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Uma nova oportunidade

 

Drogas, furtos, delinquência, criminalidade. Uma vida dura e de grande sofrimento acompanhou-me durante alguns anos. Sem sonhos, sem objectivos, sem regras. À procura de uma liberdade não sei bem de quê nem de quem. Uma vida de miséria, com enormes dificuldades e de uma pobreza extrema. O sinónimo de tudo aquilo que um pai não deseja para um filho.

Não tive uma infância feliz. Fui menino de rua com apenas nove anos de idade e estive metido em vários tipos de delinquência. Na minha opinião, ninguém nasce rebelde. Com o tempo, começamos a descobrir-nos, a achar que queremos tudo, a querer liberdade e a não ouvir os conselhos que nos dão. Foi o que me aconteceu. Vim para Portugal aos dois anos com a minha mãe e os meus irmãos. Fomos viver para o Bairro da Cova da Moura, onde cresci e vivo até hoje.

Quando decidi sair de casa, juntei-me a um grupo de miúdos, os chamados «bandos» e espalhávamos o terror. Não ia à escola, faltava às aulas e andava pelas ruas de Lisboa com os meus amigos. Comecei a snifar cola muito cedo, experimentei todo o tipo de drogas e até começar a roubar foi um pequeno passo, desde fios às senhoras que passavam na rua, a puxar malas e carteiras até furtos mais elaborados, sem me preocupar com o que os outros sentiam ou se estava a fazê-los sofrer. A droga não nos permite ter esse discernimento. Vivia numa outra realidade que não sendo propriamente a mais correcta e adequada para um miúdo da minha idade, era aquela que tinha escolhido.

Não fui um exemplo para os meus pais embora os tivesse sempre como referência. Arranjava dinheiro para ajudar em casa e colocava-o na carteira da minha mãe mas ela recusava-o sempre mesmo sem ter como pôr o pão na mesa. Dizia-me que aquele dinheiro era fruto de uma vida de asneira e devolvia-o. Vivíamos numa pobreza extrema, o que me fazia imensa confusão. Revoltava-me o facto de os meus pais se matarem a trabalhar e o dinheiro não chegar.

Os meus irmãos não se metiam em confusões e tentavam colocar-me no caminho do Bem ainda que me batessem, o que eu não aceitava e não conseguia compreender. Depois de uma infância e início de juventude passada a experimentar tudo o que se possa imaginar e a cometer actos delinquentes (sobretudo furtos pois nunca estive envolvido em crimes de sangue), acabei por ser preso.

E aqui continuou a espiral do meu sofrimento pois era uma pessoa muito revoltada e continuei a consumir droga na prisão. Passei por várias prisões do país durante uma pena de dez anos que foi sendo aumentada por não respeitar a liberdade condicional que me era concedida. Era um ciclo vicioso. Ainda assim, considero que a minha pena foi desajustada em comparação com a de outros reclusos que cometerem crimes mais violentos e graves do que os meus mas tinham bons advogados para os defender.

 

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Escrito por Afonso Reis Cabral — September 25, 2014

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