianas e encantadas, e que é, com certeza Ele, o primeiro responsável por estas reviravoltas e peripécias. Em boa verdade, sou dos que penso que poucas coisas nos é dado verdadadeiramente escolher. Sou cada vez mais levado a ver que o veio mais fundo e fecundo que vai urdindo a nossa identidade e unicidade – que é aquilo que só eu posso fazer, e ninguém pode fazer  em  vez  de  mim  –,  não  depende  de  nenhuma  das  nossas escolhas, pois vem de antes de nós, de antes de a nossa memória registar qualquer sinal, de antes de podermos avançar algum acto voluntário meritório, de antes do ventre materno, de antes de antes. Vem do «amor fontal» de Deus, nosso Pai. Nós não escolhemos Deus nem o Amor nem o Bem. Não escolhemos. Somos escolhidos. Deus entra‑nos pela casa adentro, sem bater à porta e sem pedir licença, e elege‑nos, sem previamente nos ouvir, marca‑nos com uma eleição que não prescreve nunca, confia‑nos uma missão que não podemos rescindir, entrega‑nos um Amor a que não nos podemos subtrair.

Penso que foi assim que foram sendo tecidas estas vidas e estas histórias agora dadas a ler. Dia‑a‑dia vivendo, saboreando e respondendo a Deus e ao próximo com um amor novo, uma liberdade dada, recebida e agradecida, uma responsabilidade bela e auroral. Amor, liberdade, responsabilidade que não puderam parar e de que não puderam fugir. Caiu‑lhes nas mãos e no coração a condição de uma impossibilidade a que não se puderam subtrair. Impossibilidade mais impossível do que sair da própria pele, dever imprescritível e irrecusável que amorosa, livre, responsável e traumaticamente para sempre os marcou.

É tempo de lhes dar, a eles, a palavra, e aos leitores, tempo para lerem as linhas e entrelinhas destas histórias, aparentemente iguais a tantas outras, mas com Deus sempre por perto, na sala de aula, no corredor, no café, em tantos encontros ou desencontros que quase sempre julgamos apenas ocasionais. Pouco a pouco vamo‑nos apercebendo de que, quase sempre, nada é mais profundo do aquilo que se passa à superfície. É aí que tantas vezes caímos nas fintas pedagógicas que Deus, ou alguém por Ele, nos faz. E é assim, finta após finta, que Ele vai urdindo as vidas que se dizem nestas histórias. Ou as histórias que se dizem nestas vidas. E que implicarão certamente também o leitor, que se aventurar por estas avenidas. Por mim, fico à espera dessas aventuras.

 

† D. António Couto

Bispo de Lamego




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