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Alêtheia Editores

Numa manhã do final de Outubro, Rodrigo saiu do mar, leve, leve, rumo ao chuveiro. Sentia ainda no corpo o sal e o sol. 

Um velho calção de banho/um dia pra vadiar/um mar que não tem tamanho/um arco íris no ar [1].

A cozinheira Hildinha, com a sua bata de acarajé e touca na cabeça [2], já lhe oferecia o canecão de água de coco, estupidamente gelada. Dois macacos minúsculos guinchavam na sebe florida, chilrreavam passarinhos de muitas cores, as palmeiras de tronco magro e meia branca balançavam sem pressa. 

Nada ali convidava ao stress. Coisa alguma era inadiável. 

 Eram seis da manhã. Daí a minutos poderia caminhar para sul ou ir rumo à serra. Tinha à frente de casa todo o mar. Atrás, o cotovelo de um riacho, a rodovia de asfalto e o longo terreno entre uma coisa e outra.

Vida simples, jogo aprazível, escolhas fáceis.

Nesse dia, antes de se pôr a trote na praia, quisera saber o que diziam os jornais de Lisboa.

 Ali, a muitos quilómetros do centro da cidade, na mata atlântica do século XXI, bastou-lhe ligar uma pequena caixa, pegar no IPAD da mulher e, zás! 

O espanto caíu-lhe aos pés. Um toque casual na app de correio alheio e brilhara no pequeno ecrã uma espécie de colecção de bilhetes íntimos, alguns ilustrados. Na parte final, versos batidos, mas fortes e uma foto[3]. A imagem daquele corpo de mulher era-lhe familiar.

Ficou surpreendido por não se sentir Otelo. Apenas boquiaberto, como alguém que devendo prever o que via agora, tivesse falhado. Lendo e relendo, estava dividido. 

 

 

Epístolas digitais

 

A epistolografia digital em causa era a seguinte: 

 

-----Original Message-----

From: Marinamoreno

[mailto:marinamoreno1948@gmail.com] 

Sent: 18 de Julho de 2012 21:59

To: Clarice Petit

Subject: S. Clara e...outras estórias

 

Minha Querida,

Sinto-me abençoada por tudo o que está a suceder, mesmo nos dias menos bons. Estou viva, com saúde, sinto vontade de fazer coisas e tive este maravilhoso presente do nosso reencontro. E que reencontro! Só pode ser um arranjo dos ceús!

Tenho pena de constatar que o meu querido Rodrigo, de quem eu gosto tanto, não aguenta (por enquanto...) este cenário. Mas cada um de nós tem o seu processo de desenvolvimento pessoal. Portanto, está tudo certo.

Clarice, eu preciso de ir a S. Paulo com alguma urgência. Tenho terrenos para comercializar e não posso, nem quero, delegar em ninguém.

Como sabes, o Rodrigo quer viajar e não revela para onde, porquê, nem para quê. Paciência! Eu vou ficar aqui, inicialmente, sem um puto de real. Não adoro fazer isto, mas se não for difícil para ti, vou pedir- te que me emprestes uma graninha. Não tem nada a ver com a casa-mãe da Fazenda, que passarás a utilizar ,tem só a ver com o estado de penúria em que me acho.

Eu sei que assim que o R. sair, eu começo a mexer com outra energia. Só preciso do arranque, que, aliás, já estou a dar. 

Tu és a máior (esta é a versão à moda do Porto, para ser lida com a respectiva pronúncia),

Logo que possas, vamos skypar. Bjs enooooooormes.

MM

 

 

From: Clarice Petit

[mailto:cpetit@claricepetit.com] 

Sent: domingo, 19 de Julho  14:32

To: Marina Moreno

Subject: Nossas coisas

  
Ói, minha querida, 

Respondo-te a tudo [vai a seguir às tuas palavras, para simplificar a prosa e poupar-te tempo].

MM: Eu quero lá rendas de uma amiga kármica, que me aparece como um anjo! Era preciso ser muito besta! 

CP: Sei bem que és assim, cheia de generosidade. Mas sabes como é…Até para me sentir a retribuir essa energia de doação e generosidade tua, sabe-me bem poder pagar,pouco que seja.

MM: E, ainda por cima, vou ficar com um stock de compotas boas, que eu sei!

CP: Lá isso vais, eu sou doidinha pela alquimia da           doçura…

MM: Nunca pensei arrendar a casa e sabes que, do fundo do meu coração, adoro que lá estejas.

CP: Sei que sim, vamos desfrutar o melhor de lá estar, coisa que na verdade ainda deves ter curtido bem pouco, não Marina?

MM: Vamos rir juntas, andar para a frente, não temos medo do medo e aconselhamo-nos uma à outra.

CP: Assim espero mesmo. Os homens são o que são. Não tem a ver com o amor que lhes temos, mas que são fraquinhos....isso lá são. São fraquinhos e para eles tudo vira um monstro de sete cabeças…

Suspiram eternamente por ter  a mãe que não tiveram. Pior ainda quando nos querem fazer de mães… :-(

MM: Quanto à grana, diz-me sinceramente ( peço-te, para sempre, que tudo entre nós seja sincero, mesmo qd não for o que a outra quer ouvir): oito mil reais está na tua disponibilidade? Explico porquê. Tenho encargos mensais de 2 000,00 reais.  Os restantes seriam para me virar e ir a Sampa, fazer negócio.

CP: Pode sim ser 5 mil, querida… O meu $$ vai ficar «parado» até ao fim do ano. Não faz mesmo diferença estar contigo ou parado. Relaxa. 

Quanto ao Rodrigo não aguentar...até nisso estamos a viver algo parecido. O meu Zé ficou em Lisboa, porque não consegue, segundo ele, «adaptar-se « à vida na Mata. Veremos se isso é definitivo ou se, quando chegar o Inverno europeu, os medos lhe passam e voa para cá!

Estou doida para me sentar contigo, calmamente no «nosso» deck e blá blá blá sobre tudo e coisa nenhuma, mas sobretudo dos teus passos para «sair da crise» :-). 

Francamente, eu acho-te uma leoa, uma deusa de coragem e vida. Quando a veia nos «sobe» é que eu percebo o quanto somos fortes e capazes e lutadoras...                        E também o quanto os «nossos homens» acabam sendo...fracos (poderei atrever-me a dizer assim?!!!). 

Um doce abracinho no teu coração!

Clarice 

 


From: Clarice Petit

[mailto:cpetit@claricepetit.com] 

Sent: domingo, 19 de Julho  16:52

To: Marina Moreno

Subject: Bilhete

 

Linda,

Lembrei-me agora.O bilhete sai-te mais caro se o comprares no aeroporto do que online… A sério, sai mesmo, já tenho experiências. 

Esse maridaço superinformático bem que te podia dar uma mãozinha… Quanto aos reais, irei amanhã ao banco e faço transferência directa para a tua conta do Banco do Brasil. 

Agradeço de novo esses olhos lindos que depositas sobre mim, mesmo com o sotaque do Porto

Te abraço e agradeço por seres quem és…

Clarice 

 

 

[1] «Tarde em Itapoã», de Vinicius de Moraes e Toquinho».
[2] Vestuário típico de baiana vendedora de comidas tradicionais do Estado da Bahia.
[3]  Ao meio, bem no meio, que invade/Cabeças de Platão, Descartes/Azul da atmosfera, e de Marte/Na porta do seu corpo, estandarte /No topo de um vulcão, um enfarte.

A libido está em toda/ A libido está em tudo/A libido está em toda parte- Letra da canção «Libido».

Escrito por Hugo Neves — December 01, 2014

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