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INTRODUÇÃO

A Antiguidade Tardia caracteriza­‑se pelo aumento das deslocações ao Oriente. A Ásia Menor, a Síria, o Egipto e a Palestina exerciam gran­de fascínio sobre os povos latinos empobrecidos ou arruinados pela política imperial; a capital do Império é transferida de Roma para Cons­tantinopla, e o Oriente vê aumentar a sua influência sobre o Ocidente. É neste contexto de alterações políticas, trocas comerciais, iniciações artís­ticas e intensa comunicação intelectual que surgem, de forma acentuada, as peregrinações. Conhecem­‑se inúmeras viagens de visitantes que, ani­mados de motivação religiosa, demandavam os locais que a tradição definia como santos – deslocavam­‑se especialmente para a Palestina. São estes peregrinos que, no século IV, marcam o início da verdadeira histó­ria das peregrinações e testemunham o progressivo mas incisivo enrai­zamento do Cristianismo. 

Afluem à Terra Santa peregrinos vindos de zonas
remotas, quer do Ocidente – da Hispânia, de França, de Itália, do norte de África –, quer ainda de regiões a oriente do império: a Pérsia, a Arménia, a Geórgia ... 

Díspares quanto à naturalidade, eram­‑no também pela intensidade da sua devoção e pelo estatuto que ocupavam socialmente no seu país. A grande maioria eram monges, mas também clérigos (especialmente bis­pos) que procuravam com a viagem prestar testemunho da sua devoção e enriquecer espiritualmente pelo contacto tangível com os vestígios da sua fé; homens e mulheres que acediam a suportar as dificuldades que um percurso mais ou menos extenso representava numa época de profundas transformações. Como disse S. Jerónimo: Vox quidem dissone sed una religio (Epist., 46, 10).

De entre este grupo destacamos as mulheres, particularmente as de alta sociedade, que em número significativo empreenderam peregrina­ções ao Oriente, no final do século IV – com efeito o ano 326 marca o momento de grande impulsão do fenómeno das peregrinações, princi­palmente iniciadas no Ocidente, com a manifestação oficial da piedade da imperatriz Santa Helena. Conhecem­‑se várias damas: Melânia­‑a­‑Velha (em 373), viúva de um prefeito de Roma; Paula, de uma nobre e antiga família romana, e Eustóquio (em 385); Poeménia, parente de Teodósio (em 390); a patrícia Fabíola (em 394­‑395); a viúva e a filha de Rufino (em 396); ... e Egéria.

A monja fez a sua viagem ad loca sancta em 381­‑384, mas teve a particularidade de nos deixar o relato detalhado das suas impressões (e também uma descrição pormenorizada da liturgia de Jerusalém), registo que apesar de incompleto chegou até nós. É aliás o segundo testemunho escrito de uma peregrinação ao Oriente (a primeira é de um peregrino de Bordéus que fez a sua viagem cerca de 50 anos antes) e o primeiro que se conhece redigido por uma mulher. 

As viagens na época implicavam dificuldades acrescidas, pela pouca comodidade, pela insegurança, pela lentidão dos meios de transporte – de tal forma que Gregório de Nissa () nos revela que «Uma mulher não pode empreender uma viagem tão longa sem ter com ela alguém para a proteger; a debilidade natural do seu sexo exige que a ajudem a subir para a sua montada, que a ajudem a descer. É preciso necessariamente que a amparem nos percursos difíceis. Quer se trate de um amigo ou de um mercenário que lhe preste os seus serviços, ela não conseguirá evitar a censura; e se se entregar ao estrangeiro ou ao servidor, ela violará as leis de castidade». Egéria, porém, não se deixou demover.

O Itinerarium Egeriae é, pois, um texto único. Único pela forma como nos elucida relativamente a aspectos culturais e sociais da época; único pela maneira como nos dá a conhecer as práticas rituais de uma igreja que estenderá a sua influência a toda a Cristandade; e único, tam­bém, pelo que nos revela da personalidade singular que intenta transmitir as suas experiências a outras mulheres para quem endossa a sua relação de viagem. 

Considerada por muitos como originária da província Galécia, que à data compreendia o conuentus de Bracara e tinha esta cidade como capi­tal de província, Egéria recorre a usos linguísticos que se podem entender como particularidades da região noroeste da Península e socorre­‑se de um estilo, condicionado pela vontade de transmitir tudo o que vê e encontra, que acusa uma tendência para a espontaneidade e é hoje consi­derado um dos testemunhos mais importantes do latim vulgar. 

Esta monja, que se auto­‑define como satis curiosa, surge­‑nos ainda tão mais singular se recordarmos, como curiosidade, que as peregrina­ções de mulheres famosas portuguesas, não necessariamente monjas, remontam, que se saiba, ao final do século XI, com as viagens de D. San­cha, filha de D. Urraca, «a qual amando a virgindade nunca quis casar. E foyse a Iherusalem em romaria» (P.M.H., Scriptores, t. 1, p. 25), cidade onde serviu os pobres no hospital do templo durante oito anos.

O texto do Itinerarium depende de um único manuscrito da tradição, o Aretinus 405, descoberto nos finais do séc. XIX. Embora sejam respeitáveis as várias edições vindas a público, não têm sido pequenas as hesitações dos diferentes editores. Pelas razões enunciadas em lugar apropriado, a edição que agora damos a público beneficia de recuperação de algumas lições feita pelo Prof. Aires A. Nascimento, que orientou a nossa própria investigação (as edições mais respeitáveis são indicadas na bibliografia). A tradução procura estar atenta ao registo discursivo egeriano e respeitá­‑lo.

Escrito por Hugo Neves — March 09, 2015

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