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INTRODUÇÃO

Buda não tem idade, tem a idade de todos os mundos. Os crentes aproximam­‑se com a piedade que podem e sabem. Buda a todos escuta e olha, mas o que é que acontece interiormente a cada um que se aproxima e reza, e pede? A história missionária é indiscutivelmente a da 

expansão do religioso, mas esta ao longo dos séculos foi alterando substancialmente a relação entre povos, linguagens e mundividências. Pode construir­‑se imagéticas, com maior ou menor intensidade, da «Cidade do Santo Nome de Deus» onde persiste a fachada da Igreja jesuíta de S. Paulo, pode­‑se atribuir um desígnio à «Roma do Oriente» sustentado pelo apostolado xavieriano, mas essa memória, que constrói a realidade, é sucessivamente recoberta por outras carregadas de vivências de homens e mulheres, de novos laços e vínculos, de felicidades e ressentimentos, de comércios e de guerras, de ansiedades e de esperanças.

A elaboração historiográfica transporta sempre subtilezas meritórias de uma consideração atenta. A história dos diversos continentes, a par das deslocações mais ou menos massivas de populações, são também cristalizações de território e de gentes que assumem uma identificação e uma legitimidade próprias. A expansão do Ocidente interveio, alterou e criou novas fronteiras de coexistência, de domínio e da formulação de novas geografias humanas e políticas. A realidade contemporânea é, em muitos aspetos, devedora deste processo, no qual as correntes cristãs encontraram o tempo de Confúcio, de Tao, de Buda e de muitos outros dizeres que alimentaram a própria depuração e as limitações de Jesus, como o Salvador. Uma longa história de encontros e de desencontros: povoada pela vida de muitos, mais jovens ou mais idosos, que inscreveram numa «história escondida» o mistério de uma aventura humana na qual se cruzam lutas, concorrências, rivalidades ao mesmo tempo que compaixão, doação e crenças profundas.

O Colégio Real de Cernache do Bonjardim pretendeu dar resposta à necessidade de formar missionários seculares nacionais capacitados para desenvolver uma ação diferenciada que, à época, era fornecida particularmente por Congregações religiosas. As vicissitudes da sua existência prendem­‑se com a complexidade do poder político e eclesiástico
dos séculos XVIII ao XX. A relação entre exercício de soberania e configuração religiosa foi um desiderato que manifestou os limites de tais intentos. Realidade que se tornou mais clara e gritante com as decisões internacionais, particularmente a partir da Conferência de Berlim (1884­‑1885), quando a liberdade de culto passou, entre outros aspetos, a tornar os espaços coloniais abertos a múltiplas influências e concorrências, com destaque para os novos espaços imperiais em África. Apesar da congénita sobreposição, e até identificação, entre missão religiosa e missão civilizadora, paulatinamente tornaram­‑se de forma operativa duas instâncias onde a concorrência das várias correntes cristãs se disputaram e se digladiaram proficuamente no seio da afirmação e constituição dos impérios das potências europeias. Este confronto decorre em particular do entendimento sobre o que se entende por esfera do religioso, certamente compreendido como integrando o civilizacional, nem tão pouco  assume na prática os mesmos contornos no que implicava o desempenho da soberania colonial

Contudo, é exatamente em face desta problemática que se torna cautelar atender à ambiguidade do estudo e ao julgamento historiográfico destas duas dimensões: o religioso e o civilizacional, onde ambas se autojustificavam mas também se faziam concorrência sobre os limites de legitimidade de atuação, não só entre potências mas, no caso específico do catolicismo, entre os interesses e as autoridades eclesiásticas.

A corrente laicizadora, marca de dirigentes políticos, e no caso português de forma notória, confrontou­‑se com a insuficiência de meios e de recursos para a ação de consolidação territorial. As missões católicas são encaradas como necessárias, mas surge a partir do Estado a tentativa de dar corpo a um outro tipo de «missão civilizadora» direcionada
aos espaços coloniais. Porém, no que respeita o caso português, o modelo civilizador pressupunha a deslocação de agregados familiares para a realização dessa ação de definição de soberania, centrada no ensino, na assistência e no incremento da agricultura, assemelhando­‑se de certo
modo à missionação protestante. Tinha a vários títulos os seus limites, nomeadamente retraía o dispêndio numa atividade atribuída e reivindicada tradicionalmente pelo regime do Padroado português. E os diversos governos republicanos efetivamente nunca pretenderam dar outro espaço às missões evangélicas mesmo aquele que a lei internacional exigia.

Neste contexto, quando a ação laicizadora da Primeira República pretendeu transformar o Colégio de Cernache numa instituição de formação de agentes colonizadores veio provocar uma destrinça entre o contributo do religioso institucional (católico) e aquele do Estado que pretendiam exercer um poder sobre as populações num período e num contexto de grande incerteza desse acatamento por parte das mesmas.

Pode­‑se considerar ter­‑se tratado de um processo de grande ambiguidade, já que na aparência quando tudo voltou progressivamente a ser «como antes», no respeitante ao Colégio de Cernache na formação de clero secular para as colónias, e até mais consolidada com a constituição canonicamente ereta da Sociedade Missionária Portuguesa, ganhando novo fôlego no contexto do Acordo Missionário de 1940, a missionação como evangelização começava a ter outras exigências que era, sobre todas, o da constituição paulatina de comunidades cristãs distintas daquelas associadas às lógicas dos poderes soberanos coloniais.

O trabalho agora apresentado pelo Doutor Amadeu Gomes de Araújo,
longamente acalentado pelo seu estudo e pela sua reflexão, conta­‑nos os méritos e os atropelos epocais de um fratura que se tornará evidente mas que, na época, foi mais um acontecimento entre as ambiguidades e as limitações de uma laicização institucional que querendo trazer para o plano civil algo que lhe pertencia tinha estado e ainda estava associado ao domínio da moralização religiosa, isto é, «portugalizar as populações locais», verificou ser uma tarefa difícil desligada do concurso do catolicismo.

A história dos espaços coloniais e das missões demonstra que este processo desencadeou outras virtualidades, tendo contribuído para a evolução das conceções de missiologia, nomeadamente expressas pelo pensamento pontifício coevo, e para a compreensão entre os Estados e as Igrejas no período pós­‑colonial.

O problema das «missões laicas» não foi um simples mimetismo do que também ocorrera em França e sem sucesso idêntico, também não foi só a vontade de apropriação de uma instituição eclesiástica por parte de um poder anticlerical, este processo apresentado neste trabalho transportava através do conflito e de compromissos, questões de destrinça entre evangelização e poder político, cuja pertinência se tornará evidente nas décadas seguintes com destaque para o pós Segunda Guerra
Mundial e dos vários processos de descolonização, particularmente onde o catolicismo teve um determinado protagonismo.

 

António Matos Ferreira (CEHR ­‑ UCP) 

Lisboa – Porto, 17 de Junho de 2014

Escrito por Hugo Neves — July 15, 2015

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